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Pais abandonam filho menor por ser diferente das outras crianças em Boane

Menor de cinco anos de idade foi abandonado pelos pais porque é albino e deficiente físico, no distrito de Boane, província de Maputo. A mãe tem um novo marido que, supostamente, não aceitou a criança e o pai já está há três anos na África do Sul. Nem um nem outro envia ajuda para o menino que agora vive com a avó impossibilitada de fazer qualquer tipo de trabalho.

Quem de longe o vê, pode pensar que está a fazer uma daquelas brincadeiras inocentes de crianças. Ele rebola pelo chão e com suporte de um dos braços (que ainda funciona) percorre uma distância não superior a dois metros e depois descansa.

O pequeno Heliosse Lucas Macuácua não anda e tem problemas de pigmentação da pele (albinismo). Ele poderia ter uma infância normal, quiçá feliz, mas a sua maldição foi ter nascido diferente e mais tarde, ou melhor, muito cedo, atacado por uma doença muito rara.

À nascença, não lhe foi diagnosticado nenhuma doença que condicionasse a sua mobilidade. Aos seis meses de vida, o seu desenvolvimento físico, simplesmente parou no tempo: o menor começou a ficar doente.

“Picaram-no, até, em sítios improváveis. Começámos por um hospital local e não acharam veias para aplicar soro na veia. Fomos à Boane e também não acharam a veia. Em um hospital longínquo é acham a veia, mas da parte da cabeça”, contou Aventina Macuácua, avó paterna do menor de cinco anos, acrescentando que na mesma noite foram transferidos para o Hospital Central de Maputo (HCM), onde viriam a ser internados. Aliás, no HCM o exercício era o mesmo: “Picaram-no nesta mão, cortaram-lhe os três dedos porque, supostamente, o sangue não circulava e a mão ficou assim. Um dos braços já não funciona, não consegue pegar nada. Quando tento lhe esticar as pernas, porque só de longe é parecem leves, mas não são”.

E nesta luta pela busca da saúde o neto, a mulher de 64 anos “aventurou-se” em algumas fisioterapias, mas também se mostrara menos eficazes para o problema do menino, talvez a falta de dinheiro tenha contribuído.

“Durante um ano inteiro andei na fisioterapia, mas ver se lhe endireitavam as pernas, mas não vi nenhuma progressão e encerrei as consultas em novembro do ano passado por falta de dinheiro”, lamentou Aventina Macuácua.

Nos primeiros dias, a mãe do menino ainda tentou, digamos, aceitar a condição do filho, pelo menos, até se apaixonar por um outro homem que, pura e simplesmente, rejeitou a criança na sua família por ser deficiente físico e albina.

“A mãe veio abandonar a criança aqui comigo. Ninguém lhe arrancou a criança. Ela chegou aqui, tirou o menino do colo e entregou-me nos meus braços e estava na companhia dos seus familiares. Disseram toma no que é seu e nós vamos embora e assim o fez”, narrou a avó Aventina que cuida do menor, com um tom amargurado.

Com o pai do menino retido na África do Sul, a mãe num outro lar, a idosa de 64 anos passou a tomar conta de Heliosse, levando-o para os vários hospitais na expectativa de ver o seu neto recuperar, mas foi tudo em vão.

“Ainda que não ande, se ao menos conseguisse gatinhar para que ao estiver a queimar no sol consiga sair por si só para sombra. Mas não gatinha, nada aguenta fazer. Eu não sei onde descansar, mas dizem que se o deficiente é teu, não vou jogá-lo fora tal como a mãe o fez com a conivência dos seus familiares porque não conseguiria carregá-la para sempre”, disse resignada, Aventina Macuácua, sublinhando ela consegue suportar o seu neto.

Ao Heliosse, juntam-se outras três crianças, duas das quais, também foram abandonadas e esquecidas pelos próprios pais. Estão sob cuidados de uma avó incapacitada de ir trabalhar, a terra está seca e ter alimentação não é um luxo de todos os dias.

“Há dias que dormimos sem comer porque quando a comida acaba, acaba. Se alguém nos der algo, conseguimos cozinhar, mas há dias que dormimos sem comer”, revelou a mulher de 64 anos.

E no dia em que seu filho, que está ainda em Maputo, não faz o pouco que consegue para alimentação, a única alternativa que sobra é mesmo dormir com fome porque a vizinhança e as estruturas do bairro não têm muito a oferecer. “Queremos ajudar porque a avó com quem vivem as crianças é viúva, mas não temos condições”, afirmaram Helen António e Fátima Novela, vizinha e chefe de 10 casas, respectivamente, manifestando o desejo de ajudar.

Muito esperto, inteligente e irrequieto o pequeno Heliosse procura se movimentar a todo o custo para brincar com as outras crianças. Entretanto, este exercício nem sempre sai como o calculado e o resultado final são alguns machucados no rosto e noutras partes do corpo.

As necessidades nesta casa são muitas, mas o que a avó do menor quer ver resolvido com alguma urgência é o da mobilidade do neto. Uma cadeira de rodas seria, para já, de grande ajuda.

“Peço ajuda com uma carrinha de rodas para que ele possa se movimentar. Porque também já não aguento lhe carregar. Agora estou doente” implorou a avó do pequeno Heliosse e a sua situação é agravada pelo facto de ter torcido um dos braços pois “não consigo lhe carregar ou colocá-lo nas costas. Estando na carrinha, o irmão pode ajudá-lo a subir e eu vou empurrar”.

Com o pai que desapareceu na África do Sul, sem deixar rastos, a STV conseguiu o número do telefone da mãe do menor e tentou, durante dois dias, entrar em contacto, mas está fora do serviço.

O número está liga mais tarde numa altura em que o seu filho precisa de uma ajuda urgente e espera-se pela intervenção da acção social e todo aquele que poder para dar luz e significado aos dias do pequeno Heliosse

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