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“Quem tem o vale do Zambeze não pode ser um país pobre”

A frase foi ontem lembrada por Roberto White, citando Almeida Santos, o “grande entusiasta do vale do Zambeze”. Para White, o vale do Zambeze só pode ser um “feliz acaso da natureza” que reúne grandes reservas de recursos minerais, água e uma imensidão de terras propícias para a agricultura e pecuária.

Tal como o advogado e político português, o antigo ministro das Obras Públicas e Habitação também é entusiasta da rica região serpenteada pelo rio Zambeze. E demonstrou o seu entusiasmo durante a apresentação que fez nas jornadas científicas organizadas pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) para celebrar o 10º aniversário da reversão de um dos maiores activos construídos pelo regime colonial português a favor do Estado moçambicano.

A sua ligação com o vale começa logo depois da Independência. como director provincial de Obras Públicas em Tete, trabalhou em colaboração com o antigo Gabinete do Plano de Zambeze. Mais tarde, dirigiu as obras da barragem dos Pequenos Libombos e teve que interagir com Braz de Oliveira, o engenheiro ligado à fiscalização da construção da HCB, de quem colheu mais informações sobre o vale. Nos anos 90, como consultor das Nações Unidas, colabora na recolha e sistematização de informação sobre o vale do Zambeze. Na mesma década, é chamado para dirigir o ministério das Obras Públicas e Habitação e aproveita a oportunidade para manifestar a sua preocupação com o abandono de um projecto que, aos seus olhos, reunia condições para transformar as condições económicas e sociais do país. O Conselho de Ministros encarrega-o para coordenar o estudo de propostas de intervenção no vale e o trabalho culmina com a recriação do Gabinete do Plano de Desenvolvimento do Vale do Zambeze (GPZ). Mais recentemente, foi contratado para integrar o grupo de consultores que elaborou o plano de desenvolvimento do vale, cujo projecto foi submetido à apreciação do governo.

Ontem, voltou ao vale do Zambeze a convite da HCB para falar sobre o “enquadramento” da empresa no desenvolvimento da região. Roberto White centrou a sua intervenção no potencial energético do vale, que totaliza 30 mil GWh de energia. Este potencial seria concretizado através da construção de três hidroeléctricas (Mphanda Nkuwa, Boroma e Lupata) a jusante da HCB e de centrais termoeléctricas a carvão, um recurso abundante no vale.
Mas a exploração do potencial energético requer a superação de muitos desafios, desde logo a questão de mercado. Roberto White faz notar que, a curto e a médio prazos, as perspectivas de consumo de energia a nível interno são muito baixas, devido sobretudo à fraca industrialização do país. A solução é o mercado regional, mas aqui também o antigo governante adverte que a experiência mostra que as negociações foram sempre difíceis e, até certo ponto, desfavoráveis para o lado moçambicano. “O acesso ao mercado está sujeito a muitas cedências e dependências por parte da HCB”, precisou.  

O segundo desafio é financeiro. É público que a reputação de Moçambique no mercado financeiro internacional deteriorou-se com a crise das chamadas dívidas ocultas e os subsequentes incumprimentos do Estado em relação às suas obrigações junto dos credores. “Como consequência, diz White, as iniciativas em projectos envolvendo o Estado são presentemente olhadas com algumas reservas pelos potenciais parceiros. “O terceiro desafio é a capacidade nacional para conceber estratégias, estabelecer planos, escolher parceiros e implementar as acções de modo sustentado, a fim de reduzir o risco político do investimento”.

Os desafios são enormes, mas para quem conhece as potencialidades do vale do Zambeze, as soluções estão na mesma região. Afinal, este “feliz acaso da natureza”, com uma área de 1.4 milhão de quilómetros quadrados, reúne, em associação, grandes depósitos de minerais como carvão e ferro, para não falar do potencial agro-pecuário subaproveitado.   

O desenvolvimento da indústria extractiva e os subsequentes investimentos na industrialização podem assegurar um mercado significativo de energia eléctrica e não só. Aliás, podem “influenciar positivamente a balança comercial, gerar outras actividades económicas complementares, dinamizando o crescimento económico”.
A electrificação das linhas-férreas que partem de Tete para os portos da Beira, Nacala e, futuramente, para Macuse é outra possibilidade para a viabilização de projectos energéticos. Roberto White diz que o transporte de centenas e milhões de toneladas de carvão, ferro e outros produtos representa um mercado firme e com boas perspectivas de crescimento. Por isso, “com a electrificação das três linhas-férreas, o país conseguiria poupar na importação do diesel, combustível usado na tracção das locomotivas, e assim iria contribuir para aliviar a balança de pagamentos”.

A indústria de materiais de construção também tem potencial de demandar quantidades significativas de energia. O vale tem potencial em calcário e agregados em quantidade, qualidade e a distâncias que tornariam competitivas as indústrias de cimento, um segmento que precisaria de energia para operar.

Outra janela de oportunidade para o consumo de energia produzida no vale é o sector agrário. Estimativas mais optimistas indicam que o vale do Zambeze tem potencial para a agricultura e pecuária suficiente para alimentar “grande parte” da África Austral. A promoção de agro-negócio passa pela disponibilidade de energia. “À medida que as indústrias forem instaladas, as construções de grandes obras acontecerem, teremos como consequência uma aceleração do crescimento urbano, devido ao fluxo e criação de mão-de-obra qualificada, e do crescimento do comércio e serviços. Como consequência, a demanda de energia eléctrica acompanhará naturalmente esse crescimento”.

PCA da HCB questiona preferência por consultores estrangeiros
No discurso improvisado que marcou a abertura das primeiras jornadas científicas da HCB, Pedro Couto questionou a contratação de consultores estrangeiros num país onde acredita existirem quadros com capacidades para terem credenciais internacionais. Embora reconhecendo o valor das consultorias externas na empresa, o PCA da HCB diz que não vê nenhuma razão para que os moçambicanos não sejam solicitados para fazer trabalho no estrangeiro. “Nós aqui (HCB) temos muita consultoria. Recebemos grandes agências e admiramos porque vieram pessoas cheias de bagagem. Honestamente, eu não vejo nenhuma razão para que nós também não possamos ser admirados. Eu gostaria que as pessoas que estão aqui possam, pelos seus méritos, ser admirados aqui dentro e em outras paragens. Assim como há aqueles que são contratados e vêem ficar aqui connosco e ficamos boquiabertos, nós devemos também ter a possibilidade de sermos procurados em outras paragens”, detalhou.

Pedro Couto defende que a HCB deve continuar a crescer, reproduzir-se e expandir-se. Aliás, lembrou que a HCB é uma empresa e não uma iniciativa que inicia hoje e desaparece a qualquer momento. “Queremos uma empresa que interage com a sociedade, que tem o seu lugar dentro do país e na região e que continue a ser referência internacional”. Mas alertou que isso não irá acontecer por mera casualidade, mas sim com trabalho, dedicação e com processos claros repetidos e inovados. “Há repetição, mas há adaptação e inovação. Se isto não acontece, os corpos morrem. Mesmo na Física, e quanto mais numa questão social como esta”.

Posicionar a HCB como uma referência requer conhecimentos multidisciplinares, por isso, a realização de jornadas científicas é uma iniciativa que veio para ficar. Nesta primeira edição que termina hoje, participam, além de quadros da empresas, académicos dos institutos superiores politécnicos de Songo e Tete, da Universidade Eduardo Mondlane, assim como representantes da Ordem dos Engenheiros e do Laboratório de Engenharia de Moçambique.

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