O País – A verdade como notícia

Wanda Baloyi: “A música é uma voz que fala para todos”

A cantora sul-africana está em Moçambique à procura das suas raízes. Com quatro álbuns a solo, Wanda Baloyi lançou-se no desafio de aprofundar a viagem pela sua própria identidade através da música. A cantora guitonga que fala zulu, em Maputo desde ano passado, tem feito colaborações com músicos moçambicanos com a pretensão de aperfeiçoar a diversidade rítmica e cultural da sua criatividade. Nesta entrevista, a autora de Voices ou Love & Life fala do que a música significa para si e não se esquece de alguns perigos causados pelos contrastes da fama.

 

Com o seu primeiro álbum, Voices, inaugura um percurso de dar voz ao que tanta gente precisa ouvir. Como tem sido essa missão?

A música é minha vida. Eu cresci num ambiente musical. O meu pai é cantor e, na família dele, temos outros cantores: o tio Dua… A música, para mim, é vida, e eu não consigo fazer mais nada. Eu tenho a oportunidade de fazer muitos tipos de música: jazz, fusion, house music, soul music e etc. Tenho essa oportunidade de trabalhar com várias pessoas.

 

Oiço os seus álbuns e noto que a Wanda é muito interessada em cantar a palavra e em usá-la para homenagear algumas figuras que fazem parte do seu quotidiano. Essas personagens invocadas, pai e mãe, por exemplo, são exclusivamente representações das pessoas ligadas a si?

Canto as músicas a pensar na minha história e em tudo o que aconteceu com a minha mãe, mas também, o sentido das músicas pode dizer respeito a outras pessoas. Antes, eu nunca tinha tido oportunidade de cantar com o meu pai. Então, quando eu pensei em escrever uma música para ele, conclui que seria interessante fazermos uma colaboração, já que ele também canta. Para mim, é um sonho poder colaborar com o meu pai, mas eu não sabia como fazer. Quando decidi avançar com essa música, “Papa”, pensei, cá para mim, por que não?

 

Escreveram juntos?

Sim. Trabalhamos juntos em Cape Town, na altura em que eu ainda estava lá. Falei com o meu pai e disse-lhe que tinha uma música dedicada a ele e que gostaria que também cantasse, dizendo o que acha de mim, como filha, da mesma forma que eu o faço em relação a ele, como pai.

 

Nessa música, o seu pai, Jaco Maria, diz que a Wanda, como cantora, é fantástica e que é um privilégio poder cantar consigo. Algo parecido.

É verdade. Isso é uma coisa que vou levar para vida, uma boa lembrança da relação que eu tenho com o meu pai. A música nunca morre. As pessoas morrem, mas a música fica. Então, sinto que já fiz a minha parte.

 

O que a música lhe dá e o que retira?

A música ajuda-nos. Por exemplo, agora estamos diante de uma situação de COVID e não devemos sair de casa e nem sequer fazer shows. A única coisa que as pessoas conseguem receber é a música. A música pode nos salvar e explicar diferentes situações do mundo. Nós podemos ter lockdown, mas a música não. Portanto, a música, para mim, é vida. Respondendo à sua pergunta, a música é grande parte de mim e não é uma coisa que eu escolhi. A música escolheu-me. Então, a música exige de nós um grande investimento. Grande parte de nós tem de estar nela. Deus dá-nos o talento. Depois, devemos investir, trabalha-lo. A parte criativa da música é tão exigente quanto a sua responsabilidade. Eu não me posso sentir bem sem tirar as vozes que transporto dentro de mim.

 

Voices é um álbum com uma dezena de músicas. O que significou este trabalho para si, quando o lançou?

Trabalhei com Jimmy Dludlu no meu primeiro álbum. Eu era ainda muito nova e as pessoas da minha idade faziam pop music ou para jovens. Eu estava lá no fundo do jazz. Então algumas pessoas não perceberam o que se estava ali a passar no meu álbum. Mas, porque eu cresci, em casa, ouvindo esse tipo de música, o jazz ficou dentro de mim. Quando chegou a vez de decidir com quem eu queria trabalhar na composição e na produção das músicas, o tio Jimmy sempre foi a primeira pessoa porque eu gosto das músicas dele, da sua arte e eu logo acreditei que ele poderia dar uma boa ajuda no meu álbum. Para mim, Voices foi a chave para que eu pudesse chegar ao mercado musical e fazer com que as pessoas escutassem a minha voz. Voices abriu-me as portas.

 

E como descreve os álbuns que se seguiram ao Voices: So amazing, Colours ou Love & Life?

Voices é o primeiro bebé, e ninguém se esquece de onde começou. Eu sou uma artista e cantora que gosta de fazer diferentes tipos de música. Então, Voices não é a mesma coisa com So amazing ou Love & Life. E eu também gosto de trabalhar com diferentes produtores, porque acho que o meu talento não se resume apenas a um estilo musical. Por isso, agora, também faço house music. Então, Voices, So amazing, Colours ou Love & Life são todos álbuns diferentes.

 

Como é para si captar diferentes aspectos e elementos da vida e sintetiza-los em três ou quatro minutos de música?

Tudo depende do tópico no momento da composição, mas eu gosto de cantar coisas que estão a acontecer comigo. Eu sou uma pessoa de amor, então sempre falo disso. Segundo, cantar é uma forma de desabafar e de estar bem na vida. A música ajuda-nos a exprimir alegria, tristeza e tudo o que sentimos. Por isso, quando vem de dentro, conseguimos chorar e fazer as pessoas chorarem também. A música é uma voz que fala para todos. É a maior voz do mundo. Quando a pessoa pensa na religião ou na política, sempre precisa de música. Quando o povo se reúne, a primeira coisa que quer é cantar. Na igreja, quando entramos, canta-se, antes mesmo do pastor falar. A música é poderosa.

 

Quando está a compor, imagino que mergulha de forma profunda nas suas emoções…

Sim, porque, de contrário, as pessoas não vão acreditar no que estamos a cantar. A música deve sair de dentro de nós, para que seja autêntica. A primeira coisa que penso, quando estou a escutar, por exemplo, piano, é o que eu sinto naquele momento. Isso conduz-me a uma certa direcção.

 

Como é levar música a um mercado tão competitivo quanto o sul-africano?

Por ter começado lá, para mim não foi muito difícil. Entretanto, agora, a coisa é outra, porque já há mais oferta em termos musicais. Há muita gente a fazer música bonita na África do Sul. É mais complicado fazer música agora do que quando comecei a cantar. Actualmente, artistas lançam músicas todos os dias. A Internet está cheia de ofertas e ninguém mais compra discos físicos. Agora temos de produzir constantemente, se não as pessoas esquecem-nos. Mesmo estando a fazer música há muitos anos como eu, as pessoas sempre exigem mais.

 

Dos seus quatro álbuns, qual teve melhor recepção?

Foram Voices e Love & Life. Na verdade, Love & Life teve uma recepção mais especial. Por isso ganhamos alguns prémios.

 

A Wanda é reivindicada, quer pelos sul-africanos, quer pelos moçambicanos. Isso também é especial?

Sim, é. Eu acredito que, como africanos, é importante abrirmos as portas e oportunidades de trabalharmos juntos. Eu estou em Moçambique não só para conhecer a terra dos meus pais, mas também para fazer música. Infelizmente, não temos muitos artistas nos dois países a fazerem colaboração, e nós somos vizinhos. Aqui em Moçambique tocam muita música sul-africana nas rádios. Mas na África do Sul nunca ouvimos. Nada. Eu nunca escutei. Então pensei cá para mim, por que não trazer os músicos sul-africanos para cá virem fazer colaborações, conhecerem o povo, a terra e entrarem nos estúdios? E não é que eles não querem, não conhecem Moçambique. Temos uma oportunidade de mudar as coisas, e uma das maneiras disso acontecer é trazendo os músicos sul-africanos e com eles gravar, na expectativa de que ao voltarem a África do Sul possam tocar as músicas cá gravadas.

 

É muito atraída por esta ideia de cantar em várias línguas: inglês, português, zulu e etc. Porquê?

Gosto muito de brincar com as línguas porque nos conectam com diferentes culturas, para além de que, na música, eu não preciso falar para cantar.

 

E o que a faz escolher cantar numa e não noutra língua?

Eu sinto falta de alguma coisa… Então, tenho estado à procura de quem eu sou, de onde eu venho e por aí fora. Quando eu não consigo falar uma determinada língua que me interessa, sinto-me tentada a recorrer à música, nem que seja necessário inserir apenas certas palavras nas composições. Por exemplo, num dos álbuns cantei muito em zulu, que é uma das línguas que falo, mas eu não sou zulu…

 

Já agora, como é que se define do ponto de vista étnico?

Eu sou guitonga. Não falo a língua, mas penso em mim como guitonga. Então, gosto da ideia de colocar nas músicas um pouco das línguas que são faladas cá, de modo que se sinta qualquer coisa de Moçambique. Eu não quero me prender a uma fronteira e quero oferecer um som diferente.

 

Espera um dia ter a resposta a esta pergunta: “quem é sou?”.

Eu coloco-me sempre essa pergunta. Pode ser fácil perceber quem eu sou, mas não é fácil responder.

 

Quem quer continuar a ser?

Nós queremos ser mais livres, mais pacíficos. Quando era mais jovem, eu queria muitas coisas. Agora quero qualquer coisa que me dá paz. Quem eu sou? Eu sou africana, cantora, filha, irmã e uma mulher resiliente. Eu luto pelas coisas e para continuar com tudo o que acho bom. O que não funciona, deixo de lado. Eu quero que, um dia, se as pessoas tiverem de falar de mim, digam que fui uma mulher com força, que acreditei na minha criatividade e no meu talento. Qualquer oportunidade que Deus me der de continuar a fazer o que eu gosto, vou continuar. A coisa mais importante não é o que estamos a fazer, mas como é que nós fizemos as pessoas sentirem… Tudo o que temos a fazer no mundo tem de ser bom e tem de deixar as pessoas alegres. Assim, no dia que deixarmos de fazer parte do mundo, as pessoas vão-se lembrar de que a nossa música as fez sentir alguma coisa neste percurso.

A música é mais um princípio ou é mais um fim, para si?

As duas coisas. Princípio e fim. Eu começo com música. A minha vida é tudo música: respiro, como e quando eu já não estiver no mundo, o que vai ficar será a minha música.

 

O que lhe falta cantar?

Não sei. Mas acho que já tentei tudo o que mais me interessa.

 

Ainda é Queen Choco?

Sim, com certeza.

 

Qual é a história deste pseudónimo?

Eu cresci numa zona de Joanesburgo cheia de artistas. Eu comecei a minha paixão pela música nessa zona. Porque eu sou escura, chamavam-me de Chocolate. Esse nome ficou comigo. Eu sempre gostei de house music, embora não soubesse como faria. Eu tinha começado a trabalhar com muitos DJ. Não querendo confusionar os fãs que conhecem a Wanda como cantora de jazz, soul, pensei em Queen Choco como alternativa. E assim ficou o nome. Meti-me numa escola e aprendi a ser DJ.

 

Então aprende-se a ser DJ numa escola?

Sim, existem escolas para isso. Há uma ciência para se saber como misturar. Essa é a parte mais importante da actividade do DJ. O segredo é sempre misturar sem que a pessoa que está a ouvir perceba que estamos a mudar de música. Tudo tem de parecer a mesma música, o que exige coerência na selecção. É complicado, mas com prática, tudo fica mais simples.

 

Consegue definir à vontade quando deve ser Wanda e quando deve assumir a face de Queen Choco?

Essa é a parte mais difícil. A Wanda leva-me muito tempo e é mais intensa. Leva meses no estúdio, a gravar e tem muito trabalho. Com Choco é mais fácil, mesmo quando tenho de cantar. E aqui a colocação vocal é diferente.

 

Ter público a seguir-nos no palco e longe do palco deve mexer connosco. No seu caso, de que forma isso acontece?

Esta coisa de ser artista ou figura pública é interessante. O número das pessoas que nos seguem não é proporcional ao número dos que estão na nossa vida. Muitas vezes, temos muitos seguidores nos espectáculos e nos Instagram. Mas, quando voltamos a casa, estamos sozinhas. Às vezes o telemóvel nem toca. Contraste. A vida de artista é solitária e complexa. Isso pode complicar a nossa cabeça. Por isso, devemos estar calmos e voltarmos a nós todos os dias para conseguirmos voltar a nossa vida.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro a música de Matchume Zango, que oiçam DJ Ardiles, DJ Dilson, Amanda Black e Big Zulu.

 

PERFIL

Wanda Baloyi pertence a uma família de músicos, e pode ser descrita como uma cantora de ‘cocktail africana’ e neo-soul, com interesse multilinguístico: inglês, português, zulu, changana e guitonga. Lançou seu primeiro álbum, Voices, pela Universal Music, e ganhou o Melhor Arranjo Africano no Kora Awards, duas indicações SAMA e uma indicação ao Channel O Music Video Award. Seu segundo álbum, So Amazing, foi seguido por Colours, em 2009, e Love & Life, que ganhou seu prémio de Best Urban Jazz no Metro Fm Music Awards 2015, produzido pelo estimado e premiado artista Kabomo. Até o momento, Wanda Baloyi já se apresentou em vários festivais internacionais e fez turnês pela África do Sul para promover o projecto Love & Life, que mereceu um remix internacional para uma de suas canções intitulada “Kisses”, remixado por Louie Vega.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos