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Requalificação de mercados “empurra” mulheres para desgraça

Cerca de 70 mulheres, dentre elas as que perderam bancas com a requalificação dos mercados, receberam, hoje, uma cesta básica oferecida pela Organização da Mulher Moçambicana (OMM). A OMM prevê abranger perto de seis mil mulheres dos distritos municipais de Maputo.

Em nome da chamada requalificação de mercados por, supostamente, terem sido detectados casos positivos do novo coronavírus, muitos vendedores foram retirados das suas bancas e depois de todo o processo, nunca mais voltaram a ter o seu “cantinho” para fazer negócio e sustentar suas famílias.

Dona Cecília Sitoe tem 56 anos de idade e é solteira. Exerce o comércio desde os tempos do Nwankakana, mas com a construção da ponte Maputo-KaTembe, perdeu a sua banca e a sorte sorriu para si e conseguiu uma banca no mercado Malanga, mas quis a COVID-19 que ela voltasse a perder o espaço, mas desta vez, para a chamada requalificação dos mercados depois de, supostamente, detectados alguns casos do novo coronavírus.

“Há uma semana, fui comprar (a grosso) na esperança de ter a banca, mas quando lá cheguei, a minha banca estava ocupada e voltei com a minha mercadoria e toda ela apodreceu”, contou Cecília Sitoe, uma das vendedeiras, num tom amargurado e resignado, “agora, tudo é em cima de banca e eu não tenho banca”.

Ainda que o passado tenha sido coroado de desgraça e pouca sorte, Cecília Sitoe não se verga diante das ciladas da vida até porque tem uma neta por alimentar e pagar seus estudos.

“Ficar sem o que fazer não era solução. Descobri este negócio (venda de máscaras e chapéus de capulana) e uma amiga é que faz para mim. O pouco do lucro que consigo junto para poder sobreviver”, revelou Cecília, acrescentando que vive com sua nega cuja mãe está na vizinha África do Sul e nada tem feito para ajudar “pior com esta situação de coronavírus, nada se faz. Isso é a pior coisa da minha vida”.

Na verdade, a história da Cecília é reflexo das várias outras mulheres que estão numa situação igual, ou pior, que perderam suas bancas com requalificação dos mercados no contexto das medidas de prevenção do novo coronavírus. Algumas pela idade, já não conseguem ir atrás da alimentação.

“Eu não faço nada. Só tenho vindo para a sede da OMM aqui em Maputo a fim de fazer um e outro trabalho, mas nesta época de crise não estou a fazer nada. Só fico em casa”, disse Laura Avelino de 75 anos, com uma voz tremida pela idade.

E nesta terça-feira, pelos 70 destas mulheres receberam da Organização da Mulher Moçambicana, OMM, uma cesta básica para garantir alimentação pelos próximos sete dias.

“Este gesto é direccionado às mulheres solteiras, mães viúvas, as mulheres que perderam seus bens com a reorganização dos mercados. Nós vimos uma necessidade de, através dos nossos parceiros, conseguirmos angariar bens, sendo que neste distrito municipal, estamos a fazer uma réplica do que aconteceu na sexta-feira no KaMaxaquene”,

Ainda nesta campanha, serão abrangidas cerca de seis mil mulheres dos sete distritos municipais de Maputo.

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