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“Recados da alma”: o livro dos reencontros

A ideia de promover um reencontro entre moçambicanos e a História, em parte, é a que moveu Bento Baloi a escrever o seu romance. Para o escritor, contar as peripécias do que se passou numa época tão conturbada como foi a colonial, por exemplo, permite “caminhar para a edificação da nossa moçambicanidade”.

Recados da alma é o título do seu romance. Que recados são estes?

Costumo dizer que estes são recados de nós próprios, recados dos moçambicanos, da nossa História, do nosso passado e do nosso presente. É um livro que nos permite perceber alguns contornos da nossa História recente, o que houve e, acima de tudo, para agregarmos valores sobre diferenças étnicas e raciais, de modo que juntos possamos caminhar para a edificação da nossa moçambicanidade.

Como acontece este livro?

Sempre quis enveredar por este caminho. Num desses dias estava a escutar programa de rádio, sobre algo que aconteceu em Angola, relacionado a conflitos entre comunidade portuguesa que voltava a Luanda e a comunidade local, por causa das oportunidades de emprego, estamos em 2002 mais ou menos. A partir daí, comecei a construir as ideias e a estória. O livro levou por aí quatro anos.

Eugénio foge de um destino, quando persegue outro. Quis fazer desta personagem uma personificação do moçambicano de um período?

Eugénio tem esse perfil, de um homem de luta, da força do amor. Mas não é só ele. Aliás, interessa-me que os meus leitores possam identificar-se pelo menos com uma personagem ao lerem o livro. Se isso não acontecer, quero acreditar que o leitor vai encontrar uma estória idêntica a de uma pessoa conhecida. Nós encontramo-nos no livro, como moçambicanos.

Andamos perdidos?

O encontro aqui é no sentido de nos identificarmos com uma realidade.

De facto, Eugénio é um profundo exemplo da força do amor. Esse retrato é sobre um sentimento que acredita ou é sobre algo que gostaria que existisse?

A força do amor atravessa fronteiras da raça, da religião, da etnia. Essa é a mensagem que se procura traduzir. Num ambiente de forte tensão racial no livro, que caracteriza o período de transição da era colonial à independência, o amor triunfa, para mostrar que sendo preto ou banco somos todos seres humanos. E como testemunhei algumas coisas quando era miúdo, senti a necessidade de trazer este tema aos mais novos, porque sei que há muitos jovens que não sabem que tivemos uma tensão racial muito forte na Cidade de Maputo, acompanhado de matança, sem querer trazer de volta remorsos ou sentimentalismo. A ideia do livro é colocar a História ao serviço da juventude, porque eles não têm a noção exacta do que aconteceu.

Quer que o seu leitor se reencontre-se nesta estória. Como autor, conseguiu alcançar essa pretensão?

Sim, eu consegui reencontrar-me comigo.

Além de contar a estória de forma grave, investe no humor. Foi mesmo para suavizar um pouco o romance quando introduz no enredo uma personagem engraçada: Original?

O Original é daquelas criações que resultam do truque da escrita. Foi das últimas personagens a ser inventada, porque senti que o livro estava a ser muito seco. Então, para reverter o cenário, inventei o Original, muito gingão, quem consegue garantir uma lufada de oxigénio e humor à estória.

Já agora, não acha que foi demasiado duro com a personagem Mafalda, ao colocá-la na condição de retornada a Portugal (grávida de Eugénio), sem que nunca tenha lá estado?

Gostava de não ter sido duro, mas o enredo assim o exigiu, e a vida nem sempre é a quilo que gostaríamos que fosse. Mas depois ela volta a Moçambique para trazer esse novo conflito, que tem que ver com oportunidades de emprego, claro, e para reacender a chama do amor. E isso custou-me muitas noites mal passadas.

Sugestões artísticas para os leitores do “O País”?

Sugiro O olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho, e As idades do vento, de Jaime Munguambe.

Sobre o autor

Bento Baloi nasceu em Maputo. Começou a escrever aos 13 anos de idade e, nessa altura, os seus primeiros leitores foram colegas de turma. É jornalista, ramo que o permitiu viver muitas estórias e estar perto dos factos sobre os quais escreve.

 

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