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Para que vivemos? Existe uma noção de realização?

Por: Jeremias Langa

 

Livro 1

Quando, sem nos conhecermos, por via do watssap, a Cláudia me pediu para ler o rascunho do seu primeiro livro e fazer os meus comentários, estava longe de imaginar o fascínio que me causaria a qualidade discursiva que encontraria neste “Vidas, paixões e o oculto”.

Recorrendo a técnicas discursivas que fazem escola nas modernas teorias literárias, como a analepse e a prolepse, a autora alia, como diria Roland Barthes, a inteligência crítica com a sensualidade verbal.

Uma temática que perpassa por toda a obra da autora é a do “realismo”, isto é, da possibilidade e das condições da representação da realidade na arte.

Muitos dos temas que perpassam neste livro são essa representação da realidade.

Muitos de nós nascemos e crescemos com esse imaginário dourado da África do Sul, seja por influência directa de familiares, seja por vizinhos. A Manuela é apenas mais uma vítima deste sonho por uma vida melhor que naqueles tempos só se conseguia na terra do rand.

Mas também temas como o tráfico sexual, exploração laboral nas plantações, as idiossincrasias das crianças que, na ausência dos pais, são educadas pelos avós… são temas que preenchem o nosso o nosso imaginário quotidiano.

Barthes lembra-nos que o realismo é uma ideia moral”, na medida em que é uma escolha do escritor quanto ao modo de representar o real.

A nossa autora fez está escolha consciente de trazer para os seu livro está forma peculiar de narrar estórias.

A Cláudia decidiu enveredar pelo romance para a sua estreia em livro. É uma ousadia tremenda. Os nomes maiores do panteão da nossa literatura notabilizaram-se na poesia (como são os casos da Noémia, do Craveirinha, Rui Knoplfli, Rui Nogar, Nelson Saute, entre muitos outros) e muito poucos se atreveram no romance (ou será antes um conto grande?).

A matriarca da nossa literatura, Paulina Chiziane, tem-se desafiado no romance e com sucesso estrondoso.

Não é comum a incursão no romance na nossa literatura e só por isso a Cláudia entra para um lugar privilegiado na galeria dos nomes da nossa escrita. O romance é um género literário para os eleitos. Exige criatividade, competência linguística e capacidade discursiva notáveis.

Este romance “Vidas, paixões e o oculto” não é evidentemente uma obra perfeita. Denúncia aqui e ali a inexperiência e algum domínio incipiente das modernas técnicas literárias. Mas isso aprenderá a autora na estrada na criação. Afinal, ninguém nasce perfeito.

O mais importante é que temos que celebrar a entrada triunfal desta nova voz nas nossas letras, que nos traz um discurso pujante, uma estória cativante e que nos toca a todos nós.

A Manuela, a Cristina, a Rebeca, a tia Bia, a avó Rapoi, a Glorinha, o Xitlhango, antes de serem personagens do livro, são personagens do nosso próprio quotidiano e cruzamos com eles amiúde nas nossas vidas.

A ingenuidade da Manuela na procura da vida fácil, o amor genuíno de Xitlhango, a matreirice de Gloria para tirar proveito de meninas incautas… a tudo isto é a nossa sociedade.

Veja-se o desfecho da Rebeca, que tanto se esforçara para ter uma carreira sólida e bem-sucedida; que tinha apostado na escola, termina a estória bem-sucedida mas bem só, com vários Meticais em vários bancos, sem ter ninguém com quem desfrutar o que amealhara.

E este romance nos levanta esta necessidade de reflexão auto-fágica: para que vivemos? Qual a noção do sucesso?

Por isso, este livro somos nós todos aqui, nas nossas perfeições e imperfeições. Leiamo-nos!

 

Livro 2

Os mendigos de uniforme

Diferentemente do que fiz no primeiro livro, não me alongarei não apresentação deste segundo livro de tao furto que ele é. Os mendigos de uniforme é Fotografia do nosso social com todas as suas imperfeições.

Satira da nossa distopia comum como país, do nosso desassossego social; da nossa perturbadora existência, o livro convoca-nos para a nossa de (Deus)valores.

Personagens emblemáticas:

. Cossa:: representa o passado idílico de honestidade e valores – os valores do desvalor

Basílio: A nossa vergonha com as origens, corrupção, bajulação, puxa saquismo e lambe botismo sem limites, arrogância e falta de escrúpulos – esta ideia de alienação sem precedentes que guia orgulhosamente as nossas vidas- Basílio

O Basílio é muita da nossa elite que venceu na vida sem olhar a meios.

Na esteira da anterior, a autora começa por nos alertar que esta obra retrata retalhos da nossa realidade individual e social de tal forma que vários episódios lhe parecerão muito familiares.

 

*Texto apresentado na cerimónia de lançamento dos livros Vidas, paixões e o oculto e Mendigos de uniforme.

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