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Quarta-feira decisiva para muitos deslocados

A continuação do conflito em Cabo Delgado está a ter um impacto directo em muitas famílias em Nampula que chegam a acolher mais de 30 pessoas. Há relatos de fome, cruzam-se histórias de angústia para os que têm familiares raptados. Esta quarta-feira é decisiva para muitos deslocados que passam a ter terreno e “casa própria” no posto administrativo de Corrane, distrito de Meconta.

Nampula passa a ser residência permanente para muitos deslocados de Cabo Delgado que refugiaram-se em Nampula por conta da insegurança nas zonas de procedência. Trata-se de pessoas que estavam nos centros de acolhimento provisórios no posto administrativo de Namialo, distrito de Meconta, que passam a residir definitivamente em Corrane, que também é um posto administrativo de Meconta.

Numa primeira fase, foram montadas 500 tendas, cada uma preparada para albergar uma família de cinco membros, o que mostra que estar-se-ia em condições de reassentar 2500 pessoas, mas sabe-se que a província de Nampula no seu todo conta com 34 mil pessoas oriundas de Cabo Delgada, sendo que maior parte está em Namialo e na cidade de Nampula.

E é mesmo na cidade de Nampula onde conta-se histórias dramáticas de muitos deslocados. Etelvina Manyamba é natural de Cabo Delgado, entretanto, tem a sua residência na cidade, mais concretamente no bairro de Namutequeliua, mais conhecido por “bairro dos macondes”, por ter tradicionalmente muitos habitantes da etnia maconde, de Cabo Delgado.

E é mesmo de Cabo Delgado, mais concretamente no distrito de Mocímboa da Praia, de onde começaram a sair os seus familiares por causa da intensificação dos ataques armados, perpetrados por grupos terroristas. A casa de poucos compartimentos alberga neste momento cerca de 30 pessoas, dentre crianças, adultos e idosos.

Um dos seus irmãos, Gerasy Manyamba, busca no telefone a imagem do filho de 15 anos de idade raptado a 27 de Junho pelos terroristas e lembra com amargura o percurso de fuga que se transformou numa armadilha. “Encontramos os malfeitores, interceptaram-nos e a minha criança, juntamente com a minha vizinha e outras pessoas foram raptadas e até hoje não sabemos do seu paradeiro”.

As histórias de horrores no terreno incluem assassinatos de líderes religiosos que recusam-se ir nas bases dos terroristas ensinar o alcorão, tal é o caso de um homem que era colega de trabalho de Gerasy Manyamba na Comissão Distrital de Eleições na Mocímboa da Praia. “Rejeitou seguir com eles para ir ensinar o alcorão (nas matas), por sua vez, em reacção, o despedaçaram e deixaram o corpo na terminal de autocarros da Nagi Investimentos”, contou o homem que disse ter visto o corpo e participado do enterro do colega, líder religioso muçulmano.

Na mesma casa, uma outra mulher carrega a angústia de ter a filha de 30 anos de idade raptada pelos terroristas em Março e deixou quatro crianças menores de idade. Ao que tudo indica, os terroristas estão a sequestrar as mulheres para servirem de escravas sexuais, assim como para fazerem trabalhos domésticos, enquanto os adolescentes e jovens são para serem treinados para alimentar as fileiros do terrorismo, atendendo que como a ligação rodoviária está descontinuada com o corte da Estrada Nacional 380 por causa do desabamento da ponte sobre o rio Montempwéz, o que não facilita o recrutamento de pessoas em Nampula ou na parte centro da província de Cabo Delgado, visto que aquela é a principal rodovia de acesso à parte norte daquela província, assolada pela violência armada.

Alimentar tantas pessoas é para já o principal desafio para as famílias acolhedoras como a de Etelvina Manyamba, que sem nenhuma fonte de rendimento, para conseguir uma refeição depende da boa vontade dos vizinhos. “Às vezes fico no quarto e não saio porque quando saio encontro as crianças a chorar e eu sem nada para dar de comer”, lamentou a “hospedeira”, que disse ter recebido apoio apenas uma vez, quando só estava com o pai e mais uns netinhos chegados de Mocímboa da Praia.

No dia 10 de Novembro o seu pai completa 100 anos de vida, mas não terá como celebrar. O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) diz que tem dado assistência às famílias acolhedoras, só que não descarta a hipótese de haverem algumas que não estejam a beneficiar pelo facto de por vezes a informação não chegar à instituição, através das estruturas administrativos dos bairros.

“Parte dessas situações, quando ocorrem, é mesmo quando há demora no processo de comunicação até à chegada da equipa de coordenação para que se possam beneficiar do sistema de alimentação”, explicou Alberto Armando, delegado provincial do INGC em Nampula.

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