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Porque o sistema nacional de ensino precisa se reconciliar com as redes virtuais digitais

Por: Hermínio Alves

 

As áreas urbanas (que reúnem o maior número de instituições de ensino em Moçambique) são locais de fácil acesso a ferramentas tecnológicas, pela cobertura de redes de telefonia móvel, mecanismos essenciais para o acesso à internet. A maior cota da população moçambicana digitalizada pode aceder à internet, através de smartphones, tablets e computadores, ou seja, dispositivos com inúmeras possibilidades para o acesso a informação.

O advento da pandemia do SARS-CoV-2, reforçou os esforços para implementação de programas de digitalização de serviços, acelerou, nacionalmente, incentivos para que os cidadãos façam o uso das diferentes tecnologias disponíveis no mercado, como por exemplo, aceso a pacotes promocionais nas transações comerciais com o uso de aparelhos electrónicos como método de pagamento de serviços e produtos.

O encerramento das escolas, para evitar contágios e aglomerados de pessoas, trouxe a necessidade de adaptação do nosso sistema nacional de ensino para responder aos desafios de saúde pública, usando as várias possibilidades digitais (aplicativos e sites de internet) para dar prosseguimento ao programa curricular durante o período em que perdurar o estado de emergência nacional e, com isso, não colocar em causa o programa curricular das instituições de educação.

No entanto, se a dimensão tecnocientífica para a educação nos parece um caminho promissor, o relacionamento cultural das instituições de ensino com estas novas tecnologias de comunicação e informação tem sido problemático ao longo dos anos, impactando, especificamente, no relacionamento ensino e aprendizagem dentro do recinto escolar.

Ao longo dos anos, foi desencorajado, pelas instituições de educação, o uso das redes sociais virtuais dentro do recinto escolar, pois, havia a perceção de que, as redes virtuais, distraiam os estudantes dos assuntos pertinentes e importantes ao processo de aprendizagem escolar e essas tecnologias não podiam ser aproveitadas para exactamente, facilitar ou simplificar esse processo.

A necessidade de um apoio pedagógico, demonstrado pela rebeldia dos estudantes em se distanciar dos aparelhos móveis dentro das salas de aulas e se comunicarem através destas redes virtuais durante as aulas, mostrava o poder progressivo destas novas ferramentas de comunicação, um poder que as escolas continuaram a negar e, sobretudo, instigaram os professores e encarregados a combater veementemente.

Contudo, é esta relação problemática, entre as redes sociais virtuais e as instituições de educação que, actualmente, vem dificultando a implantação de um sistema de educação remoto, mediado pelas novas tecnologias de comunicação e informação. Ou seja, os nossos estudantes estão acostumados a enxergar a tecnologia como uma ferramenta única e exclusiva para o entretenimento e separada dos processos educativos formais e essa abordagem deve-se a forma como as nossas instituições de ensino encararam a internet quando começou a ganhar espaço na população jovem nacional.

Serviços de mensagens usando a internet, como por exemplo, do aplicativo mig33, que fez furor, principalmente, durante os anos 2007 a 2010, não foi aproveitado pelo sistema formal de educação, pelo contrário, o apego dos estudantes pelos telefones celulares causou uma “claustrofobia” às instituições de ensino, sobretudo secundário, pois, este aplicativo fora usado, maioritariamente, pelos jovens e adolescentes em ambientes de socialização informal.

A proibição de entrar em sala de aulas com o telemóvel ou mexer no telemóvel durante a aula eram duas das normas mais conhecidas e temidas pela população estudantil, e relembremos que, nessa época, mecanismos de busca na internet faziam parte do nosso dia-a-dia, através do sistema GPRS, muitos dos jovens e adolescentes urbanos se deliciaram com a internet lenta, mas eficiente, baixando jogos, conversando com conhecidos e estranhos, disponibilizando e adquirindo músicas e vídeos. Se em instituições do ensino primário e secundário a internet e algumas tecnologias viradas para o usuário foram banidas, no ambiente informal, depois da sala de aulas, ela era e continua a ser o assunto do momento.

Impedidos de levar esta revolução à sala de aulas, ao meio educativo escolar, os jovens direcionaram o uso destas inovações ao seu universo particular, dotando-o de uma linguagem própria – a exemplo disso, foi o fenómeno de atropelos a gramática nas provas escritas dos alunos do ensino secundário, na época, usavam a linguagem das redes sociais, neste caso, do mig33 e das SMS’s, encurtando as palavras, como por exemplo, o uso de “exe” para “esse” e do “tbm” para “também”.

Esses fenómenos culturais, em vez de estudados com profundidade para que sejam compreendidos, foram ostensivamente ridicularizados e tomados como actos de burrice. Pelo contrário, existia ali a expressão da inovação, por mais distorcida parecesse. A criação de uma linguagem própria compreendida e usada pelos usuários dessa rede social virtual foi revolucionário, não que devesse se institucionalizar, mas sim, uma oportunidade de entender para direcionar e aproveitar-se do seu modelo. O triste facto é que, este tesouro cognitivo foi deixado de lado pelas instituições formais da educação, por causa de complexidade e combatido com veemência dentro das escolas.

A escola e as tecnologias de troca de mensagens e de socialização, como é o caso do Facebook, WhatsApp, Twitter, Instagram e YouTube, as tecnologias que dominam, actualmente, ao nível nacional, necessitam de reconciliação, pois, ao longo dos anos, elas percorreram destinos perpendiculares, impossível de se conciliarem, diferente de grandes softwares que exigem um investimento económico, como por exemplo, Microsoft Office, incentivado para o uso dentro do recinto escolar. No entanto, poucos têm condições para adquirir estás ferramentas pagas, contam-se aos dedos pessoas particulares com poder de compra de licenças de softwares Office, a população com capacidade para adquirir um computador é bastante reduzida e os smartphones não são vistos, pelos alunos, como uma viável alternativa para o computador, em termos de execução de tarefas remotas.

Em suma, o processo de aculturação para as novas tecnologias de comunicação e informação foi mal abordado pelo sistema nacional de educação.

A pandemia veio nos despertar a necessidade de olhar a educação como um sistema progressivo que é, incapaz de se estagnar e necessitando de contínua autossuperação para reconfigurar seus cânones actuais como método de resposta aos imperativos culturais.

Se a escola já compreendeu que a tecnologia se tornou uma parte de si, essa mensagem ainda não chegou ao sistema como um todo, ela funciona como um fenómeno isolado, ou seja, as tecnologias de comunicação existem, as instituições de ensino existem, mas elas precisam se reconciliar dentro do espectro estudantil, de modo que, a estranheza de ter estas ferramentas de simplificação e facilitação dentro do convívio estudantil seja superada e sejam criados mais conteúdos académicos nacionais disponibilizados na rede de internet, como também, maior abrangência e competitividade no fornecimento destes serviços aos estudantes.

 

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