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População resgatada recorda o drama vivido durante o ataque em Palma

Cerca de mil pessoas resgatadas da vila de Palma, em Cabo Delgado, chegaram à cidade de Pemba, esta noite, depois de passarem dias na mata fugindo de terroristas. Desesperados e angustiados, os deslocados lembram com dor dos momentos vividos em Palma. Acompanhe abaixo os depoimentos.

“Eles vieram, mataram pessoas, eu mesmo presenciei. Queimaram a administração, o posto policial, hospital e registo civil, local onde sou trabalhador. A maioria dos insurgentes são jovens, outros são naturais daquela área, são pessoas que eu conheço. Infelizmente não conheço os nomes, mas eles são filhos daqui e viviam ali. Sempre que os insurgentes chegassem era dirigidos pelos nativos, como naturais. Foram assassinados alguns funcionários, colegas da administração. Eles cortaram com faca no pescoço, eu vi”, contou Serafim Sumail Rachid, um dos resgatados.

“Por volta das 13 horas começamos a ouvir disparos um pouco distante da vila. Tinha uma posição das Forças de Defesa e Segurança um pouco em frente da vila para a questão de protecção da própria população. Mas porque sempre, nas tardes em Palma há tiroteios, nós pensamos que fossem os militares, mas duas horas depois surpreenderam-nos. Eu estava no Palma Campis e um grupo armado composto por 60 homens com armas de grande calibre, vestidos de fardamento militar semelhante ao das FDS e um lenço vermelho na cabeça. Um dos colegas que os viu disse que tinha avistado militares mas que tinham um lenço vermelho na cabeça, mas um outro companheiro disse que eles não poderiam ser militares, só podem ser os tais Al Shabab, pelo que não podemos sair, apenas nos esconder. Depois disso vieram até o portão e começaram a gritar e a disparar. Nós permanecemos no local. De seguida eles seguiram para o Hotel Palma, foi quando pulamos o muro e fomos nos esconder nas bananeiras. Lá ficamos até uma hora do dia seguinte. O segurança tinha conhecimento daquela mata e sugeriu que fossemos nos refugiar no acampamento em Quitunda. Pelo caminho vimos pessoas catanadas, despedaçadas como galinhas, eram aproximadamente 10. Outras foram baleadas e estavam a coxear e uma delas está aqui comigo”, disse outro restagado.

Outro deslocado disse que “não foi fácil chegar aqui. Ficamos sete dias no mato, para comer era difícil. Estou sozinho e minha família continua no mato até agora. Não sei se minha família está viva porque para sair de Palma até Afungi é muito difícil. Eu vi os Al Shabab com armas a matarem pessoas, muita gente a fugir para o mar e a morrerem afogados”.

“Minha parte da minha família fugiu por medo dos insurgentes. Não sei onde eles estão, se estão bem ou não, não sei. Estou com os meus filhos, minha esposa e meu irmão mais novo. A minha vida agora está precária. Não sei o que farei porque tudo dependia de Palma, toda minha vida está em Palma”.

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