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Terra sonâmbula

Terra Sonâmbula, 1992, é o quarto livro do escritor moçambicano Mia Couto, e seu primeiro romance. Esta obra, não só olhando por aquilo que é definido pelas teorias da literatura, como também pelo impacto que a mesma cria num simples leitor, é, na minha opinião, um dos melhores livros deste autor. Diga-se de passagem, Mia Couto, para além de ser um escritor prolífico, é, igualmente, um dos mais criativos, quanto mais não seja no campo do “brincamento” da linguagem.

Terra Sonâmbula é realmente uma das suas grandes criações literárias. Creio eu que foi justamente a partir deste livro que Mia aprimora e consolida aquele linguajar muitas das vezes poetizado, que é característico dos seus textos. A sua obra como um todo, principalmente, na vertente dos diálogos entre as suas personagens, denota vários cruzamentos de “pensatempos” filosóficos, onde o absurdo parece, de alguma maneira, ganhar forma e espaço, decorrente da própria condição humana. E literatura é exactamente isso: captar, retratar, ficcionar, problematizar a realidade humana.

Mia Couto transporta consigo três mundos distintos, a saber: o da cultura ocidental, em razão de seus pais terem sido emigrantes portugueses; o da cultura africana (com ou sem profundo domínio), pelo facto de ter nascido e crescido em Moçambique, em meio urbano; e, por último, o da “cultura” individual, resultado do livre arbítrio e da racionalização de si próprio, como ser humano.

Em CRIATIVIDADE e PROCESSOS DE CRIAÇÃO, 1978, Fayga Ostrower defende que “(…) O modo de sentir e de pensar os fenómenos, o próprio modo de sentir-se e pensar-se, de vivenciar as aspirações, os possíveis êxitos e eventuais insucessos, tudo se molda segundo ideias e hábitos particulares ao contexto social em que se desenvolve o indivíduo. Os valores culturais vigentes constituem o clima mental para o seu agir. (…) Representando a individualidade subjetiva de cada um, a consciência representa a sua cultura.”

Por conseguinte, são três realidades nele confluentes e, como é natural, por vezes conflitantes, que ninguém lhe pode negar, e muito menos ele a si próprio. Além do mais, Mia fez-se escritor conservando a sua singularidade, ocupando deste modo o seu lugar no universo literário moçambicano, de per si vasto e diverso, onde todos cabem nele, sendo então possível, fora de todas as idiossincrasias, uma convivência salutar respeitando, naturalmente, as opções literárias de cada um.

Provindos, por assim dizer, de vivências e realidades diferentes, para o gáudio da literatura moçambicana, este facto leva a que a resultante produzida pelos escritores moçambicanos, no seu conjunto, seja, indiscutivelmente, este rico e invejável património literário do qual o País só se pode orgulhar.

De entre as várias definições da literatura, gosto daquela que Goethe estabeleceu, ao criar a expressão “literatura universal”, como sendo toda aquela literatura que expressa as melhores obras literárias de significação que vai para além das condições nacionais. Ora, de um modo geral, muitas das obras de autores moçambicanos, com destaque para escritores como o Mia, parece responderem a esta formulação de Goethe, na medida em que elas extravasam fronteiras, realmente para além do espaço em que elas foram produzidas. Por isso mesmo, julgo que a escrita de Mia Couto, fora e dentro do País, vai conquistando outros olhares para a sua afirmação.

Vejamos a seguir dois trechos retirados de Terra Sonâmbula:

“Cerimónia fúnebre foi na água, sepultado nas ondas. No dia seguinte, deu-se o que de imaginar nem ninguém se atreve: o mar todo secou, a água inteira desapareceu na porção de um instante. No lugar onde antes pairava o azul, ficou uma planície coberta de palmeiras. Cada uma se barrigava de frutos gordos, apetitosos, luzilhantes. Nem eram frutos, parecia eram cabaças de ouro, cada uma pesando mil riquezas. Os homens se lançaram nesse vale, correndo de catanas na mão, no antegozo daquela dádiva. Então se escutou uma voz que se multiabriu em ecos, parecia que cada palmeira se servia de infinitas bocas.

Os homens ainda pararam, por brevidades. Aquela voz seria em sonho que figurava? Para mim não havia dúvida: era a voz de meu pai. Ele pedia que os homens ponderassem: aqueles eram frutos muito sagrados. Sua voz se ajoelhava clamando para que se poupassem as árvores: o destino do nosso mundo se sustentava em delicados fios. Bastava que um desses fios fosse cortado para que tudo entrasse em desordens e desgraças se sucedessem em desfile. O primeiro homem, então, perguntou à árvore: por que és tão desumana? Só respondeu o silêncio. Nem mais se escutou nenhuma voz. De novo, a multidão se derramou sobre as palmeiras. Mas quando o primeiro fruto foi cortado, do golpe espirrou a imensa água e, em cantaratas, o mar se encheu de novo, afundando tudo e todos.”

Outro trecho:

“Espreitei o corpo na distância. Realmente, o homem estava escurecido, dessa cor estagnada dos machongos (Machongo: terra fértil de solos argilosos). E a corda, parada em sua mão, o que seria? O mesmo miúdo me contou: o homem estava a fazer uma corda para se enforcar. Dia e noite enrolava o sisal sem nunca terminar a obra. Já o inuntensílio tinha o comprimento de uma porção de metros. Não chegou a usar, não se pendurou. Faleceu assim mesmo, razões de dentro. A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco.

O morto ali ficou, na berma da estrada todo o dia. Na manhã seguinte ainda estava no mesmo lugar, louvado pela moscaria. Vendo bem, o cadáver descuidado no passeio não descondizia com tudo resto. Simbolizava aquilo que a vila se tinha tornado: uma imensa casa mortuária. Ao meio-dia um grupo de soldados veio remover o corpo. Arrastou-lhe pelos pés, ao longo da estrada. Aquele era o funeral que cabia ao anónimo desvalido: poeirando pela rua, as moscas zunzinando, contratadas carpideiras dos ninguéns.

Fiquei a ver os soldados se afastando entre as casas demolidas. O ar estava carregado, ensopado. Ao olhar o fúnebre cortejo, desaparecendo entre os escombros, me veio o pensamento: nós, que nasceremos naquele tempo, éramos os últimos viventes. Depois de nós já não havia mundo para receber mais ninguém.”

Deixo aqui espaço para que o leitor prossiga e conclua este texto, analisando este autor e a sua obra, concordando ou discordando comigo.

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