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Quem és tu?

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

Quem és tu?

Sobressaltei-me com a pergunta. Fez-me viajar no tempo aos bancos do Liceu e do malfadado (perdoem-me os professores de Português e os entusiastas de literatura) Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, que até aos dias de hoje continua a assombrar e a adormecer os alunos da Escola Portuguesa em Maputo e de todas as escolas portuguesas espalhadas pelo mundo afora.

Sinceramente apeteceu-me responder tal como o personagem do livro:

– Ninguém.

Mas, por uma questão de educação, dei uma resposta óbvia e sem um pingo de sarcasmo:

– Sou aquele a quem deram há 63 anos o nome de José Paulo e os apelidos dos seus progenitores, Ninette Ribeiro da Fonseca e Mário Pinto Lobo, neto de Braz Pinto Lobo e Ângela Ribeiro Ramos e que casou há 42 anos com Maria Fernanda Osório.

Também estive tentado em dar uma resposta mais elaborada:

– Sou o navegante das sombras das minhas memórias, relembranças e vivências moçambicanas e portuguesas, aquele que percorre narrativas do passado no ocaso do século XX e dealbar do século XXI, tentando encontrar ângulos e direcções para cartografar a vida. Aquele que não hesita em evocar os seus antepassados para re-encontrar os pontos cardeais familiares ou que enfrentando as vagas alterosas dos mares digitais noutro continente onde aportou, perscruta adamastores modernos, sem receio de naufragar nas tempestades por eles provocadas.

Para além do lirismo e óbvio pedantismo, arriscar-me-ia a que a reacção não fosse não poética…

– Não é isso! – clamaram exaltados os meus inquisidores – perguntamos se és de Esquerda, Direita ou Centro?

O teor da minha réplica poderia ter dado origem ao mesmo resultado do enredo de Frei Luís de Sousa, ou seja, descambado numa tragédia, para mim, pelo menos.

– Esqueceram-se de referir à frente e atrás e ainda, em cima e em baixo…mas sei lá! O meu sextante não calcula essas posições, os meus pontos cardeais são outros, são os que constam dos meus mapas familiares e conjugais.

– No meu epitáfio, gostaria que escrevessem apenas: foi um homem bom!

Que queriam que eu dissesse? Como tal classificação não está nas minhas prioridades, deixo aos outros, como árbitros ou juízes, optarem por aquela que julguem mais consentânea com a sua avaliação. No entanto, deverão tais avaliadores ter algum cuidado com as suas observações, de modo a que não sejam apressadas e cheguem a conclusões precipitadas ou disparatadas, como por exemplo na história seguinte.

Um amigo nosso, passageiro frequente de linhas aéreas europeias, viajou um dia para Portugal. Tendo comprado bilhete de avião numa das companhias de low-cost europeias, fez o seu check-in como habitualmente, entrou na aeronave e dirigiu-se ao seu lugar.

Vários passageiros que já se encontravam sentados na fila de trás, entreolharam-se e trocaram comentários em português:

– Epá! Tamos lixados! Este gajo com este aspecto ainda nos deita o avião abaixo ou tenta sequestrá-lo…

Até à decolagem continuaram com os dichotes e comentários menos agradáveis.

O nosso amigo é bem moreno, careca, com bigode e barba, pesa mais de 100 kg e vestia roupa branca, camisa larga sem gola, calças largas sem zipe e alpercatas.

A história terminou com o avião aterrando em Lisboa e o nosso amigo despedindo-se afavelmente dos passageiros da fila de trás:

– Então boas tardes, meus senhores! Espero que tenham tido boa viagem.

Reacção dos passageiros implicados:

– Porra que já arreamos bronca! O gajo é português e percebeu tudo!

Pois é, as aparências iludem!

 

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