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Thandi, a menina de barro

Por: Marcelo Panguana

 

Nem sempre é fácil migrar para esse país antigo — a infância que deixamos para trás quando nos tornamos adultos. Há que se reaprender o idioma, redescobrir palavras, conversar com as crianças para recuperar o ritmo das frases. Só assim obtemos o visto de entrada e podemos circular com naturalidade nesse país.

                                                              Silvana Tavano

 

 

Aquilo que me fascina num livro que se escreve a pensar nas crianças, quer dizer, nos menos adultos, é, sobretudo, a sua leveza, a extrema simplicidade da sua narrativa, a sua pureza, talvez porque não necessita de ser depositário do que quer que seja para se afirmar e cumprir o seu papel. Talvez porque aquele que escreve esses livros deixou de pensar em benefícios, para se preocupar, apenas, com essa vontade incontrolável de criar universos capazes de seduzir os mais novos e lhes mostrar o lado mágico e fantástico da vida. Nada mais que isso.

Devo confessar que as minhas leituras, agora enriquecidas pelo livro “ A Estranha Metamorfose de Thandi”, escrito por Mauro Brito, fizeram-me concluir que um livro infantil é o melhor de todos os livros. Porque tem uma estória para contar. Oferece personagens sublimes. Descreve lugares inimagináveis. Faz-nos sentir aromas desconhecidos. Coloca-nos perante enredos cada vez mais difíceis de encontrar nos livros destinados aos adultos. E sobretudo porque existe uma moral que nos é transmitida no término da estória. Tudo isso nos faz concluir que devemos fazer da Literatura Infantil parte da vida dos mais novos, porque estimula a criatividade, a empatia, o raciocínio, o respeito, a imaginação, o desenvolvimento cognitivo e da linguagem, para além de proporcionar uma visão mais ampla do mundo.

Quando tenho um livro infantil entre as mãos, como agora está a acontecer com “ A Estranha Metamorfose de Thandi”, deixo-me levar, mesmo antes de iniciar a sua leitura, pelo desenho da capa e também das ilustrações que decoram o interior, contrariamente ao que acontece com os livros destinados aos mais velhos, onde nos deixamos cativar, primeiro, pela beleza das primeiras páginas. Fiquei a gostar do livro de Mauro Brito antes de lê-lo. O Samuel Djive, seu ilustrador, sugeriu-me esse mundo de fantasia que Mauro imaginou. Vi pássaros. Luas. Estrelas. Lagartos. Flores. Mulheres. Vi cores. Vi a vida, isto é, a poesia. Quase que senti o perfume que dominava esse lugar que o escritor imaginou. Apaixonei-me.

Não sei dizer, se entre nós, o livro infantil tem a importância que se deve atribui-lo. Penso que não deve ser diferente do livro comum. Isto é, num país onde não se lê suficientemente, onde o livro não é prioritário, torna-se difícil prestar a devida atenção ao livro infantil. E é pena que assim seja. Porque estamos nos tempos em que os mais novos estão sendo intoxicados por outras vias, perversas, se diga, quase que incontornáveis, reconheçamos. A este propósito, o escritor brasileiro, Flávio Carneiro, autor de  “Falsa Ficção”, dizia que é necessário conceber que a escola ocupe, duma vez por todas, o seu espaço de formação: “Que façamos chover muito. Que as águas levem de vez, numa enxurrada, toda forma perversa de apropriação do imaginário, toda pseudo ficção que se procura vender como pílula mágica para adultos e crianças, e que essas mesmas águas tragam antigas e novas fantasias, capazes de garantir o exercício da imaginação, única garantia de futuro para quem ainda acredita em fadas.”

Apesar desta realidade, desta fuga que está a acontecer em relação ao género infantil, e não só, Mauro Brito investe neste género narrativo e traz para “A Estranha Metamorfose de Thandi” toda a sua capacidade descritiva, toda a poesia, todos recursos técnicos capazes de tornar um texto sublime e fazer nos acreditar em fadas. O Mauro sabe que está enveredando por um género de escrita que dificilmente conduz ao reconhecimento público. Creio que não lhe interessam as palmas, muito menos as palavras dos críticos omniscientes. Nada disso tem importância. O seu público, o seu prémio e satisfação é essa vasta legião que são “as flores que  nunca murcham”. E todos nós outros que ainda nos deixamos seduzir pelos universos mágicos.

Se me pedissem para contar a estória deste livro eu preferiria buscar as palavras inscritas no verso da obra e que dizem assim:

 

“Tudo começou quando a Thandi desfilava pelo caminho de volta do rio, na companhia de borboletas e pássaros. Dum momento para o outro, folhas e galhos soltaram-se das árvores. As nuvens zangaram-se e logo formaram um manto escuro sobre a terra. Sem demora trouxeram a chuva. Não era uma chuva miuda. Era uma cascata por dentro da qual a menina seguia, ao longo de todo o caminho para casa. A Mbali, mãe de Thandi, sempre a alertara para os perigos da chuva; se, para algumas pessoas, esta é benéfica, para outras, pode trazer consequências graves. Esse era o caso da menina que nascera com o corpo da textura e cor de barro…”

 

O resto da estória vão apreendê-la ao ler o livro. Cada leitor vai tirar a sua conclusão. O meu texto termina aqui. Breve como a estória de Mauro Brito. Ao terminá-lo, apenas confessar que a leitura desse conto tornou-me, de novo, uma criança. Fez-me regressar ao mundo da pureza, da simplicidade, à um universo onde as palavras não precisam de serem muitas para mostrarem a verdade das coisas. Como diria o escritor russo Boris Pasternak, para percepcionar as coisas o nosso olhar tem de ser dirigido pela paixão. Somente ela ilumina o objecto do seu  fogo e intensifica a visão. Foi exactamente isso que direccionou o trabalho do Mauro: a escrita pela paixão. O resto podemos encontrar nas breves páginas do livro, como estas palavras que agora se seguem:

 

“No novo dia,  a Lua ainda emprestava o seu encanto ao céu azul-cinza quando o Sol, como uma flor amarela, sobrevoou lentamente os campos, até galgar o horizonte, mais tarde que o habitual. Talvez por isso, o orvalho ainda se estendia sobre as folhas como uma película fina. Embarcaram, sentindo ambas uma brisa fresca a acariciar-lhes as faces. Um rasto de fumo ficava para trás e, no ar, viam-se lenços estendidos por inúmeros braços que esboçavam, naquele aceno, uma saudade antecipada. O comboio seguia chinelando por entre montanhas e vales verdejantes, parando de vez em quando para descarregar e carregar mais sonhos e vontades”

 

Quem é o Mauro Brito? Sabe-se que pertence a uma família crioulo-moçambicano e que é o primeiro aviador da nova geração de poetas. Acrescenta-se também uma breve, mas intensa, incursão pelo teatro de rua e por outros movimentos activistas e de voluntariado. Passou de raspão pelas ciências contábeis, mas foi traído pelo espírito digressivo que empresta aos livros infanto-juvenis que vai escrevendo, de quando em vez, e dos voos que alça quando se faz bom tempo. Foi a aspiração dos ares que o levou ao brevet de piloto aviador e quando voa sente que aquela casa de ferro encontrou em si o inquilino perfeito.

 

 

Pretória/NOV/2021

 

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