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Pelo menos três casos do AVC são detectados por dia no HCM

A cada seis segundos, uma pessoa morre no mundo por Acidente Vascular Cerebral ou, simplesmente, AVC, segundo a Organização Mundial da Saúde, que refere ainda que, anualmente, 17 milhões de cidadãos contraem a doença. Já em Moçambique, o Hospital Central de Maputo detecta pelo menos três casos do AVC por dia.

No tic, tac do relógio, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) tira a vida, a pelo menos, uma pessoa em alguma parte do mundo. Há quatro anos, a doença chegou a Maria Isabel Cuinica, através de uma simples dor de cabeça.

“Naquele dia tive uma dor de cabeça lá para 20 horas e eu achei que fosse algo normal. Tomei paracetamol e fui à cama. Quando acordei, vomitei e eu disse a minha mãe que não me sentia muito bem. Ela perguntou o que se passa e respondi que não sabia”, respondeu Maria Isabel Cuinica, num tom de assustada.

Era a primeira vez. Nunca tinha vivido algo parecido. Por isso, Isabel não sabia e nem a sua mãe fazia ideia do que poderia ser, mas aquele era o princípio de uma doença que mudaria por completo a mobilidade.

“Eu sempre tive problemas de prisão de ventre. Então pedi minha cunhada para me passar o leite, mas quando comecei a tomar ele começou a escorrer. E ela perguntou o que se estava a passar e eu retribui questionando o que se passava com ela para me perguntar aquilo. Afinal de contas, já tinha contraído o AVC facial”, contou a mulher que agora tem 34 anos.

Do rosto, o Acidente Vascular Cerebral paralisou todo o lado esquerdo do corpo da Isabel e quando deu por si, já não conseguia se locomover. “Quis levantar e estávamos em casa, eu e minha cunhada. Chamei a ela e disse que precisava de ir à casa de banho. Ela disse levanta e vá. Quando tentei levantar, senti o meu corpo esquerdo com um peso. Não conseguia levantar o pé e muito menos mexer o braço”, revelou Maria Cuinica.

Mesmo com estes sintomas, ninguém, na sua casa, queria acreditar que a mãe de três filhos tinha contraído o AVC, facto que foi confirmado pelo Hospital Central de Maputo. “Mediram-me a tensão e disseram que estava muito alta. Estava nos 270, se a memória não me falha. Então a médica chamou a minha mãe para lhe dizer que aquele era um sintoma de AVC e eu nunca soube que tinha hipertensão. Só soube naquele dia quando caí com o Acidente Vascular Cerebral”, reconstituiu os factos.

Maria Isabel Cuinica nunca soube que era hipertensa, mas sinais de que sofria da doença nunca faltaram, entretanto sempre ignorava os sintomas e optava pela automedicação.

“Minha mãe dizia não vá à farmácia, é melhor ir ao hospital, mas me recusava e argumentava que na unidade sanitária ficaria muito tempo na fila e não tinha tempo. Ia à farmácia, comprava alguma coisa para tomar e a dor de cabeça passava”, descreveu Maria Isabel, o sintoma que era mais comum ocorrer.

A dor de cabeça que, aparentemente, passava hoje deixou-a com sequelas físicas que lhe tornaram incapaz de depender de si mesma e fizeram-na entrar em desespero.

“Minha mãe falou com a tia para me trazer fraldas e, espantada, perguntei qual era a finalidade e ela respondeu que vou precisar porque não conseguia andar, mas eu me recusava a aceitar e ela sublinhou que eu não podia andar. Aquilo doeu-me tanto que eu me indaguei: será que é o fim”.

Não foi o fim porque a mulher de 34 anos de idade foi submetida à reabilitação na fisioterapia do Hospital Central de Maputo, o que fez renascer as esperanças de voltar a andar como antes. Hoje está, segundo ela, 10 por cento reabilitada e tem algo a dizer aos demais. “Essa doença não é para os mais crescidos e que a doença é séria, não podem desprezar qualquer sintoma que sentem e devem ir ao hospital”, apelou.

Maria Isabel Cuinica é parte das estatísticas da unidade sanitária de referência do país, o Hospital Central de Maputo, que, diariamente, detecta pelo menos três casos de AVC e a doença está a ser frequente nos jovens.

“No trabalho que fizemos na cidade de Maputo, nós tínhamos, em média, dois e meio a três AVC’s por dia. Eu não posso garantir, neste momento, quantos é que nós temos, mas é possível que tenhamos mais. Se calhar quatro porque, primeiro, há mais gente e segundo a hipertensão arterial não está mais controlada agora que antes”, referiu Albertino Damasceno, médico cardiologista.

Dos dois tipos de AVC’s existentes, o isquémico e hemorrágico, o segundo é o mais predominante em jovens e mortífero quando detectado, tardiamente. “Uma vez ocorrido o AVC, sobretudo o hemorrágico, os serviços de saúde não têm muito a fazer. Têm, eventualmente, que manter o indivíduo vivo para que possa recuperar, mas este é o tipo que mais surge em jovens e a sua mortalidade é muito superior em relação ao isquémico. No estudo que fizemos, pelo menos 50 por cento de pessoas com AVC hemorrágico morriam em menos de um mês”, alertou Damasceno.

A morte, porém, pode ser evitada quando a doença for detectada precocemente e através da reabilitação na fisioterapia do Hospital Central de Maputo. “A reabilitação ajuda na recuperação do descontrolo da urina, da fala porque há doentes que podem andar normalmente, mas deixam de falar, problemas de memória, comportamento e os outros que o AVC causa. Então, é sempre importante encaminharmos os doentes para uma unidade sanitária, onde se vai desenhar o programa de reabilitação funcional do doente”, indicou Teresa de Jesus Tiago, directora do Departamento da Fisioterapia do Hospital Central de Maputo.

A prevenção é, porém, o melhor remédio e o mesmo passa por consultas rotineiras para diagnosticar as doenças que são o agravante para o aparecimento do Acidente Vascular Cerebral.

“É diabético, hipertenso adira às consultas, tratamento para que, realmente, possa chegar a esta consequência dramática que é o AVC, mas também se nós aderirmos aos exercícios físicos dieta saudável e não sermos sedentários vamos estar a evitar o aparecimento da doença em pessoas mais jovens”, exortou Teresa de Jesus Tiago.

São factores de risco para doença: a falta de exercícios físicos, a hipertensão, colesterol elevado, consumo excessivo de álcool, diabetes, obesidade e alimentação desequilibrada.

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