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Ótis diz não ao confinamento e rende-se à nova geração de músicos moçambicanos

O saxofonista Ótis considera que Moçambique não se deve confinar por causa da COVID-19. Para o músico, os artistas precisam de continuar a expressar-se em público, até porque parar é morrer.

Emigrou há 38 anos. Nessa altura, ainda imberbe, perseguiu um sonho e, actualmente, é dos mais consagrados artistas moçambicanos. Ótis vive em Portugal e há bom tempo que carrega no sotaque aquele “r” na fonética, raro na maneira moçambicana de falar a língua portuguesa. Apropriou-se muito do que o mundo lhe proporcionou, não fosse ter viajado por um quarto dos países. Ainda assim, “agora vou falar em manhembane, gaya é mesmo gaya”, ou seja, casa é mesmo casa. Então, admitiu o saxofonista, a terra sempre chama os filhos que estão lá fora. E este é o caso.

Num contexto em que Portugal, país onde vive, introduziu medidas restritivas para conter a propagação da COVID-19, Ótisdecidiu vir passar uma temporada no seu país. Afinal, em Moçambique pode expressar-se em concertos e eventos do género. É esse o propósito do artista. Exprimir-se sempre, e essa é uma das razões do artista ter passado a transição do ano na cidade de Maputo. “Este clima, nem com dinheiro, lá [Portugal], a gente consegue comprar.

A respeito de clima a que Ótis se refere, o contexto que se vive em Moçambique também é de COVID-19, que, alguns meses, obrigou o encerramento de centros culturais, salas de espectáculos, teatros, cinemas e tantos outros espaços de exibição de arte. Em relação a isso ou ao confinamento que restringe a mobilidade de artistas e cidadãos em geral, o autor de nove álbuns discográficos defende: “O mundo está em apuros com este vírus em mutação. Mas, uma das coisas que eu apelo, não se deve parar. Moçambique não pára. Quem quiser parar, que pare. Moçambique não, porque parar, é aquele velho ditado que a gente sabe, é morrer. Fala quem, em Portugal, viu as autoridades locais interromperem-lhe dois concertos em pleno palco. Aborrece a qualquer um, e com Ótis não foi diferente. Se isso voltar a acontecer, no caso, em Moçambique, promete o saxofonista, arruma as malas, larga a música e volta à sua província de Inhambane para se dedicar a outras actividades.

Ótis lembrou que o sector das artes e da cultura foi dos maisprejudicados em todo o mundo. Segundo, lembrou que um dos argumentos de alguns países para encerrar actividades é o de que a mobilidade das pessoas para eventos artísticos contribuiria para a propagação do Coronavírus. Entretanto, afirmou, as actividades, no caso de Portugal, foram suspensas e o número de infecções não diminuiu. Pelo contrário, aumentou.

Mudando de assunto, o saxofonista confessou estar muito satisfeito com a nova geração de músicos moçambicanos. É do melhor. Eu estou a quase 40 anos fora. Já naquela altura, éramos bons. Quer dizer, eu não, já eram bons os músicos moçambicanos. Volto e encontro uma geração super, acima de cinco estrelas. Moçambique sempre teve bons músicos, desde os tempos de Fany Mpfumo. Agora, esta actual geração é mais competitiva. Toca aqui como pode tocar nos palcos dos Estados Unidos de América, em Madagáscar ou em Venezuela. Os músicos já tem uma lição mais global e não só centralizada.Estou muito satisfeito com a nova geração de músicos moçambicanos”.

Além de conhecer, Ótis tem discos vendidos em diversos países, inclusive nos Estados Unidos de América. O seu último trabalho é intitulado Ótis & Friends, álbum lançado ano passado. O disco conta com colaborações de autores como Jaco Maria, Wazimbo, André Cabaço, Yolanda Kakana, Guilherme Silva, Jennifer Solidade, Sandy, Jimmy Dludlu e Paulo Carvalho. É um trabalho que lancei aqui mesmo na Galeria. É um trabalho que fiz com princípios e conceitos. Eu tenho cerca de 500 amigos músicos. Pensei por que não reunir alguns e fazer um álbum. É daqueles projectos de vida, que, depois de fazer, dizemos que não gravo mais. Só se me pagarem.

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