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Terrorismo em Cabo Delgado não tem rosto mas as vítimas têm nomes

Em Cabo Delgado, centenas de pessoas perderam suas casas e presenciaram o assassinato brutal de seus familiares, entre outras atrocidades sem explicação que faça sentido. Na luta pela vida, algumas fizeram longos percursos a pé, saindo de Mocímboa da Praia para outras regiões consideradas seguras na mesma província. Hoje estão na condição de deslocados e sem perspetiva de dias melhores.

O terrorismo no norte de Cabo Delgado é denominado “guerra sem rosto”, mas as vítimas deste conflito, que iniciou em Outubro de 2017, tem chama-se deslocados.

A violência armada intensificam-se à mesma velocidade com que muitas famílias chegam aos bairros periféricos da cidade de Pemba e sedes de alguns distritos de Cabo Delgado, à busca de abrigo, deixando para atrás uma vida inteira construída com sacrifício.

Chegados à cidade de Pemba, os deslocados são acomodados em alguns familiares ou mesmo alguns centros. O histórico bairro Paquitequete, por exemplo, acolhe grande parte dos deslocados.

Miguel Momade tem 55 anos de idade. É natural de Quissanga, província de Cabo Delgado, pai de 10 filhos e avó de igual número de netos. Foi forçado a abandonar suas casas, não teve quem despedir porque levou todos que considera família e saiu da sua casa de mãos a abanar. Hoje (actualmente) vive como deslocado no lar da sua irmã.

“Aqui, para podermos viver, é grande sacrifício. Não temos bens, mas ainda assim e, estando em casa de alguém que também não dispõe de condições. Eles tentam dar uma e outra coisa para comermos, mas é um sofrimento”, contou Miguel Momade, um dos deslocados de ataques terroristas em Quissanga.

O sofrimento por alimentação e melhores condições de acomodação, não se comparam com o causado pelos terroristas quando invadiram o distrito de Quissanga, forçando, inclusive, a saída do administrador distrital.

“A primeira que eles atacaram-nos, foi no período da manhã (por volta das 03h) e voltaram a atacar por volta, raptando duas. Depois disso, não regressámos mais à aldeia e foram ficar na mata, por dois meses, até chegarmos aqui (Paquitequete) ”, descreveu Miguel Momade.

No bairro Paquitequete, na cidade de Pemba, a sua irmã já vivia com seis pessoas e Miguel Momade veio com 19, o que significa que agora são 25 nesta pobre e pequena casa. Aqui, come-se o que tem e dorme-se onde der para encostar a cabeça, com um olhar de incerteza dos próximos dias.

“Essa casa é pequena. Quando chega a hora de dormir, grande parte de nós dorme no quintal. Quanto à alimentação, eu e o meu cunhado tentamos sair aí na vizinhança fazer alguns trabalhos. No fim temos algo que dá para comer dois dias”, explicou o deslocado de 55 anos de idade.

A nossa equipa de reportagem seguiu para o bairro Chuíba, também na cidade de Pemba. O aglomerado de pessoas (vestidas de roupas de muçulmanos) chamam a atenção de qualquer um.

Mais de perto vêm-se rostos incrédulos de quem já perdeu tudo para os terroristas e actualmente vive da ajuda dos mais próximos, depois de abandonar suas comunidades a norte de Cabo Delgado, deixando tudo para atrás. Com línguas diferentes, culturas próximas, hábitos e costumes diferentes, unidos por um único adjectivo: deslocados. São ao todo 37 numa mesma casa.

Bacar Ali nasceu e cresceu em Mocímboa da Praia. Polígamo e pai de oito filhos, ele viu a sua casa a ser tomada e queimada pelos insurgentes. Alguns dos seus parentes foram barbaramente assassinados sem dó nem piedade.

“Queimaram meu pai, estando dentro da casa, o meu gerente e os outros oito trabalhadores estavam na fábrica a trabalhar e também tiveram o mesmo destino. Morreram queimados dentro da empresa”, narrou Bacar Ali, deslocado da Mocímboa da Praia, com um tom carregado de tristeza.

Depois de presenciar este cenário “macabro”, Bacar saiu da comunidade, onde vivia com as duas esposas e filhos, na esperança de ter paz na vila-sede de Mocímboa da Praia, mas eis que os terroristas voltaram a mostrar quem manda naquelas terras.

“Entraram de madrugada (por volta das 03h00) e neste instante eu estava nas minhas rezas. Do lado de fora, ouvia-se muito barulho dos insurgentes e depois disso, eu e a minha família ficámos confinados dentro da casa, temendo ser mortos”, disse o deslocado de 35 anos, acrescentando que dentro de casa não tinham comida suficiente e muito menos água”.

Conseguiu sair de casa e no percurso para a cidade de Pemba, onde está refugiado com a sua família, Bacar Ali viu alguns deles. Os insurgentes têm idades compreendidas entre 18 e 50 anos e falam todas as línguas locais, incluindo o português, mas pouco ou quase nada dizem sobre as suas motivações.

“Esta última vez, eles estavam a dizer que eu e minha família devíamos sair da casa. Se continuássemos ali, eles nos iriam matar. Aqui não queremos ninguém”, sublinhou Bacar, tentando imitar o tom com que a mensagem lhe foi endereçada e Chamussia Achingo, acrescenta outras características: “Eles usam o mesmo fardamento que os nossos militares e amarram lenço na cabeça e usam chapéu”.

Comunicando com eles na sua própria língua, Bacar Ali e tantos outros ouviram a ordem dos terroristas e abandonaram Mocímboa da Praia. Bacar fez uma parte do percurso a pé e refugiou-se nesta casa, no bairro Chuíba, cidade de Pemba, onde vive com outros 36 deslocados.

E assim mesmo se desenrola a história de tantos outros deslocados que nem tiveram a oportunidade de realizar um funeral condigno para seus ente-queridos. “Mataram muitas pessoas, cortaram cabeças e queimaram casas. Passei mal. Sempre vivia nas matas e foi muito difícil chegar aqui. Quando chegássemos numa aldeia pedíamos ajuda”, relatou Flora Manuel e, com uma lágrima a lhe espreitar os olhos, acrescentou que: “raptaram a minha tia e o meu irmão foi decapitado. Não tivemos oportunidade de realizar um enterro.

E é uma guerra que nem de longe compara-se à de colonialismo português e muito menos a civil de 16 anos. Assim o diz, quem viveu os dois conflitos em Moçambique. “Nós entramos na primeira do colonialismo português, mas não mudamos de casa. Decorreu até a independência. A seguir veio outra guerra, mesmo assim não nos deslocamos. De todas elas, essa é a mais difícil porque portugueses e na guerra civil não queimavam casas e nossas coisas, obrigando a nossa deslocação”, afirmou Selemane Ali, idoso de 85 anos de idade.

Ali Mussa recebeu os deslocados e deu-lhes o que considera essencial para manter a vida neste momento de aflição: a hospedagem. O que não consegue, porém, é a alimentação para as 37 pessoas estão na sua casa.

“Não consigo alimentar a todos. O pouco que tenho dou mas, de princípio, a alimentação é cada um por si e eu deixei isso bem claro no início porque, para além destes, tenho 28 indivíduos noutras minhas duas casas”, contou Ali Mussa, que recebe alguns deslocados em suas residências, na cidade de Pemba.

Parte dos refugiados por causa do terrorismo em Cabo Delgado chegam a migrar para a província de Nampula e os que não têm familiares ou pessoa de boa-fé para recebê-los ficam nos centros de acomodação.

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