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Para uma reflexão sobre a imagem em “o silêncio da pele” & “mundo blue (ou o poema em quarentena)”

Dir-se-á que há, em Moçambique, um esforço de revitalizar a assunção (que é já um lugar comum) de que somos uma nação de poetas. Que a revitalização ocorre, todos sabemos. Quanto ao esforço empreendido, haverá reservas decorrentes dos sinais duma naturalidade possível de encontrar em Otildo Justino Guido e Pedro Pereira Lopes nos seus “O Silêncio da Pele” (doravante OSDP) e “Mundo Blue (ou o poema em quarentena) ” _ doravante MB, respectivamente.

OSDP sai pela Fundação Fernando Leite Couto no âmbito da 2ª edição do prêmio que visa homenagear o seu patrono e dar continuidade ao seu legado. Conta com 85 poemas, divididos em duas partes: Ka Madaukane _da fome e do silêncio & Da Pele e da Caligrafia. MB sai pela gala-gala edições, com os seus poemas divididos em duas partes: à beira da ilha: choviam meteoritos no mar & névoa seca. Vale mencionar o facto de Rui Batista (em OSDP) e Mélio Tinga (em MB), respectivamente, terem dado provas de sua excelência no desenho gráfico destes livros que não deixam a desejar na visão nem no tato, embora neste último caso haja vista que os créditos vão para Minerva Print e TPC, Lda.

Quando em 1965 no seu “A Arte como Processo” Chklovski referiu que “a imagem poética é um dos meios da língua poética. A imagem prosaica é um meio de abstração” talvez não imaginasse que em 2020 e neste hemisfério em que nos encontramos, duas obras traduziriam muito bem o seu conceito de poeticidade como um processo. De facto, OSDP e MB permeiam os textos lá contidos de uma construção poética imagética com fortes referências surreais bastante vincadas, sobretudo em OSDP.

Ler “um fantasma me sacode por dentro/a minha alma vaza pelo poros/ e seca como vampiro empalado” na página 35 de MB e “libertam o único pássaro/ que habita na boca/ e é como lâmina afiada/rasgando o tempo” na página 26 de OSDP seria, por um lado, um exercício de prova da fé que depositamos nas palavras daquele teórico russo e, por outro, a confirmação da premissa segundo a qual a poesia que nestes dias se faz é um mosaico de imagens embebidas de intenções simbólicas e metafóricas que vem prolongar a plasticidade da expressão que se pretende no poema e a experiência sensorial.

Este processo criativo percorre os textos de OSDP e MB numa leveza que se promiscui com a simplicidade com que a complexidade da vida, do mundo, dos amores, dos desamores e outras interceções intimistas são tratadas. Vale, contudo, ressaltar a miscelânea que em MB se faz desses universos com a metalinguagem e uma permanente referência intertextual a outros cultores da palavra com quem o autor de MB deve privar social ou literariamente através da leitura. Leia-se, sobre este aspecto de MB os textos das páginas 21, 30 e 38, respectivamente.

Em OSDP, este processo é aguçado pela associação de imagens aparentemente desconexas para o leitor não informado demonstrando a preleção do sujeito poético pela expressividade dos significantes.

Ler, na página 55 de OSDP, “nossa lágrima grossa/tomba sobre o chão da língua/e desfaz-se em palavras/no silêncio da pele” revela-nos um dos mil e um exemplos que podemos encontrar nesta obra que faz jus à proposição de que “a finalidade da arte é dar uma sensação do objecto como visão e não como reconhecimento”. TODOROV et al (1999: 81)

Torna-se, então, inevitável ler OSDP e MB sem fazer esta associação do processo criativo que aproxima estes dois livros que me endossam a prateleira numa simultaneidade estranha que só podia “desaguar” nestas brevíssimas linhas que delas faço como quem pretende participar de um debate que se tem proliferado entre os escritores a respeito da forma e intencionalidade da escrita, para dizer que “o processo da arte é o processo de singularização dos objectos e consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção”[1].

[1] A arte como processo (74 – 95) in TODOROV et al (1999: 81-82)

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