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Quando a Praça Mugabe vira Marquês de Pombal

Xi-Cau- Cau

Foram horas de festa encarnada na Praça Robert Mugabe, com carros exibindo a bandeira do SLB, manifestações inequívocas de benfiquismo envolvendo alguns portugueses, mas muitos, muitos mesmo, moçambicanos. A festa no Marquês de Pombal, centro de Lisboa, teve uma filha legítima em Maputo. Idêntica situação seguramente aconteceria se o vencedor da Liga Portuguesa fosse o FC do Porto, detentor de um penta, ou do Sporting, eterno candidato ao “tenta”.
Estamos em presença de um fenómeno comum a várias modalidades e até actividades. Creio, sinceramente, que não fará mal ao Mundo que as actuações das grandes estrelas do planeta sejam por todos vividas e até apropriadas. Vi cidadãos portugueses, vitoriarem Lurdes Mutola a correr por Moçambique como se de uma atleta lusa se tratasse. Em Angola, Cabo Verde e outros países lusófonos, o futebol português é algo incontornável, alterando agendas para ser acompanhado em pormenor. E nem mesmo a anglofonia “escapa” a esta onda de fanatismo, relativamente ao Manchester, Liverpool ou Arsenal.
É também o que acontece na cultura, nas artes e até na ciência.

O “BUSILIS” DA QUESTÃO

As estranhas diferenças, residem no seguinte: nos outros países, sejam eles anglófonos, francónos ou lusófonos, para lá de se vibrar com os triunfos das outras paragens, onde o nível é inequivocamente mais alto, também se sofre, se chora e se explode de alegria, consoante a “doença” de cada um, quando as colectividades ou atletas locais têm os seus desempenhos. Por exemplo: uma eventual vitória no Girabola do 1º de Agosto, Petro ou outra turma angolana, faz parar o trânsito de Luanda, Lobito ou Benguela. Há festa rija, apaixonada e espontânea. Com desfile de bandeiras em caravanas de viaturas.

Porque tudo é diferente entre nós? Que não me venham com a história da nossa má qualidade, pois o campeonato angolano não se situa a um nível acima do nosso. Prova-o, por exemplo, o facto de a nossa prova ter uma equipa na fase de grupos da Liga Africana, ao contrário dos nossos “kambas”.

Portanto Maputo, particularmente, é um caso “sui generis”. Os componentes das claques das principais equipas, em número bastante reduzido, é composta por cidadãos sem grandes posses e sem poder para desfilar com bandeiras e cachecóis. Daí que não seja difícil antever que caso uma das turmas da capital ganhe o título esta temporada, o desfile será, como nas épocas anteriores, de “meia-dúzia de gatos pingados”. Os poderosos, os adeptos das águias, leões e dragões, não terão tempo, nem disponibilidade, para se juntarem aos que se contentam com o nosso mísero futebol “de trazer por casa”.
Felizmente que este retrato, não se replica da mesma forma pelo país fora. Apraz-me constatar a união dos beirenses em redor do seu representante e dos gazenses, relativamente aos seus guerreiros do Chibuto, o que se replica um pouco pelo Norte e Centro do país.
Porque temos – há que o reconhecer – um futebol medíocre comparado com o europeu, os maputenses não se revêem nele. E talvez considerem que quem nele se revê, seja também… medíocre.

Para quem como eu viveu momentos tão exaltantes do nosso desporto, sobretudo o basquetebol, que em femininos até fazia corar de inveja os lusos, é dolorosa esta realidade.  Apetece-me – mas não o vou fazer – gritar a plenos pulmões que este virar as costas tem relação com a auto-estima, ou melhor, com a falta dela. Enquanto o corpo vai “definhando” por cá, o pensamento “esvoaça” por outras latitudes em muitos casos nunca algumas vezes visitadas…

 

 

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