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Sandra Tamele debate sobre tradução literária e negoceia direitos autorais na Feira de Sharjah

Sanda Tamele participa, desde este domingo, na 39ª Feira Internacional do Livro de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos. Naquele país asiático, a editora e tradutora está pelo segundo ano consecutivo, e falou na abertura da 10ª Conferência de Editores.

 

A editora Trinta Zero Nove, de Sandra Tamele, candidatou-se uma vez mais a uma bolsa da maior feira do mundo árabe: A Feira Internacional do Livro de Sharjah, que, este mês, acontece pela primeira vez no contexto de COVID-19. Ao contrário do que se passou com a Feira de Londres, que foi cancelada, e com a Feira de Frankfurt, cuja edição foi online/ digital, a Feira de Sharjah optou por reduzir o número de participantes, de 650, número do ano passado, para 130 nesta edição, dando privilégio a encontros presenciais aos editores.

Essencialmente, Sandra Tamele está a participar de uma Conferência de Editores que vai durar deste domingo até terça-feira, com sessões plenárias e momentos dedicados a negociação de direitos autorais que terão apoio financeiro de 330 mil dólares, cedidos pelo Sheik Sultão Muhammad Al Qasimi, para a tradução literária. Afinal, na opinião do mecenas, as editoras conseguem fazer mudanças nas sociedades através da palavra escrita e traduzida.

O painel em que Sandra Tamele participou, na Conferência de Editores, de facto, debateu sobre tradução de livros e sobre como encontrar novos leitores. Nesse encontro, a editora e tradutora moçambicana esteve com Hassan Yaghi, Director Editorial da Dar al-Tanweer do Líbano; Marcia Lynx Qualey, Editora Fundadora da ArabLit de Marrocos; e (como moderador) Trevor Naylor, Director Associado da Universidade Americana do Cairo, no Egipto. “Basicamente, nós falamos do que é publicar livros traduzidos e como conseguir novas audiências para quem lida com autores nunca antes traduzidos. No painel tentamos responder a várias perguntas, desde as relacionadas com a qualidade da tradução, aceitação e viabilidade”.

Além disso, na Conferência dos Editores, Sandra Tamele apresentou a história da Trinta Zero Nove, “que está ligada à minha história pessoal e ao meu percurso profissional. Eu venho de uma família trilingue, na teoria, mas que, na prática, acaba sendo monolingue. O meu pai é machangana e a minha mãe é kinwani, e eu acabo tendo português como língua materna. Isto gerou em mim esta vontade de querer traduzir, esforçando-me em traduzir textos de línguas originalmente europeias para as bantu de Moçambique”.

Durante a intervenção na sessão deste domingo, Sandra Tamele explicou como o percurso da Trinta Zero Nove a fez mudar da sua profissão de arquitecta para a de editora e os desafios que isso acarreta, desde a criação de uma nova geração de leitores, que é a sua paixão. “O contacto com as crianças encheu-me de alento e elas têm curiosidade em saber o que eu publico. Essa curiosidade fez-me procurar títulos que os adquiri (dois) aqui na Feira de Sharjah, ano passado, designadamente, Sabes o que eu vejo?, que publicamos no Dia da Bengala Branca, 15 de Outubro, em formato digital e em áudio-livro em braile. A outra história é A Ana e os três gatinhos”.

A nova aposta da Trinta Zero Nove, em relação aos infanto-juvenis, vem ao mesmo tempo que a editora lançou uma loja online. Tudo isto foi apresentado numa audiência que, segundo a tradutora, estava à espera que a editora moçambicana fosse ao evento com narrativas choramingueiras. “Eu disse que era um momento de deixarmos disso, que, apesar de todas as dificuldades ligadas aos índices de analfabetismo e desenvolvimento humano, há que pensar que temos iniciativas pequeninas, mas excelentes. Estou a investir em minhas poupanças pessoais. Mesmo assim, o nosso website já tem contos nas línguas moçambicanas: cicena, emakhuwa e xichangana, tanto para adultos como para crianças, disponíveis a 20 MT, mesmo para tentar contrariar aquilo que as pessoas falam. Se compram três cervejas a 100MT, eu quero que amanhã possam comprar três livros ao mesmo preço”. Quando Sandra Tamele disse isso, a audiência riu-se, porque para eles é um conceito diferente. “Tive um feedback muito positivo porque as pessoas não sabiam nada sobre Moçambique e temos boas reacções da nossa participação”.

 

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