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Paquitequete é o símbolo da esperança e precariedade

Mais de 7.400 pessoas entraram em Pemba em uma semana (que fechou no sábado), saindo dos distritos do norte de Cabo Delgado e das ilhas onde os terroristas intensificaram os ataques. Centenas de pessoas dormem ao relento; crianças sem cobrir; não há comida suficiente para suprir as necessidades.

Quem conhece Pemba, certamente que conhece ou já ouviu falar de Paquitequete. “Paquite”, como é também conhecido, foi o primeiro bairro suburbano que surgiu há 60 anos quando se transferiu a capital provincial da ilha do Ibo para a então cidade de Porto Amélia, hoje Pemba. O movimento de entrada e saída de barcos à vela e a motor sempre foi o cenário típico de “Paquite”, mas o que se vive desde o sábado antepassado é algo totalmente anormal: diariamente chegam dezenas, centenas e até milhares de pessoas sofridas, cansadas e derrotadas psicologicamente pelo terrorismo nas zonas de procedência.

A Estrada Nacional n°380 está intransitável desde Dezembro do ano passado. Era a única rodovia asfaltada e rápida, de ligação entre Pemba e centro e norte daquela província. Agora, o mar é a única via por onde as pessoas se deslocam em massa para não serem vítimas das incursões dos terroristas que agora decidiram invadir as ilhas Matemo, Rimba e Quirimba, para além dos distritos de Macomia, Muidumbe e Montepuez que vivem uma escalada da violência.

As viagens são longas, feitas de barco à vela, sem comida, nem água para os passageiros. São as mais precárias condições a que um ser humano pode se sujeitar em pleno século XXI. “Os mais velhos, as mulheres grávidas e crianças são os mais vulneráveis. Há certas crianças que fazem uma certa força para poderem sobreviver às situações do mar, mas quando chegam aqui, chegam acabadas”, descreve Abudo Gafur, activista social que presta apoio às vítimas na praia de Paquitequete.

Na manhã do último sábado, uma embarcação chegou com muitas pessoas e o corpo de um adulto que ao que apuramos saía da ilha de Quiziwe, não se sabendo a sua identidade e muito menos os respectivos familiares.

No Paquite vive-se vários dramas. A desconfiança é maior, de tal forma que os barcos que chegam no final da tarde, a partir das 17 horas, não podem desembarcar os passageiros, e são obrigados a permanecerem no mar até às 5 horas da manhã do dia seguinte para começar o registo dos chegados, o ponto de partida e o destino.

“O momento não está bom, como a província também não está boa. Esses insurgentes podem aproveitar (chegar), embora eles não têm uma identificação, por isso proibimos que as pessoas desçam a essa hora”, explica Feliz Caroa, membro do Conselho de Policiamento Comunitário de Paquitequete.

A existência da vigilância do bairro justifica-se pela presença de centenas de pessoas que passam os dias e as noites ao relento, à beira-mar. É o grupo de deslocados que não tem familiares em Pemba – a cidade que já recebeu oficialmente 7.400 pessoas até sábado, mas que não tem um centro de acomodação aberto.

Numa das noites que passamos no local, vimos muitas crianças a dormirem sem cobrir, outras nuas, sem redes mosquiteiras e a tossirem, provavelmente por causa do impacto dos ventos noturnos que sopravam do mar.

A cada esquina daquela praia, o drama e a nudez tem personagens e nomes.

Alberto Paulo é um idoso de 65 anos de idade. Sentiu na pele a guerra de libertação nacional; viveu a guerra civil e agora vê-se novamente debaixo da violência que o forçou a sair da sua zona de origem, deixando a família para trás.

“Esses malfeitores carregaram minha filha e suas crianças”, anotou, tendo apontado de seguida para duas crianças que dormiam ao seu lado, como sendo as únicas netas da filha raptada com as quais conseguiu fugir.

Alimentar tantos necessitados é um desafio diário. As Organizações da Sociedade Civil e religiosas estão na linha da frente, tal é o caso do Conselho Islâmico de Moçambique, que tal como ficamos a saber de Monana Mahimo “estamos a dar mil papas por dia porque as panelas não param, das 5h até às 17h”.

À medida que o número de deslocados aumenta, o gesto de solidariedade também vai se multiplicando. No sábado, empresários da província de Nampula, membros da Associação dos Industriais de Óleo e Produtos Afins entregaram, na cidade de Pemba, um donativo avaliado em mais de um milhão de meticais.

“Nós pensamos o que poderíamos fazer para aliviar um pouco o fardo dessas pessoas que tanto têm sofrido, então, entre os empresários começou a ganhar força a ideia de se fazer uma doação significativa de produtos de cesta básica, que são produtos de extrema necessidade neste momento”, explicou Carlos Soares, representante da Associação dos Industriais de Óleo e Produtos Afins de Nampula.

No acto da entrega do donativo composto por 550 kits de alimentos, o governo da província de Cabo Delgado, agradeceu o gesto e prometeu fazer chegar às vítimas do terrorismo.

“Faremos chegar aos beneficiários o mais rápido possível e será direccionado aos mais vulneráveis, especialmente as famílias chefiadas por crianças”, garantiu Valige Tauabo, governador de Cabo Delgado.

Ricardo Machava e Hizidine Achá

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