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Restos mortais de Sérgio Vieira vão a enterrar hoje

Foto: Observador

No passado dia 16 do mês em curso morreu Sérgio Vieira, e as cerimónias fúnebres se realizam hoje, na Cidade de Maputo. O jornal “O País” lembra, a seguir, parte do percurso histórico do combatente de luta armada de libertação nacional.

A 4 de Maio de 1941, no Chimaze, em Tete, nasceu um dos filhos do casal Francisco e Inês. Quis o destino que nascesse em casa, e, quando veio ao mundo, baptizarm-no Sérgio.

De origem goesa, por parte de pai, e moçambicana, por parte de mãe, Tete sempre foi o lugar de pertença de Sérgio Vieira. Ali cresceu e aprendeu o sentido da coragem. Motivado pelo pai, já aos nove anos de idade, matou a tiro dois leões.

À parte esse episódio invulgar, como vários meninos do seu meio, Sérgio Vieira cresceu banhando-se no Rio Zambeze, ora caçando rolas ora buscando ovos de crocodilos que depois levava a casa. A coragem e a ousadia sempre o caracterizam.

Entre 1947 e 1951, frequentou a Escola Baptista Coelho, na sua então vila natal. Quando terminou o ensino primário, partiu para Cidade da Beira, onde, por pouco tempo, estudou na Escola de Artes e Ofícios, perto da Catedral local.

Graças a Dom Sebastião Soares de Rezende, então Bispo da Beira, Sérgio Vieira foi admitido a um colégio de jesuítas em Portugal. A viagem à Europa aconteceu num DC4 da Pan American Airways, via Joanesburgo. Em Na então metrópole da colónia, Sérgio Vieira frequentou o ensino liceal no Instituto Nuno Álvares, onde foi várias vezes alvo de racismo.

É em Portugal que inicia relações de amizade com personalidades importantes, como Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Fernando Ganhão, Hélder Martins ou Gualter Soares. Em Lisboa, em particular na Casa dos Estudantes do Império, Sérgio Vieira inicia-se, nos finais dos anos 50, na actividade política de forma clandestina.

Já com um sentido de pertença a um território, organiza, inclusive, campanhas de apoio moral e financeiro à mulher do angolano Agostinho Neto, quando este se encontrava preso pela PIDE.

Farto do controlo e das ameaças do regime colonial português, no entanto, Sérgio Vieira foge de Portugal em 1961. A fuga acontece um pouco depois de ter sido avisado que a PIDE iria prendê-lo, graças a um amigo seu, filho do então Secretário-Geral do Ministério do Interior. E com ajuda da família de Paulo Portas, incluindo o pai e a avó do político português, Vieira atravessou a fronteira portuguesa a 8 de Dezembro de 1961, partindo para França.

Em Paris, Sérgio Vieira beneficiou-se de uma bolsa de estudos da CIMADE, organização ligada ao Conselho Ecuménico das Igrejas, arranjada por Eduardo Mondlane. O dinheiro, entretanto, não dava para muito. Por isso teve de trabalhar sempre, por exemplo, na fábrica de viaturas Reunalt.

Em 1962, parte para estudar em Bruges, na Bélgica, onde estagiou no Colégio da Europa. Mas, a essa altura, intensificavam-se os ventos da mudança. Sempre na clandestinidade, Sérgio Vieira junta-se a FRELIMO como membro fundador.

Nos finais de Maio de 1963, Sérgio Vieira é enviado pela FRELIMO a Rabat, capital de Marrocos. Ali interage com importantes nacionalistas, como Amílcar Cabral, Mário de Andrade e Aquino de Bragança.

Sérgio Vieira acreditava que a sua geração, entre insuficiências e erros, cumpriu o que se propôs, construir a moçambicanidade, por vezes, com utopias que violentaram a sociedade. Ainda assim, para o combatente de luta armada de libertação, foi possível a edificação do sentido de unidade nacional e a proposição de bases para o desenvolvimento económico e social.

Sérgio Vieira entendia ser função do Estado fazer face ao imperativo de erradicação da pobreza, à capacitação da pátria para nova revolução científica e tecnológica, de modo que Moçambique não permanecesse na periferia, subordinado ao primeiro mundo.

Vieira também defendia a necessidade de ser dada a possibilidade de os jovens conhecerem a história gloriosa da pátria. Fez-se um homem de esquerda, acreditou no socialismo e mostrou-se adverso ao capitalismo ou ao neoliberalismo.

Sérgio Vieira foi um homem crítico, polémico, de convicções fortes e patriota. É autor de Também memória do povo, livro de poesia, e Participei, por isso testemunho.

No passado dia 16 deste mês de Dezembro, aos 80 anos de idade, o combatente da luta armada de libertação nacional, pai de quatro filhos, cedeu à morte, vítima de doença.

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