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Psicólogos alertam para traumas profundos nas vítimas do terrorismo em Cabo Delgado

Num dia em que o mundo parou para reflectir sobre a saúde mental, da Associação de Psicologia de Moçambique, veio, ontem, o alerta para o perigo de negligência da saúde mental das vítimas do terrorismo em Cabo Delgado. A agremiação revela que há muitas vítimas que precisam de apoio psicológico que correm risco de tirar a sua própria vida devido a traumas.

As marcas da violência extrema ainda estão presentes na vida e nas mentes de muitos deslocados de terrorismo em Cabo Delgado. Crianças, jovens e adultos presenciaram cenários de brutalidade e desespero. Além disso, tiveram que deixar para trás as suas casas, sonhos, e vivem o drama de ter familiares desaparecidos.

“Eventos desta natureza sempre deixam marcas na vida das pessoas, afectam, sobretudo, a sua saúde mental. As vítimas carregam traumas para o resto da vida. Nesse grupo, há pessoas que apresentam maior vulnerabilidade para desenvolver transtornos mais complexos e, quando não são devidamente seguidas ou acompanhadas, poderão apresentar problemas graves em resultado do trauma sofrido”, detalhou Augusto Guambe, presidente da Associação de Psicologia de Moçambique.

A agremiação revela que tem recebido solicitações de ONG e de empresas baseadas em Cabo Delgado para que os seus membros ajudem a prestar assistência a famílias traumatizadas.

“As nossas deslocações a Cabo Delgado têm sido em resposta a solicitações de organizações que têm interesses naquela província, pelo facto de terem colaboradores lá e precisam de apoio. E outra têm sido no âmbito de organizações de base humanitária que solicitam os nossos serviços para prestar assistência a vítimas”, revelou para depois acrescentar que “um conflito armado traumatiza as pessoas. Coloca as vítimas sem situação de stress. Elas vivem um sentimento permanente de perda, quer de parentes, mas também de bens materiais. Temos cenários de pessoas traumatizadas, não só em Cabo Delgado, mas também em Maputo, Gaza e em outras províncias em que famílias também perderam os seus entes queridos”.

Augusto Guambe disse haver perigos resultantes da falta de assistência das vítimas, avançando que, em cenários mais graves, podem recorrer ao suicídio. “A COVID-19 veio agudizar ainda mais o cenário de desespero da população de Cabo Delgado. Essas vítimas são obrigadas a reinventar-se face a diversas adversidades. As pessoas com esses problemas precisam de pessoas para as escutar. Geralmente, as pessoas que nos escutam não precisam de dar muito, precisam apenas de nos emprestar o seu ouvido, e esse exercício pode travar intenções, como o suicídio, por exemplo”, revelou o especialista.

A Associação de Psicologia de Moçambique existe desde 2004 e ressente-se de dificuldades financeiras para prestar assistência às vítimas do terrorismo.

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