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“Se tu não escreves a verdade sobre a tua terra, quem fará por ti?”

Paulina Chiziane entende que os moçambicanos devem reivindicar o direito de escrever sobre a sua própria terra e cultura. A escritora interveio esta quinta-feira, na Associação dos Escritores Moçambicanos, Cidade Maputo, onde foi felicitada pelos seus confrades por ter sido laureada Prémio Camões 2021.

A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em parceria com o Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC), organizou uma sessão literária para felicitar Paulina Chiziane pela atribuição do Prémio Camões 2021. Entretanto, na esquina entre as avenidas 24 de Julho e Amílcar Cabral, na Cidade de Maputo, a escritora, quando teve a palavra, foi muito além do que agradecer pelo gesto.

Ao dirigir-se aos escritores e aos leitores, sobretudo os mais jovens, Paulina Chiziane fez um discurso muito voltado para o que entende por africanidade. Nesse capítulo, a autora de Balada de amor ao vento, livro lançado em 1990, na AEMO, disse que as grandes obras que tratam de África, da africanidade e da identidade africana aparecem muito na língua inglesa e na língua francesa. Na língua portuguesa não aparece quase nada. “O que nós produzimos do pensamento africano, da vivência africana, do conhecimento africano? Nada. Sabem porquê? Porque nos negamos. Queremos ser aquilo que jamais seremos”.

As perguntas retóricas colocadas por Paulina Chiziane, na verdade, serviram para a escritora sustentar uma ideia: “Esta terra é tua. Se tu não escreves a verdade sobre a tua terra, quem fará por ti? Vais esperar que venha o missionário, aquele velho colonialista para vir escrever o que quer sobre ti?”.

Segundo a primeira mulher africana a conquistar o Prémio Camões, ao tentar preencher o vazio relativo à falta de informação sobre a africanidade, foi mal compreendida no seu país. No entanto, fora, o cenário foi bem diferente. “Tentei, com Ngoma yethu, começaram a apedrejar-me. Será que o africano, o negro, a cultura bantu não tem capacidade de interpretar a Bíblia Sagrada? Fiz esse desafio, e depois? O livro que era rejeitado em Moçambique, é um livro que hoje está a ser celebrado fora. As pessoas diziam Ai, que horror! Isto é obscurantismo. Vão lá ao Brasil para ver como os brasileiros apreciam e respeitam [Ngoma yethu]. Vão aos países da América Latina e alguns da Europa, incluindo grupos religiosos interessados em conhecer a cultura africana. É um crime fazer isso? Não é para reclamar, é apenas para dizer África, liberta-te!”.

Ainda na AEMO, Paulina Chiziane afirmou que, enquanto escritora, cometeu muitos erros. Algumas vezes, a autora lê os seus textos antigos e não se reconhece. “Há casos que olho para aqueles textos e digo Meu Deus, fui eu que escrevi isto?! Mas eu não podia deixar de trabalhar porque o português não era o melhor… Com aquele meu recurso linguístico fui capaz de ir construindo gradualmente, crescendo”.

Além de ter lançado o seu primeiro livro da AEMO, Paulina Chiziane é membro efectivo daquela agremiação literária, instituída a 31 de Agosto de 1982.

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