O País – A verdade como notícia

Um morto volta?

– Ah ah ah… – com a gargalhada, desclassificou as palavras  do amigo –, mentira! – esticou  o “i" quando disse “mentira", para acrescer quilates ao vocábulo. Sequer parou de trabalhar: deu gás ao pedal da máquina de coser que acelerou como uma locomotiva endiabrada.

– Juro! – insistiu o amigo, magoado pelo descrédito (percebia-se pela testa franzida), enquanto endireitava o caqui do colete com branding duma operadora de telefonia –, eu também  não  acreditei – acentuou o sotaque da terra de vastos palmares e muito coco para a economia.

– Ah ah ah… Você conta muita estória, muitos filmes – não parava de pedalar a máquina, o alfaiate de esquina, mas começou a ponderar porque, sabia, quando um machuabo põe sotaque na voz está  sério, o que, ainda assim, ainda não garantia que fosse verdade.
– Juro! Falaram na STV.

A máquina de coser freou. As bielas abrandaram como uma locomotiva surpreendida com uma estação repentina, quando o machuabo se referiu à tv popular, como um selo para sua verdade.

– Sim, STV – reforçou com malícia, percebendo que apunhalara o amigo com o argumento e ganhara espaço na discussão. Endireitou, vitorioso, o colete da cor da empresa de telefonia e deixou-se estar, sorridente, a acariciar as recargas de telefone, com o aquele tique batoteiro de antigos jogadores de cartas.
O alfaiate demorou a reorganizar ideias. Desviou o olhar da máquina e deixou-o no chão, de modo que, com a visão periférica,  pudesse ver o amigo e descodificar-lhe a linguagem gestual.

– É possível isso? É possível um morto regressar?
– Eu também me pergunto. Mas está aí – respondeu, organizando o baralho de recargas no bolso do colete.
– Será que deus abriu os portões e autorizou o morto a voltar?
– Quem disse que ele estava com Deus? Pode ter encontrado as portas do céu fechadas, não lhe abriram porque não lhe querem lá.
– Então por que lhe mandaram para aqui. É inferno aqui?
– Do jeito que isto anda difícil, as crises… o custo de vida… a corrupção… é possível.
– E o dinheiro? Será que o gajo trouxe de volta o dinheiro que gamou? Ou Deus reteve?

Ficaram ali os dois calados, o alfaiate a olhar para o chão, para o nada e o outro para cima, entre o céu e a linha tortuosa da copa das árvores que lhe trazia lembranças dos cílios irrequietos dos palmares a fazerem cocegas às nuvens.

Devagar, a locomotiva de coser voltava a si, ganhava vapor e dava golpes progressivos ao silêncio. O vendedor de recargas, embalado pela música de coser, o som delicado da agulha a espicaçar timbilas no tecido, meteu o dedo no nariz, enquanto selecionava pela espessura, a caca, que enrolava numa bolinha e depois fazia uma catapulta com os dedos, indicador tenso sob o polegar, e arremessava  para longe, fazendo pontaria ao nada.

– As tantas todos aqueles comparsas dele são mortos que voltaram para nos atazanar. A corrupção deve ser uma praga…
– E se aqui for inferno?
– Então nós estaríamos mortos
– E estamos vivos?

O alfaiate não teve resposta. Deu uma lambidela na linha. Afinou as pestanas para ajustar a visão. Enfiou a ponta da linha na agulha… armou a máquina acelerou coseduras violentas, remendando os panos com urgência de quem se imagina a remendar uma nação.

 

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