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População consome água contaminada em Nampula

Um verdadeiro atentado à saúde pública. A população de alguns povoados do distrito de Larde, em Nampula, consome água com um elevado teor de nitritos. Trata-se de compostos químicos inorgânicos que podem causar cancro e o chamado “síndrome de bebé azul”. Há um ano que se sabe do problema, mas autoridades de Saúde nada fazem para salvaguardar a saúde pública naquele ponto do país.

O recém-criado distrito de Larde situa-se na parte costeira da província de Nampula. É onde estão as minas de extracção de areias pesadas da empresa irlandesa Kenmare.

O assunto da água contaminada foi despoletado em Janeiro do ano passado quando uma organização não-governamental denominada Solidariedade Moçambique levou uma equipa do Laboratório de Higiene, Água e Alimentos para colher amostras de água em diversos furos abertos pela Kenmare, no âmbito da sua responsabilidade social e corporativa. Trata-se de furos localizados na localidade de Topuito.

No terreno, o trabalho abrangeu, igualmente, alguns poços tradicionais.

Feitas as análises na cidade de Nampula, o resultado revelou que dos seis poços com bombas manuais analisados, dois tinham elevada concentração de Nitrato (conhecido na química pelo símbolo NO3-). O mesmo problema foi identificado em duas das seis torneiras analisadas, ligadas a um pequeno sistema de abastecimento de água.

Nos poços tradicionais testados foi encontrado grande teor de ferro. É essa mesma água que a população consome diariamente, não obstante, as fontes “perigosas” foram identificadas com um “I”, pela Solidariedade Moçambique, como forma de deixar claro que a água que lá sai é imprópria para o consumo humano.

Por se tratar de um assunto puramente técnico, a nossa equipa de reportagem foi ao laboratório de Qualidade e Segurança Alimentar na Universidade Lúrio, para junto de especialistas entender até que ponto estamos perante um perigo à saúde pública.

Mestrado em Engenharia de Agricultura Biológica e Meio Ambiente e Recursos, igualmente gestor de Qualidade naquele laboratório, Ibraimo Chabite deu um quadro que mostra a gravidade do problema a que está exposta a população que consome directamente aquela água.

“Nitratos e Nitritos são compostos inorgânicos que, geralmente, ocorrem quando há reacção entre azoto, nitrogénio e oxigénio. Os nitratos podem ocorrer de uma forma de contaminação, mas também de uma forma natural”, esclarece o nosso entrevistado.

O regulamento sobre a Qualidade da Água para o Consumo Humano, aprovado pelo Diploma Ministerial n°180/2004, de 15 de Setembro, define os parâmetros microbiológicos aceites em Moçambique e estabelece um máximo de 50 miligramas de Nitrato por litro.

Num das amostras a que tivemos acesso, cuja água foi considerada própria para o consumo humano, o nível de Nitrato encontrado é 49.6 miligramas por litro – um resultado que para o especialista já é alarmante. “Isto é um ponto de alerta porque já está no limite. Não sabemos se as análises correram em conformidade, porque para termos a certeza temos que ter as repetições (nas análises)”.

E o consumo de água ou alimentos com níveis excessivos de nitratos é um verdadeiro suicídio a médio prazo. “Isto é um perigo para a saúde pública.

Geralmente o nitrato quando sobe podemos ter o problema de metemoglobina anemia. É fácil notar em bebés e quando isso acontece chamamos de ‘síndrome de bebé azul’. Para os adultos também encontramos este problema, porque o excessivo consumo de água contaminada pode criar o cancro do estômago”, alerta.

Em entrevista à jornal O País, a Kenmare, através da directora-adjunta da área de social, Regina Macuácua, predispôs-se a encerrar as fontes com água contaminada, caso seja essa a orientação do governo.

“Estamos a fazer a sensibilização da comunidade para não usar a água para o consumo, porque pode ser usada para lavar a roupa. Onde não conseguirmos resolvermos o problema e tratarmos vamos ter que encerrar o furo e vamos ter que abrir um novo para podermos dar água à comunidade que seja de qualidade”.

O adágio popular diz que “sem água não há vida”, mas com água contaminada a vida das pessoas corre sérios riscos. Pior porque volvido cerca de um ano desde que o assunto foi tornado público, a direcção provincial da Saúde em Nampula não moveu uma palha sequer para salvaguardar a saúde daquela população exposta.

Por quatro dias contactamos os responsáveis de topo daquela instituição, mas não se dignaram dar entrevista, tendo-se desdobrado em manobras dilatórios até ao fecho desta reportagem, numa clara demonstração de desleixo, apesar de que o slogan do Ministério da Saúde diz que “O nosso maior valor é a vida”.

 

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