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Sustentabilidade das novas editoras em risco

Editores da Ethale Publishing, TPC e Fundação Fernando Leite Couto consideram que o Coronavírus está a comprometer a sustentabilidade das novas editoras. Entretanto, todos olham para crise como uma oportunidade de superação. Jessemuce Cacinda, Dionísio Bahule e Celso Muianga falaram do mercado livreiro nacional na véspera do Dia Mundial do Livro, que se assinala esta quinta-feira.

 

As editoras mais novas do país ressentem-se das imposições causadas pela crise sanitária que afecta o mundo, pois, em geral, não podem lançar ou comercializar os livros como faziam. Tal é o caso da Ethale Publishing, TPC e Fundação Fernando Leite Couto, a editarem há três, um e cinco anos, respectivamente.

Falando na véspera do Dia Mundial do Livro que se assinala esta quinta-feira, o editor da Ethale Publishing considerou que se a COVID-19 continuar a impor o distanciamento social no país e no mundo, não só o negócio do livro fica afectado como também as pequenas editoras poderão parar de funcionar. Ainda assim, realça Jessemuce Cacinda, é preciso olhar-se para actual situação com optimismo. “Não há dúvidas de que editoras como Ethale estão a registar enormes prejuízos com esta crise sanitária. No entanto, se conseguirmos investir a longo prazo, num futuro breve teremos enormes oportunidades”. E Cacinda argumenta: “Por mais difícil que seja, temos de aceitar que este ano dificilmente iremos continuar a lançar livros publicamente, mas há uma coisa positiva que está a acontecer. Embora não se esteja a vender bem o livro, as pessoas, devido ao isolamento social, estão a ler cada vez mais. Quando esta crise passar, teremos um mercado fértil por explorar porque as pessoas estarão mais habituadas à ler”.

De acordo com Jessemuce Cacinda, dois dos factores que favorece as pequenas editoras, nesta altura, é empregarem pouca gente e funcionarem num modelo de cooperativa. Assim, ainda que o livro circule menos e algumas livrarias estejam encerradas, não têm de se preocupar com despedimentos ou com dívidas acumuladas.

Além da situação financeira, a COVID-19 está a prejudicar a Ethale Publishing porque, tendo criado o aplicativo Ethale Books, que concentra livros de várias editoras no formato electrónico, o mesmo não pode ser disponibilizado ao público por questões de natureza burocrática. “Para obtermos a licença, há um valor que devemos pagar e as transições internacionais não estão muito facilidades por causa do Coronavírus”.

Com a Ethale Books, Jessemuce Cacinda pretende que o livro passe a custar menos, já que não vai passar pela impressão. Paralelamente, mesmo a pensar numa nova geração de jovens que nasceu com o digital, a Ethale quer proporcionar livros aos que agora lêem através do celular ou do computador. “Boa parte dos livros nacionais não chega às outras províncias do país. A Ethale Books vai permite-nos chegar a todo lado com maior rapidez e precisão”, reforçou Cacinda.

Ainda que as dificuldades sejam óbvias, a editora TPC não pensa nesta crise como um fim. De casa, os colaboradores têm trabalhado para que o livro continue a chegar às pessoas como um elemento de terapia. “Temos de ter sempre a esperança de que isto vai passar. Nós trabalhamos como editora e como tipografia e já tínhamos um conjunto de trabalhos que nos permite aguentar esta fase. Por exemplo, estamos a trabalhar na reedição de O sétimo juramento, de Paulina Chiziane. Não teremos lançamentos, mas os livros continuarão a ser produzidos num ritmo mais pausado”, afirmou Dionísio Bahule, que pretende mudar a forma de lidar com as livrarias.

Segundo o editor da TPC, certas livrarias moçambicanas não são profissionais na relação com as editoras. “Depois de vender os nosso livros, chegam a levar três meses para nos pagar. Queremos mudar de estratégia. Agora, vamos passar a ceder os livros às livrarias com a mesma percentagem que negocial, mas com a diferença de que as mesmas deverão nos pagar no momento que recebem os livros.

Para Bahule, como defende Jessemuce Cacinda, o futuro do livro dependerá da união dos formatos físicos e electrónicos. Por isso, a TPC está a trabalhar com designers, criativos e a estabelecer contactos com a Amazon, plataforma que já contempla as obras da Ethale.

Há cinco anos a editar livros, a Fundação Fernando Leite Couto adianta que o risco de as jovens editoras fecharem sempre existiu. Agora, por causa da COVID-19, chegou o momento de as editoras reinventarem-se em termos de abordagem e estratégia comercial. Este posicionamento é partilhado por Celso Muianga: “O que vai ditar o sucesso das nossas editoras é a fórmula que cada uma vai adoptar para atravessar a crise”.

Mesmo optimista, o editor da Fundação Fernando Leite Couto assume que os efeitos da pandemia são negativos porque alteraram o modelo de trabalho. “Estamos a trabalhar a partir de casa, e, para quem tem filhos menores, há interferência na produtividade. Depois, ao nível comercial, não estamos a fazer vendas directas habituais nesta altura. A Fundação tem um certo número de visitantes frequentes que, quando lá vão, aproveitam comprar alguns livros. Agora não temos isso”.

Quando a crise sanitária passar, Celso Muianga espera que o Ministério da Cultura e Turismo revisite o que considera maior legado deixado por Armando Artur para o país, enquanto ministro: a política do livro aprovada em 2011, que poderá garantir o funcionamento das editoras e a formação de novos leitores. “Essa política prevê alocação de fundos do Governo às escolas e instituições do ensino superior para apetrecharem as suas bibliotecas. Isso seria uma grande alavanca para subsistência das editoras”.

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