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Quando os Diamantes trazem um Prémio Literário Fernando Leite Couto…

Diamantes pretos em meio a cristais é o título do romance que permitiu a Maya Ângela Macuácua partilhar o Prémio Literário Fernando Leite Couto (ex aequo) com Geremias José Mendoso. A história que será editada pela Fundação Fernando Leite Couto apresenta uma série de eventos sobre a segregação racial em Moçambique, na África do Sul e nos Estados Unidos. Na verdade, está aí um pretexto para a autora (e o leitor) pensar o presente a partir do passado, a partir do outro e a partir da dor. De algum modo, eventualmente, nas próximas linhas segue uma conversa com, se calhar, uma revelação da literatura moçambicana, tão cheia de bigodes.

 

Este ano o Prémio Literário Fernando Leite Couto fez uma inovação. Houve cinco finalistas e essa informação foi partilhada nas redes sociais. Como reagiu a isso?

Eu não consultei a informação no site e nem fui ao Facebook. Na véspera da Páscoa, ligaram-me e disseram-me que era uma das finalistas. Longe de mim pensar que seria uma das vencedoras. Portanto, foi normal e inédito porque eu não esperava que isso pudesse acontecer.

 

E não esperava porquê, se concorreu ao Prémio?

Eu submeti a obra à última hora. Tinha muita informação que descobri e que era necessário implementar no meu romance. Foi tudo tão rápido e tão exaustivo, porque tive apenas dois meses para corrigir a obra. Só que vi que a história era muito complexa e, depois de ter submetido o texto, notei que havia algumas coisas que poderiam manchar a história. Eu não esperava, mas procurei dar o meu melhor para os possíveis leitores.

 

Escreveu a história para concorrer ao Prémio Literário Fernando Leite Couto?

Na verdade, eu escrevi o livro em 2016, para um outro concurso, que, infelizmente, não consegui participar. Então, ao longo desses dois meses, antes de submeter ao Prémio Literário Fernando Leite Couto, um amigo ajudou-me a rever a história. Aí notei que a história tinha alguns poréns. Era necessário muito estudo para aprofundar a matéria, porque se tratava de épocas diferentes, com personagens diferentes e características diferentes. Foi aí que eu notei que tinha de vasculhar mais a História e perceber como é que poderia incluir aquilo que realmente aconteceu na ficção. Isso aconteceu em dois meses.

 

Temos no livro Moçambique, África do Sul e Estados Unidos. Porquê?

Inicialmente, a história tinha dois espaços. Estados Unidos e Moçambique. Depois, vi a necessidade de explorar mais os principais pontos onde a segregação racial era intensa. Então pensei, por que não colocar também a África do Sul.

 

Aproveitando o Apartheid

Sim. Em particular, na Cidade do Cabo.

 

Temos na sua história a imagem da mulher com muito protagonismo. O que quis fazer das personagens femininas?

No tempo da escravatura ou da segregação racial, era muito notória a presença das mulheres nas casas dos senhores brancos. Mas, mais recentemente, notamos o sofrimento de muitas mulheres infectadas pelo HIV. Então, eu quis fazer da mulher um certo estudo de caso, para perceber como é que a mulher do séc. XIX e XX pensavam e como é que a mulher do séc. XXI pensa. Isso é importante para perceber a própria mentalidade da mulher.

 

Aprendeu das suas personagens?

Sim, aprendi muito. Sobretudo daquela que me deu mais dores de cabeça, que é a Elvira. Ela passou por momentos turbulentos. Por isso, afundou-se numa depressão. No caso dela, tive de trabalhar mais a personalidade da mulher, face às circunstâncias, às frustrações e às perdas humanas.

 

Parece que esta é a sua personagem preferida. Coloco a questão nesses termos porque, quando concorreu ao Prémio, adoptou o pseudónimo Elvira Guambe.

Por mim, seria a Juno Beomunt mas, pronto, foi a Elvira. A Juno Beomunt é uma das minhas personagens favoritas porque tem uma mente crítica. Não deixa de lado as suas origens africanas. Ela foi deportada para América e foi adoptada. Desde muito cedo, foi educada a pensar como alguém diferente, sem ser. Sempre avaliou as coisas de forma crítica. Tem algo especial.

 

Que diamantes e que cristais são esses?

Os diamantes pretos são pedras que foram inseridas em um local não muito comum. Quando se faz o trabalho de recoleção de pedras preciosas, é preciso seleccionar quais tipos de pedras devem pertencer a um campo, entre as preciosas, as semi-preciosas e as não preciosas. Diamantes pretos, diria anormais, porque é difícil de encontrar mesmo em terras com abundancia de pedras preciosas.

 

Quis tecer uma associação entre essas pedras e as suas personagens?

Sim. Pedras preciosas, mas anormais, em circunstancias diferentes e divergentes e em meio a cristais, que são as circunstancias e porque os cristais transmitem aquilo que são as variedades das cores. Por exemplo, um mar de diamantes com pedras negras porquê? Eu quis fazer essa provocação.

 

Numa conversa, o poeta M. P. Bonde disse-me que, quando lança um livro, sente uma espécie de purificação e libertação, porque se desfaz do texto e pode trabalhar mais à vontade em outros projectos.  Isso aconteceu consigo, quando submeteu o texto ao Prémio ou agora que o venceu?

Senti uma espécie de purificação e percebi que, quando pretendemos escrever um livro, devemos estudar antes, para conseguir escrever melhor e com qualidade. E foi, realmente, trabalho cumprido. Ao longo da escrita, consultei documentos em inglês e verifiquei como é que isso poderia se adequar ao universo da história. Honestamente, penso que valeu a pena.

 

Os temas que aborda são muito actuais. Inclusive, proporciona ao leitor uma viagem ao passado que o faz pensar no presente da humanidade.

Verdade. Por exemplo, há quem pensa que a escravatura acabou, mas não. Temos uma nova forma de escravatura. Quando estudamos sobre o passado da escravatura, percebemos que não era só feita por brancos contra negros, mas entre os negros também, até de forma intensa, sobretudo na região oriental de África. Isso permite-nos comparar com a actualidade.

 

O que pretendeu com esse tópico da segregação racial?

Quis levantar a superfície pontos onde a comunidade negra sofreu de forma muito intensa. Quanto ao HIV, quis reflectir sobre como a sociedade moçambicana pensou nisso, numa época com pouco conhecimento sobre o assunto.

 

Pensar os outros e pensar o passado é uma forma de pensar em nós e de pensar no presente?

Sim, é certamente isso.

 

Indo ao pormenor, o que sentiu quando o professor Francisco Noa, presidente do júri, anunciou os vencedores. O coração palpitou muito?

O meu coração palpitou muito, mas procurei ficar calma. Independentemente da decisão, eu tinha de a abraçar. Como dizia a Juno, abrace os problemas a ponto de os sufocar. Eu estava decidido a abraçar quer fosse um problema, quer fosse uma conquista.

 

O problema não é o nervosismo, é o que nós fazemos com isso…

É verdade. Então, quando ouvi o meu nome entre os vencedores, tive a sensação de missão cumprida, que vale apena escrever.

 

Agora, segue-se um livro e uma residência artística em Portugal.

Será uma oportunidade única de estar com escritores portugueses, novos e mais velhos, e para mostrar que a literatura moçambicana pode ir além…

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro All God’s Children Need Traveling Shoes, de Maya Angelou; Mandela: the authorized portrait, de Mac Maharaj e Ahmed Kathrada; A varanda de Frangipani, de Mia Couto, que foi o meu primeiro contacto com a literatura moçambicana; o filme 12 years a slave, e a obra de Mike Nicol.

 

Perfil

Maya Ângela Whate Macuácua nasceu em Harare, no Zimbabwe, e tem 27 anos de idade. Parte do ensino primário fez em Portugal, tendo, de seguida, concluído o nível básico em Moçambique, onde também frequentou o ensino geral. Cursou Ciências Jurídicas na Universidade A Politécnica.

 

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