O País – A verdade como notícia

Viagem pela ‘minha pátria’, o património das comunidades*

A minha pátria é a língua portuguesa

Fernando Pessoa.

 

Bom dia a todos!

Antes de me aventurar pelos artifícios da palavra, começo esta intervenção com um agradecimento prévio: à professora Paula Cruz e à Universidade Pedagógica de Maputo, afinal depositaram em mim mérito que almejo alcançar. É um enorme privilégio estar aqui, romper fronteiras da impossibilidade para, em harmonia, celebrarmos parte das nossas conquistas comuns, do que somos e do que nos representa. Ainda assim, receio frustrar expectativas. Ao invés de uma comunicação digna de um estudante de letras, de educação ou ensino de português, nos próximos 15 minutos irei apresentar uma reflexão apenas à altura de um aspirante, quiçá no intervalo entre o conhecimento e a ignorância. Portanto, não trago o resultado de um estudo científico baseado em análise de dados, inquéritos ou métodos quantitativos. Longe disso, antes preferi partilhar convosco uma certa percepção sobre o que realmente nos une, a nós, integrantes desta comunidade intercontinental, chamada CPLP.

Encerrado o intróito, neste simbólico dia 5 de Maio, penso na língua portuguesa como um lugar de pertença e de partilha, uma ponte de afectos que aproxima as nossas singularidades ou, se preferirmos, as nossas multiplicidades. A isso Samora chamou ‘língua de unidade nacional’ e o primeiro presidente moçambicano utilizou-a para construir num território uma nação africana. Desde esse episódio, e até muito antes, a língua portuguesa está enraizada na nossa cultura, ora transformando-se, ora transformando-nos também. Veio de longe, numa longa viagem pelo espaço-líquido. E, quando chegou ao continente, encontrou uma terra arável e germinou. Coube-nos a nós regá-la até vermos as primeiras vagens brotar; coube-nos a nós assumi-la e usá-la como instrumento da emancipação intelectual e, depois, da liberdade. Uma língua assim não se pode resumir apenas ao adjectivo ‘oficial’, pois, nas suas especificidades, aglutina contextos históricos sempre plurais. Esta língua viu Portugal nascer e libertar-se, acompanhou Brasil ao Grito de Ipiranga, uniu a mais audaz geração de africanos dos PALOP e hoje somos todos parte desses movimentos cronológicos que adicionam ao tempo sentidos particulares de co-existência colectiva.

Não há dúvidas de que o português nos posiciona no mapa mundo, ao contrário das línguas bantu faladas em Moçambique, infelizmente. Aliás, na impossibilidade de termos línguas bantu nacionais, é a oficial a principal ligação possível entre os moçambicanos de todas as regiões. Ou deveria ser. Afinal, num universo de 28 milhões de habitantes, pouco mais de 10 milhões falam a língua portuguesa. Muito pouco para um país que encontra no ensino o mais importante factor de desenvolvimento social e de verdadeira unidade nacional.

A diferença existente entre a densidade populacional e o número de fluentes na língua de ensino no país lembra-me um episódio. Em 2007, terminei o curso de formação de professores, no Instituto do Magistério Primário de Chibututuine, na Manhiça, Província de Maputo. Uns meses depois de me formar, tive a oportunidade de escolher a província onde gostaria de leccionar. Optei por Tete e viajei pela primeira vez ao Centro do país. Ainda imberbe, parti convicto de que as aulas iriam decorrer conforme o estágio realizado na Vila da Manhiça. Perspectiva frustrada. Eu e muitos dos meus colegas ficámos a saber que há um Moçambique real por descobrir.

24 horas depois de aterrarmos no Aeroporto de Chingozi, uma vez mais tivemos de escolher onde gostaríamos de dar aulas. Entre Zumbo, Tsangano e Marávia, optei por Macanga, mas não fiquei na Vila de Furancungo. Calhou-me então a localidade de Namadende, na altura, a mais ou menos uma hora da sede, de carro. Escusado é dizer que foi uma experiência incrível, sinceramente, das melhores da minha vida. No entanto, nem tudo foi um mar de rosas. Como professores recém-formados, queríamos transformar vidas, contribuir, formar e desenvolver. No primeiro ano a Direcção Pedagógica da EPC de Namadende atribuiu-me a 5ª classe, a última do segundo ciclo.

Lembro-me de que num daqueles dias de Fevereiro de 2008, apresentei-me aos alunos que, logo à minha entrada na sala de aula, cumpriram o protocolo: levantaram-se para me saudar. Retribuí com um “bom dia, como estão?”. Em coro, responderam: “estamos bem, muito obrigado!”. É sempre assim. Eles dizem que estão bem mesmo quando têm um dente a condicionar a fala. Feitas as apresentações, de seguida, a aula começou, mas, meus senhores, foi improdutiva. Os alunos que apenas falavam cinyanja não me compreenderam e nem eu a eles. Impasse! Afinal a língua portuguesa não é de unidade nacional?! Na teoria, sem dúvidas que é! Na prática, a realidade muitas vezes é outra. A pergunta que me podem colocar é: como dei aulas àquelas crianças de Camuiqueni, Xinxefu, Ximunda e Namadende?

Bem, na verdade, decidi partilhar este episódio porque é esclarecedor. Se quisermos que a língua portuguesa seja realmente de unidade nacional, devemos, de forma concreta, audaz, investir em cada aldeia moçambicana. A escola deve estar em nós e nos outros. Isso significa que os institutos de formação de professores devem adaptar-se aos contextos mais desfavorecidos e não o inverso. Não faz sentido que docentes e alunos sejam colocados na mesma sala de aula sem condições para se compreenderem. É contraproducente, e esta ocorrência contribui significativamente para as desistências escolares nos nossos distritos. Quem ficaria na sala de aula horas a fio sem compreender o que o professor diz?! Então, ao invés de aulas, os nossos alunos lá vão apascentar o gado ou ajudar os pais no cultivo. E as alunas, desapontadas com uma escola na qual não se revêem, caem nas armadilhas dos casamentos prematuros.

A língua portuguesa pode mudar estes cenários nas nossas aldeias; pode integrar ao invés de excluir, projectar futuros no lugar de amputar horizontes; pode construir e ser um veículo de viagem virtual pelo país para todos aqueles meninos que completam 10, 12 ou 15 anos de idade sem nunca terem experimentado o prazer de viajar à boleia de um carro.

Se quem aprende qualquer língua apreende um conjunto de códigos, de regras e de saberes, com o português, em Moçambique, primeiro, as crianças ampliam o número de pessoas com as quais podem comunicar. Segundo, aproximam-se da ciência e tornam-se protagonistas dos seus próprios destinos. Não pretendo sustentar que a língua portuguesa, no contexto moçambicano, é garantia de sucesso, mas que é uma base indispensável na busca de conhecimentos estruturados pelo Sistema Nacional de Educação e não só. A língua é o veículo, a azagaia, o anzol; é o caminho, o que somos e onde podemos chegar. Por isso, entendo eu, é urgente que as políticas curriculares sejam mais ousadas na definição do tipo de adulto almejado em cada criança por formar.

Num ensaio intitulado Os modelos curriculares para o ensino de português no nível básico, por publicar, defendo o seguinte:

A maneira como ensinamos uma criança pode determinar que tipo de adulto a mesma criança vai se tornar. Ensinar não é apenas um verbo, é uma missão, um modo de prever o futuro mediante as convicções que nos movem no utópico compromisso de gerar um ‘homem novo’. No domínio escolar, o acto de ensinar exige do professor uma formação e orientação particulares sobre como manipular as suas ferramentas pedagógicas. Porém, existem no processo de ensino e aprendizagem tantas outras questões exteriores à sala de aula, dependentes de decisões políticas do que consideramos nível macro.

Assumindo que não é certo ensinar a crianças de contextos e com necessidades diferentes da mesma maneira, conforme sustentei no ensaio há pouco referido, claro está, as políticas curriculares têm a função de contribuir para que no contexto da sala de aulas não triunfem as desigualdades sociais.

Em Chibututuine, Distrito da Manhiça, a uma hora da Cidade de Maputo, de carro, conheci alunos, na 4ª classe, que mal sabiam escrever o próprio nome. Vi essa situação replicada em Kombomuni Rio, Distrito de Mabalane, em Gaza. Para ser sincero, este retrato repete-se em todas as províncias moçambicanas. Será que é o problema dos alunos, dos professores ou do currículo? Mais do que encontrar culpados, depois de muito pensar nisto, apresentei possíveis soluções numa reflexão intitulada Propostas curriculares ao ensino da língua em Moçambique. A questão de fundo é: e se reintroduzíssemos o ensino pré-escolar, pelo menos nas regiões recônditas ou para aquelas crianças cujos encarregados de educação não têm condições de as levar às creches? Por exemplo, para quem tivesse uma língua materna bantu, aprenderia exclusivamente a falar português e as lições essenciais para se integrar sem dificuldades na 1ª classe. Se reunirmos especialistas, sistematizarmos a proposta e investirmos, pode dar certo e mais crianças poderão aprender a ler e a escrever logo no primeiro ano escolar. Afinal, quem cedo aprende, rapidamente define o seu futuro.

O pré-escolar é um dos desafios para que a língua portuguesa seja um objecto de inserção social e de progresso à larga escala no país. Mas há outros desafios. Por exemplo, a aposta na literatura inserida na disciplina de Português, no ensino primário.

No passado, a arte literária iniciou um percurso de consciencialização contra as atrocidades coloniais e envolveu-se com impacto nos projectos de libertação nacional. Actualmente, continua a ser um objecto de cultura, propenso na edificação das melhores propostas de nação. Como todas as artes, a literatura tem de ser a aliada da escola, pois ao mesmo tempo que, por consequência, instiga sonhos, também move montanhas. Para que a arte literária exerça o seu papel, caso tenha algum, é necessário estar bem representada no ensino básico, o que significa levar aos livros dos alunos textos de referência de Moçambique e dos outros espaços geográficos, por exemplo, da CPLP. Não é o que acontece neste momento. Os livros de referência escritos em português não estão integrados no ensino básico. Logo, a escola até pode formar alunos inteligentes, mas isso de nada valerá se a inteligência não estar associada à cultura. Só para se ter uma ideia, dos vários livros infanto-juvenis editados pela Escola Portuguesa de Moçambique, quatro são Altamente Recomendáveis ao ensino no Brasil. Refiro-me a O pátio das sombras, de Mia Couto; Leona, a filha do silêncio, de Marcelo Panguana; Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo; e O caçador de ossos, de Carlos dos Santos. Sobre os quatro livros, no ensino público em Moçambique, nenhum eco. Podemos aproveitar esses contos adaptados da tradição oral para pensar, inclusive, nas diferentes relações entre a língua portuguesa e o espaço geográfico. Assim, os contos da tradição oral do Vale do Zambeze podem ser lidos e compreendidos no Rovuma e os do Chiveve no Limpopo. Se isso é bom, então pensemos no que a literatura é capaz de fazer com as crianças, quando as leva a viajar naquela dimensão escrita por Almeida Garrett ou pelo universo da CPLP.

A propósito da CPLP, e deste 5 de Maio de 2021, a língua portuguesa é falada por mais de 265 milhões em todo mundo. Salvo o erro, é a mais falada no Hemisfério Sul. Há-de ser por essa amplitude que, de forma antecipada, Fernando Pessoa considerou a língua portuguesa sua pátria. Porquê nos limitamos a um território concreto, quando podemos ser cidadãos de cinco continentes? Podemos ser globais, cruzar mares e horizontes em prol de uma consciência pró-comunitária. Nesse sentido, parece-me urgente que os países integrantes da CPLP façam mais para que esta proposta de comunidade seja realmente feita de proximidade. Estamos longe uns dos outros, todavia, nada disso será distância significativa se se fizer mais pela mobilidade dos artistas, das obras, dos académicos, dos cidadãos, em geral, e do museu do pensamento, como diria Joana Bértholo.

Antes de encerrar esta comunicação, que já vai longa, deixo ficar aqui umas lindíssimas palavras de Fernando Pessoa. O poeta diz-nos assim:

A palavra falada é um fenómeno natural; a palavra escrita é um fenómeno cultural. O homem natural não pode viver perfeitamente sem ler nem escrever. Não pode o homem a que chamamos civilizado: por isso, como disse, a palavra escrita é um fenómeno cultural, não da natureza mas da civilização, da qual a cultura é a essência e o esteio.

Espero, sinceramente, que este 5 de Maio seja uma profícua oportunidade para todos pensarmos em nós próprios como cidadãos desta pátria vasta e intercontinental que é a língua portuguesa.

 

 

*Comunicação apresentada na Universidade Pedagógica de Maputo, no dia 5 de Maio de 2021, a propósito das celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa.

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