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Urge capacitar médicos tradicionais e vendedores de remédios

O grosso das pessoas que vendem remédio tradicional no mercado de Xipamanine, na cidade de Maputo, por exemplo, não tem formação na área. Os medicamentos são sugeridos aos clientes com base na informação empírica. O Ministério da Saúde alerta para o risco desta prática e aponta a necessidade de se aprovar um instrumento que regule a área, bem como capacitar os médicos tradicionais para acabar com os impostores

O Governo reconhece a importância da medicina tradicional, sobretudo nas zonas distantes dos centros urbanos, onde não há unidades sanitárias. Mas a medicina tradicional, nas suas variadas formas, está presente na vida dos africanos, desde os primeiros dias de vida.

“Quando saímos do hospital fervemos um tipo de raízes e demos ao meu filho, durante dois dias, para fazer a lavagem porque nasceu com sujidade no organismo”, recordou Isabel Balói, mãe do pequeno Télio.

Mãe pela segunda viagem, a mulher optou pela medicina tradicional para evitar que os seus filhos tivessem problemas, sobre os quais na verdade só ouviu falar. O ritual de lua é um deles. “Aquilo é muito mais para quando a lua estiver cheia, a criança não cair. Outros petizes quando não tomam esse remédio ficam com problemas de epilepsia”, explicou Isabel Balói.

Dados oficiais apontam que cerca de 80% da população moçambicana ainda recorre à medicina tradicional para resolver problemas relacionados com a saúde. Porém, não são todos que encontram nessa medicina solução para as suas dificuldades. Francisco Balói é exemplo disso e sofre de epilepsia desde os dois de idade. Hoje ele tem 20 anos.

Jacob Balói, pai de Francisco, contou que, “de repente”, o filho “caiu e saiu espuma pela boca”, o que acontece “até hoje”.

Jacob Balói garante que os surtos não têm nada a ver com a falta de remédio de lua porque o filho tomou mas não ficou curado. “As pessoas disseram que tinha de recorrer à medicina tradicional e tentei todos os sítios” mas “só me gastaram dinheiro e meu filho continua assim”, disse em tom de resignação.

O único filho de Jacob tem tido três a quatro ataques de epilepsia por dia. Não tendo tido, solução na medicina tradicional, recorreu à convencional, onde foi-lhe receitado comprimidos que ajudam a atenuar as crises. Entretanto, foi inevitável Francisco interromper os estudos.

“Ele estudava, mas  caía todos os dias. Sempre vinha (em casa) um professor ou os colegas para me informar que ele passou mal. Eu estava cansado desse exercício e decidi mantê-lo seguro em casa”, contou o pai de Francisco.

Em casa, Francisco não tem outra alternativa senão entreter-se com algumas brincadeiras. Mas o que chama atenção é que o jovem só brinca com crianças. A epilepsia afectou o seu comportamento.

“Ele nessa idade (20 anos) comporta-se como se fosse uma criança nas primeiras fases, o que nos faz perceber que a memória dele foi afectada”, disse Otel Moiséis, tio do jovem Francisco.

Os médicos tradicionais só curam doenças relacionadas com o passado. A epilepsia é uma delas. “Um médico tradicional não cura tudo. Ele  cura asma, doenças ligadas à infertilidade feminina e outras que estão mais ligada àquelas que têm um nome tradicional”, esclareceu Fernando Mathe, médico tradicional.

Para a medicina tradicional, não há dúvidas que a criança pode desenvolver a epilepsia e outras doenças por não tomar o remédio tradicional. A auto-medicação e o desconhecimento do medicamento também concorrem para este mal.

“Existe um “nombo” que é aquela (doença)” com a qual “a criança nasce” e a manifestação é como se asma, segundo a explicação de Mathe. A fonte disse ainda que há outras enfermidades que se manifestam como “respiratórias” mas sem que “sejam a asma”.

Mathe acrescentou que quando a criança não toma medicamento tradicional, a doença desenvolve. Por causa da dor, é comum os pais recorrerem ao medicamento tradicional através da auto-medicação. Mas quando algo corre mal, os pais não assumem que compraram o medicamento pessoalmente.

 

VARIEDADES DE MEDICAMENTO À VENDA NO MERCADO DE XIPAMANINE

Um dos locais onde as pessoas compram medicamentos tradicionais é o mercado de Xipamanine, um dos mais movimentados na cidade de Maputo. Ali há grandes quantidades e variedades desse tipo de remédios à venda.

Contudo, os que vendem este tipo de remédios não têm nenhuma formação. Valem-se da experiência adquirida ao longo do tempo. “Aprendi com pessoas mais experientes. Não é fácil chegar lá e vender”, contou Samuel Baúde, um dos vendedores, ajuntando que tem gente em formação para saber lidar com os medicamentos comercializados.

Outro interlocutor, que também vende medicamento tradicional no mercado de Xipamanine, considerou a auto-medicação como um risco à saúde. “Há doenças normais que eu posso saber. Por exemplo, dores de barriga e cólicas eu ajudo as pessoas” a livrarem-se delas, afirmou Daniel Mandlate.

MINISTÉRIO DA SAÚDE CONTRA VENDEDORES INCAPACITADOS

A instituição que vela pela saúde no país quer acabar com os vendedores não habilitados para receitar medicamentos da medicina tradicional.

Felisbela Gaspar, directora nacional de Medicina Tradicional e Alternativa no Ministério da Saúde disse que as pessoas recorrem aos vendedores de mercados porque estão aflitas e quem as atende “tem que ter conhecimento”.

Segundo a dirigente, é comum “um menino de 15 ou 16 anos, que não fez curso nenhum”, estar numa “banca a vender” remédio tradicional “porque ouviu que o medicamento é da panelinha (para crianças) ou outra coisa. Isso não pode. A pessoa tem que ser capacitada”.

Além de regulamentar a venda de remédios deste ramo, um instrumento legal poderá regular o exercício da medicina tradicional em Moçambique, onde que se estima que há perto de 300 mil praticantes.

“São pessoas que pululam de um lado para o outro, falando daquilo que fazem, de forma muito exagerada. Infelizmente, a população aceita porque está em desespero e procura algo que melhore o seu estado de saúde”, afirmou Felisbela Gaspar.

Sobre o remédio tradicional usado para impedir o efeito da lua nas crianças, o Ministério da Saúde diz que não proíbe que o mesmo seja dado aos recém-nascidos, mas reitera que tal só deve acontecer depois de seis meses.

“Não temos outras interpretações que nos façam dizer “não tomem”. Podemos dizer que devem (as crianças) tomar no período certo para não criar problemas”, recomendou Felisbela Gaspar.

Para o sociólogo José Bambo, ainda que faça parte das vivências, nem sempre a medicina tradicional consegue oferecer uma solução para todos os problemas, daí começa a entrar em descrédito social.

 

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