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“Todos nós estamos em idade de risco neste momento da pandemia”, Joaquim Chissano

Em entrevista à Stv, o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, afirmou que todos “estamos em idade de risco neste momento da pandemia” do Coronavírus, uma vez que “não se sabe onde se pode apanhar” a doença. Chissano considera que passe o tempo que for necessário, um dia o vírus vai passar. “O importante é que estejamos vivos”. Mas para tal é preciso cumprir as orientações das autoridades de saúde

 

Presidente Chissano, como é que analisa a pandemia do novo Coronavírus, principalmente considerando que o Presidente Chissano faz parte do grupo de risco?

Falou de idade de risco. Eu queria dizer que, no meu entender, todos nós estamos em idade de risco neste momento da pandemia, porque não se sabe onde se pode apanhar. Pode-se apanhar num ambiente mesmo como este (de entrevista), que nós pensamos que está muito bem organizado e há distanciamento. Mas eu cheguei aqui, sentei-me numa cadeira, agarrei na cadeira e não sei se a cadeira está completamente desinfectada. Eu posso ter a idade que tenho, mas podia ser um jovem que faz a mesma coisa. E, sobretudo, os jovens podem estar desatentos a todos estes factores. Ainda há pouco, no carro, quando vinha para aqui (para entrevista), vi quatro jovens à vontade, sem máscaras quase que a chocarem-se pelas cabeças, a conversar e a pegar na mesma mesa onde se encontravam. Eu não sei como tudo aquilo foi transportado para ali.

Portanto, a desatenção é grande, em parte porque as pessoas não sabem o que é isso de Coronavírus. Primeiro não sabem o que é um vírus, é uma coisa que se vê, uma coisa notável quando a gente lava, a gente vê a sujidade sair, o que é? Mas deixa-me dizer que eu estou limpo!

O vírus é uma partícula muito pequena. Estive a fazer um inquérito para saber qual seria o tamanho de um vírus, porque há vários tipos de tamanhos, mas um vírus em geral. Parece que o maior que eu encontrei tem um milímetro. Um milímetro é um pouco mais que um grão de sal grosso, o muito grosso. Se esmagarmos aquele sal e depois produzir partículas pequenas, é preciso contar um milhão de partículas pequenas para fazer um grão de um milímetro.

Para dizer que isso não se pode ver a olho nu, só se pode ver num microscópio, para aqueles que sabem o que é um microscópio normal que se utiliza no hospital para ver algumas doenças. Mas não se vê alí, porque é preciso um microscópio de grande potência para poder ver esse elemento pequeno que nós costumamos chamar bichinho, mas não é nada um bichinho. É uma espécie de um pó, um grão de pó, vamos lá chamar, porque segundo a explicação que foi dada está coberta de uma gordura, que até os tecidos, as portas, os móveis, as fechaduras das portas, qualquer parte que a gente pega deve fazê-lo com cuidado, porque esse vírus pode lá estar. Mas a maneira mais vulgar de transmitir é através das pessoas quando falam. Por exemplo, eu estou aqui a falar e dá-me para tocir ou para espirrar, então a minha saliva vai pelo ar e cai na superfície. Costuma-se dizer que isso acontece a menos de um metro, mas num lugar onde há um pouco mais de vento pode ser que se espalhe um pouco mais, por isso, todo o cuidado é pouco.

Portanto, quanto maior é a distância em que a gente pode estar a conviver, melhor, mas que não seja menos de 1.5 metros. Então, isso é um perigo que está para toda a gente, não deve existir esse argumento de que eu ainda não atingi a idade X, por isso, sou menos vulnerável. Eu, com a minha idade, evidentemente que estou a tomar as precauções redobradas, mas eu já disse a muita gente que não é a idade que marca quando você vai morrer. Ouvi dizer que houve um bebé que morreu e eu ainda estou vivo!

 

Presidente Chissano fala de redobrar os cuidados e disse que também teve a oportunidade de testemunhar que algumas pessoas não estão a cumprir com o devido rigor estas medidas de prevenção. Como mobilizar as pessoas para cumprirem?

O que estava a tentar fazer é explicar o que é a doença, o que é o vírus, que existe realmente e que para a gente não apanhar a doença é preciso tomar precauções. As precauções são aquelas que já são sobejamente conhecidas. Primeiro, a distância em que as pessoas convivem, que não pode ser menos de 1.5 metros. Mas como eu já disse, tem que ser mais de 1.5 metros, e se não cumprirem isso, podem se arrepender porque não hão-de saber que foi ao falar com fulano ou sicrano que apanhei esta doença.

Para se fazer o tratamento da doença é preciso conhecer todas as pessoas com quem contactou, e isso pode dificultar as coisas.

Uma vez conhecido o perigo, o perigo principal é que ainda não se sabe qual é o remédio. Não há remédio. Por isso, por enquanto trata-se a tosse quando a pessoa tem tosse, a febre quando a pessoa tem febre, diarreia quando a pessoa tem diarreia, a conjuntivite quando a a pessoa tem conjuntivite, etc. Mas o remédio mesmo para matar este vírus ainda não é conhecido. Madagáscar está a usar um remédio que até que seja provado vamos dizer que sim, este é remédio. Mas eu não sou contra que as pessoas vão experimentando, nós comemos sempre, se a aquela comida serve para nos fortalecer, é melhor, não quer dizer que já é consagrada como um remédio.

Por exemplo, a gente tem que tomar vitamina C e sabe-se que a laranja tem vitamina C. Mas não é comendo a laranja que a vitamina C vai ter algum resultado. Eucalipto, vejo muita gente a vender na rua, pode ser que dê (resultados positivos). Mão se deve interditar que as pessoas se protejam da melhor maneira, mas que não pensem que já estão protegidas por estarem a fazer aquilo. Eu ouvi falar de outros procedimentos, de limpeza da garganta, de várias maneiras, ouvi um médico em Angola a falar de procedimentos que eu posso praticar, mas não quer dizer que isso me vai curar.

 

Mas está a consumir algum produto com este objectivo?

Eu limpo a garganta com água e sal, pelo menos duas vezes por dia. Às vezes três vezes por dia, por causa da explicação que esse médico deu, mas prontos, se não corresponder à verdade não tem problema, não me vai matar. Mas não faço isso porque estou convencido de que este é o remédio, isso até que os cientistas se pronunciem colectivamente que este é o caminho a seguir. Portanto, não é por causa de estar a fazer isso, que vou deixar de tomar outras precauções. Eu uso a máscara, mesmo em casa, a minha família também usa máscara e estamos a viver bem.

 

Presidente Chissano, um olhar sobre os impactos económicos desta pandemia, considerando que a economia está inanimada e o desemprego já é uma realidade. Existe um risco de falência de mais de 15 mil empresas e também este ambiente de incerteza que se cria. Como resgatar a confiança da população?

A confiança é dizer que isto é uma endemia como várias outras que, geralmente tem o seu momento, passam. Na minha língua chama-se “muzungu”, quer dizer, ataca os cabritos, as galinhas e passa num determinado espaço de tempo. Portanto, esta endemia também há-de passar, mas para que passe depressa é preciso que se tomem todas as precauções que estão preconizadas. Mas as endemias sempre passam, não é a primeira esta, que é grave, houve muitas na história.

 

O que é que os políticos devem considerar na gestão de uma crise gerada por uma pandemia desta natureza?

O país tem que apoiar o máximo possível, mas evidentemente que não pode fazer tudo, as pessoas têm que ser mais imaginativas.

 

Dizia, o que é que os políticos devem considerar nas suas decisões, na gestão de uma crise como esta da pandemia?

É isso que estou a dizer, apoio à população afectada pela pandemia. Por exemplo, nós todos estamos a ficar em casa e a produção que cada um fazia é prejudicada. Portanto, temos que encontrar formas de compensar. Ouvi com agrado que o preço da gasolina baixou, não sei se foi por decisão do Governo ou do próprio mercado. O diesel baixou, etc, e que o Governo fez um esforço para subsidiar o algodão, é uma medida que tem a ver com tudo isso, e muitas outras medidas de carácter financeiro de que se fala. Os bancos também têm a sua cota parte, de maneiras que o importante é aliviar o peso sobre os cidadãos que não podem produzir de uma forma completa ou livremente. O essencial é ajudar as pessoas a suportar esta pandemia.

 

O ser humano é social e gosta de conviver, é uma característica que é inerente à sua própria natureza. E a mensagem de fundo neste momento é o confinamento, distanciamento social, tudo que contraria a natureza humana. Que mensagem de conforto para que as pessoas possam compreender este momento que vivemos?

É melhor a gente viver, que conviver. Não sei se estou a me fazer perceber. Para se conviver é preciso viver, então é melhor defendermos a vida para podermos continuar a conviver, a ter festas, ir ao cinema, etc. O principal é nós conservarmos a nossa vida e a vida dos outros, estes com quem nós queremos conviver. Os outros em casa, os outros no trabalho, os outros no desporto, temos que nos proteger para mais tarde continuarmos a jogar o nosso futebol, ainda que a doença dure mais três meses, quatro meses, cinco meses, isso não importa, o importante é que estejamos vivos.

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