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“Todo esforço que até agora estamos a fazer em Cabo Delgado é insuficiente”, Graça Machel

Foto: O País

Graça Machel considera insuficiente e ineficaz o esforço que o Governo e parceiros fazem para apoiar as crianças vítimas do terrorismo em Cabo Delgado, algumas das quais, nalgum momento, foram transformadas em crianças-soldado, instrumentalizadas pelos terroristas de diversas formas.

A activista, que esteve em Cabo Delgado há três semanas e visitou alguns distritos, conversou com as vítimas e autoridades locais, acompanhou de perto o sofrimento daquelas pessoas e descobriu que há muitas crianças que foram treinadas para cometer atrocidades e matar.

Disse que há crianças que ainda estão nas fileiras dos terroristas, são instrumentalizadas, doutrinadas e estão a ser radicalizadas incutido nas suas mentes ideias para que sintam ódio das instituições do Estado, para tratarem com desrespeito as crenças de outros baseadas noutras regiões e religiões.

Entretanto, o que deixou “Mama Graça” estupefacta é o facto de não haver um instrumento específico, para ajudar esses petizes, por isso defende a categorização do apoio psicossocial em sexo, idade e tipo de violência.

“Este é um grupo de extrema sensibilidade que nós podemos conhecer, mas eu não fui capaz de encontrar essa categorização de que estou a falar, não só para as crianças, sabemos que há graves violações contra as mulheres e raparigas, mas o tal apoio tanto vai para mulheres adultas como para crianças, esquecemos que a sensibilidades de uma menina e uma senhora é diferente”, criticou.

Graça Machel disse que a primeira coisa que constatou é que as pessoas com destaque para crianças estão a ser tratadas como números e não como pessoas que carregam várias marcas da guerra.

A fonte foi mais longe, sublinhou que há muito esforço a ser feito por várias organizações para minimizar o sofrimento das pessoas em Cabo Delgado, mas, para ela, o que se verifica é que o impacto dessas acções é ineficaz.

“A segunda constatação foi que muitas pessoas, que estão a trabalhar em Cabo Delgado, não conhecem as ferramentas aprovadas no sentido de proteger essas pessoas e há pouca incidência na protecção dos direitos civis, no geral, direitos das mulheres, raparigas e rapazes e direitos dos rapazes”, apontou.

A falta de Bilhetes de Identidade aos deslocados é outro problema. Alguns deslocados sem BI se encontram nos centros de reassentamento, o que para a activista social não faz sentido, porque, quando uma criança não tem BI, não é reconhecida como cidadão moçambicano.

“É fundamental identificarmos um sistema de identificação civil, principalmente para crianças”, instou para depois sublinhar: “todo esforço que até agora estamos a fazer lá, em Cabo Delgado, é insuficiente, independentemente dos grandes esforços, precisamos de nos organizar, precisamos de nos estruturar”.

A activista social falou ainda da necessidade da criação de mecanismos para acolher as pessoas que são libertas das mãos dos terroristas. O que acontece é que, sem esse mecanismo, as pessoas libertas se espalham, cada um vai para o seu lugar e perde-se a oportunidade de identificá-las e ver que tratamento cada um deve ter.

 

“HÁ UMA RESISTÊNCIA GRANDE EM RECONHECER QUE HÁ CAUSAS INTERNAS QUE FACILITAM A PENETRAÇÃO DOS TERRORISTAS”

A fonte disse que é precisa a criação de programas que permitam maior interacção entre os diversos grupos sociais que estão nos centros de deslocados, pois, da conversa que teve com algumas mulheres, percebeu que há divisões e clivagens fortes, que não podem ser menosprezadas.

Para Graça Machel, isso pode ter facilitado a penetração dos terroristas nas diversas comunidades e é preciso que haja um estudo para se conhecer melhor as causas internas que facilitaram a entrada dos insurgentes.

“Eu sei que há uma resistência grande em reconhecer que há causas internas que facilitam a penetração dos terroristas no seio das comunidades, mas é um facto. Não podemos pensar que é apenas a infiltração de fora, a infiltração de fora encontrou terreno para facilmente se espalhar como se fosse fogo. É preciso conhecermos essas causas e enfrentar com coragem e é isso que culminará com a paz duradoura e verdadeira”, afirmou.

A oradora não só criticou, como também deixou recomendações de que é preciso reforçar as instituições do Governo a nível provincial e distrital, pois não suportam com a pressão a que estão impostas e estão a “rebentar pelas costuras”, porque não têm capacidade de responder aos desafios.

“Mesmo o ADIN (Agência de Desenvolvimento Norte), parece-me uma resposta económica, muito pouco virada para sarar feridas e para o desenvolvimento humano, e isso tem um peso muito grande na construção da pessoa humana e a estrutura não me parece muito adequada”, destacou.

Sobre educação, em que desde 2018 há crianças que não vão à escola, disse que o plano de abarcar todas as crianças é “extremamente inadequado” e, por isso, deve-se instituir uma linha de alfabetização e educação de adultos vigorosa e o programa de educação deve ser reajustado, para que sejam abrangidos os adolescentes e mulheres num programa que inclua, não só o saber ler e escrever, mas também o desenvolvimento de actividades técnicas.

Graça Machel falava durante um evento sobre o Dia Internacional contra o Uso de Crianças-Soldado, assinalado esta segunda-feira, organizado pelo Unicef e que contou com a participação de representantes do Ministério do Género, Criança e Acção Social, Ministério da Defesa, Ministério da Justiça e outros parceiros do Governo e sociedade civil, reunidos na busca de estratégias para combater o recrutamento e uso da crianças na guerra.

 

SOBRE GUERRA NA UCRÂNIA: “NÃO VAMOS TOMAR NEM UM NEM OUTRO LADO”

Graça Machel concorda com a posição de Moçambique em se abster do voto de condenação ou não à Rússia no Conselho de Segurança da ONU. Segundo a activista, o Governo está a fazer muito bem, alegadamente porque há muitas questões não claras que estão por trás do conflito.

A fonte disse, por isso, que, enquanto esses interesses não forem levados “à mesa”, o país não deve tomar nenhum posicionamento, mesmo sob pressão de parceiros.

“Neste momento, para mim, o Governo está a fazer muito bem em não decidir e não é apenas o nosso país, o número de países nas Nações Unidas que se absteve está a aumentar à medida que temos mais consciência desses outros factores que não estão a ser postos em cima da mesa”, defendeu.

A interlocutora recordou-se dos tempos em que havia países “não-alinhados” (associação de países formada com o aparecimento dos dois grandes blocos opostos durante a Guerra Fria, liderados pelos EUA e URSS, ou União Soviética. Seu objetivo era manter uma posição neutra e não associada a nenhum dos grandes blocos) e defendeu que era importante reactivar o movimento em causa.

Machel reiterou ainda que ninguém deve obrigar o Governo a tomar uma posição e só pode fazê-lo dependendo dos interesses nacionais.

“Nós não somos forçados a estar ou ali ou lá e, aliás, nós afirmamos, como Frelimo e Governo de Moçambique, precisamente para dizermos que não somos aliados a ninguém para tudo, dependendo dos interesses nacionais em cada caso, vamos decidir a nossa posição, mas não somos obrigados. As pessoas que querem fazer parceria com Moçambique têm que respeitar as posições soberanas de Moçambique”, concluiu.

Os embaixadores da Alemanha e dos Estados Unidos da América já vieram a público pressionar o país a tomar uma posição.

A Rússia foi suspensa do Conselho dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas na última sexta-feira, após a medida ter sido aprovada por 93 países.

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