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Sangare Okapi – a outra margem da poesia

Não somos os únicos, mas é urgente que se diga: pertencemos ao grupo de certos povos que cuidam pouco, ou quase nada, dos seus escritores. Daquilo que escrevem e pretendem transformar em memória. Por isso, principalmente para fechar essa lacuna de fixação da memória, de análise crítica literária, decidi não hesitar, decidi estar aqui, não porque seja capaz de elaborar o melhor exercício crítico sobre o poeta Sangare Okapi, mas sobretudo porque, mais do que  nunca, é preciso escrever, não apenas sobre os que escrevem, mas sobretudo sobre aquilo que escrevem. As palavras que se seguem não podem, de maneira nenhuma, ser consideradas verdades insolúveis, mas sim, e acima de tudo, simples vertigens de afecto que sinto em relação ao poeta e àquilo que escreve.

Sangare Okapi. Sem dúvida nenhuma um nome estranho. Como, aliás, são estranhos os nomes dos grandes artistas. Os nomes são estranhos, dizia o escritor e Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. Os nomes são justos, como ensinaria Platão no seu Crátilo. Um dia, perguntei ao poeta, a origem do seu nome, e ele disse-me: Sangari é um nome que me foi sugerido pelo meu amigo e poeta Ruy Ligeiro. Eu apenas lhe acrescentei o epíteto Okapi, nome de um quadrúpede característico da região do Congo, na África Central, mas também conhecido como navalha, nos meandros do crime, África do Sul. E depois o poeta acrescentou: “Sangari Okapi é o que é, armadura do cidadão Cardoso Lindo Chongo.

Começo esta conversa modesta com uma afirmação que é um lugar comum para os que acompanham atentamente a poesia moçambicana, isto é, que Sangari Okapi é uma das vozes poéticas mais interessantes dos escritores “mais novos”, digo “mais novos”, e não da nova geração, porque sempre detestei situar os escritores em termos geracionais. Os escritores são aquilo que são, aquilo que escrevem é aquilo que os representa, identifica, os projecta ou coloca na periferia da literatura. Apenas isso. E arrisco-me a proferir, talvez, uma afirmação exagerada: a de que Sangari Okapi é um poeta genial. Genial é para mim um poeta que teve a capacidade de não entrar em lugares-comum, de não escrever como o outro, de ter uma voz própria. É isso que o identifica, embora considere alguns dos seus escritos “demasiadamente elaborados”, talvez porque o Sangare, utilizando a feliz expressão do escritor Suleiman Cassamo, constrói a sua poesia com a mesma delicadeza de um ourives a concertar um relógio suíço. Confesso que me deixo surpreender, muitas vezes, pela poesia de Sangare Okapi, a reinvenção da palavra, a frase exacta, a ideia poética funcionando como uma fórmula matemática. Esta preocupação com a palavra faz recordar o poeta Sebastião Alba ao afirmar que escrevia com terrível dificuldade. “reescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem o espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se”. E eu digo: deve suar muitas vezes o poeta Sangare quando escreve os seus versos! Talvez seja por esta razão que nunca construiu uma poesia de distraído rigor, a sua escrita é elitista, se me permitem utilizar esta expressão, e entrecruza-se com a poesia mais erudita que se produz nos nossos dias.

Como uma pequena provocação, e não mais que isso, direi que pertenço a uma geração onde a poesia fluía como um rio, a palavra límpida, directa, talvez influenciado por julgar que as pessoas são pouco propensas à ler uma coisa que não entendem, entre aspas. Por essa razão, por exaltar a simplicidade, sempre admirei o Craveirinha, o Mutimati Barnabé João, o Khambira Khambirai ou a narrativa densa e simples duma Paulina Chiziane. Mas entendo, também, que é necessário promover a pluralidade da escrita, para que a literatura não seja enfadonha, quer dizer, repetitiva.  É necessário que aconteça a tal subversão da escrita a que um dia fiz referência na revista Charrua, de modo a substituir uma literatura de combate, panfletária, própria dos tempos que se atravessavam, do contexto histórico-cultural e dos valores sociais e estéticos dominantes desse momento. Tornava-se, pois necessário, criar uma outra forma de discurso poético, arriscando-se por caminhos complexos que, muitas vezes, o discurso engajado não proporciona.

De resto, essa minha preocupação sobre a subversão, viria a ser retomada tempos depois por Jéssica Falconi em As margens da Nação, na poesia de Sangare Okapi, onde se referia ao facto de que terminada a longa noite colonial, com toda a sua violência e a indefectível mentira do império ultramarino, seus poetas  procuram desconstruir os cânones impostos pelo colonizador europeu enaltecendo, por meio do verbo poético, o chão moçambicano e a pluralidade étnica ”. E digo: essa desconstrução poética também exigiu e continua a exigir, uma outra forma de palavrar, de construir a poesis, de buscar a sua autenticidade num universo literário em que é preciso ter, mais do que nunca, uma voz própria, sem deixar de evocar os lugares de pertença, de recuperar a herança cultural e de exaltar a cidadania. Penso que este é, nos nossos tempos, o maior desafio do escritor moçambicano.

Senti uma imensa satisfação ao ler os livros do Sangari Okapi. E também essa sensação de agrado que se sente quando se lê aquilo que nos pertence, provavelmente porque nós, os escritores moçambicanos, temos uma imensa dificuldade de nos lermos uns aos outros. Falava, aliás, o Luís Carlos Patraquim, dessa sua suspeição, que também é minha, que os autores moçambicanos não lêem os outros autores moçambicanos, e enquanto isso não acontecer é porque estamos descentrados, é porque há uma excentricidade  no sentido etimológico do termo que ainda não nos precipita para dentro. Na verdade é preciso que entremos no texto do outro, que aconteça um cruzamento de expressões narrativas, que haja um conhecimento mútuo. Se isso não acontecer, é muito difícil falar em literatura moçambicana, porque esta vai aparecer como um corpo fragmentado.

Voltemos ao Sangari Okapi. Sei que escreveu seis livros. li o “inventário de angústias” com aquela curiosidade com que se lêem os livros de estreia. O primeiro livro na vida de um escritor, exceptuando o dos génios, é uma dor de cabeça para toda a vida. Há os que não se revêm nele depois que o livro é publicado. Alguns o rejeitam. Fazem dele um filho órfão de pai. Sangare teve o privilégio de escrever “o inventário de angústias” com a bênção dos seus deuses. A crítica lhe foi favorável. As portas para a sua visibilidade poética se abriram e Sangare, entrou através dessas portas com a mesma altivez com que entrava, amiúde, nos agitados lugares de folia do Bairro de Aeroporto, sem nada nos bolsos, sem nada nas mãos, mas com muita poesia na alma.

Para o filósofo Dionísio Bahule, o «Inventário de Angústias ou Apoteose do Nada» do Sangare Okapi traduz esta estética ?losó?co-literária que se instala no centro do trágico e na visão dramática da condição humana, como também, nas contradições e carências do País que se chama Moçambique. E acrescenta, o filósofo Bahule, as palavras-Chave que constituem o epicentro do livro e que são: Ser. Angústia. Poesia. Existência. Literatura. E é exactamente o conflito existencial que encontramos neste verso:

 

“Antes estar só era casual.

 Agora estar só é um ritual”

Estar só é uma espécie de dádiva do homem. Está-se só quando se nasce. Está-se só quando se morre. Mas o maior calvário da solidão é a solidão que se vive enquanto estamos vivos. Sangare Okape sabe disso. O seu inventário de angústias é  interminável, e aqui me socorro a estudiosa Sara Jona que no seu estudo “homenagem grandiosa a angústias surgidas do nada”, fez o inventário de algumas delas extraídas do livro em questão: “a angustia me acontece, me atravessa”- “guardo as minhas mágoas como se de lagoa se tratasse, pois sou todo uma mágoa” – “a angustia invade, sufoca e castiga” – “nada mais quero ser senão esta apoteose do nada que me cerca”. E as citações das angústias do Sangare prosseguem. Mas para além de todas estas angústias, de todas estas solidões, existe a pior de todas, que é, indiscutivelmente, a solidão do artista, que o vitimiza devido a sua fragilidade emocional acentuada pelo esforço da criatividade literária. Mas o Sangare já se habituou, porque “agora estar só é um ritual”.

Num outro momento li Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo. São poemas de amor. Esse amor que escasseia na sociedade. Ou então se expressa de forma incongruente. O amor que as nossas palavras e os nossos discursos apregoam mas que nunca acontece. São poemas de amor os poemas deste livro. Embora seja um amor desencontrado, ou impossível, ou porvir, é de amor que o livro nos fala. É de paixão. É o amor pela mulher. Pelo seu corpo, esse altar que todos anseiam pisar para excomungar os seus desejos. É o amor pela Ilha, lugar onde a pátria começou e a ideia da nação se tornou mais forte, lugar onde Lacerda, Knopfli, Nelson Saúte, Adelino Timóteo e outros poetas apaziguaram as suas almas nas águas de Muhipiti. E como diria Nelson Saúte, “falas e gentes, culturas e povos reencontram-se, em sagração, na encruzilhada secular desta Muipiti, incrustada no Índico, mirrando pachorrenta o Oriente, na inédita cumplicidade entre o macúti e a pedra e cal, o maulide e o açafrão, o m’siro e o colar de prata, o caril e o tufo!”. É nesta sagrada ilha para onde Sangare decidiu aportar com o seu barco e é nela que o seu amor se revitaliza:

 

A luz solar dos teus olhos líquidos

Chega-me suada pela vidraça da fortaleza

  E a tua voz, que é música, se erguendo no ar,

  Salgada e nua sinto-te no litoral da língua

  E nenhuma garça agarrada ao estendal do vento

  Me ensina o poema.

  Sou agora a música, o poema, a garça sem graça

  No falso relógio da demora.

E em mais uma viagem para dentro de si próprio, Sangare escreveu e depois fez questão de nos apresentar “Os poros da concha”, que algumas vozes auguravam como sendo o livro da consagração do poeta. Não sei se o terá sido. Porque se isso acontecesse seria, sem dúvida nenhuma, a morte anunciada do poeta, porque uma obra literária nunca é completa, nem insuperável, ela apresenta sempre algumas lacunas, incongruências, e as vezes alguma incompetência comunicativa. E ainda bem que é assim, para que o escritor sinta sempre essa vontade de superação, para o bem dele e da literatura.

 Recordo-me que o lançamento desta obra seguiu um ritual diferente. Os discursos longos e fastidiosos colocaram-se de lado. Privilegiou-se a conversa aberta sobre o autor e a obra. O novo livro de Sangari tornou-se o protagonista principal. O efeito foi agradável. Escreveram-se alguns ensaios sobre o livro. José dos Remédios emprestou-nos a sua análise da seguinte forma: “Os poros da concha é um bom livro do ponto de vista do rigor vocabulário. Por isso, o poeta consegue sugerir situações eróticas sem baixar o nível da linguagem ou sem dizer o que é bom de imaginar: “estirpe e tese teu corpo/ alguma realidade oculta/ ou doce vagem insepulta// à vista apetecível o ninho/ na blusa lis em desalinho” (p. 29). Onze páginas antes, encontramos o seguinte texto: “atalhados sentidos na erecção do caule// maduro o fruto adocicado entre as coxas/ ou húmido o musgo na bexiga que a mão/ te alcança nua e secretamente vegetal” (p. 18). Erecção, caule, frutos e coxas são palavras agradáveis de ler neste livro constituído por 54 páginas. Há também o peito, os seios: “como o antílope pulando na savana rubra/ vejo-te os seios rijos no peito convidando/ a fome apetecida e excelsa sem candonga (p. 52)…).

Mas os melhores ensaios sobre “os poros da concha”, foram aqueles que nunca se escreveram e obviamente nunca publicados. Foram os que amiúde se escutavam nos corredores das conversas literárias e nas mesas dos bares, entre um cigarro, uma bebida e um riso solto, terá sido nesses corredores informais, nessas conversas descomprometidas, que o último livro de Sangare se fez presente e se  divulgou, tornando-se um ponto de referencia sempre que se falava da poesia que hoje se escreve em Moçambique. A observação mais interessante sobre “os poros da concha” foi a do próprio Sangari Okapi, quando sobre a sua última obra, disse e cito: “Os que leram o livro dizem que é um dos meus melhores projectos literários. Quero acreditar que o amor vem à tona, com exercício na construção da imagem, investimento ao nível de técnicas de escrita para mostrar que a minha literatura não está estática, é dinâmica e de uma oficina de trabalho árduo”. Fim de citação. Quem realça os atributos da obra é também o escritor e académico Lucílio Manjate, ao afirmar que “É um livro forte de emoções, com uma visão de crítica social extremamente exacerbada. Há um tom de desilusão, do apontar o dedo, do tocar a ferida, mas tudo feito num tom poético altamente conseguido. Eu me atrevo a dizer que este é um livro altamente conseguido do ponto de vista poético”

E para colocar um ponto final a esta tentativa de conversa sobre o poeta Sangare, nada melhor que citar um outro poeta, o Álvaro Taruma, ao dizer: “Admiro ainda quem impune passa pelos livros, alheio a toda esta névoa solar,  eu soçobro em febres como o animal ferido de um incendiário espanto”. Fim de citação. E eu admiro todos aqueles que passam impunes diante da poesia de Sangare Okapi, sem que se sintam seduzidos, sem que haja um chamamento capaz de os conduzir a viagens poéticas passiveis de modificar a percepção que tem da literatura moçambicana. Sem que sejam capazes de se enternecer perante um Sangare Okapi que vem se consolidando como o mais radical e inovador poeta de sua geração.

 

 

10 de Março de 2020

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