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Sobre queda de pontes: Especialista alerta que doadores podem estar a fazer negócio com desastres

Agostinho Vilanculos diz que o Estado agiu mal ao alterar o Regulamento de Contratação de Empreitadas de Obras Públicas, pois desvaloriza o conhecimento dos engenheiros moçambicanos, valorizando os estrangeiros. O hidrólogo vai mais longe e diz que os doadores nem sempre querem o bem e vem a Moçambique fazer negócio com os desastres.

O Plano de Gestão de Recursos Hídricos desenvolvido em 2009 sugere que são necessárias pelo menos 32 barragens para que o país consiga gerir a água em momentos de escassez e abundância. Mas, sempre os discursos políticos é de que não há dinheiro. Face a esse cenário, Agostinho Vilanculos defende que todos os moçambicanos devem pagar para ter infra-estruturas de qualidade.

“Se não temos condições financeiras, por que que não podemos ser nós os moçambicanos a mobilizar esses recursos? No meu livro, apresento a ideia que chamo de taxa de desenvolvimento de recursos hídricos. A questão que me faço é por que não podemos pagar pelo nosso bem-estar. Se tivermos que pagar um metical em todo o produto que é produzido à base de água [bebidas alcoólicas e não alcoólicas]. A boa coisa que essa tem é que é inclusiva, todos deverão pagar”, defendeu o especialista para depois reconhecer que “a gestão desses recursos é que merece uma melhor análise, por isso deixo um desafio para os economistas para que possam estudar a melhor forma de viabilizar esse projecto. O que não podemos continuar a fazer é não fazer nada”, fortificou.

“TEMOS ENGENHEIROS SENTADOS E QUE NÃO FAZEM NADA”

Noutro desenvolvimento, o hidrólogo coloca o dedo na ferida e responsabiliza o Estado pelos problemas na edificação de infra-estruturas menos resilientes. Vilanculos é, por isso, contra o actual Regulamento de Contratação de Empreitadas de Obras Públicas. “Esse regulamento tem que ser revisto. Em 2009, fiz uma consultoria para o Estado, foi esse estudo que me fez mudar como profissional, mas esse novo regulamento veio tirar-me essa possibilidade. O Estado deve produzir profissionais com mentalidade elevada. Tem que dar a oportunidade das pessoas investigarem e deve criar mecanismo de financiar esses quadros.

A NASA, USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos) são do Estado americano e são elas que desenvolvem estudos para o Governo, em Moçambique, isso já não é possível porque esse regulamente impede que isso aconteça. No Estado, temos engenheiros, mas não fazem nada. Se é júnior, aparece um chinês com um projecto muito grande e lhe pede para fazer comentários. Este porque nunca viu algo semelhante, não terá argumentos porque não lhe é dada a possibilidade de investigar. No Estado, os engenheiros ficam sentados e não desenvolvem mentalmente”, lamentou.

 

DIRIGENTE DIZ QUE MÁ QUALIDADE É PROPOSITADA

Vilanculos vai a fundo e diz que, em Moçambique, os desastres são um negócio, cujos beneficiários, em algum momento, são os doadores.

“Ninguém virá aqui com boa vontade construir infra-estruturas resilientes. Os desastres são um negócio. Quando o doador vem, lhe dá dinheiro e ele mesmo é que constrói ele irá construir algo para se destruir em pouco tempo para que possa voltar e fazer o mesmo negócio. Se continuamos assim, será do jeito deles e não do jeito que nós queremos que seja. Agora, se somos nós a estudar, a dimensionar as prioridades, com os nossos próprios recursos aí sim, teremos maior possibilidade de tomar as nossas decisões e escolher a melhor tecnologia a aplicar nas nossas tecnologias”, explicou.

O docente universitário e director do Departamento de Gestão de Recursos Hídricos, na Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos sugere que grandes empreendimentos deveriam passar por uma consulta dos engenheiros nacionais e do Conselho de Ministros, para avaliar a sua qualidade pois trata-se da vida dos moçambicanos que está em causa.

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