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Passa o tempo, mudam-se os dispositivos mantém-se a criatividade

Os 18 anos de existência o maior grupo de média privado de Moçambique, a Soico Televião – STV, significaram revolução tecnológica passando, por exemplo, das cassetes, pelo Ipod, até o sistema digital, transmitindo o sinal em “High Definition”, ou seja, em alta definição.

Como a conhecemos hoje, não é como ela uma vez foi. Recuamos a cassete para o ano 2002. Particularmente para o dia 25 de Maio, quando ocorreu o desastre ferroviário de Tenga.

Muitas pessoas de Maputo, assim como do resto do país, tinham ouvido falar do desastre de Tenga pela rádio, poucos, mas muito poucos, tinham uma imagem visual do facto.

O que era normal, afinal, o país tinha pouca ou nenhuma tecnologia para levar os factos aos milhões de moçambicanos, mas, mais do que tecnologia, faltava, como alguns perceberam na época: criatividade.

Alguns jovens decidiram por a “mão na massa” para garantir que o país pudesse ter cada vez mais informação, sabendo o que acontece no país e fora dele.

Peça a peça, prego a prego, os jovens “sonhadores ”martelaram o destino duma Televisão que mesmo sem recursos tecnológicos ou financeiros, embarcou numa aventura que iria mudar e moldar gerações.

Aliás, quem no “barco embarcou” no início, sabe que o que para muitos era pouco, para poucos era muito, e deixa-se levar pela nostalgia das memórias.

“Conseguimos inicialmente fazer uma intervenção no áudio, por exemplo, no futebol que era em directo e isso requereu um determinado tipo de equipamento, automaticamente a empresa teve que evoluir para se adequar a essa necessidade, mas não foi o suficiente, foi preciso, mais tarde, ter imagens do estúdio que estava a fazer comentários, para isso foi preciso ter estúdio e ter câmaras e havia apenas um emissor, assim começou a televisão”, explicou João Ribeiro, um antigo colaborador.

Começou a televisão, começou a edificação de um sonho e começou, detalhe, como muitas gigantes das telecomunicações pelo mundo fora, literalmente entre o improviso e a criatividade que uma flat pode proporcionar.

“O estúdio na altura era mais amplo”, explicou Zé Martins, antigo colaborador, num desafio que o propusemos: o de regressar ao edifício onde esteve por muitos anos durante o “parto” da STV.

Neste apartamento a STV mostrou que a vontade e ousadia podiam criar magia, afinal, seus programas eram fruto de alguns ajustes tecnológicos e reutilização de espaços, era tornar grande a imaginação mesmo que os aparelhos assim não tivessem sido concebidos.

“Numa das viagens a Africa do Sul, estavam a fazer o lançamento do Ipod” começou a contar José Martins, um dos primeiros colaboradores da STV.

“Eu estava a ver a publicidade do Ipod e comecei a pensar que isto (o Ipod) era capaz de dar para pelo menos transportarmos as matérias” da mesma forma que os disco duros fazem hoje, mas na altura não haviam.

“Eu disse ao Daniel, acho que isto aqui era capaz de diferença, e ele como não tem problemas comprou logo dois” recorda sorrindo.

No regresso dessa viagem fez se a experiencia e o mesmo resultou. “O problema é que estávamos com uma transmissão analógica e depois como é que nós iriamos meter o digital no ar?” Indagou Martins na época.

Como haviam umas câmaras “fantásticas que eram umas Sony XPD 150 com entradas digitais, então foi a partir daí” colocaram na câmara e começou a funcionar.

Genial, nem a Apple pensou nisso.

A antena, igual o edifício, cobria uma área limitada do país, e anos mais tarde, chegava a hora de dar o próximo passo, respondendo a demanda e, sobretudo, a evolução tecnológica.

O novo espaço era imenso, mas maior ainda era a necessidade de tornar cada vez mais céleres os processos de produção de conteúdos.

O digital ainda não estava consolidado mas fazia muitos anos que a visão estava.

“Eu e o Arsénio na altura fomos colocados a fazer directos no Telediário, quer dizer, semidirectos. Gravávamos quarto ou cinco reportagens na cassete, depois metíamos na câmara, tirávamos os timecodes, o início e o fim, vínhamos a correr para emissão, metíamos na VT e acertávamos a cassete” explicou Francisco Mandlate.

Conhecido os tempos, punha-se o vídeo a tocar, mas “as vezes tínhamos repetição no ar, porque este era um processo extremamente arcaico” recordou nostálgico Francisco Mandlate, um dos pioneiros do jornalismo da Soico.

Arcaico e moroso, duas palavras que o tempo se encarregou de apagar, mas que descrevem bem as produções feitas fora da cidade de Maputo.

Entre a melancolia das lembranças, o passado ousado da Televisão que apostou na tecnologia, fundiu-se a história da Televisão do país, ou seja, a história da STV conf.

Os jornalistas buscam informações mas quem capta imagens é o cameraman, e este grupo também sentiu as mudanças tecnologias. “Depois das PDs 170 fomos trabalhando com as DCR 250, umas câmaras maiores e que utilizavam cassetes e depois disso é que passamos a usar as JVC semi-manuais e no fim entramos nas Panasonic” historizou o operador de Câmara Pedro Uamba.

As Panasonics até são recentes, mas o sorriso denuncia que é no passado onde mora o verdadeiro amor de quem provou o sabor da evolução.

Em 2015 tivemos um tivemos um incêndio com o carro estúdio e naquela altura fomos obrigados a nos reinventar, significa que todo equipamento que tínhamos no carro estúdio diferente do que temos hoje, teve que ser retirado porque estava danificado” recordou Hassane Salé, colaborador da STV.

O incêndio foi só um combustível para as transformações, já que mais mudanças ocorreram na sequência, mas o processo de transformação já tinha começado anos antes.

“Foi marcante em 2013 o processo de transição de produção em ‘Tapes’ para produção em file base” disse o colaborador acrescentando que “a partir daí foi possível implementar uma filosofia que chama-se produzir uma única vez e difundir para várias plataformas”

O que quer dizer que passou a produzir-se para não apenas para televisão, como também para o jornal, radio e as plataformas digitais.

Os internautas e telespectadores tiveram muito mais nos anos a seguir a 2013. Este foi um ano de viragem “porque a partir daí foi possível em 2014 lançar o canal de notícias visto internacionalmente em Portugal e em angola”.

Em 2017 foi lançado o STV Play “uma plataforma que o conteúdo esta disponível desde que a pessoa tenha um dispositivo com acesso a internet é possível ter acesso ao conteúdo para ver em directo, para rever o que já aconteceu e um dos conteúdos que foi mais visto quando lançamos a STV play foi o Fama Show”.

A plataforma e as transformações tecnológicas introduzidas pela STV tem mudado a forma de fazer jornalismo.

“Eu próprio faço directos a partir do meu telefone” explicou Francisco Mandlate que exemplificou com a visita do Presidente da República a Kremlin. “O Presidente Nyusi foi recebido pelo presidente da Rússia e eu transmiti em directo pelo meu telefone” concluiu.

Mandlate esboçou um sorriso de satisfação, porque sabe que a STV continua a crescer. Se ontem as regis eram tradicionais, nalguns momentos com material obsoleto, hoje elas possuem as mais modernas tecnologias.

Em 18 anos a Soico Televisão (STV) transformou-se de alguns estúdios improvisados para os altamente equipados.

Com aparelhos como câmaras robôs (no estúdio de informação), que dispensam a presença humana, até os led walls, que oferecem uma outra qualidade e dinâmica aos conteúdos audiovisuais ali produzidos.

Quanto ao acervo, na Mediateca vivem as lembranças que o cérebro humano não consegue reproduzir nas telas, guardadas à imagem da tecnologia de cada época.

Anos depois os conteúdos começaram a ser armazenados também em DVD, e hoje todos conteúdos estão a ser convertidos para o digital.

Uma das primeiras fases para o armazenamento de dados para o posterior uso “foi o formato VHF” saiu-se deste sistema “para o formato beta cam”. Depois evoluímos para DV Cam.

Anos depois os conteúdos passaram a ser armazenados em DVD e, finalmente, para o armazenamento no formato digital.

A 25 de outubro, a STV também celebra um ano apos o início da emissão do sinal em hd, ou seja, em alta definição como se viu pela primeira vez nas eleições de 2019.

Estas marcas durarão para sempre, porque há histórias que nem o tempo pode esquece-las, aliás, se o fizer, poderemos sempre contar com a tecnologia para traze-las de volta, até lá, o futuro ainda nos reserva o desafio de crescer.

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