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Calvário para entrar na África do Sul

Continua difícil atravessar a fronteira de Ressano Garcia para a África do Sul. Esta terça-feira, viaturas enfileiraram-se novamente num percurso de 15 km na EN4. A exigência do teste negativo à COVID-19 e a alteração do horário de funcionamento do lado sul-africano são apontadas como algumas das causas do congestionamento e demora para entrar na terra do rand.

Imagens áreas retratam o martírio que centenas de automobilistas e passageiros enfrentam para entrar na vizinha África do Sul, desde o último domingo. São 15 quilómetros de extensão da EN4 ocupados por carros.

Pelo menos cinco filas de viaturas, na sua maioria camiões, foram criadas numa estrada com apenas duas faixas de rodagem, sendo uma em cada sentido.

Momade Naji, camionista moçambicano, também ficou “encurralado” na fila de viatura. Disse à reportagem do “O País” que o cenário estava uma verdadeira confusão.

“Conforme vocês estão a ver, está um caos, porque nem água vai nem água vem. Estamos aqui desde domingo. Nós saímos da empresa por volta das 09h00 ou 10h00 da manhã. Só que chegado aqui, a fila estava organizada até que a primeira equipa da polícia retirou-se”, contou a fonte, intercalando a entrevista com os telefonemas que não cessavam no seu telemóvel.

Momade Naji acrescentou que como forma de pressionar as autoridades sul-africanas a desbloquear a via, os condutores que se dirigiam à África do Sul fecharam as duas faixas de rodagem da EN4, impedindo a circulação dos carros que partiam daquela país para Moçambique. A medida não trouxe resultados.

Disse o camionista que intercalava a entrevista com as chamadas de telefone que não cessavam de chegar ao seu telemóvel.

Tanta gente a dormir nos carros e sob um calor intenso é o que se via até ao princípio da tarde desta terça-feira. Mulheres grávidas foram tomadas pela impaciência, angústia e pelo desespero. Não havia outra saída senão aguentar até a hora em que a situação iria se normalizar.

O maior desespero dos viajantes é a falta de informação sobre o que se passa do lado sul-africano a ponto de originar longas filas de viaturas. São horas a fio sem movimentar os carros e com os motores desligados. A incerteza tomou conta de todos. Aliás, Luís Chissano, interpelado pelo “O País” numa fila para obtenção de água, disse que não tinha certeza do dia em que iria viajar.

Em meio à suposta inércia das autoridades sul-africanas para desbloquear o que gera sofrimento dos viajantes, surgiu outro problema: a falta de um pouco de tudo para suportar a fila de viaturas.

Quem saiu sem imaginar que teria de passar dias na estrada, está literalmente entregue ao deus-dará. Não há sanitários públicos e falta água para todos. Aliás, o quartel da polícia de fronteira tem sido a salvação para quem quer matar a sede. Por isso, há uma outra gente à procura do precioso líquido.

Não é apenas água engarrafada, à venda, que não está ao alcance de todos. A comida também está a ser vendida a preços especulativos. O preço é considerado injusto pelos viajantes, que sem alternativa são obrigados a comprar para aguentar até que seja possível viajar.

Ana Nguenha, uma das viajantes, teve que pagar 300 meticais por uns pedaços de frango com batata frita, sem chima ou arroz, o que a deixou agastada. Ela também não sabia o porquê do congestionamento na fronteira de Ressano Garcia.

Diante deste sofrimento a que os viajantes estão sujeitos, entre eles centenas de moçambicanos, as autoridades sul-africanas não dão cavaco sobre o que está na origem deste calvário. Milhares de trabalhadores não foram a tempo de se apresentar nos seus postos.

A chefe de Pessoal e Finanças na Delegação do Trabalho na África do Sul, Isaura Muianga, contou que “alguns mineiros já começaram a usar a via Namaacha” para chegar à terra do rand. “Mas a situação continua crítica porque existe um condicionalismo, a testagem da COVID-19.

Entretanto, o Serviço Nacional de Migração (SENAMI) explica que dos cerca de 358 mil viajantes que eram esperados para a quadra festiva 2020/2021, no âmbito da operação conjunta “Tivikelele COVID-19”, só 164.376 entraram no país, devido à pandemia.

Arsénia Massinga, directora-geral do SENAMI, disse que a África do Sul introduziu a obrigatoriedade de realizar testes para a COVID-19 até para os camionistas, situação que não acontecia até recentemente.

Os camionistas entravam e saíam da África do Sul sem necessidade de fazer o teste da COVID-19 mas agora é obrigatório. O teste rápido pode ser feito na fronteira, bastando para o efeito pagar 170 rands. Esta medida reduz o tempo de funcionamento, de acordo com a fonte.

Arsénia Massinga acrescentou que os ministérios do Interior e da Saúde moçambicanos estão em articulação para criação de condições que permitam a realização de testes rápidos também em território nacional.

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