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Paulina Chiziane: a crónica de um Prémio Camões que quer ‘curtir’ o prazer de existir

O sol já vai deitar-se. Aparentemente, foi um dia como tantos outros. No Bairro Albasine, Cidade de Maputo, a agitação dos carros e dos transeuntes é rotineira. Naquele quintal enorme, à beira da estrada, encontra-se uma mulher com 66 anos de idade. É uma mulher invulgar. Aliás, todas as mulheres são. Ela tem nome. Chama-se Paulina Chiziane e, para o jantar, cozinha mboa, ou seja, folhas de abóbora. A mulher, que também escreve histórias desde os anos 80 do século passado, garante: “Eu faço uma mboa como ninguém”. Ninguém dúvida da mulher com um olhar muito assertivo, de demover qualquer homem com fracas convicções.

São mais ou menos 17h30. No fogão, a panela cumpre o dever de ferver. De outro modo, não haveria jantar para aquela família. De repente, o telemóvel iPhone da escritora toca. “– Alô, boa tarde. Aqui é fulano. Ligo para informar à senhora que é a nova Prémio Camões”. Paulina quase entra em êxtase. Não acredita, duvida, questiona, olha ao redor, eventualmente para localizar uma outra Paulina. Nada. Naquele quintal enorme do Bairro Albasine, há apenas uma Paulina, e é ela. “– O senhor tem a certeza de que sou eu?”. Esta foi mais ou menos a pergunta. E o senhor, com sotaque português, confirmou que sim. E o dia não foi mais como os outros. Na verdade, nem o dia e nem tudo o resto.

No fogão, enquanto a escritora alegra-se pela notícia, a mboa deixa de ser o prenúncio de uma boa refeição. Queima, isso é que é. A escritora e a neta Rita ficam sem jantar. O caril já não era caril e ninguém naquela casa quis pensar em comer. “– Eu perdi o apetite”, disse Rita, sem culpar a avó que, entretanto, mantinha-se a conversar com os jornalistas, já farta de atender à chamada do celular que tocava a cada cinco minutos.

A conversa acontece numa noite de luar. Ainda bem, pois, na véspera ou há dias, um relâmpago afectou o fornecimento de luz em algumas áreas da casa, incluindo o quintal. Mesmo assim, a escritora quase que desvaloriza a ausência de lâmpadas acesas. Afinal, de Portugal, e não de Cahora Bassa, veio uma luz mais incandescente. O Camões, meus senhores, o Prémios Camões.

Paulina não escondeu que gostou do prémio e que está muito feliz. Mas esclareceu: “Quando a gente trabalha, nunca deve pensar em prémios. Eu nunca dei importância nenhuma a isso. Eu faço o que quero, o que penso no momento, aquilo que me emociona, que me decepciona ou que me alegra. Produzo algo, coloco no mercado, e nem sempre a reacção é boa. Mas penso que um dia vão me perceber. Eu faço literatura porque quero, gosto, me apetece e sinto que tenho capacidade para fazer”.

A essa altura, passam das 20 horas. Cabe à neta Rita atender às chamadas de tanta gente que quer ouvir Paulina Chiziane. Talvez, por ver a neta sentada no chão, visivelmente satisfeita pela avó, a escritora lembra-se dos tempos de infância. “Quando tinha 13 ou 14 anos, o que eu mais gostava de fazer era ler biografias de autores. Eu cresci conhecendo a história das outras pessoas. Por isso, este prémio é para aquilo que já fiz, não para aquilo que está por fazer. Mais a minha história e o meu percurso pode inspirar uma outra pessoa, no sentido de que um dia alguém vai dizer que existiu uma senhora chamada Paulina, que veio de longe, que passou dificuldades, mas que conseguiu chegar onde chegou. Essa é a única história que para mim é importante”.

A responsabilidade e um abraço aos adversários literários

No dia em que recebeu a notícia do Prémio Camões, Paulina Chiziane partilhou que tem vários projectos literários, como literatura em forma musical. “Pode ser que este prémio dê um impulso a isso. Não tenho ideias claras. Isto apanhou-me de surpresa. Mas, da mesma forma que cresci com histórias de outras pessoas, pode ser que os moçambicanos crescem com a minha. Essa é a minha maior esperança”, reforçou esta ideia muito bem enraizada na sua mente.

Paulina, entretanto, leva um copo à boca. O líquido? Não é, seguramente, o mais importante. A mulher bebé devagar, como que a abrir a garganta. Depois, mesmo a responder a uma pergunta do jornalista que naquela casa goza de alguns privilégios, remata: “Agradeço profundamente aos meus adversários. Não diria inimigos, mas adversários. Aqueles que diziam: ‘Paulina, tu não és nada’. E eu dizia assim: ‘sim, não sou, mas um dia serei’. Eu tinha um obstáculo que me sufocava e eu lutei para saltar a barreira de modo a atingir outro patamar. Se eu não tivesse tido obstáculos, talvez não tivesse caminhado. Às vezes, ser bem tratado é bom demais. Quando a pessoa está na sua zona de conforto, não descobre as suas qualidades, o seu interior. Eu fui testada até a última instância. Foi um processo terrível chegar até aqui. O meu trabalho nunca foi fácil, foi sempre uma luta”.

E quanto à pergunta: este prémio dá-lhe mais responsabilidade, respondeu sem hesitar: “Responsabilidade? Já tive. Agora, quero estar descansada, quero fazer o que me apetece”. E uma dessas coisas que a apetece é ir contar histórias às crianças à creche. Pena que esta coisa da COVID-19, ultimamente, a obriga tanto a ficar em casa.

Na noite que foi anunciada vencedora do Camões, tornando-se a primeira mulher africana a conquistar o prémio, portanto, Paulina Chiziane livrou-se de qualquer responsabilidade, optando pelo prazer de existir. “Este reconhecimento é uma forma de dizerem ‘Paulina, já trabalhaste. Também precisas de repousar”. Quando vai repousar, o Prémio Camões 2021 não disse e essa pergunta não foi colocada.

 

 

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