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Tomaz Salomão propõe encerramento de universidades que não reúnem condições

Tomaz Salomão foi orador principal no segundo e último dia (sexta-feira) das jornadas científicas organizadas pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB). De forma categórica, Salomão disse que o que não for bom deve fechar.

O antigo secretário executivo da SADC foi a Songo para falar do “conhecimento ao serviço do desenvolvimento e da integração regional”. Mas na sua longa intervenção, acabou tocando em vários assuntos, desde logo a questão de formação. E para não surpreender a plateia, fez questão de alertar que “coisas amargas” devem ser ditas. E uma delas é fraca qualidade do ensino, do primário ao superior. Mas a prioridade é o ensino primário, pois os problemas de formação básica não podem ser resolvidos no nível superior. E o problema da fraca qualidade no ensino primário resolve-se investindo não só em infra-estruturas, mas também em professores. Tomaz Salomão não vê razões para que não hajam investimentos no primário e diz mesmo que o argumento de falta de dinheiro não procede. “É preciso pensarmos como país, como nação. O que é que é melhor entre pagar bem aos professores e andar a criar assembleias provinciais que só gastam dinheiro. O que é que fazem os deputados provinciais”, questionou, recebendo uma forte ovação. E voltou a insistir na pergunta: “O que é que fazem (membros das assembleias provinciais)? Temos assembleias nas autarquias locais, tudo bem – aprofundamento da democracia e da descentralização. Temos mandatários do povo que sentam na 24 de Julho (avenida onde se localiza a sede da Assembleia da República) e que vão às províncias onde foram eleitos para fazer o trabalho da fiscalização. Mas aqui temos assembleias provinciais, o que faz com que deputados dos dois órgãos encontrem-se lá no terreno”, detalhou, repetindo que “depois dizemos que não temos dinheiro para pagar os professores”.

Quanto ao ensino superior, o antigo governante critica a facilidade com que são criadas algumas instituições e defende o encerramento daquelas que não reúnem condições para formar quadros competitivos. Tomaz Salomão diz mesmo que das coisas mais fáceis em Moçambique é criar uma universidade, pois qualquer pessoa pensa é capaz. “Não tem biblioteca, não tem laboratórios, mas acima de tudo onde estão os professores. Esquecemo-nos de que nós estamos a formar pessoas não só para servir o país, mas também para competir na região, no continente e no mundo. Outro dia o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior perguntava-me assim: ‘eu fui visitar algumas universidades e encontrei isto. Agora estou com dilema se mando fechar ou não’. Eu disse senhor ministro, fecha! Se quer saber da minha opinião, fecha”.

Para além da falta de condições, Tomaz Salomão critica a comercialização de trabalhos científicos para a obtenção de graus académicos. Sem apontar nomes, o orador diz que há instituições onde se vendem teses de culminação de cursos. “Esquecemo-nos de coisas básicas. Estamos a semear a morte da nação. E como alguém disse: para matar um país não é preciso uma bomba nuclear. Matar um país começa aqui: preparar mal o homem”. Tomaz Salomão alerta que no futuro, nenhum graduado vai aceitar que foi mal formado, incluindo aqueles que compraram teses. “Por mais que a pessoa tenha comprado o diploma, não vai aceitar que eu chegue em frente dela e diga que comprou diploma. Não, ninguém não vai aceitar”.

Democracia que não resolve problema da pobreza não tem valor

Como não podia deixar de ser, o antigo secretário executivo da SADC falou também da integração regional, destacando aquilo que considera “factores críticos” na região. E um dos factores críticos é a democracia. Tomaz Salomão não alinha com os discursos que pretendem reduzir a democracia à realização regular de eleições. Para ele, a democracia só terá valor se promover a inclusão económica e social e resolver o problema da pobreza. “O aprofundamento da democracia deve implicar o aprofundamento da inclusão económica e social. Ou seja, que políticas a adoptar para que aqueles que estão na base se sintam incluídos. Porque democracia para continuar a ser pobre não tem valor”.

E porque não se pode falar da democracia sem boa governação, Tomaz Salomão disse que a tensão política em curso no Zimbabwe resulta do problema de governação. “É aquilo que leva as pessoas a dizerem que ‘esses africanos são todos iguais’. Problema de governação. Quando a Constituição diz que deve ficar dois mandatos, amigo, fica dois e deixa o outro vir. Não nenhum problema, porque o Estado vai tomar conta de ti”.
Falta coordenação nas soluções energéticas
Sobre o sector energético, o orador criticou a falta de coordenação de soluções para resolver o défice de energia na região e a falta de investimentos nas linhas de transmissão. A falta de coordenação faz com que país comece a procurar soluções isoladas para responder ao défice de energia. “Botswana procura sua solução, África do Sul procura sua solução na energia nuclear, nós também estamos à procura das nossas soluções, através da central norte da HCB ou da hidroeléctrica de Mphandakwa ou através de centrais a gás”. Na concepção desses e outros projectos, Tomaz Salomão chama a atenção para a necessidade de se incluir a componente de transmissão de energia. “Há quanto tempo não discutimos da linha de transmissão de energia a partir de Songo até à região sul”, questionou, referindo-se ao projecto de transporte de energia da HCB até Maputo.

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