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Pelo menos 1.2 milhão de crianças perdem-se por ano em todo o mundo

Estima-se que 1.2 milhão de crianças desaparecem, anualmente, em todo o mundo. Na cidade de Maputo, os números indicam que, por mês, cinco menores são dados como perdidos e alguns acabam por ser acolhidos nos orfanatos. Algumas dessas crianças saem de casa fugindo da violência física dos seus pais.

Nas redes sociais, abundam as fotos de crianças que são dadas como desaparecidas e os seus pais, alguns, estão desesperados.

Algumas saem de casa para ir à escola, brincar ou passear com amigos e não mais conhecem o caminho de volta. Já outras, fugindo da violência física protagonizada pelos seus pais, tentam buscar refúgio nos familiares próximos e, não conseguindo lá chegar, acabam na condição de desaparecido.

O caso mais recente é do pequeno Benson Machungo, de apenas um ano e sete meses que, no último domingo, se aproveitou da distracção dos pais, saiu de casa para brincar, mas nunca mais voltou e já passam nove dias que está na condição de desaparecido.

“Eu nem percebi como é que ele saiu de casa. Ele nunca foi de sair de casa do nada, por isso não faço ideia de como o meu filho sumiu”, contou Cleyton Machungo, pai do menor desaparecido.

Cleyton Machungo não percebeu como Benson saiu de casa, mas a mãe, Emília Raúl, tenta descrever o roteiro que o empurrou para as estatísticas de crianças perdidos.

“Eu estava a entrançar alguém e o meu filho saiu de casa para a vizinhança através de uma brecha no muro de espinhosas e, em menos de cinco minutos, fui para a residência ao lado perguntar por ele, mas a dona de casa disse que não sabe onde o menino estava, indicando outra casa, à qual, presumivelmente, o menino seguiu. Mas tenho certeza de que ele terminou por ali”, reconstituiu os factos Emília Raúl, mãe do menor.

Mesmo convencida de que a criança teria sumido na casa da vizinha, Emília Raúl fez o que qualquer mãe faria – procurar em tudo quanto é lado.

“Na noite de domingo, eu e o meu marido saímos do bairro Bunhiça, na Matola, e fomos sobressair em Patrice Lumumba à procura da criança, mas ninguém a viu. Nessas andanças, chegámos à casa da filha da senhora suspeita e ela estava numa chamada e, tendo-se apercebido da nossa presença, disse: ‘podes desligar. Eles já estão à nossa frente’, tendo nós, por isso, perguntado o porquê estava a desligar o celular ao ver-nos. Ela respondeu que ‘por nada’. Ignoramos e pedimos-lhe que, se vir o nosso filho, agradecíamos que nos avisasse”, suspeitou Emília Raúl.

O caso está nas mãos da esquadra local que tratou de convocar a senhora suspeita, mas reiterou que não teve nada a ver com o desaparecimento do menino.

“Por que eu levaria o filho deles? Não tive nada a ver com isso. Acabo de perder uma filha. Ela faleceu na semana passada. Mesmo lá no Patrice, não há nenhum menino. Aliás, eu vi a criança, mas não ficou aqui, em casa. Só passou”, defendeu-se Lucrécia Lucas, vizinha suspeita de ter levado o menor.

O pequeno Benson não é o único a desaparecer nessas circunstâncias. No mundo, contabiliza-se, pelo menos, 1.2 milhão de crianças que são tidas como pedidas, anualmente, e acabam em infantários ou orfanatos.

Na cidade de Maputo, o Infantário 1º de Maio é uma das referências. Neste momento, acolhe mais de 20 crianças unidas pela condição de perdidas, mas cada uma delas com história singular.

Leina Fernando tem 11 anos de idade e conta que foi o tio quem lhe tirou de Sábie, distrito da Moamba, província de Maputo para juntos viverem, na cidade da Matola, mas a relação com a tia (esposa do tio) foi amarga.

“A minha tia disse que não me queria em casa dela. Batia-me e tive de sair da sua residência”, revelou Leina Fernando, menor tida como desaparecida.

Leina tomou o transporte para Sábie, concretamente à casa da sua mãe, mas não tinha como destino àquele posto administrativo e a menina foi parar nas mãos das autoridades que assumiram que ela se tinha perdido.

“Uma senhora levou-me à esquadra e, quando chegámos lá, perguntaram-me os meus dados pessoais, como o nome completo e residência e eu respondi-lhes. Depois desse processo, apareceram outras pessoas que me transferiram para o infantário, onde estou a viver já há três meses”, descreveu Leina Fernando.

Os poucos menores, que conseguem falar, contam que fugiram de casa, porque eram violentados.

“São crianças cujos pais batem nelas e depois, na tentativa de buscarem apoio na casa de um familiar próximo, acabam por se perder por não conhecerem o caminho e chegam até nós”, contou Ana Inácio, directora do Infantário 1º de Maio.

Para a admissão de crianças perdidas naquele orfanato, há procedimentos que devem ser seguidos. “As crianças dão entrada na esquadra, onde se colhem os dados e esperam-se 24 horas para ver se aparece algum conhecido. Caso não apareça, o Instituto Nacional da Acção Social leva o menor até ao infantário e nós recebemo-la”, explicou Ana Inácio.

O Infantário 1º de Maio recebe, igualmente, recém-nascidos abandonados nos hospitais pelos pais e Cristina Muianga é quem cuida deles. Para ela, é como se fossem filhos biológicos.

“Para cuidar desses meninos, é preciso ter muito amor pelas crianças e orar muito a Deus. Nós partimos do princípio de que eles já sofreram com o abandono e, agora, precisam de amparo e amor e nós é que devemos dar-lhes”, afirmou Cristina Muianga, cuidadora de menores no Infantário 1º de Maio.

Dão-lhes carinho, amor e até nomes. Os pais, estes, nunca mais aparecem, senão pessoas que pretendam adoptá-los.

Os dados sobre as crianças desaparecidas são escassos, mas o Gabinete de Atendimento à Mulher e Criança Vítimas de Violência, na cidade de Maputo, estima que, por ano, cerca de 60 crianças são dadas como desaparecidas na capital.

“Estimamos que mensalmente, em média, recebemos entre cinco e seis crianças tidas como desaparecidas. As idades de destaque são de 11 a 14 anos, sendo, na sua maioria, do sexo masculino”, avançou Ana Maria Langa, do Gabinete de Atendimento a Mulher e Criança Vítimas de Violência.

Variam os números, mas também as causas. Para as crianças que se perdem fugindo de casa por conta da violência, as autoridades dão um tratamento diferenciado. Para os casos em que se provê a violência física, “nós tiramos a criança da casa dos pais para um familiar próximo e, se este não mostrar disponibilidade em receber o menor, encaminhamo-lo para a Acção Social”.

Para as crianças cujos pais nunca mais aparecem, os infantários encarregam-se de garantir que continuem os estudos e o 1º de Maio envia-os para o Internato da KaTembe, na cidade de Maputo.

 

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