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Relatório expõe dramas e gritos de socorro de crianças refugiadas em Cabo Delgado

Documentação perdida, pais desaparecidos, discriminação nas escolas e necessidades básicas não atendidas. Estes são os retratos da situação das crianças deslocadas pelas acções terroristas em Cabo Delgado, traçado num relatório da Save the Children, que dá voz às vítimas.

O relatório, que sai amanhã ao público, tem como título “Ouvindo a Voz das Crianças em Cabo Delgado” e foi produzido com base em depoimentos de mais de 180 crianças, com idades entre 12 e 17 anos, que têm, como principal aspecto comum, o facto de terem sido forçadas a abandonar as suas zonas de origem e residência habitual por causa da guerra.

Em centros transitórios ou famílias de acolhimento, as crianças, muitas das quais sem qualquer documento de identificação, falam, no relatório, das suas preocupações e receios.
“Eu gostaria de poder ter minha certidão de nascimento e BI, novamente. Perdi todos”, disse uma menina de 16 anos do distrito de Metuge, citada no relatório.

Depois de terem testemunhado várias situações de terror e lutado dias e noites pela vida, à procura de lugares seguros, muitas das crianças desconhecem, hoje, o paradeiro dos pais e membros directos da família.

“Alguns de nós não estamos com os nossos pais neste centro (trânsito) e não estamos em contacto com eles. Não sabemos onde estão”, disse uma das fontes, de 12 de idade, que, segundo o relatório, faz parte de, pelo menos, 384 crianças que foram separadas dos progenitores, nos ataques registados nos finais de Março, no distrito de Palma.

INSERÇÃO ESCOLAR 
Outro problema relatado pelos deslocados tem a ver com inserção nas escolas. Segundo o relatório, as crianças reclamam de falta de oportunidades de frequentar a escola, por dificuldades que incluem a falta de material didáctico.

“Há escolas aqui, mas alguns de nós não vão, porque faltam materiais escolares e uniformes” disse uma menina de 16 anos de idade, residente no distrito de Meconta que apontou, também, a falta de escolas secundárias, como outro problema.
Por outro lado, as crianças reclamam, segundo a Save the Children, de questões relacionadas com a “saúde e exposição a doenças”.

“A água do tanque é salgada, por isso bebemos água a partir de poços, embora tenhamos sido informados para não beber, por causa da cólera”, disse um menino de 17 anos de idade.
De acordo com a Save the Children, entre Janeiro e Março deste ano, um total de 3,334 casos de cólera e 179,967 casos de malária foram registados em Cabo Delgado.

Preocupações à parte, “as crianças deslocadas identificaram alguns aspectos positivos na situação em que, actualmente, se encontram, nomeadamente, o acolhimento comunitário.

Para o Director Geral da Save the Children em Moçambique, Chance Brigs, destacou a importância do relatório, para dar a conhecer as histórias dos dramas das crianças refugiadas, pela sua própria voz.

“As crianças estão a sofrer desproporcionalmente neste conflito e precisam de atenção especial. Chamamos à comunidade de doadores, para garantir que o financiamento para as necessidades das crianças seja priorizado. Isso inclui fundos para protecção, saúde, educação e garantir que as crianças obtenham a saúde mental e o cuidado psicossocial e o apoio de que precisam”, disse, citado no comunicado de imprensa, alusivo ao lançamento do relatório, que terá lugar nesta quinta-feira, na cidade de Maputo.

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