O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

Toda existência humana é uma vida em busca de uma narrativa.

in Narrativa, Richard Kearney

 

Um dia desses, a Gigi, para vocês Virgília Ferrão, ligou-me a convidar para apresentar o livro Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa. Nessa altura, eu já havia escrito dois textos sobre a antologia de contos que reúne 30 autores do nosso continente. Um desses textos deverá ser publicado em breve por uma revista europeia. Então, não me interessava nada voltar a preparar um discurso ou o que quer que seja para uma sessão de apresentação de livro. Por isso mesmo, mal a Gigi terminou de falar, como que a recusar o convite gentilmente, eu rematei.

– Gigi, com os textos que já escrevi fiquei tão envolvido que não me resta mais nada a dizer sobre o livro.

A frase foi dita num ápice, convicto de que a nossa querida escritora seria condescendente, libertando-me, portanto, da missão a que me confiava. Enganei-me. Ao invés de um está bem ou compreendo, veio a sentença.

Ó, Zé, deixa-te disso. Tens de ser tu a apresentar o livro e pronto.

Aquele pronto soou-me como um full stop, um não se fala mais nisso. No entanto, teimoso como sou e determinado a não apresentar esses rebeldes Espíritos quânticos ao público, insisti.

Gigi, isso é mesmo a sério. Não me ocorre dizer mais nada sobre o teu… Nem me permitiu terminar a frase. Para problemas locais, soluções locais. Deve ter sido isso o que ela pensou quando agravou o tom de voz e perguntou-me.

Zé, sabes por que marquei a cerimónia de apresentação do livro para 1 de Abril?

Bem, eu disse que não sabia. E ela:

Vá lá, Zé, por que será?

– 1 de Abril é o Dia da Mentira.

Nem mais. Então, já que estás bloqueado, aproveita a efeméride e vá à Fundação Fernando Leite dizer qualquer coisa que te ocorrer no momento, tipo umas mentirinhas.

A Gigi, essa mulher gira, educada, simpática e sincera, que há poucos minutos esteve aqui a falar-vos, sugerir-me ir à Fundação Fernando Leite Couto dizer umas mentirinhas, tudo em prol da literatura?! Espantei-me, mas, bem antes de expressar essa surpresa, a nossa escritora prosseguiu.

Zé, não te preocupes com isso. Nós, os escritores, passamos a vida a mentir. É normal nos nossos livros. O poeta é um mentiroso!

– Gigi, Pessoa fala de fingimento, e não de mentira.

– É mesma coisa. Mentir ou fingir, nesta ligação, é tudo farinha do mesmo saco.

Escusado é dizer-vos que ali não havia sacos nenhuns e muito menos farinha. Havia, sim, uma ordem disfarçada em convite. Sentindo-me sem alternativas, comprometi-me em dizer mais alguma coisa sobre o livro.

Ao fim de uma semana, recebi um cartaz pronto, que, de facto, referia que eu seria o apresentador de Espíritos quânticos. Não me convencendo, e sabendo que não valeria nada ligar à Gigi, peguei no meu telemóvel e liguei a uma outra personagem: o Muianga, o Celso Muianga, meus senhores. Desta vez, o editor foi bem simpático comigo e não me colocou entre a espada e a parede como é habitual. Então, aproveitando a boa-maré, convenci-lhe de que uma sessão tradicional de apresentação de livro não iria funcionar. O editor deixou-me a falar “sozinho” uns sete minutos.

Maré baixa. Pensei, interrompendo a minha tentativa de o convencer.

De repente, ouvi um procede. Até porque aqui na Fundação estamos a desconstruir esse formato tradicional de apresentação de livro. Faremos como sugeres.

É com este apadrinhamento do Celso, e não desobedecendo a Gigi, que cá estou a dizer estas coisas que, habitualmente, não se dizem numa cerimónia de apresentação de livro.

Contudo, eu não me vou concentrar nesta antologia. Mais do que dizer de que se trata o livro, a mim interessa partilhar experiências que revivi ao ler Espíritos quânticos. A primeira tem a ver com o conceito de fantástico, segundo Tzvetan Todorov, a hesitação entre o estranho e o maravilhoso. Ou seja, se, diante de uma situação particular, aparentemente sobrenatural, a personagem ou o leitor, depois de hesitar, decidir que as leis do seu universo não ficam beliscadas com essa mesma situação, está-se diante do estranho. Contudo, se o leitor (ou mesmo a personagem), no mesmo tipo de ocorrência, entender que as leis da natureza foram violadas, ascendendo-se, por isso, para uma explicação sobrenatural, o evento leva-nos ao maravilhoso.

A noção de experiência fantástica que me coube recuperar ao ler Espíritos quânticos levou-me a recuar no tempo, como se procurasse, nas gavetas da minha memória, um exemplo condizente. O ano que me apareceu, com efeito, foi 2008. Nessa altura, eu fui trabalhar para Namadende, uma localidade a uns 35 quilómetros da Vila de Furancungo, no Distrito de Macanga, no Norte da Província de Tete. Em Tete tive dois anos incríveis e considero que lá me fiz homem. Quem conversa comigo cinco minutos sabe muito bem do afecto que tenho por Tete e pelas circunstâncias inerentes à província. Vocês estão a ouvir-me há cinco minutos. Então, também já sabem disso. Em termos profissionais e pessoais, lá realizei-me, de alguma forma, mas essa é uma história para outros capítulos.

O que eu quero que vocês saibam é que eu fui a Tete para dar aulas, depois de me formar no IMAP de Chibututuine – Manhiça. No fim do meu primeiro ano de trabalho, mais ou menos em Novembro de 2008, activei uma mina e explodiu. Reparem, não se trata de nenhuma desses engenhos que devem estar a pensar. A mina que pisei e explodiu, segundo me explicaram os meus amigos e colegas, era uma droga, mas nada dessas coisas que se injecta ou que se inala. A droga é uma forma de dizer feitiço.

Dos Remédios, tu passaste por algum sítio onde montaram uma mina. Como não era para ti, os efeitos são esses, secundários.

– Como tu sabes disso, quer dizer, como tu sabes que o feitiço não era para mim?

– Se fosse para ti, não estarias aqui a conversar comigo.

Os efeitos secundários a que o meu amigo se referia eram graves inchaços nos pés. Os meus pés incharam tanto que nem podia calçar sapatos ou sandálias. Chinelos, apenas um certo tipo. Pior, os meus movimentos ficaram condicionados e de um dia para o outro deixei de ser aquele apfundzisi (do chichewa, professor em português) ágil a jogar futebol.

Diante daquela situação toda, em que realmente houve muita hesitação em relação ao que acreditar, se eu decidisse que tudo aquilo tinha uma explicação natural, estaria a activar o estranho. Se optasse pela ideia de forças transcendentes ou feitiço, o maravilhoso seria a palavra de ordem.

Esta minha experiência real, que não vos conto como terminou de propósito, tem muito a ver com o tipo de confronto que nos é imposto durante a leitura de Espíritos quânticos. O livro organizado pela Gigi, repito, Virgília Ferrão para vocês, traz-nos histórias que desafiam as nossas crenças e o que deixamos de acreditar. Não só se trata de uma bela antologia. Aqui, igualmente, temos um conjunto de textos que questionam a nossa linha de horizonte. O fantástico ou o que se pode julgar isso ser é, na verdade, um pretexto para encontrar nas coisas simples e/ou complexas uma forma de sairmos do lugar confortável onde eventualmente nos encontramos para atingir a transversalidade e a imprevisibilidade do que é capaz o espírito humano. Há um universo que os escritores publicados nesta antologia enxergam. E, ao experimentarem o que não é possível ao Homem comum, partilham em palavras o que não podem em imagens. Aliás, a palavra é a imagem delicada de uma sensação que se pode confundir com um gesto.

De igual modo, Espíritos quânticos é um convite para juntos partirmos em direcção ao passado da Humanidade em sintonia com o futuro sempre imprevisível. Aqui a narrativa não é apenas confronto de arquétipos, também é acção e contraindicação… A pessoa lê as histórias do livro e, acreditando ou não, torna-se uma outra versão de si, onde cabem a diferença e a incompreensão sem atritos.

Embora o fantástico, naquela perspectiva todoroviana, seja recorrente em Espíritos quânticos, no livro também se encontram propostas de ficção científica, uma área ainda por explorar em Moçambique e nos restantes Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. No caso, esse tipo de histórias serve para nos levar a algum lugar na mesma proporção que trazem de espaços incertos respostas sobre perguntas nunca antes formuladas. “Sonda M – sinais de um homem player”, da Gigi, é um exemplo disso.

Este é um livro que se faz de partículas visíveis e invisíveis; um livro com histórias bem conseguidas. Por isso, o leitor pode se surpreender com o que Mia Couto ainda é capaz de escrever ou render-se: à pena de Marcelo Panguana, ao processo criativo de Bento Baloi, à distinta criatividade de Suleiman Cassamo, à pertinência do texto de Vera Duarte, à originalidade de José Luís Mendonça, ao soberbo Lex Mucache com o seu “O portal de Chinhamapere”, certamente, entre os melhores textos do livro, ou ainda deixar-se envolver com “O perdão de Mwamulambo”, de Agnaldo Bata, e pela exaltação ecológica de Daniel da Costa/Andreia Edna da Silva.

Não pretendi apresentar este livro, o que me cabe dizer de Espíritos quânticos é que é esse lugar incomum, preenchido de histórias que nos despertam para outras possibilidades sobre o mundo e sobre a maneira como nos concebemos: interiormente e publicamente.

 

*Intervenção feita na apresentação do livro Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa, organizado por Virgília Ferrão, no dia 1 de Abril de 2022, na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo. Texto escrito de cor.

Jeremias Langa, jornalista e jurista

Em primeiro lugar, queria dar os parabéns ao Tomás por ter trazido para o formato de livro a contribuição cívica que faz regularmente na STV.  Sim, mais do que comentários, aquilo com que, semanalmente, o Tomás nos delicia nas suas aparições na televisão são aulas de cidadania sobre o nosso comportamento ético quotidiano como sociedade, o nosso comportamento ético perante a rés pública, o crucial papel das instituições como pilar da construção da democracia, o papel dos cidadãos e da cidadania perante o nosso próprio devir.

Sim, com esta obra o Tomás lembra-nos de que, mais do que um mero membro de um Estado ou de uma comunidade política, ser cidadão é uma responsabilidade cívica porque enquanto tal somos detentores de direitos e de deveres perante o Estado e a comunidade de que somos parte.

Este livro teve a sua génese há cerca de 10 anos. Na altura, convidei o TVM para integrar o painel de comentadores do programa Pontos de Vista juntamente com Salomão Moyana. Nos anos subsequentes, o Tomás partilharia o espaço no programa sucessivamente com José Jaime Macuane, Ericino de Salema e Fernando Lima. Foi o período mais profícuo do comentário político na televisão moçambicana e a influência do programa está bem presente no que se faz hoje em muitos canais nacionais de televisão.

Parte do que se discutiu nesses programas Pontos de Vista, e mais recentemente no espaço de comentário que o Tomás passou a ocupar no noticiário da STV às sextas-feiras, está aqui neste livro. Prova inequívoca de que a escrita é imune aos géneros jornalísticos.

O Tomás revela-se sempre nas suas intervenções como um cidadão inconformado com o estado das coisas do seu país, pungente na sua crítica perante o descaso com os mais elementares valores éticos e morais e um intransigente e indefectível defensor do conteúdo jurídico-político de “Estado de Direito Democrático”.

Este é , de certa forma, um livro anti-épico no sentido de que não envereda pela celebração laureada, laudatória, panegírica, apologética das gloriosas realizações governamentais.

É antes um livro que faz uma crítica mordaz, lancinante, pungente da nossa realidade quotidiana.

Mas Tomás Vieira Mário alia, como diria Roland Barthes, a inteligência crítica com a sensualidade verbal.

No lugar do silêncio cúmplice por que envereda a maioria dos moçambicanos perante esta tendência quase auto-fágica perante o bem comum, ou a ominosa realidade da corrupção, da corrosão da máquina do Estado, do enfraquecimento deliberado das instituições, do desprezo pela constituição da República, da apologia do ódio e da desqualificação do outro perante as diferenças, Tomás assumiu o compromisso de intervir no espaço público, escrutinando ferozmente os poderes instituídos.

O seu livro contém cerca de 60 crónicas e está dividido em três grandes capítulos: Ética e sociedade no primeiro; Política no segundo e Comunicação Social no terceiro, mas a temática geral que perpassa por toda a obra está intrinsecamente ligada à construção do nosso devir comum, a ideia de construção de consensos sobre os desígnios comuns e unificadores da nação.

Numa época em que as tentações autoritárias assomam com subtiliza pondo em causa as conquistas democráticas do país, Tomas Vieira Mario clama pelo respeito pelos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, em particular as liberdade de expressão de opinião e de imprensa bem como o direito dos cidadãos a informação, enquanto conquistas inalienáveis do nosso Estado.

Tomás clama pela criação e ampliação de espaços de debate público no país como alicerces da cultura democrática para que esta  acção dos cidadãos tenha um efeito dissuadir perante o progressivo aniquilamento da eficácia da administração pública e até da segurança estratégica do Estado, como tristemente nos mostrou o julgamento do caso das dívidas ocultas.

Uma proposta de refundação do Estado

Mas ele não se limita a meros clamores: apresenta propostas, a mais marcante das quais a reforma profunda do Estado, a qual, diz ele, deverá culminar com a refundação do Estado moçambicano.

Porque, defende o autor, chega a permitir o acesso e exercício do poder de Estado para a instrumentalização deste Estado para apropriação privada dos recursos da colectividade.

A leitura é o processo cognitivo complexo de decodificar símbolos para extrair significados.

Mas também é um processo de criação de significados. Em cada leitura, o leitor gera a sua própria significação. Espero que cada um de vós faça a sua própria leitura do livro.

Aliás, um texto é um mero artefacto verbal que só se transforma em objecto estético mediante a leitura.

Têm aí estes Comentários na STV. Leiam-no!

*Texto de apresentação do livro “Comentários na STV”, de Tomás Vieira Mário

Darei o dito por não-dito. Nalgumas linhas acima prometera não esmiuçar pormenores sobre as aventuras do senhor Djacabai, o ajudante do senhor Coimbra. A razão que me move é o facto de que um dos eventos de que ele foi protagonista marcou o fim da sua carreira de conquistador no bairro, a mesma que maculou-lhe o pristígio já de si estremecido entre os  residentes da comunidade e não só, como a ver vamos.

Assim, retornemos à figura do aludido e passemos a reportar o acontecimento que desencadeou aquele grande tumulto e descerrou as máscaras de fidelidade com que se cobriam os rostos dalgumas residentes do bairro.

Djacabai residia no bairro da Mafalala, num casinhoto de caniço e zinco muito cuidado, sempre com pinturas frescas e com um jardim florido no frontospício. Pela  limpeza e originalidade distinguia-se das demais da vizinhança. A experiência de asseio que ele demandava dos residentes, era a mesma que governava a sua própria. Possuía um quarto e uma sala de tamanho mediano, confortáveis, embora não tão amplos como as dos vizinhos mais favorecidos, como as da família do senhor Abílio, escriturário nos Caminhos de Ferro; dos Mabenas, e outros de encarecido estatuto e influentes no lugar. A sua era modesta, palco restrito de protagonismos que só eram superados pelos que ocorriam nos lupanares das Lagoas e do Matlotlomane ali nas  proximidades.

As festividades do Natal aproximavam-se. Havia muito movimento nos caminhos, de gente que ia e vinha das compras no mercado do Xipamanine, nas lojas do Alto-Maé e da Avenida do Zixaxa.

Djacabai fora destacado para reparar umas tubagens que vertiam água numa casa situada na rua do Guijá, numero X, a pouca distância da cantina do Juze. O sujeito era tagarela, falava pelos cotovelos. Durante a operação de reparação encheu os ouvidos à dona da casa com muita conversa. Narrou histórias que presenciara ou escutara ao longo da sua permanência na cidade. Inventou outras de que fora protagonista lá em Manjacaze. Nas mesmas era sempre o herói. Era um conversador nato cuja presença angariava-lhe simpatias e amizades. Naquela ocasião, derramava os seus feitos em presença duma senhora de meia idade, de nome Genoveva, filha da anciã que era a proprietária da casa.  A conversa envolveu as três personalidades. A mulher jovem ria-se a bandeiras despregadas com as histórias do operário. Trocaram nomes e endereços, horários e disponibilidades. Ela vivia a três quarteirões da casa dos pais, nas proximidades do posto sanitário do bairro. Era casada com um senhor de nome Mapilele, estafeta num escritório da cidade e cristão muito piedoso. Do matrimónio tiveram dois filhos que eram a razão da sua vida presente.

Naquela manhã de sexta-feira, a senhora Veva informou ao esposo:

“ Logo à tarde irei visitar os velhos, a minha mãe não está lá muito bem. Depois passarei pela casa da modista ali no Mahafil provar algumas roupas”.

O esposo não se opôs porque era frequente assim ela proceder. Despediram-se e ele partiu para a jornada do dia.

Depois de despegar do trabalho o senhor  Mapilele, não a encontrou a esposa em casa. Ficou apreensivo pelo ineditismo da circunstância. Como a paciência é a mãe das virtudes, preferiu aguardar. Poderia ter-se dado o caso de ela demorar-se em casa dos pais, a cuidar da mãe, verdade se diga, sempre atormentada de reumatismo ou do pai com problemas da coluna e de tensão alta.

Às vinte e uma horas a Hora Nativa anunciou o fim da emissão. Da Veva nem um sinal.  As angústias do Mapilele ascenderam aos cem graus centígrados. Entrou em ebulição. Nunca semelhante falta sucedera naquele lar. Uma das regras cardinais de disciplina naquela casa era a pontualidade no cumprimento de compromissos. Estavam ali aquelas crianças à espera dos cuidados dela, do jantar por aprontar e das roupas por arrumar; enfim de toda a lide da casa adiada e ela ausente, desaparecida assim como fumo no ar.

Dirigiu-se à casa dos sogros. Estes já se encontravam a dormir. Bateu à porta com um vigor pouco habitual. Lá de dentro o sogro estremunhou uns protestos e franqueou-lhe a entrada.

“ Venho à procura da Veva. Desde que saiu de manhã ainda não voltou para casa”, gaguejou, estremecido e nervoso. A velha mãe arregalou os olhos nuns espantos e disse.

“ Não vejo a Veva desde a semana passada. Ela aqui não veio. Estive todo o dia em casa e não a vi aqui”.

O senhor Mapilele deixou aquele fogo, mas outros fogos ardiam no seu peito. Muitas perguntas atropelavam-se-lhe na cabeça. “Para onde a Veva teria ido? Onde estará agora? Com quem estará? Será que esses bandidos de má nota tê-la-iam morto e escondido o corpo aí nos becos dos caminhos?”. Eram todas perguntas sem respostas, embrulhadas numa mente atormentada.

Regressou cabisbaixo. A que se seguiu foi uma longa noite de vigília, à espera da claridade da madrugada para iniciar buscas da esposa, já oficialmente desaparecida.

A notícia correu como o vento em todos os bairros. Os residentes murmuravam:

“Desapareceu uma mulher chamada Veva que vive no bairro Indígena”.

“A história é sempre a mesma: ela fugiu masé com um homem. Essas piedosas são sempre as mesmas, santinhas por fora, mas Diabos atrás da cruz!…conheço-as bem…”.

“A comadre parece falar com conhecimento de causa…pecado confessado, meio perdoado, lá diz o padre com razão…”, outra a desferir uma alfinetada de dúvida na fidelidade conjugal daquela.

“Acho que a vi no bazar do Diamantino; não tenho a certeza, mas se é a Veva que eu conheço só pode ser ela”.

“No Diamantino? Qual quê. Eu vi a Veva ontem na Catembe, quando ia comprar peixe?…vi-a com estes olhos…”.

Ao senhor Mapilele restava apenas uma saída: esperar por novidades.

A manhã do sábado ia no fim quando uma delegação constituída por personalidades de semblantes carregados deu entrada no quintal da residência daquele. Servidos os  assentos aguardou por informações. Estas não se fizeram demorar. Ele não gostou do que viu, e muito menos do que escutou. Era uma comitiva constituída por elementos da Esquadra e dalguns “irmãos” da congregação. Por fim, revelaram pelo que vinham e ele já adivinhava do que se tratava:

“ Irmão Mapilele, as novidades que trazemos são chocantes e tristes”, assim fez a introdução o que parecia caudilhar o grupo.”Esta manhã apareceu na ali Esquadra um senhor de nome Samuel Bocoda que disse saber do paradeiro da “irmã” Genoveva, a sua esposa”.

“Agora quem é esse tal  Bocoda de que estão a falar? Não conheço nenhuma pessoa com esse nome” era o nervosismo a acrescer-se na mente perturbada do dono da casa.

“ Conhece sim, é o ajudante da manutenção aqui no bairro, esse que chamam Djacabai”.

“ E depois?”

“ Ele foi apresentar-se na esquadra para declarar que a dona Veva está em casa dele”.

“ Já desconfiava…já desconfiava!.. Então ela resolveu abandonar o lar, hen?!, fugir de mim, dos nossos filhos, por causa desse homem? Meu Deus, por favor, diz-me que não estou a ouvir direito!”, ergueu os olhos e as mãos em prece ao céu para solicitar alguma inspiração divina.

Um silêncio pesado suspendeu-se na atmosfera do ajuntamento. Como passar à novidade seguinte? O mesmo mensageiro, é de crer, experiente nesses mesteres de comunicação de fatalidades, tossicou e, aclarada a voz, prosseguiu:

“ A irmã Veva está morta em casa do senhor Djacabai. Ela morreu esta noite, na cama dele!…”.

E a bomba explodiu. O subúrbio estremeceu com as ondas da novidade da morte duma mulher casada, na cama dum amante. A fontenária do bairro foi o epicentro  da comoção. As línguas entraram a badalar nas bocas brejeiras.

“Afinal a Veva morreu de quê? Aonde já sabemos, mas de quê?”, perguntava uma, sem se dirigir a ninguém em especial.

“Morreu dum ataque!”, tentativa doutra de desvendar a causa principal da morte da infeliz.

“Mas ataque de quê?”, insistência doutra, dúvida por esclarecer, porque qualquer ataque tem as suas origens e motivações.

“Não me perguntes, pergunta masé ao Djacabai, ele vai-te informar…”, chacota doutra a acotovelar outras na aproximação do tambor às torneiras que jorravam água.

“Chiça! alguns homens enganam mesmo…palavra d’honra!…assim tão magrinho como ele é, juro por alma do meu pai que nunca pensei…assim tão magrinho…eish!…”, veneração e respeito pelas habilidades do parceiro da finada.

“Dizem que ela até espumou da boca!… com esses homens não vale a pena mesmo… se calhar ele tomou remédios para ter mais força…coitada da senhora…”, experência doméstica denunciada na espontaneidade  do comentário.

“ É por isso que eu não me meto nessas coisas…já bem me chega o meu Alberto…”.

“ Ela não aguentou com ele e zás…foi-se!…”, alguma luz na penumbra da dúvida sobre a “ patologia” que teria causado o “ataque” e a morte súbita da dona Veva.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

A luz com que vês os outros é a luz

 com que os outros te vêem a ti.

Provérbio africano

 

Este primeiro de Junho tem de ir além das comemorações, para ser, igualmente, um momento de reflexão sobre o quanto crianças com deficiências precisam ser olhadas, respeitadas e incluídas em todos os espaços da nossa sociedade. Na realidade, independente do que julgamos ser, saber e possuir, temos todos, grosso modo, uma deficiência temporária ou permanente. Esta deficiência se revelará em algum momento das nossa vidas. Quando isso suceder, as experiências podem ser mais ou menos marcantes, mas não deixarão de ser histórias de vida, de amor e de compaixão.

O leitor tem, em suas mãos, a primeira experiência literária de uma jovem mãe, guerreira, destemida, obstinada e que não se conforma com fatalismos e desigualdades. Uma mulher que conquista nossos corações e ganha estatuto de mulher solidária.  Percorrendo estas páginas, reencontramos alguém que se predispõem a partilhar suas privacidades, contrapondo com o ostracismo e silêncios. Um exercício de reconstituição de memórias e convulsão de sentimentos. Benilde Mourana encontrou na deficiência todas as razões para interagir com o grande público leitor.

As facetas mais fascinantes da vida são, quiçá, as mais simples de serem descritas. As outras, mais complexas, obedecem e sugerem roteiros distintos. Temos de conformar a dor e o sofrimento, para reencontrar o caminho do alívio e da tranquilidade. Porém, a vida, este dom divino que desfrutamos na plenitude ou em partes, nos ensina fundamentos e lições diversas. Revelar estas facetas pode ser uma experiência fenomenal ou traumática. Mas, ignorar as diferentes dimensões da vida parece ser inconsequente. Então, reencontre nesta narrativa a revelação da inquietude e do amor, do sofrimento e da paz, a retoma pelos modelos de superação, reinvenção das memórias e a alucinante vontade de estabelecer uma comunicação horizontal.

A autora deste livro, nesta primeiríssima viagem descritiva, não cuida apenas de uma filha com problemas, trata de várias dezenas de crianças e jovens. Ao assim proceder, ela não só repõe a esperança aos familiares, mas, também, devolve um sorriso às crianças, jovens e até adultos com deficiência. Nesta relação, fica escancarada a certeza de que o amanhã se escreve com as cores do arco-íris de hoje. A autora converte-se numa espécie de Madre Teresa de Calcutá, que vence as emoções e empenha-se no essencial. Uma mulher de causas, recriando ou ressignificando os caminhos da indiferença e da negação da felicidade e do futuro.

As famílias moçambicanas mais carentes enfrentam, em diferentes em períodos históricos, a questão moral e ética de como lidar, incluir e apoiar, com mais perspicácia, com ou sem recursos, as pessoas com deficiência. Essa tarefa torna-se, cada vez, mais premente com o avançar da idade destas crianças e adolescentes. Em causa esta a tipologia e a demografia deste grupo populacional. A situação está longe de fácil, compreensível e aceitável. Em jogo estão cuidados primários, alimentares, apoio psicológico e moral. Em causa está a vida e a qualidade de vida que tem de ser providenciada. Enfim, a vivência nos limites da capacidade emotiva, física e emocional. Porém, estas famílias não vergam e nem viram, nunca, a cara a luta. Cada dia tem sido um dia, e em cada sorriso infantil rebuscam das cores invisíveis dos raios solares, a energia e foco para levarem a bom porto a sua missão.

Ao longo da obra, entendemos o sentido primário e ético de vocação; o sentido superior de missão; a face da virtude. Pela história de Luana, essa jovem menina que agora beijou os seus dez aninhos de vida, reencontram-se estes conceitos associados a crença e a fé. Este escrito, ainda que force a leitura com os olhos embaciados, leva-nos de volta ao sentido de chamamento. Benilde e seu grupo de colegas e profissionais, aqui superiormente narrados, repõe uma espécie de despertar, refazendo o convite para ampliar o valor intrínseco de sua vida, abandonando a inércia ou a zona de conforto, abraçando, deste modo, essa causa que faz dela e delas, verdadeiramente, pessoas especiais. Ao cuidar de crianças e jovens com deficiência, elas próprias se transformam em pessoas especiais, perseguindo novos sonhos, objectivos e, na maior parte dos casos, transformando-os em realidade.

A deficiência perpassa a estabilidade familiar e emocional, colocando-se num plano da inserção dos portadores de deficiência, ao nível societário na estabilidade e no próprio desenvolvimento de Moçambique. Existem evidências de que pessoas com deficiência experimentam os piores resultados socioeconómicos e pobreza, se comparadas com as pessoas não deficientes e mais independentes. Todavia, apesar da magnitude desta situação, carecemos tanto de consciência, como de informação científica das reais causas ou consequências da deficiência. Não existem consensos sobre definições, nem credíveis informações, que permitam comparar, com exactidão, a incidência, distribuição e tendências da deficiência. São escassos os documentos com análises comprovadas, sobre como lidar com a deficiência e, sobretudo, sobre as respostas para abordar as necessidades das pessoas com deficiência.

Historicamente, as pessoas com deficiência têm, em sua maioria, sido atendidas através de soluções segregacionistas, tais como instituições de abrigo e escolas especiais. As pessoas com deficiência apresentam piores perspectivas de saúde, níveis mais baixos de escolaridade, participação económica menor e taxas de pobreza mais elevadas em comparação as pessoas sem deficiência. Naturalmente, isto acontece pelo facto de as pessoas com deficiência enfrentarem barreiras no acesso a serviços que muitos de nós consideram garantidos, como saúde, educação, emprego, transporte e informação. Tais dificuldades são exacerbadas nas comunidades mais pobres.

O relatório Mundial sobre a deficiência múltipla, de 2012, dava conta de que mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo convivia com alguma forma de deficiência, dentre os quais cerca de 200 milhões experimentam dificuldades funcionais consideráveis. A previsão era de que, nos próximos anos, a deficiência seria uma preocupação ainda maior, porque a sua incidência tem aumentado exponencialmente. Este aumento tem a ver com o aumento global de pessoas expostas ao risco de deficiência crónica, tal como as diabetes, doenças cardiovasculares, canceres e distúrbios mentais. A saúde humana também tem sido afectada por factores ambientais, tais como água potável e saneamento do meio, nutrição, pobreza, condições de trabalho, clima, ou até acesso a atendimento de saúde. Mas, a desigualdade tem sido das principais causas dos problemas de saúde e, por conseguinte, da deficiência.

Em Moçambique, estas razões encaixam na sua plenitude. Porém, existem, ainda, as causas sobrenaturais ou espirituais. Não admira que um país que continua tendo mais de metade da sua população recorrendo a tratamento fora de unidades hospitalares, socorra-se a espiritualidade para explicar o fenómeno da deficiência. Assim, a explicação mais lógica tem sido o fenómeno da reencarnação dos espíritos. Os defuntos das famílias nem sempre são tratados com a devida dignidade e, assim, eles regressam à terra para se instalarem em determinadas pessoas. Esta crença explica uma relação difícil e complexa entre as famílias e seus filhos com deficiência.

Existem casos de filhos com deficiência que são retirados da família para serem enviados para o campo ou para as periferias, longe do núcleo central da família. Famílias que exerçam lideranças tradicionais convivem mal com o fenómeno deficiência e imputam as culpas às suas esposas por estas ocorrências. A autora foi acusada de ter cometido adultério. Esta é uma explicação comum e despropositada, não tem nenhuma prova nem racional científico.

Benilde Mourana quis partilhar a narrativa da sua trajectória e desmistifica e desconstrói factos complexos da deficiência, conferindo um carácter de humanismo, simplicidade e uma bênção divina. Deus, como ente superior, determina o caminho de cada ser e sabe qual o papel que cada um de nós precisa de seguir e desempenhar na terra. Com mestria de quem quer transmitir e escrever a meio de tantos outros afazeres, ela sugere que são estas crianças e jovens que fazem e convertem a todos nós como pessoas especiais.

Na sua descrição sobre Luana, sua filha de quem teve uma gravidez normal, e que embora não estivesse disposta a seguir com a gravidez, ela revela que a mesma não aparentava nenhuma complicação até ao nascimento. Seguiu as recomendações médicas e fez as consultas pré-natais com a devida regularidade. Só descobriu e tomou consciência da gravidade do problema da sua Luana, depois de ter visitado diferentes médicos no país e na África do Sul e em Portugal. Portanto, um caso de doenças raras, mas, que mudou de alguma forma a sua rotina e o modo como lida com a situação. Por isso, estas páginas pincelam essa angústia, mas, e sobretudo, a certeza de que o mundo foi feito para todos e, cada um a seu tempo, seguirá trazendo felicidade ou infelicidade para os que acreditam e para os menos crentes.

Esta narrativa nos transporta para outras facetas e para a essência de uma trajectória que faz questão de não esconder ao mundo. Fá-lo com orgulho e com uma capacidade de escrever e expurgar a dor. Exorcizar os fantasmas e colocar a divindade no centro do destino e da criação humana. Porém, tem sido claro que a maioria das pessoas com deficiência no mundo, tem extrema dificuldade até mesmo para sobreviver a cada dia, quanto mais para ter uma vida produtiva e de realização pessoal. Enquanto, algumas poucas pessoas, pelo mundo, tem a sorte de ter apoios e recursos para viver uma vida que vale a pena, a autora não tem perspectiva de que o seu pequeno espaço possa beneficiar de meios eficazes para levar a bom termo o seu trabalho. Mas, ela encontra algo bem mais significativo e importante: a superação, o apoio dos amigos e uma legião de pessoas que abraçam a causa da cidadania.

Embora a autora reconheça que, nas últimas décadas, o movimento das pessoas com deficiência ganhou novos contornos e atenção, a sua obra não tem o efeito de chamada de atenção, mas o de educar e transpor o papel das barreiras físicas e sociais vis-à-vis a deficiência. Para a autora, as pessoas são vistas como deficientes pela sociedade, porém muito para lá destas incapacidades, esta uma vida, um sorriso e o amor incondicional que eles oferecem a todos sem excepção. Portanto ela apela a uma abordagem conceptual mais equilibrada, que deveria dar mais ênfase ao enquadramento social, dos que propriamente ao estado físico.

A autora tem o mérito de explicar, de forma simples, que a deficiência afecta seja a criança recém-nascida com uma condição congénita, tal como paralisia cerebral, como também afectaria vítimas de acidentes, de guerra, pessoas que sofrem de artrite ou alguém que passa por algum infortúnio, que sofra de demência, de entre muitas outras causas. Um enxoval em cadeira de rodas como sugere o título. Quando terminar esta leitura entenderá que os problemas de saúde podem ser visíveis ou invisíveis, temporários ou de longo prazo, estáticos, episódicos ou em degeneração, dolorosos ou inconsequentes. No final estas crianças, como a sua Luana, natalina, e as dezenas de Luanas, que estão sob seus cuidados nem sequer se consideram pessoas com deficiência ou enfermas, são os seres que nos fazem especiais.

a instauração do desassossego

não seria a principal finalidade

da boa literatura?

 

É com esta questão que se encerra o prefácio que a professora Vanessa Riambau Pinheiro faz do livro “cães à estrada e poetas à margem” de Deusa d’Africa. O que está em voga pode não ser a mera busca pela intencionalidade textual e sim um lançamento do olhar ao que realmente importa para que o texto seja efectivamente literário.

Longe da falsa divisória da forma e do conteúdo, que se tem tornado norma na actual poesia moçambicana, “cães à estrada e poetas à morgue” é uma intercessão entre o real e o imaginário. O sonho e a realidade. A memória e o devaneio. O mundo exterior e o interior. Uma poética imagética surreal e mimética.

Depois de se ter estreado com “A voz das minhas entranhas” (poesia), em 2014, e publicado (Equidade no Reino Celestial” (romance) e “Ao encontro da vida ou da morte” (poesia), em 2016, Deusa d’Africa traz-nos, seis anos depois, este “Cães à estrada e poetas à morgue” que, pelo título, já antevê um lirismo mordaz e acutilante como se nos dissesse: se os cães ladram e os poetas vivem na letargia, que vão os primeiros à rua e os últimos à morgue.

De facto, tal como uma vez asseverou o poeta cabo-verdiano José Luís Tavares, um poeta que não é uma inconveniência social é apenas um reprodutor da ordem vigente mesmo se comprazendo em sofisti­cados jogos de máscaras.

Este lirismo votado à sociedade e suas mazelas quotidianas experimenta um contínuo apelo ao grotesco e uma aura escatológica em todas suas dimensões. A escatologia deve ser vista, aqui, na sua dupla significação. Primeiro, enquanto discurso da irreversibilidade do destino e do esvaimento da própria existência, individual e colectiva.[1]

Não se quer com isso assumir que em “cães à estrada e poetas à morgue” a poeta esteja em contínuo exercício de demonstração da ausência de fé na regeneração da sociedade, até porque o estudo directo da psicologia do autor e o estabelecimento de uma relação de causalidade entre o seu meio, a sua vida, a sua classe social e as suas obras é uma via particularmente incerta.[2]

Pretende-se, sim, realçar que os cenários, modos, hábitos e práticas que os Homens adoptam socialmente conduzem, inevitavelmente, à corrosão da sociedade senão deles próprios. Estes cenários. Estes modos. Estes hábitos. Estas práticas são descritas com uma minúcia a que a poeta já nos habituou em “Ao encontro da vida ou da morte” que recorrentemente nos remete ao (realismo) grotesco.

Mesmo antes da viagem poética a que o livro se propõe, é-nos apresentada uma epígrafe que nos antecipa relativamente ao que iremos encontrar ao longo dessa viagem:

os homens se vestem de ternos perfumados e engomadinhos, com vinco quente às calças, flor campestre e almiscarada na lapela, urinam sobre as acácias da cidade tal como tutelam o meio-ambiente, bebem tal como se defecam nos bares, comem nacos gigantescos de carnes tal como os seus vivem à míngua, se deitam com suas filhas tal como os macacos o fazem, leem manchetes em jornais dos ardinas encenando haver interesse mesmo que nunca os comprem (p. 13)

Refira-se, antes de mais, que o grotesco existia já desde a Antiguidade greco-romana, mas o termo grotesco surge no final do século XV. Entre os teóricos que se debruçaram sobre este fenómeno da arte, tem sido consensual destacar-se Mikhail Bakhtin (com a denominação de realismo grotesco) Wolfgang Kayser (com a denominação de grotesco romântico) e Vsevolod Meyerhold (com a denominação de cômico-sério) que, na qualidade de director de teatro, se dedicou a esta característica no exercício do seu trabalho.

Não caberá, obviamente, nesta recensão toda a discussão possível de fazer em relação a este conceito mas vale referir que a sua categorização como corrente, género ou estilo está relativamente longe de granjear consensos. Ao que, enquanto não tomo um lugar nesta mesa de debate, procurarei a denominação mais eclética possível.

Em geral, trata-se de uma postura estética que se carateriza por uma verisimilhança vivaz (e de certo modo, hiperbólica) que se detém aos pormenores do macabro, real ou imaginário, dando ênfase a actividades como comer, excretar, o sexo, o parir, etc. gerando, com efeito, a estranheza. O desassossego.

Ler “cães defecam/ poetas cagam/ Cães vomitam/ poetas engolem o vômito/ Cães comem guelras/Poetas chupam ossos/ na página 114 deste livro, pode, indubitavelmente, dar-nos provas deste efeito estético.

Ao contrário do cánon clássico que representa o corpo harmonioso, rigorosamente fechado e solitário, o corpo grotesco será sempre representado em seu devir, em seu inacabamento, nas múltiplas protuberâncias, nos orifícios, e em seu funcionamento interno.[3]

De forma consciente ou não, Deusa d’Africa toma propriedade deste ímpeto do grotesco e permeia o seu “cães à estrada e poetas à morgue” de imagens que a nossa mente ou conhece ou passa a conhecer pela construção imagética que as palavras trazem e nos faz reviver o caos que grassa a nossa sociedade (e não só) do mesmo modo que incita a dimensão catártica do nosso íntimo perante a penosa situação escatológica em nos encontramos.

uma agência funerária vende a promoção flores mortas na entrada do hospital,

a enfermeira de bata da impaciência sobe ao cimo do hospital como se escalasse cadáveres

soldados com granadas e espingardas matam uma pétala por um tiro sangrento

e servem a calda de sangue num prato para uma criança recém-nascida

enquanto se resseca literalmente o leito numa mão com o ventre rasgado pelo medo

 (p. 26)

uma mulher nua fere com seus espinhos a fome no cemitério onde mora

uma criança cospe sangue sobre a fome e encerra centros de saúde insanos

uma mulher menstruada urina sobre a flor e condena com a sua impureza

um poeta segue o percurso da urina e é preso no bar de palavras confidenciais (p. 33)

Embora se trate de problemas quotidianos e, em certa medida, corriqueiros, a forma como são descritos transmitem, decerto, a imagem do mórbido que se despe e nos desassossega.

Tendo despontado nas artes cénicas e plásticas, sobretudo, o grotesco entra na literatura pela mão de Charles Baudelaire (1821 – 1867). Até então, era tido como uma manifestação até certo ponto marginal ante o que se tinha como sublime. Contudo, nos dias de hoje e pela sua recorrência quanto na prosa como na poesia, o grotesco ocupa o mainstream.

Deusa d’Africa, neste tempo e nestas latitudes, reclama, com este livro, um pódio que lhe é merecido na manipulação da palavra neste viés estilístico para representar o real que a cerca e os devaneios que o seu ego, enquanto poeta e ser social, não ignora e se deixa transparecer no poema com algum hiperbolismo à mistura. Mas, que isso mal tem? Nenhum! Porque bem mesmo antes destes tempos, Dostoievski escrevia que em arte, para mostrar o objecto, é preciso proceder por exageração, é preciso deformar a sua aparência precedente, é preciso colori-lo.[4]

É através desta coloração que em alguns textos o escatológico se dilui e é reavivada a sagrada esperança sem que com isso o grotesco se iniba de dar ares de sua graça:

Amanhã cessará o fogo das armas

bocas munidas de saliva que cospem

sangue e almejam tudo à sua volta.

Amanhã não haverá facas espetando as gengivas

para que a sangue-frio se tolhe a alegria de viver e ser. (p. 47)

 

 

[1] NOA, Francisco. A Escrita Infinita. Maputo: Livraria Universitária, 1998

[2] TYNIANOV, J. “Da Evolução Literária.” In EIKHENBAUM et al. Teoria da literatura: formalistas russos. Lisboa: Edições 70, 1999.

 

[3] https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/grotesco

[4] JAKOBSON, R. “Do Realismo Artístico”. In EIKHENBAUM et al. Teoria da literatura: formalistas russos. Lisboa: Edições 70, 1999.

Hoje, recuamos no tempo e lembramo-nos da nossa existência há 17 anos. Nestes anos que se somam, de papel em papel, com tintas escorridas coerentemente, criando desenhos significantes, enquanto factos capturados a grosso e processados para distribuição a retalho, fomos escrevendo a história do jornal O País e, principalmente, a história de Moçambique e do mundo. Fomos lutando pela conquista de presença no espaço democrático, dando palavra à sociedade e levando outras tantas até si.

De edição em edição, fomo-nos afirmando como o quarto poder, renegando sempre o convite envenenado para que nos tornássemos o quarto do poder, com regras impingidas pelo dono do quarto. Fincamos pé e rejeitamos ver a nossa jovem e frágil democracia rasgada e pisoteada pelos inimigos da liberdade de imprensa. Içamos a bandeira da liberdade de expressão que, a bem da verdade, reconhecemos que não passou de meia-haste, não por razões nobres ou patrióticas que a faria descer, mas porque ainda estamos na luta para fazê-la subir.

O jornal O País nasceu em Maio de 2005, quando Moçambique espreitava a pré-adolescência da democracia multipartidária e a liberdade de imprensa, enquanto um direito consagrado na biblioteca das leis, empoeirava-se nas prateleiras havia 14 anos. A imprensa privada ainda era uma tímida realidade, que buscava identidade sem plena consciência dos intervalos de acção permitidos. A fronteira legal da liberdade de imprensa, apesar de definida na Lei 18/91 de 10 de Agosto, ainda era pouco percebida ou conscientemente negligenciada por quem a aprovara, quando vestia a máscara da democracia imposta para o restabelecimento da paz social e fim das hostilidades militares.

Os escribas tinham, no seu quotidiano, a espinhosa tarefa de ressuscitar cada letra morta desta lei, e houve quem morreu nesse exercício. O jornalista Carlos Cardoso é o exemplo mais chocante desta luta, mas também combustível para imprimirmos velocidade e não nos permitirmos seguir para o abismo das palavras algemadas. Retiramos a areia da embraiagem e mostramos que a nós cabe decidir a velocidade em que queremos seguir.

De velocidade em velocidade, o jornal O País fez-se presente em muitos momentos históricos. Quando o país entrava em ebulição social, ora pela subida dos preços de combustíveis, pão e energia, ora por outras doses de insatisfação ou sufoco social, com a responsabilidade que nos caracteriza, o jornal O País fez-se às ruas e trouxe os factos, nada para além da verdade, mostrando que, com a peneira, não se tapa o sol. Uma liberdade negada e combatida quando a emoção se sobrepunha à razão. Desta forma, contribuímos para edificar a democracia, enquanto um pilar estruturante da sociedade. Um Governo deve ter a imprensa como amiga, para que tenha possibilidades na adversidade, tal como precisa de ter boas relações com o povo, para que se firme na lama, segundo um ditado popular.

Testemunhamos o renascimento de ataques militares, como resultado do descontentamento da Renamo com os processos eleitorais. Esquivámos balas e, firmes, continuamos à busca da verdade, que morre sempre com o primeiro tiro, prenúncio de um conflito militar, e hoje, ainda mais distante de ser ressuscitada devido ao terrorismo no Norte do país. Aqui, até fomos, em alguns momentos, excluídos do palco dos acontecimentos, como se fosse possível adiar a tempestade para transferir o tesouro. Apagada a “suspeita”, entramos em cena e os factos possíveis noticiamos.

Estes capítulos da história do país ajudam-nos a compreender as sendas percorridas na edificação das nossas instituições, que hoje, 45 anos após a independência, permanecem infaustamente frágeis e com a credibilidade beliscada.

Se falar de boas leis é provocar uma discussão filosófica sem fim, pelo menos como país, devíamos fazer valer os principais fundamentos de um Estado de Direito – – as leis. Elas toldam a liberdade dos homens e até travam a sua evolução, mas garantem a existência da sociedade e a coesão social. Qualquer liberdade fora das leis devolveria ao Homem, ou melhor, enfatizaria o seu estatuto de animal e apressava o desaparecimento da sociedade.

Por isso, respeitar a Lei de Imprensa e todas outras existentes, bem ou mal concebidas, é politicamente imperioso, tal como rever uma lei, com o intuito de melhorar a gestão social e adequá-la à realidade. Mas, nunca com a manifesta vontade de quartar liberdades outrora ganhas e aclamadas.

Vivemos, hoje, numa sociedade com outras dinâmicas, políticas, económicas e culturais, trazidas pela evolução da tecnologia. A media e a respectiva indústria moldaram-se com o desenvolvimento tecnológico, e suas tradicionais formas de produção e difusão de informação têm estado a ruir. Por essa razão, a media vive, hoje, uma incerteza sobre a sua sobrevivência.

Entretanto, mantendo constante a necessidade social de acesso à informação credível, o incerto é a forma como essa informação será produzida e difundida. Portanto, ao pretender-se rever as leis existentes sobre este segmento, é importante compreender o todo – a indústria e o meio envolvente – que vai para além das nossas fronteiras geográficas, isto é, captar as tendências internacionais e preservar a liberdade de expressão.

Qualquer evolução que se almeja no sector da media passa por compatibilizar a sua evolução com o quadro legislativo e regulatório, numa perspectiva de fazer-lhe reflectir as mudanças que se vislumbram com os novos paradigmas da comunicação social e manter intacta a liberdade genuína que alicerça a profissão. Portanto, a proposta de Lei da Comunicação Social deve fazer jus à amplitude desta designação e trazer alterações do quadro legal à altura da realidade actual.

Portanto, que o poder legislativo tenha discernimento de discutir e aprovar esta lei com o sentido de defesa da democracia, porque é sobre esta umbrella que queremos celebrar mais aniversários do jornal O País. Que a demora em agendar o debate resulte numa melhoria substancial do instrumento!

Enquanto isso, vamos criando cabedal com as conquistas de 1991 e 2014, Lei de Imprensa e Lei do Direito à Informação, respectivamente, porque, se a mudança for contra a liberdade de imprensa e contra uma indústria de media moderna, teremos de saber sobreviver inconformados, mas obrigados a respeitar. Até porque uma mudança sempre deixa lançada a base para a emersão de outra.

Pede-se me que  faça uma reflexão breve sobre o papel de instituições fortes, credíveis e funcionais como elementos instrumentais de estabilidade e boa governação de uma sociedade.

Devo,  em primeiro lugar,  reflectir sobre a natureza da existência de instituições que fazem  a construção de uma sociedade estável, por um lado, a nível objectivo, orgânico e estrutural, e por outro, a nível de valores essenciais, como a ética e a moral que funcionam como faróis para uma sociedade estável e saudável. E, em segundo lugar,  reflectir  também,  sobre a constituição das instituições orgânicas, estruturais e também de valores no caso de Moçambique, Estado e Moçambicanidade.

É comum ter-se a percepção de que algo não está a funcionar adequadamente  numa determinada sociedade porque as suas instituições não são sólidas. Essa afirmação não passa de uma petição de princípio, isso é um silogismo que carece sempre de uma aferição mais objectiva, como o são todos os silogismos.

Há dois tipos de instituições numa sociedade constituída. Primeiro, instituições do sistema estrutural e organizacional, na área política, económica, social, cultural, religiosa, desportiva, em suma, o Estado. Segundo, instituições de valores: valores morais, éticos  e demais códigos sociais.

Ambos os sistemas de institucionalização acima referidos devem convergir de modo a determinar a estabilidade da sociedade nas várias estratificações criadas pela dinâmica da história da própria sociedade. Tomemos como exemplo Moçambique como um Estado e  sociedade de origem colonial e matriz ocidental, construído a partir de um paradigma centrífugo, decorrente da arbitrariedade na definição das suas fronteiras,  que não teve em conta sociedades pré-coloniais, com história e geografia diferenciadas e matriz africana.

A construção de uma consciência de se ser moçambicano por cima deste pressuposto denota sempre uma amálgama de instituições,  quer de valores,  quer orgânicas,  que em determinado momento podem entrar em entrechoque, fragilizando o edifício a construir, que são o próprio Estado e a essência do que pode ser e sentir-se moçambicano.

Se juntarmos a isso toda uma dinâmica de construção de uma narrativa de afastamento conflituoso do sistema colonial,  verificaremos que a construção de instituições,  quer orgânicas, quer de valores no homem moçambicano é de uma complexidade que em vez de reforçar, enfraquece a sua estrutura. Portanto, a percepção que nós temos  de que Moçambique tem instituições fracas não depende apenas de quem conduz os processos organizacionais, políticos, económicos, morais, mas sim da própria dinâmica do devir histórico enraizado no passado histórico.

Se consideramos que a história e a geografia de Moçambique é uma amálgama, a sedimentação desta amálgama será  sempre um processo difuso e imprevisível, demandando tempo para a sua consolidação  enquanto Estado e Sociedade.

Não que não seja possível construir um Moçambique com instituições fortes, credíveis e funcionais, mas isso não depende de clamores momentâneos que nos demonstrem que Moçambique não tem estas instituições. É minha percepção que qualquer grupo que queira tomar conta do leme para conduzir Moçambique a uma estabilização terá sempre dificuldades múltiplas.

A questão é simplificada da seguinte forma: toda a narrativa de construção de um Estado chamado Moçambique foi estruturada com base no Nacionalismo, na Luta de Libertação Nacional, na destruição do Estado colonial e na vontade de construir um Estado que pudesse albergar um cidadão cujo perfil configurava no chamado ʺHomem Novoʺ. À volta desta narrativa construiu-se o mito do desenvolvimento através de modelos marcadamente exógenos e mal assimilados.  Assim se estabeleceram as instituições do Estado recém criado após a euforia da proclamação da independência. Com os primeiros solavancos, próprios de um corpo que começa a movimentar-se, Samora reconhecia: ʺNós desmantelamos o Estado Colonial, porque não foi para geri – lo que combatemos. Mas estou a verificar que não estamos a ser ágeis a construir o Estado que queremosʺ.

A História do nosso País, Estado e Sociedade,  espelha com linhas muito marcadas como uma estrutura frágil, desde o alicerce, não permite construir um edifício sólido e resistente, tal como num corpo com baixa imunidade, os vírus tomam conta dele e podem destruí –lo.

Moçambique Colonial foi construído em cima de uma arbitrariedade colossal, passando por cima de realidades históricas, sociais, culturais e territoriais diversas. A revolta contra o Estado Colonial foi o denominador comum que uniu os diversos povos desse Estado Colonial. Contudo, vencida a luta e destruído o Estado Colonial, o edifício construído no seu lugar acabou por demonstrar que tinha uma frágil sustentabilidade. E, pouco a pouco, foi-se  perdendo o equilíbrio. Ao Estado baseado em premissas ideológicas e sustentado por um discurso sedutor, mas autoritário, foi emergindo  um Estado errático com um discurso de ocasião,  sem qualquer suporte ideológico que paute uma agenda para o próprio Estado, acima dos interesses das elites políticas e burocráticas.

Não há a mínima condição para o estabelecimento de instituições fortes, credíveis e funcionais numa estrutura frágil e contaminada como esta. Tal como referi atrás, o vírus ataca um organismo quando as defesas desse organismo está frágil.

Do meu ponto de vista, responsabilizar a corrupção e a incompetência como os causadores da situação em que se encontra o País, é deslocar o foco. A corrupção e a incompetência, com todas as consequências, penetraram na orgânica do Estado, porque este, devido à sua baixa imunidade, escancarou as portas para esses vírus entrarem.

As vozes que apontam para o estado em que nos encontramos,  através da comunicação social, da sociedade civil, das redes sociais e demais espaços com voz, têm a nítida noção da impotência e dificuldade de reverter a situação.

Maquiavel, na sua obra mais citada, não sei se também conhecida, O Príncipe, afirmava nomeadamente que os estados são como a dinâmica do Universo. Se o desmoronamento das instituições de um determinado estado provoca o CAOS, torna-se necessário reconstruir o COSMOS. E este processo é doloroso porque precisa que o príncipe que vai conduzir a reconstituição do Cosmos afaste a ética da política.

Todos os dias chegam-nos narrativas que indiciam sinais que nos podem conduzir a um estado de caos. Todos os sectores orgânicos do Estado demonstram evidentes mazelas, no sector de Infraestrutura, na Justiça, na Educação, na Saúde, nos órgãos soberanos  do Estado. Não só, igualmente há evidente sinais que nos possam evidenciar o estado de caos no empresariado, nas organizações não governamentais, nos órgãos de comunicação social.

O jornal O País comemora 27 anos de vida e faz parte de um grupo de órgãos de comunicação social que surgiram a partir de uma premissa consagrada na legislação moçambicana sobre uma questão fundamental das liberdades, a chamada Lei da Liberdade de Imprensa. Estes órgãos de comunicação social surgiram  com uma forte vontade de se demarcar da colagem que os órgãos de comunicação social públicos faziam ao pensamento do poder. Resta-nos saber se a  voz do jornal O País é uma pedrada  no charco ou  é uma voz clamando no deserto.

Moçambique é um país profundamente marcado  por uma diversidade de recursos e oportunidades que permitiu um amplo leque de escolhas, particularmente nos primórdios da Independência Nacional, em 1975. Nessa ocasião o país opostou claramente na agricultura e na indústria como fórmula para realizar o sonho do desenvolvimento económico.

Alguns factores, particularmente a guerra dos 16 anos, não permitiram que a então “estratégia da passagem do subdesenvolvimento para o desenvolvimento” fosse testada. A mais do que desejada assinatura dos acordos de paz (em 1992) trouxe algum alívio aos sectores económicos, sociais e ambientais que estavam profundamente sufocados, e a introdução da democracia multipartidária.

Nesse novo contexto, iniciou um processo de recuperação das infraestruturas destruídas pela guerra ou pelo abandono, e privatização de vastos sectores da economia. O « boom » daí resultante permitiu inicialmente  que o país crescesse anualmente a dois dígitos,  estabilizando-se em 7-8% durante longos anos, e caindo recentemente  para 2-3%, no contexto de sistemáticos desastres naturais e Covid 19.

Entretanto, a prevalência de níveis elevados de pobreza absoluta, tanto no meio rural como urbano, o crescente aumento das desiguldades socias e económicas, o recrudescimento da criminalidade a todos os níveis, e a generalização dos fenómenos de corrupção (como por exemplo as dívidas ocultas) colocaram alguns pontos de interrogação na dinâmica do desenvolvimento nacional.

Paralelamente, a persistência de alguns fenómenos climáticos adversos também contribuíram para complicar a equação e retardar o processo. Alguns dos exemplos mais marcantes desses contratempos são : as cheias de 2000, o ciclone tropical Fávio (2007), o ciclone Jokwe (2008), o ciclone tropical Hellen (2014), os ciclones Idai  e Kenneth (2019) e a tempestade tropical Ana (2022).

No momento de assinalar as conquistas e fracassos, há espaço para pensar na mudança de paradigmas, eliminar certos factores retardadores e acelerar o desenvolvimento, agindo particularmente sobre os sistemas alimentares, o meio ambiente, os recursos minerais e energéticos, os recursos humanos, a igualdade de género, as assimetrias de desenvolvimento e a governação.

  1. Apostar nos sistemas agro-alimentares

Os sistemas agro-alimentares continuam a representar a opção mais válida para um desenvolvimento sustentávél. Sabendo que cerca de 34% da população sofre de fome extrema e 80% tem como fonte de rendimento a agricultura, apostar no agronegócio pode ajudar a resolver, simultaneamente, dois problemas: o aumento do rendimento familiar  para combater a pobreza e a disponibilidade de alimentos no mercado. O mesmo se pode dizer relativamente às pescas, aquacultura e pecuária.

Uma solução a curto prazo poderia envolver a organização dos  produtores em cooperativas e o estabelecimento de parcerias com o sector privado para garantir o fluxo das cadeias de valor (compras de excedentes, transformação, comercialização, conservação e exportação).

  1. Incluir o ambiente e turismo na equação

Moçambique conta com um vasto manancial de recursos naturais com potencial para a  exploração turística: uma longa costa de cerca de 2.770 kms de comprimento; áreas de conservação ricas em biodiversidade; montanhas e vales com particularidades geológicas, históricas e culturais; rios navegáveis e cataratas de beleza incomparável; diversidade climática para satisfazer diferentes preferências; e ilhas paradisíacas do ponto de vista paisagístico e ecológico.

Para além de políticas para a conservação desses recursos, é preciso investir em infraestruturas (estradas, portos, aeroportos, linhas férreas, sistema de transporte rodovíario etc.), no empreendedorismo nacional e na valorização do património cultural.

  1. Maximizar o potencial dos recursos minerais e energéticos

Qualquer equação para o desenvolvimento do país tem que levar em conta os recursos minerais e energéticos. O lançamento das operações para a exploração de gás e petróleo em Pande – Temane, o surgimento de empresas como a Vale, Rio Tinto, Jindal e Minas, explorando carvão mineral em Moatize, o lançamento das operações de exploração de gás na Bacia do Rovuma, o sucesso da Hidoeléctrica de Cahora Bassa e da  Mozal,  demonstram as  potencialidades deste sector para alavancar a economia nacioanl. Também se pode falar da exploração de pedras preciosas e semipreciosas, diamantes, rubis, areias pesadas, ouro, mármore, grafite etc.

Com a exploração desses recursos o país pode ter receitas anuais de centenas de milhares de milhões de dólares (só em impostos). Deve-se, porém, evitar cair na armadilha da “doença holandesa”, embebedados pelo fluxo de dólares da economia extrativa. A solução é garantir a existência de um fundo soberano para projectar os recursos arrecadados para sectores da economia que garantem uma maior distribuição da riqueza: a agricultura e a indústria transformadora.

  1. Desenvolver recursos humanos e capacidade tecnológica

O desenvolvimento do capital humano foi sempre um calcanhar de aquiles em Moçambique, desde a proclamação da Independência Nacional. Com a saída em debandada dos técnicos e profissionais portugueses, o país viu-se obrigado a tomar algumas decisões corajosas: a duração dos cursos de licenciatura foi reduzida em um ano, algumas faculdades encerraram, alguns alunos finalistas da nona classe foram convertidos em professores, etc.

Essa geração cumpriu o seu papel, compensado às suas lacunas com o elevado espírito de entrega, dedicação e militância. Com a mudança de modelo económico, surgiram muitas instituições de ensino privadas, enquanto o ensino público ficou enfraquecido. As escolas primárias e secundárias estão visivelmente subfinanciadas. A carreira de professor primário e secundário é considerada quase um castigo. No ensino superior a emissão de diploma aumentou mas a qualidade é sofrível ou questionável.

É urgente rever completamente a política de formação de quadros, tornando-a uma prioridade. Só isso permitirá formar profissionais qualificados e garantir o domínio das novas tecnologias, essenciais para o aumento da produtividade e o crescimento económico.

  1. Promover a igualdade do género

As políticas que promovem a igualdade de gêneros, colocando homens e mulheres no mesmo patamar de direitos e deveres, representam um acelerador de desenvolvimento de grande potência. Moçambique já teve a experiência da participação efectiva das mulheres na Luta de Libertação Nacional, conta com a liderança feminina em alguns sectores económicos e sociais, e tem exemplos de excelência na literatura, desporto e turismo.

O país confronta-se porém com barreiras culturais que dificultam a participação das raparigas na educação e posteriormente no emprego. Algumas prácticas tradicionais não conferem às mulheres a dignidade e oportunidade que merececem. Embora o fenómeno seja mais acentuado no meio rural, a sua influência é notória nas mentalidades urbanas. Políticas para mudar os paradigmas das relações de género  e promover o empoderamento das mulheres podem fazer uma grande diferença, particularmente no aproveitamento da sua capacidade produtiva, criatividade e objectividade.

  1. Eliminar as assimetrias de desenvolvimentnto

A aceleração económica verificada no país a partir dos anos 90 gerou algumas assimetrias entre o campo e a cidade, e entre a capital (Maputo) e o resto do território nacional. Não se trata de uma realidade fácil de abordar, mas algumas medidas podem ser adoptadas: políticas tributárias diferenciadas para atrair investimentos para zonas menos favorecidas; canalizar investimentos de parceiros internacionais para os locais críticos; e investir em infraestruturas de transporte para constituir uma espinha dorsal. O grande sonho seria uma linha férrea do Rovuma ao Maputo e uma estarada asfaltada paralela, com as necessárias derivações.

  1. Promover políticas de boa governação

Tal como acontece em alguns países aficanos, asiáticos e latino americanos, onde os índices de pobreza são elevados e a cultura institucional não está devidamente arraigada, o país tornou-se permeável a algumas prácticas tóxicas que se desenvolveram de forma sistemática (corrupção, compadrio, nepotismo, oportunismo, tráfico de influência, crime organizado etc. ), tarnsformando-se em mecanismos de sobrevivência, para contrapor a penúria e o rigor dos mercados.

A solução é melhorar os processos de governanção de forma sistemática e didáctica, demonstrando um novo ciclo de positividades (inclusão, transparência, competitividade, meritocracia, eficiência, eficácia e dignidade). Medidas simples são recomendáveis : educar as famílias através da comunicação social; erradicar as prácticas de corrupção nas escolas e hospitais; formar os agentes de segurança em ética e deontologia;  « fritar » os barões da corrupção através de medidas punitivas adequadas; promover a meritocracia do sector público e privado; e garantir transparência de todos os processos de interesse público.

Quais são os passos a serem dados nos próximos tempos que possam possibilitar o crescimento da nossa cultura? A resposta à esta questão não pode ser considerada fácil. Posso apresentar, se me for permitido, a mesma pergunta duma forma samoriana: o que devo fazer para que a cultura vinque? Esta é, em minha opinião, a questão fundamental se quisermos falar de desenvolvimento cultural.  O conceito de indústrias culturais e criativas é novo, mas a realidade que pretende abarcar presumo que seja aquela que desde sempre perseguimos, isto é, a promoçao do desenvolvimento cultural, onde o sujeito principal é o artista. Falar desse conceito, relativamente novo entre nós, sonhar as suas realizações, significa, necessariamente, colocar esse artista a frente da produção, a criar e a materializar os seus sonhos. De acordo com Muocha et al, 2020:31, a indústria cultural e criativa “é definido como sendo um conjunto de sectores de actividades com uma cadeia de valor baseada no talento individual, alicerçada no património cultural das suas comunidades, com potencial para a geração de renda e exploração da propriedade intelectual.” Fica claro, na citação acima referida, que cada um de nós, alicercando-se no seu talento individual, seja o que for que faça e onde quer que esteja, assuma o seu quinhão de responsabilidade perante o seu trabalho. Este é o segredo, para que não passemos o tempo esperando que os outros façam aquilo que desejariamos que fosse feito. Para que não endossemos o nosso infortúnio e incapacidade de realização à terceiros. Façamos a nossa parte, aquilo que nos é exigido, para que se realize plenamente a exploração económica da arte.

Quando se pergunta o que deve ser feito no sector da indústria cultural e criativa, endosso-me para a minha área profissional, a literatura, onde há muitas décadas palmilho os meus passos, e conheço, portanto, as janelas que se devem abrir para que os sonhos sugeridos pela escrita se concretizem na sua plenitude.  Quando se faz essa pergunta, não olho para os outros, viro-me para o meu próprio trabalho. Não me preocupo se os investimentos a nivel cultural foram devidamente alocados por aqueles que assumem essa delicada responsabilidad; não me embrenho nos meandros da indústria livreira que há seculos se esforça para colocar o livro nas mãos do leitor; deixo de outorgar-me o direito de exigir estímulos que merecem ser dispensados ao sector empresarial para que este apoie a Cultura; recuso-me a questionar por que razão o livro tarda a chegar aos lugares onde devia chegar. Não me preocupo demasiado com todas essas questões, embora pense, sobremaneira, nesta frase sábia lida algures: “O livro deve ter a protecção do Estado”. Claro que deve. Porque através da sabedoria que se apreende das páginas dos livros,  pode-se erguer um País.

Quando se pergunta o que deve ser feito para alavancar a indústria cultural e criativa em Moçambique, olho apenas para mim, eu, artista, criador, como factor principal de desenvolvimento. E penso, como escritor, que devo escrever. E escrever sobretudo bem. Os meus livros devem ser os melhores livros dentre todos os livros. Somente dessa forma se entra no concorrrido mercado livresco. Os meus livros, sendo, por presunção, os melhores dentre todos os livros, devem transpor fronteiras, para decorar as livrarias de Lisboa, Barcelona, Lagos, Dakar, Londres, Cidade da Praia ou Luanda, itinerários imprescindíveis do livro. O escritor, esse, não precisa de viajar. As suas palavras sim. A ele compete apenas permanecer sentado num lugar aparazível nas margens do Índico, a construir outras utopias, outras narrativas. Para que a industria cultural e criativa cresça, deve o Estado assumir que a Cultura, nas suas diversas manifestações, é um poder imprescindível. Deve apreender que existem artistas  capazes de “afirmar” o País com uma simples pincelada,  um poema, ou com uma estrofe musical, que o artista é capaz de mobilizar empreendimentos para Moçambique, mais do que o discurso monocórdico de qualquer político.

Reitero aqui, de forma breve, a minha convicção: os grandes anseios da nossa indústria cultural e criativa só poderão se tornar exequíveis se cada um de nós, no seu lugar, fazer aquilo que deve fazer, com perfeição, com afinco, com responsabilidade. Se assim acontecer, a nossa Cultura será como um imenso barco a furar águas profundas e longínquas, percorrendo mares nunca dantes navegados. O resto, isto é, a implantação de estruturas, de órgãos de execução disto ou daquilo, e demais burocracias, não passa de questões periféricas que apenas podem complementar a grande responsabilidade que cada um deve ter na sua área específica de trabalho. No contexto da indústria cultural e criativa, penso, como modesto “fazedor de palavras”, que deve-se colocar todo o povo a ler, porque segundo Paulo Freire, “a leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo. E aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se, é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade”. Vamos, enfim, incorporar o livro e a leitura nessa imensa estratégia da industria cultural e criativa, porque um povo que não lê cria a possibilidade de construir uma Nação incapaz de atingir os seus objectivos de crescimento.

Pedem a minha opinião sobre o que é que se deve fazer para tornar sustentável a Indústria Cultural e Criativa. Esta indústria, da definição que aprendi na obra Indústrias Culturais e Criativas: o que são? Como gerir, da autoria de Matilde Muocha, Zeca Tsamba e Emanuel Dionísio, integra: expressões culturais tradicionais; locais culturais; artes visuais; publicações e mídia impressa; design; serviços criativos; nova mídia, audiovisuais e artes performativas; resumindo, dela fazem parte o património cultural, as artes, a mídia e criações culturais.

Ao que me parece, os métodos para que esse sector tenha uma existência justificável, notável ou apetecível, passam por estarmos cientes da importância de se considerar, tanto ao nível do segmento formal, quanto do informal, que a indústria cultural moçambicana deve mudar o paradigma de abordagem. Para tal, a socialização do produto e entre os intervenientes da indústria é necessária.

Os intervenientes são, para mim, os fazedores (artistas, sujeitos actores); mecenas (sujeitos estimuladores); sujeitos públicos apreciadores ou compradores; influenciadores (entidades de marketing e de publicidade); socializadores, que incluem: dinamizadores da indústria ou, pelo conhecimento que partilham sobre a sua existência e importância,  críticos de diferentes índoles – que possam ajudar a conhecer a indústria, fomentá-la e rentabilizá-la, através de um segmento de vendedores.

Todos esses actores devem colaborar na socialização sobre os objectos artísticos e no acto de influenciar para uma boa venda; entretanto, tudo passa por uma boa manufatura de produtos, bem como boas estratégias para venda e angariação de fundos para trabalho (inovação na criação e na forma como o produto final é entregue).

Uma vez que defendo a estratégia da socialização, deixo como exemplo uma experiência pela qual passei, há dias. Participei num evento designado “Dialogarte”. Tem sido organizado pelo filósofo Severino Ngoenha, no Núcleo de Arte, em Maputo. O título dessa conversa específica da qual fiz parte era “Recepção estética”. A iniciativa é bastante inovadora. Para a divulgar, um artista criou uma obra contendo a arte que ilustraria ou inspirada no título do evento. Essa obra ficou exposta na sala do evento. A par disso, dois oradores, um teórico de arte, um artista, falavam, cada um na sua perspectiva, sobre o objecto artístico e na forma como ele pode ser usufruído; ao que se resumiu, grosso modo, que ele tanto pode ser apenas contemplado ou pode, por razões diversas, servir como um objecto utilitário. Falou-se sobre outros assuntos ligados à arte, mas não me deterei sobre eles, porque não são aqui chamados. Um outro interveniente apresentou um trabalho de arte fotográfica ainda em construção. No final das intervenções, seguiu-se um debate e a obra de arte que ilustrava o evento foi apresentada e vendida.

Julgo que nesse exemplo, ficaram conjugadas todas as perspectivas ligadas às indústrias culturais e criativas, nomeadamente: património cultural, o Núcleo de arte com todo o seu acervo de galeria, por exemplo; as artes (a tela que ilustrava o evento e outras constantes da galeria que hospedava o evento); a mídia (o trabalho de arte fotográfica – apresentada em projecção digital e a mídia utilizada para divulgar o evento). Tudo isto está ligado às criações culturais; ambas socializadas a partir de um evento que explicou teoricamente questões ligadas à arte e debateu-as, estimulando o seu fomento, disseminação e venda. No conjunto foi um trabalho de fomento artístico que culminou de modo sustentável em diferentes vertentes.

O que acabei de apontar tem a ver com a arte plástica, entretanto, se se tratasse da literatura, era necessário algo como: fazer-se a formação de leitores, fazer-se a dinamização literária que possa estimular o hábito e o gosto da literatura, ou ainda, que possa despertar o gosto para ler um livro. Esse é um processo de socialização que é antecedido pelo trabalho criativo de um escritor, seguido de um trabalho de edição, por parte de uma editora e da venda do livro. Para esta última etapa, para além do marketing e da publicidade do produto, a crítica literária tem o seu papel a desempenhar, tanto na venda do livro, quanto no estímulo para o ler. Além disso é preciso recordar que a escrita e a edição do mesmo carecem do fomento de um mecenas. Há, portanto, uma série de estratégias interlaçadas cujo trabalho, para tornar a indústria sustentável passa por dar a conhecer o objecto.

São exemplos mínimos, isolados e que integram poucas pessoas, mas que multiplicado poderá tornar a indústria Cultural e Criativa bastante sustentável, desde que o tipo de objectos artísticos a fomentar variem; basta pensarmos em eventos que geram renda para o PIB nacional, tal como o referi na contracapa do livro acima mencionado, nomeadamente:   o FEIMA; o Festival Azgo, o Mozambique Fashion Week, no Gwaza Mutini, nos festivais da Mafalala, da marrabenta e do canhu (Maputo cidade e província); Festival de xingomana, da praia de Xai-Xai (Gaza); o msaho de Zavala, Morrungulo, Tofo e Barra, (Inhambane); Festival Cabeça de Velho (Manica); Festival do livro infantil da Kulemba, FLIK (Sofala); a Dança yao ou o Songo Festival (Tete), Festival de Zalala (Zambézia), Niketche e Festival do Lago Niassa (Niassa); on hipiti (Nampula); Mapiko e Festival do Wimbi (Cabo Delgado), entre outros tantos ainda não mapeados.

Urge educar para o prazer pela arte, prazer em contemplá-la e prazer em comprá-la. As estratégias são diversas. Eu defendo a socialização, baseada na máxima: “longe da vista, longe do coração; o que os olhos não veem, o coração não sente…sentindo desencadeia-se toda a cadeia de circuitos de promoção de arte acima mencionados.

Proponho-me a abordar a prior os conceitos de “indústria”, “cultura” e de “sustentabilidade” de forma separada, e de seguida, conjugar estes conceitos. E, por fim, sugerir alguns pontos para a estratégias de sustentabilidade da indústria cultural e criativa.

O conceito de “indústrias”, muito resumidamente, são locais de produtividade onde ocorrem transformações de matérias-primas em produtos elaborados para fins comerciais. As indústrias são consideradas o barómetro do nível do desenvolvimento sócio-económico de um país. A revolução industrial que teve início na Inglaterra em finais do século XVIII, não parou de evoluir, e tem seguido ritmos frenéticos onde a criatividade e a inovação são proporcionadas por equipas com elevada escolaridade e formação contínua capazes de propor soluções eficazes e de ponta para os problemas do dia-a-dia. Nessas sociedades, as indústrias, ou seja, o “culto” das indústrias é bastante elevado. Daí surge o conceito de países industrializados! É pertinente questionarmo-nos sobre a nossa saúde do “culto” das indústrias no país. Temos a cultura das indústrias? Como a cultivamos? Aspiramos, sem dúvida! Por isso designam-nos “países em via de desenvolvimento.  Ora, temos aqui um ponto focal importante  a considerar; as indústrias em geral. Pois, na minha óptica, a cultura e a indústria cultural e criativa constitui de forma independente o barómetro do desenvolvimento de uma sociedade.

Por outro lado, temos a Cultura, que é todo o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, o saber, a arte, a moral, a lei, os usos e costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridas pelo homem como membro da sociedade. Em outras palavras, a cultura é a essência e identidade de cada um de nós.

A sustentabilidade, vem do latim “sustentare” que significa, sustentar, apoiar, conservar e cuidar. Assim, o conceito de sustentabilidade está ligado ao desenvolvimento socio-económico, político e cultural, atrelado à preservação do meio ambiente.

A questão que se coloca é: Que estratégias adoptar para tornar as indústrias culturais e criativas sustentáveis?

O que são Indústrias Culturais e Criativas? De onde vem essa ideia e conceito? Porquê, para quê?… Para percebermos os conceitos que não inventamos é importante perceber os “porquês”. Não porque não os inventamos, mas sim, para que possamos nos apropriar com convicção partilhada e reinventar os nossos próprios conceitos que nos identifiquem como cultura e sociedade.

 

Não sou especialista em indústria culturais, mas a minha cultura geral e curiosidade na matéria levou-me a saber que o conceito das indústrias culturais nasce na famosa “Escola de Frankfurt”, na Alemanha, no início do século XX, ora, muito recente, como um projecto de intelectuais vinculados à Universidade de Frankfurt. A escola de Frankfurt foi uma escola de pensamento filosófico e sociológico, filiada ao instituto de pesquisa social. As teorias e conceitos da Indústria Cultural está mais intimamente associado ao trabalho de Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Para quem deseja saber mais aconselho os livros: “A dialética do esclarecimento – Theodor Adorno e Max Horkheimer”, “Indústria Cultural e sociedade – Theodor Adorno” e tenho muito apreço ao trabalho relevante da Moçambicana Matilde Muocha; Industrias Culturais e Criativas – O que são? Como gerir?

Peritas na matéria concluíram que a Indústria Cultural busca padronizar e homogeneizar os produtos artísticos, para que possam ser consumidos pela maioria das pessoas. Assim, as manifestações das artes são principalmente comerciáveis – o que suscita a relação “a arte e o capital”.

A relação entre estratégias económicas e cultura é bastante delicada. Muitos artistas não gostam de relacionar os seus trabalhos com a economia, considerando um perigo para sua liberdade artística. Por outro lado, muitos economistas tratam a cultura como uma actividade irrelevante ou simplesmente como tema que deva ser abordado por outras ciências. Controversamente, os economistas mais progressistas de países desenvolvidos veem nas artes um potencial socio-económico relevante.

A primeiríssima matéria-prima de qualquer indústria é o Recurso Humano. A indústria Cultural e Criativa não foge esta regra. Como vemos, a história nos ensina que todas estas correntes de pensamentos e conceitos nascem nas Escolas, no meio intelectual. Ora, a indústria cultural refere-se às várias empresas que produzem, distribuem, comercializam ou vendem produtos que pertencem categoricamente às artes criativas. Esses produtos podem incluir, livros, filmes, música, roupas, material decorativo para casas, programas de televisão, artesanato, pintura, escultura, arquitetura, etc.

Assim, a EDUCAÇÃO é a sustentabilidade de qualquer indústria. Não há indústria sem ESCOLAS de qualidade e sustentáveis para cada sector, e a indústria cultural não foge desta regra.

Faço advocacia nos seguintes pontos como fundamentais para que a Indústria Cultural seja sustentável:

  1. a) Priorizar a formação profissional de qualidade que resulte em recursos humanos de alta qualidade e, consequentemente, estruturar, apoiar, estimular a criação de Escolas Vocacionais e profissionais de qualidade sem limites. Esta solução, por mim, não passa só pelo Governo, mas também pelo sector privado. Aliás, todos sabemos que não há sociedade que possa desenvolver sem um sector privado forte e que trabalhe de mãos dadas com os reguladores das estratégias comuns;
  2. b) Criação de mecanismos e acessibilidade de oportunidades de empregos e capacitação permanente;
  3. c) Criar mecanismos e políticas culturais sustentáveis, simples, progressistas, inclusivas, adequada à nossa realidade, tendo em conta as disparidades do desenvolvimento regional; d) Criar mecanismos de advocacia do valor e consumo das artes, dando valor ao trabalho dos artistas;
  4. e) Educar o grande público a importância das artes;
  5. f) Criar referências de preços que regulem o mercado versus qualidade;
  6. g) Proteger o património cultural e criar redes de valorização do consumo da nossa arte além fronteiras;
  7. h) Criar instituições que promovam e representem o artista no mercado internacional;
  8. i) Estudar, preservar, inovar e proteger artigos que representem o património cultural sustentável para as gerações vindouras;
  9. j) Utilizar de forma sustentável as matérias-primas para construção de instrumentos, por exemplo a Mwenge, utilizado pelo Machopes está em vias de desaparição porque é decimado para o carvão…;
  10. l) Criação de estratégias que apoiem a capacitação dos artistas mais vulneráveis nos diversos sectores: artesãos, pintores, jovens arquitetos, músicos que vivem fora das grandes cidades…; m) Investir em estudos e pesquisas sustentáveis…

Estas são algumas das soluções que posso sugerir. Claro, é um tema rico, novo, interessante e merece toda a nossa atenção, estudo e reflexão estruturada. A criação de normas e políticas da indústria cultural e criativa não devem ser levadas à ligeira, ou seja, devem ser discutidas e feitas com profissionais e peritas das diversas áreas sob pena de termos legislações e enquadramento fracos, inaplicáveis e isolados à nível regional e internacional.

Não há negócios sustentáveis sem conhecimento prévio, sem profissionalização, sensibilização aos consumidores e valorização do produto a ser comercializado. Sensibilizar a nossa sociedade do valor de uma obra de arte versus uma caixa de cerveja, é todo um percurso a percorrermos.

Não é incomum, na juventude, termos encontros decisivos. Muitos escritores conheceram, quando debutantes, os seus precursores. Eu cheguei à casa do Poeta José Craveirinha com menos de 20 anos. Tive o privilégio de ser amigo e de conviver com ele e com outros nomes – ia dizer numes e não estaria longe da verdade -, que iluminam e distinguem a literatura moçambicana desde a sua fundação. Aliás, José Saramago, único escritor de língua portuguesa, laureado com o Prémio Nobel, disse-me, um dia, ao ver a cumplicidade que tinha com José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar, Rui Knopfli, ou Aníbal Aleluia, que eu estava a conviver com os meus antepassados literários.

José Craveirinha era uma grande personagem antes de ser um soberbo Poeta. Tenho pensado ao longo destes anos que ele talvez fosse uma verdadeira figura de romance. Não iludo que merecesse uma empenhada biografia literária e de vida. Uma biografia de grande fôlego. Como somos um país que preza a desmemória ou a amnésia, o desconhecimento ou a desconsideração, reiteramos vacuidades e não nos detemos a estudar e conhecer os nossos grandes intérpretes. Craveirinha foi um grande tradutor do ser moçambicano. Esta minha devoção pelo passado e este culto dos mais velhos resulta, em muito, do meu convívio com este Poeta e Mestre: “Nelson: Procura ser um fiel servo da Memória de todos os tempos para que a tua voz se faça ouvir no teu tempo.”

Também por isso, por essa incumbência, recordo-o com emoção sempre. Ele era, como escreveu no poema “Auto-efígie”: “Irmão sincero dos mais fiéis amigos”. Ouvi-lo era fascinante. Tinha, ou praticava, uma fala pausada, enganosamente hesitante, com aquela sua ironia acerba, falsamente inocente. Era cortante quando abominava. Um sábio, tinha um conhecimento enciclopédico, mas era despretensioso intelectualmente. O seu arcabouço histórico e cultural era incomensurável. Por isso, não gosto de o ver retratado como folclorista, pese embora se tenha debruçado sobre o folclore moçambicano. Era muito mais do que isso. Um verdadeiro sociólogo da cultura. Um historiador. Um grande conhecedor de Moçambique e das suas idiossincrasias. Cultivava a memória das personagens de uma época que já não existia e que tinha sido a sua ou da sua formação. Falava-me do seu ontem e das figuras desse passado. Era um intrémulo defensor da nossa identidade e da nossa história e memória histórica, longe de todos os maniqueísmos sectários e ideológicos. Tinha as suas birras, as suas zangas, as suas querelas, as suas implicâncias. Mas era um génio e tinha direito a tê-las.

É, indubitavelmente, a figura literária moçambicana mais importante de sempre. Como jornalista defendeu causas, causas nobres. Quando Samora Machel e seus colegas enfermeiros o procuraram, encontraram nele um intrépido defensor das suas lutas. Defendeu-os e denunciou a discriminação que sofriam no hospital. Chegou a ter, por essa razão, o seu posto como redactor no “Notícias” em risco, contudo Malé Vaz, filha do fundador do matutino, foi firme a defendê-lo. O amigo Samora não se esquecerá jamais desse préstimo. Mesmo nos tempos de acirrada intolerância, quando alguns dos seus companheiros foram submetidos a purgas, Craveirinha foi poupado. Rui Nogar e Malangatana cumpriram o opróbrio da reeducação e dos excessos da revolução. Lendo os seus escritos dessa época percebe-se que ele nunca deixou de ser um intelectual crítico, lúcido e arrojado. Perante a arrogância de um dirigente (“Sua Excia”) que antes “se desvertebrava” (grade mestre da ironia, Zé Craveirinha!) para o cumprimentar no Bilene e na companhia do Presidente, ele seria indómito: “É o resultado da irrevogável ausência / do meu amigo Samora.”

Todas as semanas eu ia vê-lo à sua casa da Mafalala. Ficava horas a escutá-lo. Falava baixinho, quase sussurrava. Como nos segredasse o mundo. Muitas vezes ali alcandorados no seu muro, fitando o final da tarde e o rumor que se encaminhava para a fronteira do asfalto, como diria o seu amigo Luandino Vieira. Outras tantas na sua sala e na companhia dos seus pintores electivos. As suas paredes estavam preenchidas de quadros: da Bertina ao Chichorro, do Malangatana a José Júlio, de António Bronze a José Pádua, entre tantos outros. As escadas com esculturas. Por vezes, subia para o seu escritório, num dos quartos, onde se atafulhavam os seus papéis, as fotografias, as suas memórias, as suas musas, os seus duendes, as suas assombrações.

O Zé nascera – num domingo, gostava de o lembrar, por isso era Sonto ou Sontinho – numa casa de madeira e zinco na Estrada do Zixaxa à entrada do Xipamanine. “Eu teu neto Sontinho ou José” escreve em “À Minha Avó”. Do ramo dos Mpfumos. Tem um poema “À Memória do meu Bisavô Pfumo” que diz: “Meu respeitável bisavô Pfumo / não sabia ler nem escrever / mas sabia que a cidade não é urinol”.  Toda a sua vivência fora suburbana e eram as personagens do subúrbio que povoam as nossas conversas mansas na pacatez dos dias. Houve um interregno quando foi viver, com o pai e a madrasta que viera de Portugal, na 24 de Julho. Mas nunca deixou de pertencer ao subúrbio. Foi nesse tempo que deixou de falar a língua ronga. Proibiram-no. O pai recusava, no entanto, o epíteto “português”. Considerava-se “algarvio”. “Os algarvios estão mais perto de África, dos árabes, do que da Europa. Eu passei por Lisboa para vir para aqui”. A mãe era negra. “E fica a tua prematura beleza afro-algarvia / quase revelada nesta carta elegia para ti / meu resgatado primeiro extra-português / número UM Craveirinha moçambicano” (“Ao meu belo Pai ex-emigrante”).

O pai de Craveirinha era poeta, não publicou nenhum livro, mas era conhecido e reconhecido na cidade como poeta. Fazia parte dos repentistas. Os que faziam quadras ao desafio. Dizia de cor Camões. O Poeta leu, a partir dos 10 anos, Guerra Junqueiro, Antero do Quental, Victor Hugo ou Émile Zola. Outros autores que eram frequentes em casa: Almeida Garrett, Gil Vicente ou Ramalho Ortigão. Ele e o irmão aprenderam a dizer de cor “Os Lusíadas”.

Quando o pai se reformou, Zé não teve condições de prosseguir com os estudos no liceu. Aprendeu através dos livros e das explicações do irmão. Uma professora, Gracinda do Carmo Silva, dava-lhe aulas pro bono. O pai aprendera inglês sozinho. O irmão ensinou-lhe francês. O seu tio António também é uma figura decisiva na sua vida: “Tristes / flores na mão de minha mulher / e novamente no funeral do Tio António / consagro a tua memória ressuscitando-te / genuíno outra vez no sangue intencionalmente / ex-algarvio do teu irmão / optando como tu, meu Pai.”

A Estrada da Circunvalação separava o mundo do subúrbio e o da cidade branca. Era a linha de fronteira. Craveirinha estudava na Primeiro de Janeiro (ligada à Maçonaria) e os amigos na Paroquial, que era para os mais humildes. Mesmo quando vivia na 24 de Julho não se apartou mundividência dos subúrbios. Quando foi preso, em meados dos anos 60, a PIDE não entendia por que razão um mulato, filho de branco, tinha a predileção pelos amigos pretos. Muito menos percebiam a razão que levava Rui Nogar, branco, a atravessar a Circunvalação e mergulhar no outro lado da fronteira. Estes dois mundos irão enformar a poesia de Craveirinha: “E eis que num espasmo / de harmonia como todas as coisas / palavras rongas e algarvias ganguissam / neste satanhoco papel / e recombinam em poema”.

Escreveu sonetos inicialmente. Ricardo Rangel, amigo de então, que debutara numa casa de fotografia da então Consiglieri Pedroso e fazia uns biscates para o “Notícias” levou o caderno de sonetos para António Rosado, que também era poeta. O jornalista era igualmente desportista e foi, curiosamente, treinador de Zé Craveirinha no Desportivo, mas nunca relacionou o autor daqueles sonetos com o exímio futebolista. Quando o jornalista morreu não se recuperaram mais os versos nem as métricas do jovem poeta. Entretanto, Craveirinha desiste de fazer sonetos e começa a escrever os poemas que o tornariam célebre. Colabora no “Brado Africano”. Ao tempo, a jovem Noémia irrompia com os seus poemas e a sua voz tonitruante.

Lembra-se de ver o poeta Rui de Noronha, de o ver passar todos os dias a uma determinada hora. Lembra-se do seu ar triste. Era uma figura taciturna, melancólica. Mesmo nos ambientes de festa. Morreu aos 34 anos num dia de Natal de 1943. Mais tarde convive com Noémia de Sousa, a sua irmã Carol, que vivia ali perto, depois da família mudar-se da Catembe, a quem dedicará alguns dos seus poemas mais emblemáticos, sobretudo quando esta foi coagida a emigrar – “Dó sustenido por Daíco” é um deles. Também falava de Karel Pott, o primeiro advogado não branco em Moçambique. Contava o impacto que tivera o facto de ele reivindicar a sua identidade africana e fazer gáudio em passear, no seu carro descapotável, a sua mãe negra, vestida de capulana e com tatuagens. Era um desaforo ao regime.

Noémia de Sousa levou-me, anos mais tarde, a conhecer Cassiano Caldas. Fomos visitá-lo à sua casa e ele foi de uma grande gentileza. Os ventos da revolução açoitaram até aquele a quem muito devemos. “Sangue Negro” é dedicado a Cassiano Caldas e a João Mendes. Cassiano foi o indutor ideológico de Craveirinha e da sua geração, ministrou as primeiras aulas políticas, contribuiu para a sua afirmação ideológica, orientou-os. Era a figura tutelar desta geração. A isto acresce o facto de, no mundo suburbano, haver uma plêiade de figuras emblemáticas na afirmação da alteridade. Personagens que pareciam emergir dos romances de Jorge Amado. Daíco antes de todas. Mas também Zagueta, Vicente Langara, Xico Albasini, Brandão, Mundapana ou Fahla-Fahla.

O desaparecido Comoreano, os concursos de dança, mais tarde a distinção da culinária dita indígena que não chegava à cidade branca, o desporto, a Associação Africana, o Munhuanense Azar, o Muhafil Issilamo ou João Albasini.  Os concertos de Djambo, João Domingos ou conjunto Harmonia. A afirmação, a reivindicação, não era apenas através da poesia. Aliás, José Craveirinha, Noémia de Sousa, Dolores Lopes e Ricardo Rangel, numa escadaria da Polana, fingindo um piquenique, redigiram um documento, muito antes dos movimentos libertários, a exigir a independência de Moçambique. Foi na época em que escreveu “Poema do futuro cidadão”. Entre a década 40 e 50.

A Casa dos Estudantes do Império publica, à sua revelia, “Chigubo”, em 1964. A PIDE, quando o prende, apresenta-lhe o livro como libelo acusatório. Companheiros de prisão: Rui Nogar, Malangatana Valente e Luís Bernardo Honwana são os nomes mais conhecidos. Armando Pedro Muiuane, seu compadre e mais tarde colega na Imprensa Nacional, é também companheiro de prisão. Companheiro de sempre. Uma das rusgas e consequente prisão ocorre após uma reunião na casa de Muiuane no Xipamanine. Com Honwana troca, nos calabouços, correspondência vária, que graças a guardas que eram infiltradas, não é interceptada pela PIDE. Era importante este contacto para que coincidissem nos depoimentos. Parte desta correspondência ficará à guarda do advogado Carlos Adrião Rodrigues. Em Itália, no entanto, publicam-lhe “Canto a um dio de catrame”, em 1966. Ele só vem a saber mais tarde. José Luís Cabaço, que lá estudava, será quem lhe trará o livro. Estava ele em liberdade condicional.

“Karingana ua Karingana”, provavelmente a sua magnum opus, estava para publicação antes do golpe militar que mudou o regime em Portugal. Craveirinha e Nogar, que redigira o prefácio, queriam arriscar. Mas o editor teve receio. No entanto, dá-se o 25 de Abril e o livro segue livre curso para o prelo. Sem o texto do Nogar, que viria a integrar a segunda edição como posfácio. Quando o livro é dado à estampa, o autor está na Tanzânia, na companhia de Samora e da direcção da FRELIMO. Pouco antes, Costa Gomes, que fazia parte da Junta de Salvação Nacional, e que chegaria a ser presidente da República portuguesa, de visita a Moçambique, procurara Craveirinha para o convencer a formar um partido político que dialogasse com as autoridades portuguesas para a transição. Queriam obviar o movimento libertário. O Poeta recusa-se a ir ao encontro desacompanhado e só aceita encontrar-se com o futuro marechal português quando teve a companhia de Malangatana Valente e Rogério Djawana. É intransigente na posição: único partido que tem a legitimidade de assumir o poder só poderia advir da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). Costa Gomes pede-lhe então que seja portador de uma mensagem das autoridades portuguesas para conversações sobre a transmissão de poder.

Cela 1”, publicado em 1980, são escritos de prisão ou sobre a prisão. “Poema do alfinete mágico”: “Com um inofensivo alfinete mágico / nós os miseráveis sonhadores moçambicanos / de cerrados maxilares invocamos os desejos / e suspendemos os corações nas janelas / donde a lua e o sol quando entram / entram gradeados.” É o testemunho de uma “vida a injúrias engolidas a seco”. O belíssimo poema “Reflexões no dia dos meus anos”, que poderia ser a epígrafe deste texto, é publicado neste volume: “Faço anos. / Quantos já não interessa. / Por uma questão de glândulas / infalivelmente na barba e nas têmporas / aos poucos e poucos envelheço”. Este livro é o primeiro inédito que edita após a independência.

Entre a edição desta obra e a reedição de “Xigubo” (mudou-lhe a grafia) e “Karingana ua Karingana” avulta a aparição de “Maria”, em 1988. Rui Knopfli aplaude, no prefácio, “o grande poema do amor conjugal”. Maria é personagem central na vida do Poeta. Há poemas belíssimos não só de evocação mas sobretudo de admiração. “Santa / minha esposa Maria de Lurdes / mãe dos meus filhos” (em “Karingana ua Karingana”). “Maria. Salmo Inteiro”: “Minha tão bela esposa Maria / cinquentenária jovem isenta de frívolos aniversários. / Minha mais amada por mim do que as frívolas / raparigas de provocantes fémures desnudos”.

“Maria”, que haveria de ter uma nova edição, é um poema pungente. Belo e pungente. Digo poema porque o conjunto tem esse condão de ser uma espécie de poema único. Tem momentos cintilantes, outros tantos arrebatados. Muitas vezes denuncia a dureza da solidão e o frio da ausência. Mas sempre a beleza na evocação: “Esposa Maria / a cada minha veleidade / sabendo-se nunca preterida. // E com meus defeitos e suas qualidades / compúnhamos o mais incongruente invejado casal perfeito”.

Zé Craveirinha era um homem só. Aliás, proclamava-o. Não posso afirmar que ele amasse a solidão, mas posso dizer que ele era um homem solitário. Sobretudo quando foi vítima do descaso ou hostilizado. Comovia-lhe a lembrança dos outros, mas sabia que não podia partilhar com ninguém o que quer que fosse. Apenas com Maria. Daí esse insulamento ao qual estava mergulhado: “o mais mudo sotaque do último chão”. Isto é de uma beleza dilacerante. Só um poeta eleito é capaz de um verso como este. Encontrei-o muitas vezes nesse estado de prostração e ficava a ouvi-lo numa espécie de solilóquio. Muitas vezes ficávamos em silêncio e assim nos entendíamos.

Quando fui estudar a Portugal, em 90, continuei a vê-lo, sobretudo quando ele ia a Lisboa. Ou nas viagens que fizemos para Londres ou Sevilha na companhia de Rui Nogar, Rui Knopfli, Noémia de Sousa ou Eugénio Lisboa. Acompanhei-o nos dias jubilosos em que recebeu o Prémio Camões. Recordo-me da tristeza e da solidão quando se encontrava só no hotel. O Zé Craveirinha era um homem taciturno. Extremamente elegante no trato, sardónico muitas vezes, mefistofélico quase sempre. Nunca vi alguém melhor do que ele a zombar daqueles que desdenhava. Apoucava-os com cortante sarcasmo. Era o mestre do deboche. Quanto aos amigos, era indefectível.

Craveirinha foi um poeta avaro. Não foi sequer um poeta bissexto. Publicou muito pouco. Um dia pediu-me para eu lhe apresentar uma obra. Fiquei perplexo, aturdido, estupefacto. Era o “Babalaze das Hienas” e foi em 1997.  O Mestre está com 75 anos, o discípulo tem 30. O livro é um cortante testemunho sobre a guerra. Eu tentei cumprir a missão o melhor que podia. Estou certo da imperfeição do texto ou da improficiência do meu discurso na ocasião, contudo, não obstante, a minha admiração inequívoca e a minha afeição e estima pelo poeta foram indubitáveis.

Este foi o seu último título de poesia. Muitos dos seus poemas inéditos circulam, no entanto, de mão e mão e são ditos em saraus de poesia. Anabela Adrianopoulos, Calane da Silva, Gulamo Khan, Tomás Viera Mário, entre outros, emprestam as suas vozes à inconfundível dicção do Poeta. Gulamo celebriza as “Saborosas Tanjarinas d´Inhambane”, um poema anti-épico. Mas também ainda reverbera na memória as “Rumbas de violas no Comoreano” ditas por ele: “Ah é bom nascer assim mulato? / Ah nascer negro assim é bom?”  Naquele tempo, e digo isto com nostalgia, a palavra ditava o nosso destino. A palavra poética presidia o sonho moçambicano.

Craveirinha é um poeta de belíssimas imagens, de inesperadas imagens, de poderosas imagens. Poeta da insurreição, poeta nunca agrilhoado, poeta solitário, poeta solidário, poeta que canta o seu tempo e os homens do seu tempo, poeta condoído muitas vezes, poeta que vaticina o futuro, poeta que canta os momentos sombrios como os da guerra, poeta do mundo, poeta da boémia intelectual, poeta da língua que esplende, poema do amor, sempre. Como escreveu, em “O Arco e a Lira”, o poeta mexicano e Prémio Nobel Octavio Paz: “voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário”.

 

Os investigadores

em nome da verdade histórica

inventarão virtudes que nunca tive.

 

E com irretorquíveis teses

irão ao exaustivo pormenor freudiano

de misturar minha vocação pelas raparigas

com a liberdade dos povos oprimidos.  

 

(José Craveirinha)

 

Hoje passam 100 anos sobre o dia em que nasceu José Craveirinha. A Pátria deu-lhe o préstito da praça e uma ominosa rua. Execráveis ditadores estrangeiros nomeiam largas avenidas. Quase não o lemos, citamo-lo sem o ler. Exilamo-lo na pátria do olvido. Agora o lembramos nestas efemérides, mas acto contínuo virá a nossa amnésia, a nossa desatenção, a nossa negligência e o nosso desprezo vibrar sobre ele e o devir moçambicano com todo o seu esplendor. Quanto a mim, cabia-me hoje este tributo, devolvendo-lhe a honra da láurea que me concedeu com a sua amizade, o seu exemplo e a sua poesia. “Bom têto! Sia-Vuma! Bayete mufana!” – escrevia-me. Aqui fica o meu penhor. Também lhe devo muito, ou quase tudo, do que sou.

 

Bayete, Zé Craveirinha!

 

SIA-VUMA!

 

KaMpfumo, 28 de Maio de 2022

Poema alusivo ao centenário

de José Craveirinha.

 

Há quem, um dia, acreditou que partiste

e festejou-te a morte, satanhoco!

e hoje, assim como todos dias, renasces em mim,

e já lá se vão cem anos dentro dessa renovação

a celebrar-te a vida após a vida,

porque tens uma vida onde os dias possam habitar,

a correr atrás das horas que não chegam a parar o tempo,

e tu estás cheio de tempo

e o tempo é que a vida,

em ti habita toda a habilidade de continuar vivo,

um poeta é uma palavra que se repete

e a repetir-se invoca os sentimentos do poeta que é,

os mortos não têm sentimentos

nem gritos, e tu gritas, ó soba!

pelo preço do pão e do “my love”,

pelas portagens portadoras de ódio,

aos asnos de balalaicas a casacos azul-marinho,

ao amargo preço do açúcar,

pelas doces tangerinas de Inhambane,

transformadas em limão em cabo delgado,

pelas tâmaras azedas de Beirute servidas na Ucrânia  

em xaria dentro do uniforme da ilusão

e por toda esta passividade animal,

amordaçada dentro do silêncio diário

e nisso estás vivo, siavuma!

oficializado dentro dos que se ressente da vida,

enraizadas nos jacarandás dessas ruas

que sentem saudades da cidade,

a cidade escondida na lembrança de todos,

regada à jato ao ralhar da urina,

será essa a nossa sina?

confesso-te, azampunguanas tomaram o poder,

e são vários, metidos à gente, conspurcados,

nos excrementos exibidos em horário nobre,

diz-me tu, herói nacional,

que excelência tem um batedor de carteiras?

imagine os batedores da esperança de um povo?

mas é assim mesmo o futuro melhor?

que força, qual mudança?

e quando é que tudo isso vai dar certo?

Quantos mandatos são precisos para atingir o cume da indigência?

Dentro dos braços cruzados do olhar impávido dos vermes

e vejo-os no rodízio do medo

onde os homens do xtike falam mais alto,

mas, alto aí…

eternamente não, patrão!

 

 

 

 

 

 

 

 

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”, Martin Luther King

 

A manifesta incapacidade de gerirmos infra-estruturas desportivas no país sempre se revelou um rastilho para “pegar” fogo em palha seca. Herdamos e gerimos à socapa. Resgatamos e perpectuamos o improviso. Há, regra-geral, uma tentativa encapotada de fingir que fazemos o que…não fazemos. E a  má gestão do  Estádio Nacional do Zimpeto, construído na perspectiva falhada de acolhermos o CAN-2010 e os malfadados  Jogos Africanos Maputo 2011, reforça a ideia de que estamos perante um jogo de sombras. Em que cada um acha que, se outro não souber que cedeu, está tudo bem!  Desde logo, e agora sofremos as consequências,  denunciámos um vazio de  ideias e projectos  para melhor rentabilizar a infra-estrutura, e pagamos caro pela incompetência e desgraça colectiva.

Não conseguimos assegurar que o Estádio Nacional do Zimpeto tenha dignidade para acolher jogos internacionais. De  grande dimensão, o ENZ resvala para um Elefante Branco. Deixamos um crocodilo crescer. E isso tem efeitos para a escala nacional. A Confederação Africana de Futebol deixou ficar recomendações para que se melhorasse a infra-estrutura. Não levamos a sério. Falhámos nos “timings” para intervenções no ENZ.

Efeito-causa: os Mambas são agora uns ambulantes, que rimam com titubeantes. São obrigados a jogar fora, em processos tão pouquíssimo claros. Com requintes de “boladas”! São órfãos de pais!  Não têm casa própria. Não têm calor nem carinho do seu próprio público que agregaria outro valor. Tudo por negligência!  Pior: o contribuinte, o humilde cidadão moçambicano não  escapa à tamanha irresponsabilidade, azia e falta de vergonha de alguns dirigentes desportivos. Pagam bem caro. É só rebobinar o filme de uma cotação de ZAR 280.787,50 (duzentos e oitenta mil, setecentos e oitenta e sete rands e cinquenta cêntimos), correspondente a 1.207.386,25 Meticais (um milhão, duzentos e sete mil, trezentos e oitenta e seis Meticais e 25 cêntimos) ao câmbio do dia,  enviada pela Federação Moçambicana de Futebol à  Secretaria de Estado de Desporto (SED) para os Mambas jogarem com o Ruanda no FNB Stadium (África do Sul) sem público.

E com espectadores nas bancadas,  o fardo é ainda mais pesado: 597.854,50 (quinhentos e noventa e sete mil, oitocentos e cinquenta e quatro rands e cinquenta cêntimos), correspondente a 2.569.613,35 Meticais (dois milhões, quinhentos e sessenta e nove mil, seiscentos e treze Meticais e trinta e cinco cêntimos) ao câmbio do dia.

Ora, este valor sai do bolso dos contribuintes, e não é pouco. Sem contar com o que vai ser gasto em despesas de transporte aéreo de Maputo a Joanesburgo, alimentação, acomodação, entre outras. É preciso muita coragem! Que dignidade estamos a dar à selecção nacional quando não criarmos as melhores condições para que tenha resultados positivos? E ainda produzimos e imprimimos folhetos com promessas de levar os Mambas ao CAN! Como materializar este sonho a jogar fora (que tem os seus contras) sem organização interna?

E organização interna passa por evitar situações cómicas e vergonhosas,  como aquela que aconteceu com Zainadine Jr., profissional exemplar  que e esteve retido no aeroporto de Nouakchott, na Mauritânia, onde ia representar a selecção nacional. Tudo isto porque a validade do seu passaporte expirava em cinco meses, enquanto, naquele país, se exige um mínimo de seis meses para se entrar. Há, aqui, claramente, responsabilidade de quem gere o futebol moçambicano, que deve aferir a documentação dos atletas!

Como levar os Mambas ao Campeonato Africano das Nações quando interesses obscuros se sobrepõem à Nação? O disco riscado de encontrar nos treinadores a razão do crónico  insucesso é, por todos, conhecido. E, a este ritmo, Chiquinho Conde perfila-se ou mesmo se candidata a ser mais uma vítima do sistema. O tempo é mestre e dar-nos-á respostas.  Enquanto isso, outra fábula de baixo nível distrai e alimenta debates nas putativas redes sociais e órgãos de comunicação social. Relva sintética desalfandegada e sem compradores em hasta pública desaparece misteriosamente no Estádio Nacional do Zimpeto.

Num diálogo de surdos e mudos, Federação Moçambicana de Futebol e  Secretaria de Estado do Desporto travam argumentos com o fito de obterem ganhos de causas para consumo interno.

E nem um pio de quem devia impor ordem! Ordem tal que, há muito, deixou de fazer escola numa nação desportivamente improvisada!  Rady Gramane e Alcinda Panguana, com brilharete no Mundial de Boxe e tantas outras provas, fintam a desorganização organizada internamente. Salvam a “nau”! Dirigentes jubilam. E já perspectivam, em Dezembro próximo, alguns parágrafos de exultação no informe à nação.  Mas os atletas, de várias modalidades, minguam e reivindicam o  pagamento, pelo  Governo, de um valor de treze milhões, duzentos e dez mil meticais referente à premiação desportiva, um instrumento legal aprovado em 2007, que estabelece a atribuição de valores monetários aos atletas e respectivos acompanhantes que conquistem medalhas nas competições internacionais de carácter oficial. Passam cinco anos sem ver as “verdinhas”. “MOZ” anima…

Falar do meu percurso é falar das leituras que eu fiz no decurso da minha vida. Não posso falar de mim mesmo sem me referir à importância que o livro representa para mim particularmente. São os livros, são as leituras que fizeram o homem que sou hoje. Quando me refiro às leituras, estendo-as àquelas leituras que igualmente me foram facultadas por via oral, de acordo com as nossas tradições, e aquelas que também me são facultadas pela própria realidade que me circunda, no meu quotidiano. Realmente nãome posso furtar, obviamente, à literatura oral, que me chegou por via da minha mãe, dos meus tios e outros anciãos com quem cruzei no meu processo vivencial. Igualmente não me posso alhear do modo como apreendo a realidade que me envolve, observando-a, lendo-a, sobretudo, embora todas estas leituras estejam interligadas entre si.

Tem graça que os livros e a leitura colocam-nos sempre um paradoxo insolúvel: quanto mais os lemos mais nos remetem à dolorosa conclusão de que nada sabemos. No dizer do filósofo Sócrates: “só sei que nada sei”. Isto é, quanto mais buscamos o conhecimento, mais nos sentimos ignorantes e incertos, face à nossa estupefacção diante da complexidade do mundo em que vivemos. O livro e a leitura, para mim, ultrapassam de longe um simples exercício lúdico, passando a ser um instrumento de conquista do mundo.

Por isso mesmo, sempre que se fala da promoção do livro e da leitura, este tema mexe muito comigo, porquanto eu próprio sou um produto do livro e da leitura. Confesso que enveredei por este caminho por pura opção. Eu nunca quis ser um engenheiro, um médico, um economista, ou algo parecido. Sempre quis ser um lavrador de terrenos áridos, plantando palavras, um debulhador e um intérprete de signos representados por esses vocábulos. Estou consciente de que enveredei por esta via de forma arrojada, posso assim dizer, louca, tomando em conta a época, e não só, em que esta decisão foi tomada.

Todo o meu percurso, sem exagero, está intimamente ligado ao livro à leitura. Sou um autodidacta por excelência, tanto é que a autodidaxia não tem meta, não tem fim. É um exercício que uma vez abraçado é para todo o sempre, enquanto a vida durar. É justamente este exercício que me oferece um certo conforto na vida.

O livro, esse, foi sempre meu companheiro da vida. Talvez mesmo, muito mais do que se possa imaginar. Sou um testemunho vivo da magia do que um livro pode fazer. O livro transforma, o livro educa, o livro forma, o livro liberta, o livro propõe soluções possíveis, face aos constantes problemas que o quotidiano nos coloca. Vivemos num mundo, em certa medida, caótico, imperfeito, incompleto. Cabe-nos então, de entre as infinitas possibilidades, construir um mundo ideal. A vida é uma dádiva que nos foi entregue assim mesmo, nua e crua. Cabe-nos então transformá-la, melhorá-la, à imagem e semelhança da felicidade que almejamos.

Tudo o resto que tenha acontecido comigo, os oficios que experimentei, os cargos que ocupei, os livros que escrevi, as mulheres que amei, os lugares que conheci, as alhadas de que me desembaracei, as batalhas que venci, tudo, foi por conta da minha formação e experiência livrescas. Portanto, tudo quanto eu tenha feito e ganho na vida deveu-se a esse fenómeno que leva o nome de livro.

A propósito de locais, eu tenho dito que as minhas primeiras viagens fi-las em naves de livros. Lembro-me claramente que conheci, por exemplo, o famoso bairro de Manhattan, as avenidas de Nova York, a cidade das gôndolas do amor de Veneza, as cidades de Axum da antiga Etiópia, de Timbuktu (Mali), as pirâmides do Egipto, a Alexandria da nossa biblioteca reduzida  a cinzas, a cidade proibida e a muralha da China, a cidade subterrânea de Toronto, o mar da tranquilidade e as planícies lunares, os desfiladeiros de Marte, entre outras geografias, através de livros, muito antes de alguns destes lugares eu conhecer efectivamente. Aliás, a minha obra “Minhas Leituras e Outros Olhares” é um dos exemplos ressumados de autores e livros que me levaram a descobrir o mundo.

No plano literário, não podia falar de autores que muito influenciaram o sujeito poético que habita em mim, sem me referir à Sophia de Mello BreynerAndresen. Essa aristocrata tanto da sociedade quanto da poesia portuguesas foi, realmente, uma dasresponsáveis não só através dos seus escritos como também da sua própria mão, pela lapidação do poeta que sou, e pela minha formação literária em geral. Lembro-me que passávamos horas a fio ela a discorrer sobre as “leis intrínsecas da poesia, e eu a ouvir atentamente e a tomar minhas notas. Foi de facto um grande e raro privilégio ter conhecido e convivido com esta que é uma das vozes mais importantes da poesia universal. No rol destes influencersmeus, encontramos autores como Luís Bernardo Honwana, Noémia de Sousa, Eugénio de Andrade, Carlos Drumond de Andrade, Pablo Neruda, António Osório, Paul Éluard, Arthur Rimbaud, André Breton, Matsuo Bashō, Saint John Pearse. Aqui incluo também ensaístas e filósofos como Roger Garaudy, Jorge de Sena, Jean Paul Sartre, George Luckacs, Albert Camus, Marx, entrevários outros.

Desde pequeno, descobri que o verdadeiro feitiço da vida, ou melhor, o feitiço mais poderoso do mundo é o feitiço do “homem branco”, parafraseando Eduardo Mondlane citando a sua mãe sobre a necessidade de estudar, estudar sempre. Sim, dizia eu, é o feitiço do livro capaz de nos levar à qualquer lugar da nossa região planetária, capaz de nos induzir, por exemplo, à criação de fontes de energia pura (a energia do futuro), tal como faz o sol no processo da fusão nuclear, conforme os experimentos e pesquisas em curso nos prometem. A precariedade do nosso continente, acredito eu, só pode ser superada abraçando verdadeiramente o feitiço do livro, com vista ao domínio do átomo, essa essência que nos revela os segredos de como o universo funciona.

*Texto introdutório da conversa alusiva ao Dia Mundial do Livro e Direitos do Autor, na Casa do Professor.

O Gulamo Khan faria hoje, 11 de Maio, 70 anos. Morreu aos 34 anos a 19 de Outubro de 1986. Quando entrei para a redacção da Rádio Moçambique, em 1984, onde debutaria como repórter, o seu nome constava na pauta dos jornalistas, mas ele estava destacado na Presidência, como adido de imprensa. A despeito, por vezes, via-o nos corredores da Rádio. Via-o sempre sorridente, afectuoso, acolhedor. Era uma das mais esplendorosas vozes de Moçambique. Os seus trabalhos como jornalista são documentos históricos. Entrevistas como as que fez a Fany Mpfumo ou Noémia de Sousa são certidões da nossa nacionalidade.

Mais tarde, na AEMO, primeiro, e nos Msahos, que eram memoráveis encontros de poesia no coreto do Tunduru, de que foi um dos fundadores, depois, conhecer-nos-íamos. O seu activismo cultural, não obstante as funções que tinha, era indúctil. O Msaho, a “Gazeta de Artes de Letras”, na vetusta revista TEMPO, com Luís Carlos Patraquim e Calane da Silva, ao tempo em que o Mestre Albino Magaia era director, a promoção da literatura, a Associação dos Escritores, quando Rui Nogar era Secretário Geral, entre outras actividades, fazem parte do seu intrépido activismo cultural.

O Gulamo era um belo tribuno, um exímio declamador. Creio que José Craveirinha, seu amigo, não teve um outro de semelhante quilate a dizer-lhe a poesia. Para além de a dizer, o Gulamo foi responsável por divulgar poemas de Craveirinha que de outro modo seriam desconhecidos ou estariam perdidos. Vivíamos um tempo em que acreditávamos nas palavras e a poesia era o viático das nossas vidas e dos nossos sonhos. Hoje estamos, desfortunadamente, nos antípodas desse tempo.

Num comovido e comovente texto (“Missiva póstuma para o Gulamo”), que serve de prólogo ao livro único (“Moçambicanto”) que se fez publicar, em Maio de 1990, há 32 anos, José Craveirinha, sem se arredar do tom pessoal e da pessoa próxima que o Gulamo era, escreve: “Trágico sarcasmo do Destino é ser eu, precisamente eu, o incumbido para falar de ti, Gulamo na edição do teu livro, o único: tu, Gulamo que, tão jovem, ligado à casa do Zé e da tua mamã Maria como a tratavas, por laços afectivos que te tornavam mais um filho, não escondias o porquê das tuas diligentes buscas e irreverentes “extravios” de quanto papel solto, rascunhos e escritos inéditos enferrujavam nas gavetas do descuidado Zé, correndo o risco fácil de se perderem de vez, o que seria – teu exagero afectuoso – um crime e uma perda. Autor dos “extravios” reclamavas a intenção de ser o fiel depositário que te caberia divulgar no “depois” do descuidado autor.”

O Destino, como lhe grafa Craveirinha, com maiúscula, zombou do “descuidado autor” e seria ele, na companhia do Albino Magaia, Calane da Silva e Júlio Navarro – todos desabrigados deste reino -, que cuidaram de organizar os papéis, encontrar ordem e fazer publicar a poesia de Gulamo Khan, quando este, no infortúnio colectivo que seria Mbuzini, não regressou de uma breve viagem à Mbala, na Zâmbia, onde fora acompanhar o Presidente.

Neste “Moçambicanto” houve por bem incluir uma mensagem da Mãe do Gulamo, Hawa Mulla. Mensagem lancinante esta, que termina dizendo: “Levaste as palavras da tua linda voz contigo, mas connosco ficou para sempre esta tua mensagem amiga.” Não há exagero de progenitora no adjectivo: Gulamo tinha das mais belas vozes que a nossa Rádio teve.

A voz era a extensão da sua personalidade. Leio-lhe, de novo, os poemas, da sua breve produção, reunida neste magro volume, com capa de Chichorro, ilustrações do Malangatana e do próprio Chichorro, e reavivo, na sua dicção, a sua belíssima voz. O livro inicia com o poema que lhe dá o título e é absolutamente encantador:

 

céleres as águas

zambezeiam pela memória

das almadias do silêncio

 

nem o zumbido da cigarra

me entontece

 

nem o troar do tambor

me ensurdece

 

as vozes que são 

sulcos das nossas esperanças

 

Oh pátria

moçambiquero-te

neste alumbramento

e amar-te

devo-o à carne e ao nervo

deglutidos em revolta.

 

Poeta com timbre próprio, poeta com dicção própria, poeta com sintaxe própria, pese embora a sua obra tivesse sido um projecto inacabado, que a morte, abrupta, interromperia para sempre. Não sei se há aqui alguma premonição, mas não deixo de notar, nestes versos que cito a seguir, uma outra ironia trágica: “Sento-me na carlinga e fecho os olhos/ cheira a velho este Antonov/ na penumbra”. A 19 de Outubro de 1986 estavam todos eles também num infausto Tupolev.

Poesia que se arrima indisfarçadamente num ideário, dela temos que assacar a circunstância temporal e histórica na qual é escrita: “Há uma lança lançada em Setembro”. Ou estes versos acutilantes: “assim exilados/ no ventre da Pátria/ lambemos o chão/ e o musgo ressequido”. Poderiam ser, estes últimos versos, sobre os tempos agoirentos de hoje.

Poeta em diálogo com a poesia de Craveirinha também (“Carta para José Craveirinha feita num 42º andar de Nova Iorque”: “Atenção irmãos/ Billy The Kid era um fanfarrão/ nem o whisky lhe aguentava a coragem/ tanta cagufa/ hoje sabemos que o grande chefe índio/ se suicidou com uma poção venenosa” (…) “E Langston Hughes não é parvo nenhum/ quando diz que é belo e que é a América/ Deviam tê-lo deixado na cozinha a/ comer os restos para ter juízo/ e não se meter com brancos// Também não é verdade que Joe Louis/ despenhou aos 2 minutos Max Schmeling/ pondo knock-ou Max Schmeling”).

Há, nisto, nestes versos, um claro diálogo, uma ineludível intertextualidade com o poema “Quando o José pensa na América” de Craveirinha. “E Agora, Zé? Agora, já, todos os membros/ da K. K. Klan sabem/ o que pensamos/ quando pensamos na América” (Gulamo Khan).

José Craveirinha: “E além do mais o José também se lembra que Joe Louis na desforra/ pôs Max Schmeling K. O. logo ao primeiro round/ que Armstrong quando assopra o trompete/ os agudos dão resposta concludente/ às dúvidas sentimentais da Ku-Klux-Klan/ e o retórico par de Botas de Charlot”.

O poema de José Craveirinha é longuíssimo e não caberia aqui todo, mas é um daqueles arroubos que fizeram a sua fortuna como poeta. Nesta “Carta” de Gulamo, eivada de ironia, aliás à boa maneira do Mestre, há ainda versos que esplenderiam à luz dos tempos ulteriores à sua escrita: “Sabes que mais? / É mentira o que dizem de Michael Jackson/ O puto não é negro é branco só que os / racistas”.

Muito haveria a dizer, não fosse esta uma breve nota evocativa, do Gulamo Khan, no dia em que ele faria 70 anos. Releio o livro, perpassam pela  minha memória as imagens que guardo dele, lembro-o afectuosamente, recordo-me da última vez que o vi, sentado no banco do Jardim Tunduru, antes de um Msaho; lembro-o, ali, no coreto declamando as ínclitas “Saborosas Tanjarinas d´Inhambane”, do José Craveirinha (numa dedicatória este escreveria: “Homenagem póstuma ao muito Amigo Gulamo que as descobriu e divulgou”); mas sobretudo ainda me empolga a lembrança do Gulamo a dizer o poema “Rumbas de violas no Comoreano” do nosso comum amigo e grande Poeta José Craveirinha.

Que mais posso dizer e que não subscreva o lugar comum? Gulamo Khan foi outro dos nossos grandes intérpretes e hoje está exilado no território do esquecimento. Foi um tradutor do ser moçambicano e dos nossos anseios. Fê-lo com a sua voz quando a palavra exprimia assertivamente o nosso sonho individual e colectivo. Agora que vivemos o refluxo desse tempo e experimentamos a distopia desse encantamento e dessa aspiração comum, o seu nome subscreve o anátema da desatenção, do desapreço e da nossa endémica negligência. A Pátria é fecunda na arte da desmemória. A despeito, a voz de um poeta nunca se deixa obliterar.

Seremos amor o chão fértil”, escreveu Gulamo Khan num poema de verso único. Este brevíssimo poema poderia ser a súmula da sua vida e do seu destino indubitavelmente poético e do seu imperecível e pungente hino – “Moçambicanto”.

 

Zagaia forte e aguerrida

adeus malume.

 

(Gulamo Khan)

Como se a crueldade do mestre Guimarães fosse um mal de pouca monta, os alunos da Escola Nova e a garotada do bairro sofria suplícios do encarregado do sector de manutenção, o senhor Coimbra.

Este senhor Coimbra era um sujeito metropolitano, originário da ilha da Madeira, o que se comprovava pelo sotaque e pelo modo como pronunciava os bês e os vês. Em vez de dizer “você”, dizia “bocê”; no lugar de “vinho”, pronunciava “binho”. Quem se divertia a imitá-lo era o seu ajudante, o Djacabai, um manjacaziano estiloso e garanhão, muito conhecido pelas senhoras de meia idade em cujas casas demorava-se a “arranjar torneiras que vertiam água” ou a “apertar as dobradiças das portas”. Muita gente estava a par do significado profundo e último destas expressões e não nos vamos deter a esmiuçar detalhes, o que provavelmente valeria a pena fazer, para julgarmos do nível da moral dalgumas residentes.

Pois então o senhor Coimbra constituía a linha do prolongamento dos actos do mestre Guimarães. Como?

Se o mestre-escola se apropriava dos almoços dos estudantes e os devorava, estes ficavam à míngua de alimento. Dinheiro para adquirir alternativas para uma refeição, como os bolos de coco, as arrufadas ou mesmo cornicoques, dos vendedores ambulantes que se faziam sempre presentes durante o intervalo maior, esse não o possuíam. Em épocas de boa produção o recinto onde funcionava a oficina do Coimbra era um pomar donde pendulavam frutos variados, em diferentes fases de maturação. Era só vê-los ali a pendularem, apetitosos, a provocar piruetas e ruídos naqueles estômagos esfomeados e muita salivação nas bocas. Eram os pêssegos do tamanho dum punho duma criança, eram aquelas mangas com formato de feijão, eram aquelas laranjas amarelas que dava gosto ver toda aquela produção. O recinto em referência fora vedado com uma cerca de arame farpado, reforçado por uma rede-galinheiro, o que não constituía um impedimento maior para a criançada do lugar.

Quanto mais o senhor Coimbra se esforçava em inventar estratagemas com o fim de impedir a invasão da propriedade, mais os rapazes se aperfeiçoavam nas tácticas para ganhar acesso à fruta. Ele armava emboscadas para apanhar os ladrões em flagrante delito, mas estes achavam sempre algum modo de escapar aos mesmos. Contudo, há sempre dias de azar. Algumas vezes, um e outro estudante, impelido pelas pressões do jejum, foi surpreendido pelo diligente encarregado e cercado. Possante como um ferreiro, aquele imobilizava o infeliz com alguns bofetões. Com um martelo pesado contundia-lhe o crânio “para lhe abrir a cabecha e lá meter algum raspêto pela propriedade alheia”. Contam-se às dezenas as cabeças fracturadas pelo martelo do Coimbra, sempre ancorado no argumento de que “ladrão é para se castigare”. Talvez seja esta a razão por que naquele bairro e naquela época abundavam indivíduos com amolgadelas e cicatrizes nas cabeças e alguma forma de retardamento mental.

 

Na minha experiência de leitor de poesia, e sempre que me ponho a reflectir sobre a natureza e os processos criativos que dão origem a poemas, fico sem fôlego ante o feitiço que certos poetas usam. Eles são capazes de associar determinadas palavras ou significações de uma maneira tão particular, cuja poesia daí resultante desperta em nós estados emocionais, de certo modo, inusitados.

Este livro é exemplo disso. O poeta Macvildo Bonde construiu-o com recurso a uma magia muito peculiar, uma técnica, quiçá, que advém das suas vivências, das suas leituras, das suas experiências emocionais, acabando numa poética que escorre, deslisa como um rio sem margens que o possam comprimir, que o possam aprisionar no seu leito, que o possam condicionar no seu deslizamento, até que o leitor se deixe levar com a liberdade das suas águas.

Os versos são soltos, isto é, a imagética é livre, desprendida, mas unificada e sequenciada. Digamos que os três subtítulos que compõem este livro – Terra, Luz e Noite –, constituem uma espécie de associação livre de imagens, de metáforas bem polidas, que obrigam o leitor a participar e a acompanhar a sucessão dessas imagens na tela de todo poema que constitui este livro. É um autêntico filme que se desenrola na memória do poeta e, através dele, embarcamos com o autor numa espécie de viagem onírica.

Esta poética remete-nos ainda à poesia concreta em que a imagem visual e a metáfora do poema vão evoluindo na mente de quem a consome, com a alma despojada de preconceitos de ordem lógico-metodológica. Vejamos então:

“terra, campo de batalha, resíduo sólido, areia, fim do cume, Kilimanjaro – olhos de Hemingway; pó: cabana de ébano, ossos raquíticos, na boca o abutre; uma girafa cai na fralda do gatilho.”

Esta sucessão da imagética continua se desenvolvendo, à medida que vamos lendo, até que nos arrebata com ela sem que nos tenha dado tempo suficiente para digerirmos o que acabamos de ingerir.

“Agito o braço, despacho a águia no horizonte, no livro uma veia desmaia, natureza morta;

absorvo a cor da chuva, voz silenciada ao entardecer.”

Como se pode depreender, o livro é uma viagem ao redor da Terra, à velocidade da Luz, com a cumplicidade da Noite.  É uma viagem no espaço e no tempo, na simbologia das palavras e no fenómeno poético em si. É uma jornada ao centro dos elementos que compõem o próprio acto da criação:

“paladar com a fúria da sede;

regresso à Marselha, Cézanne esconde a paleta nos olhos de Hortense, uma criança chora no tecto do caixilho.”

Ou então,

“Corro dentro de mim, a terra habita a largura óssea, grito: fogo, uma alma entediada aprisiona a maçã do rosto; rio, sobras de lágrimas escorrem no vácuo, uma mesa dança ballet,”

Enquanto esta romaria prossegue, o poeta vai refletindo sobre a sua própria condição de operário da escrita:

“a literatura tem seus deuses; mudo é o poema envergonhado, trepadeiras calcando o rosto da água no espelho.

Quem sustém o bordão da vaidade, enterra o egoísmo nos cómodos do coração, regresso à pedra, uma linguagem chega sem artifícios à porta temporal;”

Como sempre toda a viagem causa cansaço. Por isso, o poeta suspende-a por alguns instantes. Ele quer repousar na exaustão do próprio movimento, ao mesmo tempo que se interroga:

“Abro as cores da noite e pinto uma vogal na língua. Ressono agora solitário, abro a porta onde repouso metade da preguiça. Esvazio a máscara, uma pastilha amordaça a esfinge, então, reparo que já não brinco com os silêncios; enterro a fadiga nos olhos?”

Mas também o repouso não é o fim da viagem, por conseguinte o poeta retoma a sua peregrinação:

 

“Pinto o lápis nocturno…

olhar da terra húmida;

risco a lua com um berro;

fui monge nas tardes de domingo; minha sina reencontra o sono.”

Nesta navegação o poeta roça com suas asas de vento um pouco da nossa memória, relembra o massacre de Sharpeville, reencontra-se com o Hugo Massekela, esse desbravador de sons e palavras:

“Ervas brotam no coração da cidade, a folhagem orbita na largura do tédio.

Sharpeville,

uma criança ecoa

no feltro das balas incendiárias;

Hugh Massekela

desbrava o poema;

água ou vinho, sentenceio a fúria dos jornais;”

O poeta sobrevoa outras paragens africanas em demanda de outros espaços cinematográficos, para que a sua tela não tenha fronteiras como ensina a própria vida:

“Ouagadougou;

imagino Sembène:

o cinema brilha na floresta; a bicicleta rasga o corpo húmido na alça dos pedais

cada olhar, um filme penetra o imaginário infantil, despidos, crianças abraçam Sankara.”

Anoitece. Estamos já na terceira parte do livro, que leva justamente o subtítulo de “Noite”. Acontece então a insónia. O poeta insiste, e aproveita-se desta insónia para revisitar outras vozes poéticas, vai ao encontro do Patraquim, numa espécie de cumplicidade e intertextualidade onírica.

“Deixo a insónia nos braços, escuto a voz do Patraquim – válvula extinta nas cores de Tsalala. Ser viageiro, o medo entre os látegos das casas? No capim fresco, abandono a noite e as ninfas, o rio assombra meus passos, não redijo o silêncio do pirilampo.”

Vale-nos aqui a máxima do Shakespeare segundo a qual “o mundo inteiro é um palco. E todos homens e mulheres não passam de meros atores”. A viagem do Macvildo acontece na tela da vida, com os seus respectivos capítulos, bem à maneira do Quentin Tarantino, pois ela é nos apresentada em capítulos, cuja história ora avança  ora recua.

“O fim é uma seca, uma taça de vinho sem álcool, um filme encriptado na crosta do ecrã. Quer iniciar a caminhada, pendurar o sono na estrada de um mamilo fresco.”

Como não podia deixar de ser, tudo desenrola-se numa bolha chamada tempo -o tempo como um invólucro onde tudo acontece. O poeta Macvildo Bonde é também actor deste movimento temporal. Até intervém nas ocorrências e faz acontecer cenas nas quais ele próprio é protagonista:

“No cesto do tempo, as raízes voltam a florir, uma mãe embala a noite; estico o sol na lente da saudade.”

“Dentro do cinema, alvitramos novas canções com armas nos olhos; um bombeiro esconde a machadinha no bolso, um bilhete sobrevoa os cabelos do vento.”

Parabéns, poeta, Macvildo Bonde, por esta linda viagem ao interior da terra, da luz, da noite, do sonho, e da poesia!

 

 

 

Jeremias Nguenha morreu a 4 de Maio de 2007. Passam hoje 15 anos. Provavelmente ainda sejam ouvidas as suas famosíssimas músicas “Vada Voxe” ou “La Famba Bicha”, que são, quanto a mim, um dos mais inventivos diagnósticos da sociedade moçambicana e das suas patologias inultrapassáveis. Permanecem actuaisActualíssimas

Era um artista extremamente irreverente e fazia uma arrojada e acerba crítica política e social. Nascera a 19 de Março de 1972, em Inhambane. Cantava em changana. Cantava enérgica e violentamente em changana. Morreu cedo, subscrevendo o anátema moçambicano, com apenas 35 anos. Deixou, no entanto, o seu génio criativo registado nas músicas que compôs e cantou. 

 Nguenha foi um artista carismático e popularíssimo. Isso devia-se, a meu ver, à sua música poderosa e às suas mensagens certeiras e veementes, mas também à sua imediata identificação com os mais desfavorecidos: a forma de vestir, a forma de se exprimir, a forma de dançar e as suas coreografias. A sua impetuosa denúncia social, sobretudo quando falava da pobreza ou das injustiças sociais, era uma resposta violenta à violência dos que sofriam e sofrem a exclusão, a pobreza e a marginalidade. 

Jeremias Nguenha tinha uma portentosa e magnética energia em palco e vê-lo actuar era um momento fortemente impactante. Vestia uniforme militar e tinha o cabelo sempre rapado. Andava com um exemplar da Bíblia. Era um provocador. As suas composições tinham metáforas e imagens virulentas: “obrigam-nos a pentear as nossas carecas(tradução livre) é um dos seus versos mais profundos. O grande instigador era, antes de tudo, um grande poeta social e um magistral e intrépido cantor e actor. Ele não cantava apenas. Actuava no estrado. Era a voz dos esquecidos, dos desprezados, dos proscritos. 

Teve uma aparição fulgurante. As rádios tocavam-no regular e recorrentemente. Quando foi anunciada a sua morte, o choque foi inevitável. Mas parece que é o destino de grande parte dos artistas moçambicanos. Quantos talentos se perderam precocemente neste país? Quando estes (artistas)desaparecem sucede o silêncio e a escuridão sobre os seus percursos e suas vidas. Não são mais evocados, não são estudados, não existem biografias. Sabemos muito dos artistas estrangeiros e cultuamos o efémero entre nós. Pouco sabemos dos nossos melhores. 

Aliás, parece que a Pátria se regozija em ignorar os seus melhores intérpretes. Intérpretes num sentido mais extenso – de tradutores de um tempo e de uma sociedade. Como é este imenso e perseverante artista. Um cantor desassombrado e arrebatador. Jeremias Nguenha foi e é um dos melhores intérpretes do nosso destino individual e colectivo. Foi e é um dos maiores tradutores do devir moçambicano. 

 La famba bicha!

 

Maputo, 4 de Maio de 2022

 

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”

Simone de Beauvoir

 

Sexo é poesia. Esta é a frase que encerra o texto patente na página 27 do livro “o perfume do pecado” como um exercício sugestivo de se sentir o aroma de um pecado que a nossa vivência religiosa intitula original. Mas não é sobre sexo que o livro trata como pode sugerir uma leitura apressada tanto do livro como da capa que, aliás, foi engenhosamente desenhada.

O perfume do pecado é uma construção poética que se constrói através da metaforização da sensualidade feminina, sobretudo, e da representação de estruturas de sentido que nos confirmam que o texto literário não diz. Sugere. É este processo de construção textual que mais se destaca neste livro, conduzindo o leitor a uma permanente associação entre o que já conhece e o que o texto sugere, forjando-se, desta forma, a magia de Mikhail Bakhtin chamou de leitura interactiva.

O texto “o sabor da maçã proibida” é disso exemplo:

coma sem casca

e não te venhas já

ela é melosa, porém, venenosa. (p. 32)

Outro exemplo deste processo pode ser lido na página 27 em que encontramos:

Na selva não há timidez

se a fruta é boa,

que se coma. (p. 27)

Trata-se, portanto, de um jogo metafórico que reenvia o leitor às suas próprias conclusões sobre o que acaba de ler devido à apropriação que Chabana faz da palavra para singulariza-la e conduzir-nos a uma abordagem sobre o erotismo como um campo de afirmação da feminilidade ou desmistificação do perfume do pecado. De facto, por um lado os poemas fazem a representação do corpo feminino como se o eu poético se quisesse afirmar e assumir, por outro revela-se o descortinar de tabus que, desde a antiguidade, aprisionam mulheres e as reduzem à insignificância.

Presente em todos 52 textos, divididos em duas partes (do pecado e o perfume, respectivamente) esta metaforização a que nos referimos faz com que a experiência de leitura deste livro seja um contínuo desapego de credos sociais sobre a mulher.

Assim, o perfume do pecado revela ser um único poema em contínuo exercício de desfazer as brumas que enclausuram a mente quando reflectimos sobre a feminilidade. Se a nossa memória comum sugere que a mulher é um ser que se forjou pela costela masculina, a nossa consciência escandaliza-se com a auto-afirmação deste mesmo ser como uma entidade que tem uma essência própria a despeito do ser que supostamente a originou.

Nas entrelinhas do poema “dois em dois” (pag. 47) é inevitável tirar esta conclusão:

De tanto amar-te

não sei se ainda te quero,

mesmo por perto.

Sinto que és meu amor eterno,

embora no desespero, me esquento

nas memórias rígidas de beijos e abraços

que ficaram nas nossas metades de amantes:

dois olhares soterrados…

Amamo-nos e odiamo-nos,

mas no jardim do Éden somos dois inconscientes

felinos, famintos e loucos

embebidos em amor e banho de gemidos,

porém, eternos fugitivos,

eu sou eu e tu és tu!

Como podemos inferir, o texto requalifica a essência feminina e a coloca numa posição de equidade e não de mero objecto refém das abordagens quer eróticas quer sentimentais do sexo oposto.

Ler o perfume do pecado e ater-se apenas na representação que Chabana faz do corpo feminino não só é injusto como se desvia do alcance dos seus textos. Uma releitura do poema acima pode revelar-nos que além da mera erotização do verso há uma expressividade que augura a manifestação da vontade de liberdade e autonomia do corpo feminino, do desejo sexual e da assunção da essência feminina.

Ao estrear-se desta forma, Chabana junta-se, por exemplo, à Lica Sebastião, Sónia Sultuane, Deusa d’África, Melita Matsinhe e Rinkel que, segundo a professora Vanessa Riambau Pinheiro[1],

são poetas contemporâneas que quebram o paradigma de controlo e dominação do corpo feminino com uma poesia empoderada e decolonial como elemento sintomático dessa imprescindível, ainda que gradual, transformação do status quo actual, reminiscente do racismo e do patriarcalismo ainda vigentes na nossa sociedade.

Dando eco à frase de Simone de Beauvoir, em epígrafe, diria que este livro é um tutorial para que as mulheres se tornem no que lhes é destinado e se libertem das amarras desta sociedade falocêntrica. Aos homens, é um convite para a desconstrução dos seus próprios credos relativamente à mulher e seus papéis sociais.

 

[1] PINHEIRO, Vanessa Riambau. Cânones e Perspectivas Literárias em Moçambique. Editora UFPB, João Pessoa – PB, 2021;

          

Fui convidada como oradora no 10º evento do “Raias Poéticas”, a mesa que abordaria o tema “Leitura, poesia e edição: laços e pontes que unem o leitor, poeta e editor”.

Para mim, falar em Literatura pressupõe incluir na “casa literária” todo o tipo de intervenientes: autores, leitores, livreiros, editores, dinamizadores literários, entre outros, sem excluir e actuando de modo holístico. Se é verdade que fundamentados por ideias de Gilles Deleuze, encaramos o conceito “dobra”, como coexistência e abertura para diferentes tipos de debate ou de actuação, não é menos verdade que a ideia de dobrar, sugere ocultar o que fica dentro dobra. E, se não houver cuidado ou atenção, incorre-se no erro de passar por cima do outro. Se por um lado, podemos colocar coisas dentro de uma dobra, para as resguardar, também podemos nos esquecer delas. Então, é mesmo válida a ideia a construir a partir de Deleuze de que “dobra” implícita agir de modo diferente. Eu diria holístico ou inclusivo.

Quando fui convidada a participar do evento “Raias poéticas” as primeiras perguntas que me fiz foram: que laços é que unem diferentes tipos de “leitores” a editores? À poesia?; como integrar alunos e leitores excluídos do contexto educativo numa literatura excludente?; como unir leitores excluídos a editores excludentes?; Como ter uma ”casa literária” inclusiva?; como solucionar o desfasamento entre os pressupostos para a educação inclusiva e a edição de livros inclusivos?

Antes de responder a essas perguntas, recordo o contexto moçambicano, a partir do qual verifiquei existirem algumas soluções e desafios para esse quesito. Moçambique é um país multicultural, com onze grupos étnicos-culturais. Tem também recenseadas, cerca de 23 línguas, algumas das quais já com dicionários, gramáticas, textos ficcionais e didácticos, num universo no qual, a língua oficial é a língua portuguesa.

Lembro ainda que as línguas moçambicanas foram interditadas na época colonial, facto reiterado em 1975, após a proclamação da independência, no qual o português foi escolhido como língua oficial. Entretanto, até hoje, para uma população nacional de 30.832.244 de habitantes, da qual 14.885.787 são homens e 15.946.457 são mulheres, onde 34,02% são população urbana e 65.08%, população rural; cerca de 65%, que é habitante de zonas rurais, é falante do português como segunda língua.

Falar sobre “casa literária”, nesse contexto, deve ser e saber integrar todos os seus intervenientes: autores, leitores, livreiros, editores, dinamizadores literários, entre outros. Pressupõe ainda integrar, nesse grupo a Escola, esta que é instituidora e disseminadora do cânone literário.

Nesses termos, convêm lembrar que segundo a Lei nr.18/2018, de Dezembro o Sistema Nacional de Educação deve integrar crianças, jovens e adultos com necessidades educativas especiais em escolas regulares. Para as escolas de educação especial vão alunos em casos de extrema necessidade. Até aí, está tudo bem.

O problema que se coloca é que a maioria, senão todos os professores das escolas regulares não estão habilitados a lidar com a deficiência. Além disso, segundo me constou, a partir de um programa radiofónico, c.f <https://youtu.be/VWnk6smvqCE> existem, no país, cerca de “728 mil pessoas com deficiência; 115 mil crianças, em idade escolar, têm deficiência e existem, apenas, 10 escolas especiais, num contexto no qual 66.4% dos 5 aos 24 anos estão fora do sistema de ensino”.

Não havendo como lidar com a deficiência em contexto de aulas regulares, certamente que, também, não haverá como lidar com determinado tipo de pessoas com deficiência em determinados programas de dinamização literária, como por exemplo os cegos, os surdos, os que têm deficiências mentais e os que tenham como língua primeira, uma língua moçambicana, porque, nem todas as escolas utilizam a modalidade de ensino bilingue e a produção de materiais de literatura em línguas moçambicanas é escassa.

O ensino bilingue é um tipo de ensino no qual, democraticamente, por escolha realizada dos pais, os alunos são matriculados na Escola, e submetidos a um ensino no qual, nos seus três primeiros anos de escolaridade, a língua de apreensão do saber é uma língua moçambicana e o português aparece como disciplina. E nesses anos, poucas crianças têm acesso à literatura produzida nas suas próprias línguas.

Junta-se aos problemas mencionados o facto de moçambique ter cerca de 30 editoras e apenas algumas sobre as quais falarei mais adiante, se dedicarem a ser inclusivas. São as seguintes, as editoras existentes no país: Trinta Zero Nove; Kuvaninga; Progresso; Plural; Fundza; Escola Portuguesa de Moçambique (Braço editorial); Fundação Fernando Leite Couto, Alcance; Selo Jovem; Índico; Xidjumba; Kuphaya; Oleba; Cavalo do Mar; Ethale; MOLIJU; AEMO; JV; Escolar; Texto; Kwiri; TPC; Kulera; Atiko; Imprensa Universitária; Kwandika; AT; Marimbique; Capicua e ainda  Literatas (Movimento literário); Arquivo Histórico de Moçambique – AHM e FUNDAC (Instituição cultural). Estas três últimas, não sendo propriamente editoras; têm publicado livros em contextos específicos.

Entrevistada Sandra Tamele, fundadora da editora Trinta Zero Nove, referiu que a instituição foi criada a 30/09/2018, em celebração ao dia da tradução. Tem como missão traduzir e publicar obras em formato impresso, áudio-livro e em braile; privilegiando mulheres, narrativas actuais, pessoas com deficiência e minorias. Esse trabalho é feito com obras de autores moçambicanos e de autores de outros países. A editora tem também dado primazia a obras infanto-juvenis. No seu catálogo já existem cerca de 30 trabalhos, que incluem poesia, romance e conto. Esta instituição tem realizado saraus culturais de poesia, com tradução em língua de sinais.

Falei também com Elcídio Bila, representante da editora Kuvaninga, que me informou que esta foi criada em Maio de 2012, em Maputo. Tem utilizado capas de cartão (papelão reciclado, retalhos de tecido e outros) para cobrir o miolo dos livros que produz, unindo as folhas através de uma linha. É um trabalho artesanal.  Tem no seu catálogo cerca de 27 títulos publicados, nos géneros poesia, conto, drama, crónica e ensaio de autores moçambicanos e estrangeiros. A sua missão é estimular novos escritores. Além disso, têm-se dedicado a levar a consciência dos seus leitores à preservação do meio-ambiente.

É no âmbito do trabalho dessa editora que surge, em 2020, num formato misto: a tinta e em braile, a obra Sonolência e alguns rabiscos, da autoria de Énia Lipanga, poetisa e escritora moçambicana. Quando entrevistada a propósito da matéria neste artigo, referiu que o seu livro tem sido utilizado pela Associação de Pessoas com Deficiência Visual como exemplo do que se espera da arte. Da conversa tida com ela, destaco que dinamiza a literatura, declamando poesia em eventos com intervenção simultânea de interpretação em língua de sinais.

A literatura infanto-juvenil, começou a ser publicada em 1979, em Moçambique, entretanto, é um género com menos produção do que a produzida para um público mais adulto e que, ao longo do tempo foi sofrendo interrupções no âmbito da sua publicação. Mas, com a actuação da Associação Progresso, fundada em 2001, abriu-se uma etapa em que aumenta a produção desse género e inaugura-se uma época na qual a produção nesse género é também feita em algumas línguas moçambicanas.

Essa associação tem desenvolvido o seu trabalho em áreas rurais, nomeadamente: Niassa, Cabo Delgado, Maputo, Tete, Nampula e Zambézia; produz materiais impressos para apoiar o Ensino Bilingue.  Têm, também, produzido textos para serem utilizados na alfabetização de adultos, cujas temáticas incidem sobre habilidades para a vida. A editora desta Associação já tem produzidas mais de cem obras.

A Plural Editores iniciou a abordagem à temática dos livros em línguas moçambicanas em 2013. Tem contribuído para o Ensino Bilingue e de registo de contos da tradição oral, através do projecto “Moçambique: todas as línguas, um país”. A primeira edição desse projecto foi realizada em Abril de 2014.  Como resultado desse trabalho, existem, actualmente, materiais, nas seguintes línguas: xichangana, emakwa, cinyanja, cisena, cicopi, gitonga, citsua, ciyao, elomwé e shimakonde.

Fundada em 2015, a Associação Literária Kulemba, cujos responsáveis pertencem à editora Fundza, tem organizado festivais infanto-juvenis sobre o livro, feiras, declamação de poesia e concursos literários que têm resultado na produção de livros para esses públicos. Em 2016, a associação iniciou a produção de uma colectânea de contos intitulada, À Volta da Fogueira, desta colecção já foram publicados três volumes; um em 2016, outro em 2017 e um terceiro em 2018. A Associação tem dialogado com os seus públicos, através do festival literário infanto-juvenil, designado Flik.  Em 2019, após ciclone Idai, a Associação publicou livros sob o lema “Livro também sara Feridas”.

Escola Portuguesa de Moçambique, especificamente o seu braço editorial tem, desde 2010, desenvolvido com escolas moçambicanas, um projecto de dinamização da leitura e da escrita, através de um programa denominado “Mabuku ya hina”. Desse trabalho tem resultado a publicação de obras infantojuvenis. Esta Escola tem um outro programa designado “projecto ler para aprender”, que teve início em 2012, através do qual estimula crianças das escolas moçambicanas ao gosto pela leitura e pela literatura. Para além desses projectos, a Escola tem publicado obras infanto-juvenis, resultantes da adaptação e do reconto de obras da literatura oral, por autores moçambicanos consagrados ou não.

A Fundação Fernando Leite Couto, criada em Abril de 2015, tem no seu catálogo 32 obras, entre poesia, romance, conto e literatura infanto-juvenil é chamada a este convívio pelo facto de já ter publicado livros de literatura infanto-juvenil e de criar oportunidades para a tradução em peças de teatro alguns livros desse género e da autoria de diferentes autores na praça moçambicana. É um modo de se fazer dinamização literária que, para além de destacar um público muitas vezes excluído, têm dramatizado textos que, por sua vez são interpretados (em parte) em linguagem de sinais, para serem difundidas para um público infanto-juvenil. Há, também, um trabalho de estímulo para que crianças escrevam histórias e as contem a outras crianças, em modo dramatizado ou de conversa. Essencialmente, esta Fundação funciona como uma Escola de formação de novos autores ou de estímulo de jovens autores para o aprimoramento do seu trabalho.

Num país como Moçambique, abordar a temática da existência de laços que unam editoras aos seus leitores, deveria pressupor abrir a mente e falar sobre todo o tipo de leitores. Só assim é que a “casa literária” ficaria completa. Pressupunha ainda, que as poucas editoras existentes se predispusessem a criar novas formas de diálogo com os seus públicos. Só assim é que haveria justiça social e justiça científica, feitas à medida da dobra de pensamento preconizada por Gilles Deleuze, que inspirou o movimento Raias Poéticas.

 

*Sara Jona Laisse. Docente na Universidade Católica de Moçambique. Colaboradora na Fundação Fernando Leite Couto. Contacto: [email protected]

 

Por Jorge Ferrão e José P. Castiano

 

Talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Génio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem. Nyerere pode não ter sido nem um génio, nem uma pessoa extraordinária, porém, foi uma notável figura da África pós-colonial e um sábio, no sentido ancestral da sociedade africana.

Existe um fascínio exacerbado quando retractamos líderes africanos que marcaram o continente, na década 60. E nesse sentido, Julius Nyerere converte-se em referência obrigatória e consensual. Nyerere será, continuamente, recordado como um homem de grande sabedoria, que evitou o derramamento de sangue e confrontos violentos, no seu período político mais activo. Isto foi graças a essa sabedoria e ao seu alto sentido de humor, onde colocava a sua luta pela independência, sem guerrilha, e com uma apologia permanente sobre a paz.

Nyerere, conhecido pelo seu nome suaíli, Mwalimu, que significa professor, tinha uma paixão incessante por uma África unida que contrapunha, até a Nkrumah, do Gana. Ele traduziu William Shakespeare para suaíli e assumiu a sua política Ujamaa, que nem por isso foi bem-sucedida na mudança do panorama económico da Tanzânia. Ujamaa revelava a sua experiência como filho de uma grande família e toda a sua imersão no pensamento socialista da sociedade.

Apesar dos erros, que esta política económica representou, dois factores fundamentais marcaram o perfil de Nyerere enquanto dirigente da Tanzânia. Em primeiro lugar, o seu não alinhamento, expresso no seu bem elaborado discurso, de Outubro de 1967, na conferência da União Nacional Africana do Tanganica (TANU), onde afirmou que ele jamais seria anti-ocidental e, muito menos, anti-leste. O segundo factor esta relacionado à sua capacidade de articular as negociações; procurar privilegiar os valores africanos e assumir os valores do humanismo e do africanismo. O facto de nunca ter constituído uma fortuna pessoal e de se ter retirado do poder, em 1985, por livre vontade, fizeram dele um líder diferente cuja preocupação centrava-se apenas no seu povo.

No dia 13 de Abril celebraremos 100 anos de Julius Kambarage Nyerere, se ele estivesse ainda vivo. Nascido em Butiana, este homem marcou e atravessou todo um século libertário da África, com o seu pensamento e acção, e viria a morrer, ironicamente, em hospitais de Londres, a 14 de Outubro de 1999.

Presidente, escritor, sábio e intelectual, Nyerere usou a política para difundir os seus ideais. Poucos, que o viveram como Presidente da República da Tanzânia, sabem que ele foi um prolífico escritor do seu pensamento político[1], mas, sobretudo, um homem de acção política, de uma visão estratégica que ia para além do seu tempo. O Mwalimu dizia o que pensava e pensava, profundamente, no que dizia; também agia segundo o seu pensamento e pensava, profundamente, também nas suas posições e acções políticas.

No centro do seu pensamento esteve sempre a busca da Paz e não-violência, mesmo que admitisse uma fase de “violência organizada”, na luta pela liberdade. Por isso, recebeu, ainda em vida, condecorações e prémios tanto do Ocidente (Canadá, Suécia, etc.), como do Leste (Prémio Lenin da Paz, Prémio Gandhi da Paz).

Para Moçambique, a mais marcante acção de Nyerere foi o seu apoio à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) (também apoiou as lutas da África do Sul, Uganda, Angola, Guiné-Bissau e Namíbia), permitindo que o seu país albergasse bases militares. E este apoio à violência armada organizada aos países vizinhos, não foi sem conflitos morais que precisavam de ser reflectidos: Como um pacifista, que sem dúvidas ele era, pôde apoiar grupos armados de libertadores, tanto mais que, na altura, eram conotados com o terrorismo.

Numa palestra sob o tema Stability and Change in Africa, em 1969, na Universidade de Toronto, convidado para a recepção de um doutoramento honorário, Nyerere reflecte sobre o sentido e significado da liberdade para os povos africanos, em particular na África Austral. Primeiro, preocupava-lhe a questão sobre como alcançar a liberdade (by peace or violence?) e, segundo, preocupava-lhe estabelecer uma clareza teórica sobre a dialéctica entre liberdade e desenvolvimento. De uma forma mais pronunciada, o livro Uhuru na Maendeleo (Liberdade e Desenvolvimento, 1974) é uma confrontação teórica sobre ambos dilemas.

Reflectindo sobre se a liberdade deveria ser alcançada por meios pacíficos ou violentos, Nyerere deixa claro, numa argumentação ímpar, a seguinte posição: primeiro, a batalha de todos os africanos é de alcançarem a Independência (que tinha o sentido na sua profunda convicção, da liberdade colectiva dos povos em decidirem por si mesmo o modelo de desenvolvimento a seguir).

É neste contexto que ele cria a teoria das portas para o diálogo. “Há muitas pessoas” – dizia ele – “que parecem acreditar que há uma virtude (heróica) na violência e que somente se a luta pela liberdade for conduzida em forma de uma Guerra e derrame de sangue pode conduzir à uma (verdadeira) liberdade”.

E acrescentava Nyerere, logo de seguida: “Eu não sou uma dessas pessoas” que pautam pela violência, porque nutria um respeito profundo pelas formas pacíficas de transferência de poderes, daí se explique o Prémio da Paz Gandhi.

A partir daqui, Nyerere desenvolve a sua teoria de portas abertas e entreabertas para um diálogo pacífico entre o colonizado e o colonialista, ou racista, em torno dos caminhos para a Liberdade. Se a porta para as negociações pacíficas estiver fechada, os movimentos de libertação deveriam, primeiro, no seu entender, fazer esforços para a abrir. Se, em contrapartida, a porta estiver entreaberta, ela deveria ser empurrada de tal modo que fique completamente escancarada. E acrescenta: “Em nenhum dos casos a porta deveria ser explodida à custa dos que estão do lado de dentro[2].

Entretanto, Nyerere continuava dizendo que se a porta, em contrapartida, estiver fechada à chave e, ainda, por cima disso, aparafusada (ou gradeada), e os porteiros se recusarem abrir a fechadura e a retirar os parafusos, então, a nossa escolha deve ser clara: ou aceitamos continuar a viver na opressão ou arrebentamos com a porta. Portugal era um desses gate keepers, que não aceitava abrir a porta para um diálogo civilizado[3]. Não restava mais nada à Tanzânia, senão apoiar aos movimentos de libertação que lutavam contra os teimosos colonialistas. Mas, esse apoio da Tanzânia era bem específico e à medida das suas possibilidades: “nenhum tanzaniano vai participar directamente nesta Guerra. Também reconhecemos que não poderemos fornecer armas aos freedom fighters. Mas, nós não podemos chamar atenção (ao Mundo) para a necessidade da libertação na África Austral e ao mesmo tempo negar a assistência (…) sabendo que as portas para as negociações estão fechadas e aparafusadas”.

O segundo significado de Liberdade, que Nyerere tratava de sublinhar, denominava-o por Principle of Self-determination and of National Freedom. Cada país faz ou decide fazer o que bem achar com a Liberdade alcançada. Nyerere tratava de sublinhar que, uma vez independente, a escolha do modelo de desenvolvimento é um affair dos povos que habitam os mesmos países, e não de potências ocidentais e de outros países africanos. Pois, escolher se cada país africano independente devia seguir a via socialista, comunista ou capitalista de desenvolvimento não competia aos países europeus, nem americanos, nem asiáticos. Portanto, sublinha-se, aqui, a ideia da Liberdade enquanto opção para o desenvolvimento. (Mais tarde, Amartya Sen e num plano mais teórico, viria a vincar uma tese complementar à de Nyerere, nomeadamente Development as Freedom de 1999).

É na sequência desta última ideia que devemos ler o sentido e o significado da luta de Nyerere, no plano internacional, por consolidar a ideia da União Africana e do não-alinhamento. Ele foi muito activo na luta pelas relações comerciais Sul-Sul, membro-fundador da OUA e organizador acérrimo das conferências internacionais dos países não-alinhados.

O seu colega e amigo, do movimento pan-africanista, Nkrumah, presidente do Ghana, viria, talvez, resumir melhor este pensamento de Nyerere quando dizia que “em questões de desenvolvimento não nos interessa se a direcção é o Este ou o Oeste: caminhamos para a frente[4]. O “para frente” significava, para Nkrumah, duas frentes de luta: internamente, um investimento massivo na educação e formação, na construção de infra-estruturas e de um Estado nacionalista independente; externamente, entretanto, o “para frente” significava um trabalho alinhado de todos os povos e nações africanas com os objectivos da organização continental, a OUA.

Para Nyerere, em contrapartida, a frente imediata, antes da OUA, era, por um lado, mais concentrada na concepção de uma agenda endógena e nacional de desenvolvimento (neste quadro ele desenvolve a teoria e a prática do Ujamaa e education for self-reliance); e, por outro, no plano regional, a consolidação da SADCC, sem com isto querermos dizer que Nyerere era menos pan-africanista do que Nkrumah.

Neste ano das celebrações do seu centenário, não seria despropositado celebrar este filho prominente da nossa África no seu pensamento e na sua acção. Como pensador, ele preocupava-se por fundamentar as condições e possibilidades para não se fecharem as portas do Diálogo, da Paz e da Reconciliação; todavia, quando se tratasse de conquistar e defender a Liberdade, ele admitia a “violência organizada”. E, mesmo já nos anos 70, Nyerere alertava para o perigo de Guerras posteriores às independências na região Austral da África devido à acumulação de armas na zona.

Se o Ocidente continuasse a fornecer armas a Portugal, África do Sul e Rodésia do Sul, na escalada que fazia, então não haveria outra chance de os Movimentos de Libertação para prosseguirem, senão também pedirem armas à China, União Soviética e outros países do Leste. Dizia Nyerere: Not even the most skilled guerilla movement can fight machine guns with bows and arrows, or dig elephant traps across surfaced roads. Tivemos que recorrer às armas do Bloco do Leste.

E assim foi escalando o nível de violência armada na nossa zona. E isto acontece, como diz, e não se cansou de ensinar-nos Nyerere, quando as portas para o diálogo e negociações estão não somente trancadas à chave, se não também gradeadas e aparafusadas.

No seu próprio país, em 1977, ele quis dar um exemplo de concórdia e de “portas abertas ao diálogo” que tanto pregava. Por isso unificou os partidos Tanganyika African National Union (TANU) e o Afro-Shirazi Party do Zanzibar para formar o Chama cha Mapinduzi (Partido da Revolução). Pensava, assim, alcançar uma maior harmonia, paz e reconciliação social na República que liderava.

Um homem de paz, sabedoria e acção que foi Mwalimu a quem vale a pena celebrarmos o seu centenário .

 

Não vi, hoje ou mesmo esta semana, referência alguma, entre nós, à passagem do centenário de Julius Nyerere (n. 13 de Abril de 1922, Butiama, Tanzânia – m. 14 de Outubro de 1999, Londres, Reino Unido). Esta cultura do esquecimento, esta primazia da amnésia, esta predileção pela desmemória ou este império do olvido não é um descuido certamente, nem desatenção ou negligência apenas, lapso ou simples omissão. É revelador de algo mais gravoso. Provavelmente, não seja capaz de lhe encontrar o desígnio imediato aqui e agora, mas há serventia nisto. Não pode haver tanto esquecimento sem razão.

Nyerere atravessou toda a minha juventude e testemunho aqui o fervor com que o recebíamos. Basta lembrar o nosso cancioneiro revolucionário e está lá o seu nome. Não ignoro a nossa toponímia que lhe dá sublimidade. Foi o líder mais distinto entre os pais fundadores dos novos países africanos. Não me compete fazer-lhe aqui a biografia nesta breve nota, sublinho apenas o facto de ele ter acolhido a geração de africanos que lutavam pelas independências dos seus países. Isso está na origem da reverência que ele colhia entre nós. A afeição por Mwalimu (Professor) vinha daí e advinha da sua personalidade carismática que ultrapassava os limites e a geografia da sua Tanzânia. Foi, indubitavelmente, um dos grandes africanos ou um dos que sonhou uma África grandiosa. Pelo menos uma África educada, unida e próspera.

Seis décadas depois da sua eclosão, vivemos o refluxo destas independências. Estamos nos antípodas daquela exultação revolucionária. Quase todos os nossos países não cumpriram a promessa histórica que drapejava naquelas bandeiras que tínhamos orgulho em hastear e nos hinos que nos tornavam mais irmãos. Não deixa de ser paradoxal, ainda assim, que uma figura cujo maior sonho era a união e que porfiava o ideal de “Ujamaa” (família em Swahili, mas leio no seu afã a metáfora da Grande Família Africana), esteja praticamente esquecida em África. Isto também explica, de alguma forma, o nosso desacerto. O desacerto de África. O desconcerto de África. O desencontro de África. O desconforto de África.

Há muita retórica, sobretudo política, que intenta dizer o contrário desta flagrante desconcordância. Contudo, nós desprezamos a memória e temos da cultura uma dimensão folclórica. Mas ela (esta nossa reiterada divergência com a memória) parece bastante notória ou demasiado veemente. Esta incapacidade de nos reconhecermos no lastro da nossa História – temos a tendência para dissentir sempre do que nos antecede – é uma endemia. O passado é como uma sombra, mas sombra (aqui) como traço ou indício. Não como obscuridade ou anátema. Como identidade, individualidade ou personalidade.

 

Ou muito me engano ou nós somos galhardamente desatentos – ou até exuberantemente presunçosos – em relação ao que nos é anterior. Para além de encerrar uma imprudência não augura nada de auspicioso. Não há futuro sem passado. Mwalimu Julius Kambarage Nyerere não pode ser deslembrado. Esquecê-lo é um sacrilégio. Uma blasfémia contra nós próprios. Celebro-o aqui nos seus 100 anos.

 

Maputo, Quarta-feira, 13 de Abril 

Às mulheres que amei e continuarei a amar…

A poesia não está na acção mas sim onde a acção termina; está onde a ponte entre uma

causa e um efeito se quebra e onde o pensamento vagabundeia numa doce liberdade ociosa.

in A arte do romance, Milan Kundera.

 

Olá a todos.

Antes de me perder nas armadilhas das palavras, primeiro quero agradecer à Matilde por me confiar a tarefa de apresentar o seu O perfume do pecado. Tenho noção do que significa um livro de estreia para um autor. Na verdade, até parece que é aí onde as coisas começam e tudo a seguir dependerá desse passo inaugural. Então, obrigado, Matilde, pela confiança?

Em segundo lugar, quero agradecer ao Camões por esta logística toda na promoção dos livros, dos autores e da literatura moçambicana em geral. Num mundo efémero como o nosso, é sempre agradável poder contar com pessoas e instituições que acreditam e investem na arte da palavra, porque, como bem afirma Blanchot, a palavra tem o poder de fazer as coisas aparecer.

Bem, a primeira vez que apresentei um livro aqui no Camões foi em 2014. Nessa altura fui o apresentador do romance biográfico Nós, os do Macurungo, de Adelino Timóteo, título que bem nos lembra um outro, Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira. Acho muita piada, oito anos depois, voltar a apresentar uma obra literária aqui no Camões, no caso, de uma autora cuja escrita bem dialoga com a de Adelino Timóteo. Ou seja, do mesmo jeito que a obra timoteana encerra uma preocupação estética muito dedicada ao universo feminino, propondo debates importantíssimos para a sua compreensão, quer através na narrativa quer através da poesia, Matilde Chabana assim também procede com uma entrega desconcertante nesta sua inicial apresentação em livro. Certamente, temos aqui matéria mais do que suficiente para a produção de novos conhecimentos sobre a literatura, a cultura e a sociedade moçambicanas por via de um exercício comprativo.

Indo ao que realmente interessa, a razão de cá estarmos reunidos, eu intitulei esta apresentação da seguinte maneira: Corpo, desejo(a), acção. Optei por um título simples, com recurso a três palavras separadas entre vírgulas porque, na minha opinião, cada uma tanto é imensurável quanto polissémica. Simultaneamente, isoladas ou em concordância, as três palavras atravessam toda poesia de Matilde Chabana.

Começando com o primeiro termo, corpo, quem lê a Bíblia Sagrada deve saber que num dos versículos do livro Génesis diz-se que a mulher foi criada com base numa costela do homem para o fazer companhia. Desde os meus tempos de catequese, tenho imensas dificuldades em aceitar esta narrativa que está na origem da subalternização da mulher em várias sociedades. Geralmente, o que está escrito na Bíblia é inquestionável, então, basta uma interpretação errada, extrema ou defeituosa para a religião e os mandamentos da lei de Deus ficarem corrompidos.

Não sei se é por ser belo ou sensual, mas constato que o corpo da mulher é essa coisa proibida de estar exposta, porque não pode, não fica bem, desvirtua. Se os preconceitos fossem apenas nessa ordem, a situação até não seria tão grave. O maior problema é o transporte de toda inibição à volta do corpo feminino para o ser feminino. Assim, as mulheres não podem e não devem fazer tanta coisa.

Através de um discurso bíblico ou religioso, se preferirmos, e de um discurso cultural, a condição da mulher foi sempre relegada a segundo plano. Ora não pode votar, ora não pode ir ao cemitério, ora não pode conduzir, ora não pode ser padre/ pastor, ora não pode ser líder de um império/ país, ora não pode ficar na casa que construiu com o marido, quando este é o primeiro a partir. Então, o corpo feminino é um objecto sofredor, cujo drama atravessa imensos ciclos até a dor perfurar a sua alma, encarcerando-a ou condicionando-a.

Pensar o corpo é importante porque nele está uma forma de exprimir sentimentos, emoções, ideias, identidades e personalidades. Condicionar a possibilidade de a mulher ser dona de si, nesse sentido, é impedir a tal emancipação referenciada a cada mês de Março e Abril. A emancipação feminina é mais do que ter 50% das mulheres do governo – não me revejo nesse tipo de percentagem. A emancipação, na verdade, deve começar em casa e ser continuada na comunidade, na escola, na igreja e em todos os sectores sociais. O problema é que “ninguém” educa as nossas raparigas a serem donas do seu corpo e, por consequência, dos seus desejos. Penso, por exemplo, nas meninas dos nossos diversos distritos, que, ao menstruarem pela primeira vez, são “vendidas” a um homem idiota que não sabe distinguir uma mulher de uma criança. Por isso, na melhor das hipóteses, essas meninas tornam-se mães aos 14 ou 15 anos de idade. Digo melhor das hipóteses porque, muitas vezes, elas morrem, por razões óbvias, durante o serviço de parto.

Nós precisamos de alterar urgentemente esse quadro. E como se faz isso? Ensinando as meninas a serem donas dos seus próprios destinos e as mulheres a comandarem os seus desejos. Esses desejos podem começar com a simples vontade de fazer do corpo uma voz contra o mando. Depois, os desejos podem ampliar-se para lá do sexo. “More than just sex”, como bem canta Lokua Kanza, o que não quer dizer que o sexo é irrelevante. Pelo contrário, é crucial e lidera muitas situações na negociação entre as mulheres e os homens.

O outro problema é que até na questão sexo, uma bênção da natureza, a tal da sociedade quer mandar nas vontades particulares das mulheres como se elas fossem todas iguais e aspirassem pelas mesmas coisas. Há um termo que me acaba. Ninfomaníaca, isto é, toda a mulher que possui desejo anormal de fazer sexo. O termo tem conotações pejorativas e nunca se pode adivinhar elogios. No entanto, quando se trata do homem que gosta e assume esse desejo anormal de fazer sexo, é um player, um ponta-de-lança que geralmente merece respeito e palmadinhas às costas. Por que eles podes e elas não? Por que eles, e eu incluo-me neles, almejam tanto ditar regras no corpo delas e nos desejos que se querem concretizados?

Minhas senhoras e meus senhores, O perfume do pecado, de Matilde Chabana, é uma acção acirrada a favor da rapariga e da mulher. Logo, contra a ordem subalternizante, contra os tabus, contra a insignificância, contra os preconceitos. É um grito firme pela liberdade, porque a liberdade conquista-se todos os dias e de múltiplas formas. Temos aqui uma poetisa atenta ao seu mundo interior na mesma proporção que capta angústias do meio à volta, uma poetisa que conhece o ser feminino nos seus silêncios, longe das amarras institucionalizadas.

Dividido em duas partes, “Do pecado” e “O perfume”, a criação literária da Matilde é fundamentalmente um produto da sensualidade. O corpo, o desejo e a acção (ou o corpo que deseja acção) são elementos dessa situação imanente, para muitos, o zénite da vida disfarçado em sensações inefáveis.

A nossa poetisa sabe, e não é por ser mulher, levar às costas das linguagens cenários de uma condição urgente alterar. Com isso, os 52 poemas que compõem o livro quebram muros sem jamais abandonarem a subtileza exigida num poema. É como digo no prefácio do livro, na obra da Matilde, “a palavra personifica estados anímicos de entidades ansiosas em gozar o grau superlativo das suas sensibilidades. Aqui as musas não são meras invocações secundárias de sujeitos iluminados. Não. As musas indisfarçadas conjugam incessantemente o verbo agir, resignando-se a ser, parafraseando Virgílio de Lemos, cópias melhoradas deste desvario que tem sido o séc. XX e XXI”.

Mesmo a propósito do verbo agir, para Milan Kundera, “a poesia não está na acção mas sim onde a acção termina; está onde a ponte entre uma causa e um efeito se quebra e onde o pensamento vagabundeia numa doce liberdade ociosa”. Palavras bonitas essas extraídas de A arte do romance. Gosto de as ouvir sempre que as digo. No entanto, não sendo aquela uma mentira de Kundera, que condiz com o leitmotiv dos sujeitos de enunciação de O perfume do pecado, Matilde Chabana esmera-se em apreender poesia em tudo, sobretudo na acção. É um mar de contradições e emoções. Poderíamos imaginar a existência sem isso?

Evidentemente, essa é uma questão retórica. A pergunta que eu gostaria que me respondessem, mesmo a recuperar a minha ideia anterior, sobre não adiarmos mais a ensinar as raparigas e as mulheres a comandarem os destinos dos seus corpos e desejos, peço a vossa colaboração para uma pequena demonstração. Mulheres, quantas de vocês já disseram a um homem “eu amo-te”, sem que fosse o vosso namorado ou marido? Por favor, levantem a mão. Certo. Vejo quatro mulheres num universo de 30. Ainda para as mulheres, quantas de vocês já disseram a um homem que gostariam de fazer amor com ele, sem que fosse o vosso namorado ou marido? Agora noto que o número diminuiu, só temos uma mulher num universo de 30.

Agora coloco a pergunta aos homens. Quantos de vocês já disseram a uma mulher que “eu amo-te” sem que fosse vossa namorada ou mulher? Homens, por favor, não me envergonhem. Ah, sim, já estava a ver… mais ou menos 20 homens num universo de 25. E quantos de vocês já disse a uma mulher que “desejo-te levar à cama” sem que ela fosse namorada ou esposa? O número continua significativo.

Ou seja, este exemplo caricato serve para compreendermos que a nossa sociedade educa os rapazes para uma condição, mas, depois, esquece-se ou, propositadamente, não educada a rapariga para a mesma situação. Damos privilégios a uns e retiramos a outras. Mais tarde, quando eles são crescidos, queremos que realmente a expressão “direitos iguais” seja consistente. A isso chama-se empurrar o vento com a barriga. Sabendo disso, Matilde investiu na desconstrução de mentalidades há muito tempo enraizadas nas nossas cabeças. Há-de ser por essa razão que o título do seu livro já lança esse desafio rumo à confrontação do pecado. Bem dito, em Chabana o pecado é a coragem de atravessar fronteiras, de ser, de existir, de assumir e de partir, porque ficar, ficar é tão confrangedor, deprimente.

Nessa ordem de pensamento, os sujeitos de Matilde Chabana estão muito interessados em subverter o pecado e as habituais relações significado e significante, inerentes, claro, ao universo feminino. É esta a proposição que me leva a acreditar que O perfume do pecado é um tabuleiro de xadrez, onde se confrontam bispos e rainhas como Lueji (personagem de Pepetela), mais reais e representativas.

Quem for a ler este livro vai identificar uma complexa contestação ao abismo e à loucura causados pelos homens, porque “o amor deve ser feito como e quando se quiser”. Estes versos da Matilde, de facto, pungentes, lembram-me Caetano Veloso, quando na música “Nosso estranho amor”, diz-nos: “Não importa com quem você se deite, que você se deleite seja com quem for”. Conclusão, o amor é plural e incondicional. Não cabe em rótulos e tão-pouco na incisão dos órgãos genitais femininos que urge combater. O amor é bom, para todos, “sexo é poesia” e não deve ser construído unilateralmente às custas da servidão de um género que só é frágil aos olhos dos que usam óculos de madeira.

Já a terminar, leio-vos o seguinte poema:

No auge

Deixa estourar

a imensidão da embriaguez

possua-me com a boca, o corpo

com as vozes da alma

corra-me em fio a tua virilidade

e quebra todas as regras de etiqueta porque hoje…

hoje

         não quero

ser

         perfeita! (p. 35).

 

E agora o excerto do poema “Streaptease”:

no fundo

entre as paredes e nossos desejos um som calmo e

penetrante

deixa-me embriagada:

o “Dance for you” da Beyonce

oh, sim!

não sou do tempo

que as mulheres são inibidas, não!

Sou do tempo que as mulheres algemam os homens,

do tempo em que as mulheres renascem sorridentes (p. 58).

 

No primeiro caso, se a perfeição é um defeito, por constituir muitas grades de cadeia ao ar livre, o pecado é a gazua para libertação; a gazua que abre a porta da pluralidade do ser indomável.

Já no segundo caso, o passado não justifica o presente e nem define o trajecto para a felicidade plena, diga-se, terrena, porque o paraíso encontra-se em todo lugar, nesta vida, sem essa de termos de morrer para o alcançar.

Enfim, se puderem, leiam O perfume do pecado, para que, conforme a Matilde me escreve no autógrafo do livro, não morra a língua do poeta.

Obrigado pela atenção!

 

*Texto escrito de cor na sequência da apresentação do livro O perfume do pecado, de Matilde Chabana, dia 26 de Janeiro de 2022, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

Na nossa sociedade, de entre as boas e más práticas, há uma que eu considero constituir um grande entrave ao desenvolvimento individual e colectivo. É o hábito da culpabilização do outro ante os insucessos, sejam eles decorrentes de doenças, de desaires amorosos, de emprego, enfim, da vida. Julgo eu que este fenómeno pode estar intimamente ligado à nossa cosmovisão – do tipo curandeirismo, entenda-se, aquele curandeirismo virado às adivinhações. Vezes sem conta temos ouvido falar, um pouco por todo o país, de crimes violentos praticados contra pessoas acusadas de feitiçaria no seio da família, com maior incidência nas zonas  rurais, crimes esses promovidos por charlatães.

O mesmo acontece a nível urbano, principalmente nos meios políticos, académicos, empresariais, desportivos, artístico-culturais, religiosos, entre outros, onde esta prática assume outros contornos, com base no mesmo paradigma, pois o princípio é o mesmo por haver uma relação directa ou indirecta entre uma e outra coisa. Sim, a lógica é a mesma. Falo da fofoca – que alguém já a apelidou de sociologia de rumores – e a calúnia, essa outra forma abominável de argumentar e contra-argumentar. Tudo isto vai ganhando campo nestes meios, visando simplesmente denegrir a imagem do outro (principalmente quando é adversário) e dividir para reinar. É o truque usado por charlatães, gente de má-fé, sem escrúpulos, com a finalidade de tentar ganhar dividendos, ou de alcançar um determinado objectivo.  Assim, acusa-se fulano, sicrano ou beltrano, de ser o responsável do insucesso de A ou de B.  Acusa-se simplesmente, e apresenta-se como prova (de tamanha absurdidade) o aparente sucesso do acusado. Mamma mia!

Pior do que tudo isto, para a perplexidade das estrelas, é a ingenuidade (será?) daqueles a quem aparentemente se defende, de quem se pretende obter apoio, ao acreditarem em “histórias da carochinha”!  Reconheço, de antemão, que estas práticas nada têm a ver com a instrução escolar e o seu grau. Têm a ver, sim, com o universo cosmogónico vivenciado desde o berço familiar!

 

 

Inicio o meu quarto ano de uma escrita a que não estava habituada, a crónica jornalística. Nos primeiros três anos escrevi sobre a interculturalidade. Falei sobre o modo como podemos, por hipótese, colocar as culturas moçambicanas e portuguesa a dialogarem. Noutras vezes, inclui a cultura judaica, no diálogo com essas culturas.

De um modo geral, tenho-me questionado sobre a cultura, nas suas diferentes manifestações: literatura, costumes, comportamentos sociais, práticas culturais, modos de ser, de estar e de fazer. Hoje a indagação é sobre a adequação cultural de algumas posturas públicas em Moçambique.

Sempre abordo a cultura numa perspectiva valorativa, baseada no princípio da relatividade cultural e ainda na ética dos Estudos Culturais, a partir da ideia de que a cultura deve ser analisada de modo descritivo, tal como apregoa Clifford Geertz. E do discurso deste autor, depreende-se, também, que há que fazer-se a interpretação das culturas de modo reflexivo.

Descrever é um acto que não carece de explicação, mas reflexão, na acepção do termo necessário para o entendimento do presente texto, vai além da descrição ispu facto e da relatividade cultural, porque como tenho dito, na análise de culturas, o que é nocivo ou o que fere a dignidade cultural, deve ser descontinuado e substituído por um equivalente, menos danoso, mas com a mesma função.

Esta conversa, vem a propósito de se verificar, na sociedade moçambicana a utilização de togas ou de becas em cerimónias de passagem de crianças da creche para a escola primária. Melhor dizendo, essas togas ou becas são vestidas a crianças nas cerimónias a que se tem designado “de graduação”. Não é que este assunto seja nefasto, mas julgo precisar de uma desconstrução mais ajustada ao assunto em causa.

Ora, se graduação se refere ao ensino superior, que razão existe, para utilizar-se o mesmo nome, na transição de um grau diferente? Como por exemplo designar de cerimónia de graduação à passagem da criança do infantário, para o pré-escolar ou para o ensino primário básico? Mais do que isso, que razões existem para vesti-las, nessa cerimónia, com togas ou becas, que na cultura ocidental são reservados para magistrados ou professores catedráticos? Será que não haverá outro modo mais ajustado a esse ritual de passagem? Quanto é que custa uma reinvenção? …uma adaptação? Um ajuste de um ritual às condições próprias?

Na nossa sociedade, as limitações não param por aí. Escrevo o presente texto num dia de intenso calor, no qual ninguém escapa à transpiração e verifico que a televisão passa excertos de um famoso julgamento no qual os magistrados se apresentam de fato, gravata e toga. As imagens que são passadas não são simpáticas, por mostrarem os magistrados a transpirarem. Mau aspecto, para aquilo que à comunicação social diz respeito, pois ela vive de imagens estéticas pré-construídas. Não é por acaso que, quando se vai a um canal televisivo, antes de intervir em qualquer que seja o programa, antes da sua actuação, o indivíduo é sujeito à um prévio tratamento estético, nem que seja apenas uma aplicação de uma base de maquiagem, para diminuir os brilhos no rosto.

Espanta-me a nossa falta de capacidade de inovar ou de reintegrar determinado hábito, em função da nossa cultura. Espanta-me a falta de estabelecimento de um diálogo nesse sentido, num país em que na época quente e chuvosa, chega-se aos 42-43 graus de temperatura. Nesse contexto, qual é a razão para não tornarmos esta cultura mais dinâmica e mais ajustada à saúde física e mental dos cidadãos? Qual é a razão, para não se instituírem novos costumes, questiono-me. Chega a ser um sufoco assistir a essa desnecessária tortura.

Estas duas práticas recordam-me uma outra da qual nos livramos, julgo que em função da pandemia da covid-19, que interditou ajuntamentos de pessoas.

Refiro-me a uma prática institucionalizada há uns anos, em instituições públicas. Assistia-se a uma imitação ou transferência do que é comum fazer-se em cerimónias tradicionais caseiras, como as do xitique. Nessas cerimónias, os participantes usam roupas feita do mesmo padrão de capulana (uma farda). Então, nos anos antes de sermos acometidos pelas restrições da covid-19, funcionários de instituições públicas, tinham passado a adoptar uma postura de, em determinados eventos laborais, sobretudo aqueles nos quais participasse um político de grande vulto, vestirem-se todos de roupas feitas do mesmo padrão de capulana, à semelhança dos eventos que acabei de referir. Repetidas vezes assistia-se a isso na televisão e sempre me questionei sobre a razão da transferência desse hábito caseiro, para um fórum público.

Um colega meu de trabalho aventou a hipótese de se tratar de uma transferência que advém do facto de, muito facilmente, nas instituições públicas haver o hábito de “pessoalizar” o atendimento público. Ao ponto de dar privilégios aos familiares e conhecidos do atendedor. Ou seja, levianamente, um funcionário público assume como próprios os poderes de atendimento público, a ponto de decidir como e quando atender a um cidadão, não se coibindo de dar privilégios a quem desejar. Quer dizer, o lugar que ocupa é assumido como pertença particular e não pública. Essa postura, leva a que, se tiver que solicitar o apoio de um colega para atender a um conhecido ou familiar seu, diga, sem pudores, que pede uma atenção especial, por se tratar de um familiar ou parente; pelo que o atendimento não é o mesmo que adoptaria perante qualquer outro cidadão. É nessa sequência que o meu colega afirma que com esse comportamento, pode-se facilmente transferir os modos de fazer caseiros ou de fórum doméstico, para os modos de fazer públicos, sem receio algum.

 

Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) em Maputo. Contacto: [email protected]

 

“Em questões de guerra e paz, em questões de certo e errado, nenhum país, nem mesmo a Alemanha, pode ser neutro”, declarou a Ministra das Relações Externas da Alemanha, Annalena Baerbock, em 18 de Março de 2022, em Berlim.

Três semanas após a votação na Assembleia Geral da ONU da resolução que condena a guerra de agressão russa contra a Ucrânia, o Governo moçambicano justificou a sua abstenção com uma posição “neutra” e que faz justiça a “ambas as partes”.

Vejamos primeiro o comportamento da votação na Assembleia Geral das Nações Unidas: dos cerca de 180 Estados que votaram, 141 votaram a favor, sendo que com a Rússia apenas mais quatro Estados (incluindo apenas um país em África – Eritreia) votaram contra. O resultado da votação mostra, por conseguinte, que não se trata aqui de um conflito entre o Ocidente e a Rússia, mas sim da Rússia contra a esmagadora maioria dos Estados no mundo. Moçambique, no entanto, absteve-se da votação, argumentando ter a ver com o “interesse moçambicano”.

Entretanto, até o Governo moçambicano alerta para a escassez de trigo e fertilizantes no país devido ao conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia, um dos principais produtores destes produtos. Por conseguinte, isto poderia conduzir a preços mais elevados para estes produtos e para os seus derivados.

Em 2020, Moçambique importou um total de 521,3 milhões de dólares em grãos, representando cerca de 8,1% do total das importações do país. Da Rússia, Moçambique importou 76 milhões de dólares em cereais e 9 milhões de dólares em fertilizantes (cerca de 13% do total das importações de fertilizantes). Por sua vez, a Ucrânia forneceu a Moçambique 21,7 milhões de dólares em cereais. Portanto, ao todo, cerca de 19% das importações de trigo provêm da Rússia e da Ucrânia.

Mesmo que as importações (de trigo) da Rússia e da Ucrânia no seu conjunto não sejam dramáticas para Moçambique, a crise terá um impacto: antes mesmo do conflito, a taxa de inflação dos alimentos, em Janeiro de 2022, já tinha subido para cerca de 11%, em virtude do aumento dos preços dos transportes, petróleo e fertilizantes. O agora esperado aumento de preços dos produtos alimentares continuará a impulsionar a taxa de inflação anual dos alimentos, que afecta principalmente as camadas mais pobres da população. Como resultado, uma parte muito maior do rendimento terá de ser gasta em alimentos.

Indo mais além, o aumento dos preços do petróleo continuará a pesar na já negativa balança comercial. As importações de petróleo foram a maior rubrica de importação em 2020, com 977 milhões de dólares (cerca de 15% do total das importações). Consequentemente, esta subida dos preços do petróleo vai aumentar ainda mais os custos e aumentar mais ainda o défice comercial a curto prazo, abrandando ainda mais o desenvolvimento económico e levando a uma margem de manobra financeira ainda menor para o Governo.

A guerra de agressão contra a Ucrânia, lançada pela Rússia no passado dia 24 de Fevereiro de 2022, deverá ter um impacto negativo significativo em Moçambique e noutros países africanos. Muitos países europeus – independentemente da curta ou longa duração da guerra na Ucrânia – terão de canalizar consideravelmente mais recursos financeiros para a sua segurança perante a Rússia nos próximos anos e décadas, o que, a médio prazo, poderá também conduzir à prejuízos nos orçamentos para a cooperação para o desenvolvimento, entre outros, com os países africanos.

Para além das consequências económicas, a guerra tem também implicações de segurança que vão muito além da Europa e contradiz os princípios fundamentais da integridade territorial e da soberania nacional que são centrais para a UA e Estados-Membros da UA. Tolerar o ataque russo põe em causa estes princípios do direito internacional. A nossa ordem internacional baseada em regras, protege os mais fracos do poder dos mais fortes. Devemos defendê-la para que não seja substituída por uma nova ordem em que apenas a força militar ou económica é que conta. Pois, numa ordem em que apenas o direito dos poderosos e não o poder da lei conta, todos os Estados saem a perder.

Esperamos que também em Moçambique, sejam reconhecidas as consequências negativas que a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia já provocou a nível global, e que a comunidade das nações defenda sistematicamente os princípios básicos da integridade territorial e assuma uma posição clara contra a agressão russa numa próxima votação no âmbito da ONU.

Em Budapeste, no ano de 1994, a Rússia reconheceu a independência e a integridade territorial (incluindo Dombass e a Crimeia) dentro das suas fronteiras, bem assim a completa soberania da política interna e externa em troca da renúncia da Ucrânia às armas nucleares. A Rússia espezinhou este acordo de 1994. Moscovo perdeu muita confiança, na Europa e no mundo durante muito tempo.

Quando morreu, a 30 de Junho de 1959, aos 37 anos, vítima de um cancro fulminante, Reinaldo Ferreira era, nas assertivas palavras de Eugénio Lisboa, “rigorosamente desconhecido na Metrópole” e “profundamente admirado por um número reduzido de amigos ou simples conhecidos”, em Moçambique, onde, acrescentava, “os seus poemas circulavam há muito de mão em mão, aqui e acolá publicados em jornais ou revistas, republicados, modificados, retomados, com aquela admiração e veneração sempre vivas que só as coisas realmente belas costumam motivar”.

Reinaldo Ferreira permanece, à distância de seis décadas, omisso, desconhecido, deslembrado, esquecido, não obstante a obra de grande quilate que então legatou, reunida e publicada, por um grupo de amigos, no ano ulterior ao seu óbito, sob a chancela da Imprensa Nacional e com o título “Poemas”. O Poeta projectava um livro a que daria o nome de “Um voo cego a nada”, belíssimo verso do poema “Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia”. Cito os primeiros versos: “Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia/ Que partout, everywhere, em toda a parte, / A vida égale, idêntica, the same, / É sempre um esforço inútil, / Um voo cego a nada.

Poemas” acabará por incluir 4 livros, designadamente: Livro I) “Um voo cego a nada”, Livro II) “Poemas Infernais”, Livro III) “Poemas do Natal e da Paixão de Cristo” e Livro IV) “Dispersos”. José Régio, à época uma sumidade nas letras portuguesas, dedicou-lhe um extenso estudo e uma admiração indisfarçável. O mesmo aconteceria com António José Saraiva e Óscar Lopes, autores da incontornável “História da Literatura Portuguesa”. Todos estes gabam-lhe a rara qualidade da sua poética e elevam-no, inclusive, à estatura de um Fernando Pessoa. No entanto, esta sua breve glória póstuma seria aviltada pelo tempo.

No belo e pungente “Reino Submarino” (1962), segundo livro de Rui Knopfli, que se estreara como poeta justamente no ano da morte de Reinaldo Ferreira, em 1959, com o provocatório “O País dos Outros”, cabe uma elegia ao Poeta: “O que na vida repartiu seu poema/ por alados guardanapos de papel, / o criador de sonhos logo perdidos/ na berma dos caminhos, / o mago que pressentia o segredo/ da beleza perene”.

Reinaldo Ferreira é autor de alguns dos mais belos poemas da língua portuguesa. Figura mítica da vetusta capital moçambicana, sobretudo nos cafés e dos circuitos da boémia nocturna, como haveria de testemunhar Guilherme de Melo, seu amigo e autor de um texto redigido para uma edição de “Poemas”, edição da Vega, em 1998, que sucedeu à da Imprensa Nacional de Moçambique (1960) e da Portugália, em Lisboa, em 1962, esta, por sua vez, com o texto de Eugénio Lisboa e um estudo de José Régio. A edição da Vega não inclui o texto de Lisboa, mas traz o texto do autor de “Poemas de Deus e do Diabo”.

Reinaldo Ferreira era também conhecido por ser autor de canções como “Uma casa portuguesa”, “Kanimambo”, “Piripiri” ou “Magaíça”, entre tantas outras, umas compostas originalmente e outras que resultavam de poemas seus que foram, entretanto, profusamente musicados. O Poeta dedicou-se abundantemente à arte dramática e foi responsável pelo programa “Teatro em sua casa”, do antigo Rádio Clube de Moçambique, parente distante de “Cena Aberta”, que, muitos anos depois, teria o concurso de figuras como Leite de Vasconcelos ou Né Afonso na subsequente Rádio Moçambique.

Hoje, no entanto, este imenso Poeta está “rigorosamente” esquecido. Fortuitamente citado, jamais celebrado pelos seus porvindouros, proscrito da glória que cobre tantos poetas efémeros, objecto de descaso quer em Moçambique ou mesmo em Portugal, os seus versos, quase todos aqui produzidos, permanecem no território do oblívio. Dir-se-ia que estamos perante um daqueles casos que não se sabe a que pátria literária pertence. Nasceu em Barcelona, cumpriu a adolescência no Porto para onde fora aos 4 anos e chegaria a Moçambique aos 19 anos e aqui viveria metade da sua vida, produziria a sua breve e fulgurante obra poética e dramática e aqui teria sepultura. Reinaldo Ferreira ficou, assim, prisioneiro do seu infortunado e paradoxal destino.

Breves efemérides da sua vida curtíssima em Moçambique: chega ao país em finais de 1941 e em 1942 termina o liceu. Ingressa, posteriormente, nos serviços de Administração Civil. Entre 1947 e 1949 publica, esporadicamente, poemas em páginas literárias. “Uma casa portuguesa” estreia em 1950 e torna-se um êxito de imediato. Dois anos depois, em 1952, passa a responsável da secção de teatro do antigo Rádio Clube. Em meados da década de 50 encontra-se a trabalhar nos “Poemas Infernais”. Em 1958 são-lhe detectados os primeiros sintomas da doença. No mesmo ano trabalha na colectânea “Um voo cego a nada”. Vai a Lisboa de férias e retorna a Moçambique em Janeiro de 1959. Em Março de deste infausto ano a doença agrava-se e segue para Joanesburgo em desesperada busca de cura. Em Maio já não há esperanças, regressa a Moçambique. No dia 30 de Junho desse ano morre de cancro no pulmão.

A sua campa é rasa e nela estão inscritos a bronze estes versos: “Mínimo sou, / Mas quando ao Nada empresto/ A minha elementar realidade, / O Nada é só o resto.” Descobri-a no acaso de uma romaria familiar ao Cemitério de Lhanguene e me deixei surpreender pela singela tumba. Não me sobressaltou o abandono. Os poetas costumam ter essa fortuna: o desabrigo, a solidão e a negligência do futuro.

Reinaldo Ferreira é, não obstante, um grande Poeta. Não entro na discussão da sua nacionalidade literária. Aliás, estão os seus poemas coligidos na antologia de poesia moçambicana “Nunca Mais é Sábado”. Um país que se preze reivindica-o. “Receita para fazer um herói” é o primeiro poema dessa escolha. Cito-o aqui na íntegra: “Tome-se um homem / Feito de nada, como nós, / E em tamanho natural. / Embeba-se-lhe a carne, / Lentamente, / Duma certeza aguda, irracional, / Intensa como o ódio ou como a fome. / Depois, perto do fim, / Agite-se um pendão / E toque-se um clarim. // Serve-se morto”. Belíssimo.

Maputo tem, felizmente, uma rua com seu nome, uma pequena rua cul-de-sac, que entronca na Emília Daússe, muito perto da Salvador Allende. Fui ontem procurá-la e lá estava recolhida na sua pacata obscuridade. O Poeta não está degredado da nossa toponímia. Ainda alimentei a esperança de o ver celebrado hoje nos lustros que perfazem, por estes dias, a relacção entre Moçambique e Portugal. Debalde.

Celebro-o aqui, nestas breves palavras, no dia em que passam, justamente, 100 anos sobre a data do seu nascimento, ocorrido a 20 de Março de 1922, em Barcelona. Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, de seu nome, filho do celebérrimo Repórter X, pseudónimo do conhecido jornalista Reinaldo Ferreira, de quem herdou o nome. Leio-o esta noite e sempre com assombro e não deixo de vituperar esta cultura de esquecimento que é o apanágio dos nossos dias.

 

Maputo, Domingo, 20 de Março de 2022

 

Quem já sofreu por amor desconfia da flor.

in A nossa conversa, Kelly Smith.

 

A arte literária preenche-se de vozes: meigas, atrevidas, errantes e acutilantes. Para cada uma, certo perfil, afinal, no exercício da representação narrativa, no caso ficcional, a escrita tanto pode absorver paixões e emoções da mesma maneira que gera sentidos sobre tudo isso.

A ficção é um lugar da acção onde os movimentos retilíneos uniformes podem cruzar-se com a irresponsabilidade de algumas decisões das personagens. Como escritor, eventualmente ainda à procura de reunir as ferramentas indispensáveis para a sua escrita, Negro sabe qual é força da literatura, quer na recriação de espaços, quer na afirmação de uma estética que corporifica a razão, o sonho e a desilusão. Por isso, o autor escreveu Carla – uma história de paixão e dor. É uma novela curta, 69 páginas que dizem muito sobre as relações urbanas cada vez mais precipitadas e fugazes.

O livro de estreia de Negro foi editado pela Kulera e revela um escritor audaz na exploração do universo feminino. Carla é essa personagem ‘comum’, que pode ser uma Madame Bovary, de Flaubert, ou Jocasta, de Sófocles, dependendo de quem a toma como amada. A história dela começa num lugar vulgar, um bar, à noite, onde a solidão aparente rapidamente transforma-se num mar com tonalidades rosas veementes. É a partir desse estabelecimento que Carla se apaixona, como prevê a composição “Romeu e Juliet”, dos Dire Straits, por um belo estranho e pelas promessas que ele faz. Fred é esse casanova que promete tudo na mesma intensidade com que se farta das suas promessas. É a grande razão do conflito interior das suas parceiras, Vera e Carla, e nada consegue fazer para corrigir as situações debilitantes por si causadas.

Ao construir o universo diegético, Negro leu e percebeu o contexto das histórias que são habitualmente produzidas em Moçambique. Por isso, ao invés de correr o risco de se desligar do seu contexto urbano autêntico, o escritor investiu nas malhas de uma esfera pública tensa, igualmente, pelas disputas excêntricas que desafiam o bom senso. É um estilo próprio, através do qual o escritor define a fronteira entre o amor e o ódio.

Quem souber ler o livro, vai encontrar em Carla uma personagem sem rosto ou com um rosto imperceptível, mesmo a condizer com a capa. Pouco importa… Pois, seja qual for o cenário, a protagonista da história é apresentada à laia de uma personificação exacta e exaustiva. Portanto, no plano real, Carla não é ninguém, todavia, paradoxalmente, é toda mulher vítima de escolhas incoerentes.

Erguendo a sua protagonista no amor e no ressentimento, Negro lança à ficção uma série de diálogos que endurecem um discurso sobre prováveis jogos de afecto. Num episódio dramático, tentando acalmar a namorada, Fred diz: – Deixa-me cuidar de ti. Pode ser? A resposta de Carla surge num ápice: – Como pensas em cuidar de alguém que magoas? Magoar é um verbo constate na novela. Na verdade, as mágoas funcionam para iluminar o carácter das personagens, trazendo-as, de algum modo, a essa azáfama que é o dia-a-dia das rosas. Porque, à semelhança da peça teatral de Emerson Mapanga, em Carla as rosas padecem por causa de um jardineiro com mãos de ferro.

Na sua primeira aventura em livro, Negro vai até últimas consequências com as suas personagens, concedendo ao narrador o poder da assertada manipulação dos eventos cardinais e da organização discursiva que preserva na história a lucidez necessária. Nessa disposição, o escritor não está muito preocupado com os aspectos técnicos da narrativa. O que o move, essencialmente, é o prazer de contar, porque contar é uma forma de chorar as mágoas dos outros e de aspirar por algum propósito sereno. Há-de ser por essa razão que na parte final da história, Carla, muito diferente da moral inicial, tenta ultrapassar o universo da ficção para continuar a existir no mundo dos homens, onde as balas, os revólveres, os mísseis e as armas nucleares substituem a alma das tulipas ou de tantas espécies de orquídeas capazes de brotar da terra.

Carla – uma história de paixão e dor é um passeio nocturno sobre as avenidas de Maputo, sendo essa cidade, em profundidade, a representação de várias linguagens universais. Também por isso, a protagonista da história, a sua prima Zinha, a rival Vera e Fred encerram tendências e atitudes humanas diante de certas provações. Em Carla, bem ao ritmo dilacerante de um Nicholas Sparks ou de um Ivan Turguenev, a vida é tão efémera quanto inesperada. E nela os materiais do amor, do ódio, da insanidade e da violência psicológica sugerem uma realidade que urge des(re)construir.

 

Título: Carla – uma história de paixão e dor

Autor: Negro

Editora: Kulera

Classificação: 14

O acto que agora se comete, aqui e hoje, ultrapassa, por assim dizer, o lançamento de uma obra literária. O que aqui se testemunha é uma reparação, uma indemnização, um ressarcimento, uma restituição. Subtrai-se do silêncio a voz de um Poeta. Aqueles que concorreram para esta empresa praticam, no fundo, o soldo que todos devíamos não só à memória deste Poeta, mas sobretudo à sua obra que permaneceu, nas últimas três décadas, rigorosamente esquecida, a despeito de uma ou outra brevíssima referência.

Num país que pratica o esquecimento como uma das suas artes sublimes; num país que cultiva a amnésia com espantoso método; num país alheado, ancorado na desmemória e no opróbrio do descaso a que vota a muitos dos seus melhores; num país que trata com meticulosa displicência os seus poetas, este acto tem um significado e uma simbologia muito relevantes.

José Pastor, de seu nome José António Pastor Duarte Silva, nasceu em Nampula a 29 de Julho de 1954. As efemérides mais importantes da sua vida resumem-se na nota aposta numa das badanas do livro. É quase tudo do muito pouco que se sabe desta personagem quase elusiva que passou, com um cometa, entre nós, e cuja poesia permanece ainda inacessível.

A sua morte está na origem do seu desconhecimento. Este ano passam 29 anos sobre o seu gesto extremo e há muito urgia que a sua obra visse a luz do dia. Finalmente, temo-lo de regresso ao nosso convívio.

É em meados dos anos 80 que José Pastor faz publicar poemas e contos em páginas literárias, sobretudo na “Gazeta de Artes e Letras” da vetusta e mítica revista TEMPO. Posteriormente, os seus textos irão corporizar algumas antologias de poesia e de conto dedicadas à celebração da literatura moçambicana. Furtar-me-ei ao exercício de referenciá-las aqui. Algumas delas estão descritas na breve nota biográfica do autor.

Numa entrevista, recolhida no livro “Fazedores da Alma”, de Marcelo Panguana e Jorge de Oliveira, dado à estampa em 1999, José Pastor, que proferiu as palavras que servem de título e mote ao volume, narra um episódio que está na origem da destruição da sua produção literária e que seria o acontecimento que antecederia o seu suicídio. À pergunta sobre este seu gesto extremado, o poeta responde:

 

Isso aconteceu-me quando um dia decidi: vou suicidar-me. Então preparei tudo, com um ritual dramaticamente bem preconcebido.

Foram destruídos poemas, contos, cartas e fotografias. Morreu uma parte do passado. Nasceu uma fogueira.

A memória ganhou com tudo isso. Organizado o plano, decidi dormir pela última vez. Acontece que me levantei de manhã muito bem-disposto e ri-me da ideia do dia anterior.”

 

Esta entrevista não está datada, pelo que só posso intuir que a mesma ocorreu muito antes de 26 de Agosto de 1993 quando o poeta põe termo à sua vida. Tinha 39 anos e uma vida contagiante, empolgada, arrebatada, culta, inteligente e atormentada.

O tema do suicídio que aparece nesta entrevista não era inédito. Os seus amigos sabiam-no, pelo menos os mais próximos, com alguns dos quais ele partilhava as suas angústias, marcadas a cada página neste livro, que exprime os seus tormentos e anuncia aquele epílogo trágico da sua vida.

Perguntado, na mesma entrevista, se a ideia da morte não o assustava, o poeta contrapõe:

 

Amo demasiado a vida, vivo-a com tanta liberdade e com tanto gozo, que temer a morte, algo absolutamente normal para um belo fim de percurso, seria, no mínimo, ridículo, e indigno para uma pessoa que amou a vida até à exaustão.”

 

José Pastor foi professor, encenador, activista cultural, contista e, sobretudo, poeta. Era um homem inquieto, as palavras brotavam-lhe das mãos, ocultavam o sol que ele cantava, com a espessa neblina que lhe ia no interior do seu ser, na sua alma, para usar um vocábulo que lhe era caro. Escrevia sobretudo poemas de amor. De um amor apolíneo quase sempre, deslumbrado e deslumbrante, mas num tormento indissimulado. Um amor dilacerado e dilacerante, quase sempre.

Era solar e lunar, impetuoso ou recolhido, expressivo e resguardado, assombrado e assombroso. Gostava dos seus amigos. Queria-os na sua solidão habitada. Sobretudo na Matola, à sombra das suas árvores. Amava os livros, falava abundantemente de escritores, comerciava leituras entre amigos.

Cuba era a sua segunda pátria. Era fervorosamente cubano. Fidel e a revolução tinham nele um implacável defensor. Conheci-o no regresso de Cuba e ele falava amiúde da ilha.

Publicou muito pouco e o pouco que deu a conhecer eram textos brilhantes. O poema que ele escreveu sobre o massacre em Maluana, nos anos 80, é de uma beleza virulenta, e um dos marcos da nossa lírica. “A pessoa de Josefane ficou no massacre de Maluane, mas seu corpo veio a Maputo para pôr velas”. Não me esqueço daqueles versos lancinantes.

O livro “Com a Saliva Muito ao Sul” está dividido em duas partes. A primeira, intitulada  “Respirar o Fogo” ocupa quase dois terços da obra, recolhe poemas de amor, de um amor arrebatado, incessantemente carnal, experiência de liberdade e gozo, vocábulos que ele usa na entrevista acima citada e no registo dessa fruição sensual e sensorial, quase sempre desesperada, nessa solidão imperecível, nessa busca do ser amado, nesse desencontro e nessa perda, nesse júbilo provisório e nesse esmorecimento durável, nessa alegria breve e nessa consternação prolongada, nessa euforia e nesse desalento, muitas vezes, quase sempre, em belos versos, cortantes versos, melancólicos e comovedores versos.

 

Quando no chão da nossa

intimidade sulcamos a terra.

 

Começa assim o livro “Com a Saliva Muito ao Sul” que fala desse

 

Outono que desconhecemos

 

E

 

vive de amores possíveis

 

Este livro, cito-o:

 

Tem a sua própria mitologia

a sua logica da carne, do sangue,

do sexo e da lagrima.

 

Poesia, solidão, tormento:

 

Hoje faço-me o favor

de fazer um poema atormentado

 

Arrebatamento, nostalgia:

 

Nunca mais foste tu

 

Tristeza, sempre a tristeza:

 

Hoje o dia está tão triste,

tão triste como têm sido

os últimos dias.

 

Ou:

 

Há dias em que a tristeza

me invade sem pedir licença.

 

Nessa poesia, diria o autor, “nocturna e esbatida”, onde se acrescenta: “sou triste porque lavro a minha dor”.

 

Poeta solitário por conseguinte:

 

Estou só e em casa.

 

Ou por outra:

 

Desperto sempre de madrugada

e a tristeza volta com

seu veneno.

 

Apesar do título remeter-nos para o “fogo”, esta é uma poesia lunar e não solar. É uma poesia onde se canta o abandono e a solidão, o inverno, o nevoeiro e o dilúvio, a morte, sempre a morte a rondar os versos e o Poeta:

 

Quero morrer deitado

porque sempre vive de pé.

 

Aqui está o testamento e o testemunho do “náufrago delirando na jangada” e sempre o canto do “amor possível”:

 

No teu corpo negro

lavrei o suor,

as minhas mãos rociaram

um perfume natural e afrodisíaco

e bebi da intemporalidade do teu sangue

africano por excelência.

 

Esse amor, cripticamente másculo, virilmente arrebatado, visceral e cantado em versos como estes:

 

E de repente, os músculos ficaram

tensos, as veias em relevo, os olhos

em teias de lagrimas, e teu áspero

cabelo passou pelos meus ombros.

 

Ou:

 

de guerreiro a conquista

do meu corpo

 

Ou:

 

Teu corpo tem a forca

telúrica da Terra.

 

Ou:

 

Até quando o teu regresso

ao meu corpo selvagem.

 

Ou:

 

Roçar do teu corpo possante

 

Ou mais ainda:

 

Beijos, gemidos, e todo o suor,

órgãos genitais entrechocando-se.

 

A perda sempre presente, a ausência do ser amado, a saudade e a nostalgia, a ruina desse amor cantado. Mas também o desprendimento do “amor possível”, onde o Poeta exalta o facto de

 

nunca teres deixado

que o tédio fosse a principal neblina

nas nossas vidas.

 

É dessa “respiração do fogo” do “Universo numa explosão/ de átomos dissimulados”, desses “corpos viris” e dessa “morte que agora me chama”. A morte. Sempre a morte:

 

Vou embora, amor. Só tenho

pena de ti. As asas da morte

não são tão medonhas como se dizem.

 

Há sinais muitos claros dessa morte anunciada. Não só naquela entrevista anteriormente citada, mas nos seus poemas, nos seus versos, como premonição e despedida:

 

Em breve serei a simples

cinza de um sonho

…..

Largo a vida, tudo o que fiz,

o fardo da dor e da solidão.

 

Muitos destes versos são a cartografia dessa busca do silêncio definitivo e da morte, desse desespero e do seu inevitável desenlace:

 

Falta pouco para a grande decisão,

para que haja uma explosão de noites

dentro de mim, para que sangrem as flores

que me fazem respirar, para que a seiva

que me alimenta seja a da arvore abatida.

 

Estes versos são de uma beleza veemente. São virulentos, pungentes e belos, como é aliás é apanágio da grande arte. E mesmo no fim desta primeira parte, “Respirar o Fogo”, anoto ainda estes versos:

 

Não me esqueço que sou apenas

uma titilação transparente

da grandiosidade da criação,

entre os benefícios e os custos

não reclamo glórias e alvíssaras.

 

A segunda parte – “Com a Saliva Muito ao Sul” –  é um longo e fragmentado poema e este não se exonera do seu registo lírico, mas aqui está o poeta mais onírico. Provavelmente texto mais ontológico, mais ensimesmado, mais absorto em si, mais reflexivo, mais indagador e mais perturbado e perturbante, mais sombrio e desesperado. Mas sempre o amor. O amor desesperado. E sempre a morte. A morte inexpugnável.

 

Se é um erro exteriorizar-se

a dor profunda que se sente,

é um ferro que nos fere

quando assumimos o brutal silêncio.

 

Para além do silêncio, a obsessão da morte ronda o poema:

 

Se sofro é por uma cama,

um sono descansado,

até que uma campa merecida

se rodeie de ciprestes.

 

Poema ominoso, poesia agoirenta, funesta, atingida pela “rugosidade das pedras” ou pela “fragilidade da vida”, fissurada sempre por essa “fantástica melancolia”:

 

Porque sou um rio

decidido a lançar-se ao oceano

na procura de formas de suicídio

mais marítimas.

 

Escreve este Poeta sombrio, lúgubre, soturno, taciturno, mergulhado na obscuridade das palavras, que nelas busca a “simbiose de Marte e morte” – cito-o –  e que reconhece:

 

Da minha actividade vulcânica

nasce um mar sombrio

sequioso de sequoias.

 

Nessa “procura do Norte no breu”. Recorrente este discurso do suicídio:

 

De gládio na mão,

não esquecerei um gladíolo de bolso

para o redobro da força

no possível suicídio.

 

E logo a seguir o poeta diz: “Conheço a dor da inquietação irremediável”. Os versos embora taciturnos são pungentes:

 

E quero um enérgico palpitar nas mãos e nos pulsos,

lançar naus ao sangue tropical no Inverno

e ainda: o fragor dos dedos acenando

o terno adeus final,

o mais compreendido entre os humanos.

 

Poesia “a coberto da névoa densa”, como escreve o Poeta. Poemas de amor e de desespero, como o disse e repito. Nos quais cabem ainda estes versos que parecem um apelo: “e nos teus fortes braços sinto-me seguro.” No entanto, acrescentará a seguir: “Amor, na Terra somos amantes a abater!

Parece a expressão de uma renúncia, de uma resignação, de uma cedência. Por isso mesmo diz adiante: “Não nos desviemos definitivamente/ das rotas do sábio silêncio”.

Este poema, este longo e sensual poema, é também por isso um poema desse amor visceral, impossível direi eu, inscrito num mapa de melancolias imprescritíveis:

 

Teu corpo dócil à nudez

no estio calmoso do trabalho da erecção.

 

Versos atravessados por esse amor viril, másculo, vigoroso:

 

Dá-me do teu beijo fatigado,

e dos destroços da espuma

provocados pela ancoragem.

 

Poesia que não recusa o desalento, a angústia, a descrença, o desânimo. Longo poema atormentado, que fala de uma prostração, que não esconde a derrota, que ancora na desesperança, no esmorecimento e na tristeza. Essa mágoa e esse padecimento estão assombrosamente inscritos nos últimos versos:

 

Quero atravessar o deserto,

o desastre.

 

Proclama o Poeta no seu desconsolo final. À beira do seu infortúnio, perante uma dor irremissível.

 

Negrejo, e esta é a remendagem da alma.

Vejo-me espelhado num múrmuro

abismo ignorado.

 

Assim termina o livro, este livro belo quanto dilacerado, tão profundamente consternado, tão atravessado pelo desconsolo, pela dor, pela angústia, tão condoído, provavelmente sem indulgência, tal foi o destino do Poeta que seguiu os sinais aqui cartografados e se matou, talvez buscando na morte essa redenção, essa expiação, essa absolvição.

Este é um livro tremendo de um Poeta espantoso, de uma alma formidável, de um homem surpreendentemente excepcional, de uma ânsia de viver esplêndida, o que poderá parecer paradoxal, de uma vida breve e portentosa.

Causou-me alguma estranheza que este livro não tivesse um prefácio que nos elucidasse sobre o Poeta e o seu destino. Um prefácio que nos esclarecesse não só sobre a trajectória biográfica e literária do autor, mas também traçasse os critérios de escolha e de fixação dos textos e justificasse a organização da obra. Seria uma obrigação indeclinável. Também seria importante percebermos a extensão do espólio e a razão pela qual não estão incluídos textos publicados pelo autor em vida. Isto no que se refere à sua produção poética.

Contudo, aqui estão os poemas, neste belo, dolorido e lúbrico titulo “Com a Saliva Muito ao Sul”,  aqui está o Poeta, assombrado e assombroso, no seu desencanto e no seu desespero, no seu júbilo pelo amor visceral que viveu, na sua atração pelo abismo e pela morte, nesta cartografia de um suicídio anunciado em sinais premonitórios, neste rosto elusivo e arisco por vezes, desenhado nestes versos com a subtileza e a elegância que fazem dele uma voz exemplar na literatura moçambicana e que aqui se cumpre celebrar, neste acto de reparação, depois de décadas  em que ele esteve proscrito no silêncio e no esquecimento.

 

 

Maputo, 10 de Março de 2022

A insensibilidade perante a dor do povo é preocupante neste país. Há mais de 45 anos que sonhamos com boas condições nos serviços de saúde, mas as tímidas melhorias continuam a passos lentos, e a aparente evolução, até com os olhos fitos à lupa, custa identificar. Somam-se dias piores que culminam com luto nas famílias e nada de resposta.

Esta semana, assistimos à reedição do sofrimento dos doentes em Nampula. Doentes apinhados em enfermarias, deitados nas sobras do chão, a mendigar atendimento: é o cúmulo da esperança sepultada! Indigência vulgarizada na maior unidade sanitária da província mais populosa do país, sob o olhar impávido dos nossos “subordinados”, aqueles que elegemos para nos governarem, mas deram-nos o falso estatuto de “patrão”.

Um sofrimento também vivido pelos profissionais de saúde, que, por serem fiéis ao juramento hipocrático, além dos contornos ao labirinto humano, se agacham vezes sem conta, entre um e outro doente, para prestar-lhe assistência possível, nas deploráveis condições existentes. Por melhor que seja a intenção de prover assistência, com infra-estruturas saturadíssimas, o trabalho leva à exaustão desta classe, e pouco se ganha em matéria de qualidade de serviço. Quem se importa com os profissionais de saúde?

Afinal, por que o comboio do progresso só anda em retaguarda no país? Por que nos tornamos invisíveis ou simplesmente fantasmas a sucumbir na indiferença do grito de socorro? Quando me lembro da frase: O NOSSO MAIOR VALOR É A VIDA, pergunto-me se quem escolheu este slogan sabe o que significa VIDA, por ser o único elemento estranho nesta oração.

Por onde anda o ministro Armindo Tiago, que, desde que assumiu a pasta da Saúde, nos habituou a frontalidade. Pedimos frontalidade no esclarecimento e resolução deste caos. A falência dos serviços de saúde públicos é uma realidade de bárbara branca, hoje evidenciada em Nampula, mas pode ser flagrada em muitas unidades sanitárias em todo o país. A normalidade dos péssimos serviços de saúde deve encontrar um ponto final em respostas criativas e eficazes.

Se a saúde pública elegesse políticos, teríamos, com certeza, prioridade. Nem os ilustres deputados nos representam nessa matéria. O silêncio desta classe deve-se ao facto de não sentirem na pele o que o povo sente. Passar o dia à procura de um diagnóstico que não chega e, no fim, receber uma receita com apenas analgésicos como paliativos, dirigir-se à farmácia e por vezes nem estes medicamentos encontrar, é doloroso. É a morte precipitada pela incompetência. Devolva-se dignidade aos doentes!

Os 4Gs que aqui são discutidos são resultado de uma hermenêutica elaborada para tentar trazer a correlação entre factores que concorrem para o actual estágio do nosso país.

O primeiro “G” aqui trazido é referente a Governação. Governação esta que tem sido marcada por altos e baixos; por momentos de algum êxtase e também de alguma baixa efervescência e fulgor.

Numa análise transversal dos ciclos governativos vividos desde a instituição do multipartidarismo no país, os modelos de governação adoptados tem pautado por uma centralidade gritante, falta de continuidade e por vezes até falta de clareza do que se pretende. A ideia de governação e a prática da mesma tem sido a raiz de muitos dos nossos problemas que vão se replicando em cadeia.

Durante o período da guerra dos 16 anos, o país enfrentou períodos de grande instabilidade, sabotagem e de incertezas. Todavia com maior ou menor dificuldade conseguiu superar e avançar. Fomos mais país porque perseguíamos os mesmos objectivos (pelo menos aparentemente) e acreditávamos que os discursos iam de encontro com a realidade que tanto almejávamos.
De forma pragmática oferece-me dizer que a nossa governação é de mais um manancial de intenções e de campanhas, mas presa em camisas de força e interesses que atentam a solidificação e materialização dos verdadeiros desígnios governativos.

Entre a intenção, o plano e a acção há um quase vazio operacional. Este quase vazio esbarra com os esforços de erguer um país alicerçado no Estado de Direito, na ideia de progresso, de participação e integração de actores de diferentes esferas.

O período que se seguiu as primeiras eleições gerais e multipartidárias foi de elevada expectativa; de aparente abertura e tolerância política e também de grande desconfiança sobre os actores e partidos políticos emergentes. Vou chamá-lo de período incipiente da governação. Período onde tivemos um país que experimentou pela primeira vez ideia de um modelo democrático (ainda que mal cozinhado) e a reunião de vários partidos políticos diferentes (uns com muita expressão ideológica e outros nem por isso), movidos pelo trust fund criado para apoiar os emergentes e pelo sonho de fazer parte do tacho governativo.

Neste período que apelido de incipiente, tivemos uma oposição política da mais diversificada, com a confluência de inúmeros partidos e actores políticos, embora com ideias menos elaboradas e algum sensacionalismo a mistura. Tivemos mais discussão e algum progresso no campo das liberdades de expressão e respeito pelos direitos humanos. Acreditávamos que as bases para um futuro melhor e mais inclusivo estavam lançadas.

Segue-se o período em que vou denominar de período áureo da governação em Moçambique – com a ideia de praxis e pragma governativa viva e muito interventiva. Este período começa com uma aparente ruptura com o anterior (pelo menos no aspecto discursivo e na abordagem). O discurso do dia passa por uma discursiva aglutinadora, empreendedora e de ódio pela pobreza. Sob a guisa da luta contra a pobreza absoluta, o país conheceu um volume de incentivo ao investimento interno e externo; de realizações e de criação das bases para uma classe média aparentemente capaz.

Mas como as histórias de amor nem sempre tem um final feliz, o que tinha tudo para ser digno de júbilo e apologia, terminou num pesado fardo para o povo moçambicano – as dívidas ocultas. Um fardo de difícil digestão e de uma complexidade inexorável.

O terceiro momento governativo pós instauração da democracia multipartidária, inaugura-se com uma -vibrante e apoteótica mensagem de confiança – “Eu confio em ti” – e, – “É contigo que dá certo”.
Um momento em que o fardo herdado do período áureo cria uma tremenda descrença em relação a continuidade e prosperidade, pois as dívidas ocultas, o abandono dos principais doadores ao OGE, a continuidade da crise económica e social, sem contar com os eventos climáticos severos, dilaceraram o tecido social, económico e humano do país. As liberdades individuais e o livre associativismo sofrem um revés, e o espaço cívico não é mais um espaço de encontro de ideias e de discussão livre.

É um momento em que a governação rima com o gás – que é o próximo G do nosso enredo.

O segundo “G” do nosso enredo é o Gás – baptizado por uns, inicialmente como autêntica bênção e olhado por outros como uma maldição. As enormes reservas de gás descobertas na Bacia do Rovuma, mudaram a geografia política e a economia política dos recursos minerais na região, no continente e no mundo. Em termos práticos o gás surge como o elemento que pode ou que poderia transformar o país numa réplica do modelo de crescimento do Dubai – uma espécie de um Emirado Árabe na zona Austral do continente. Acreditou-se que o gás poderia ser o messias e mudar a nossa já penosa realidade marcada por muita pobreza, desenvolvimento lento, fome e doenças.

Alguma literatura desenvolveu a teoria de maldição de recursos (resource curse), onde se defende a ideia de que países com ocorrência de consideráveis reservas de recursos minerais, tendem a experimentar instabilidade política, desenvolver o efeito gastador e conhecer possíveis focos isolados ou localizados de guerras e conflitos militares. Verdade ou não, o país debate-se desde 2017 com a insurgência e o conflito extremista na província nortenha de Cabo Delgado – por sinal a província que aloja as maiores quantidades de hidrocarbonetos do país. De simples casos de polícia como foram chamados na altura, a conflitos religioso, os conflitos evoluíram ao ponto de Distritos inteiros serem capturados e sitiados pelos terroristas que nunca reivindicaram nada palpável. O terrorismo periga não apenas a província de Cabo Delgado, mas também o país como um todo e a região Austral pois pela complexidade pujança demonstrada ele não respeita fronteiras.

O terceiro “G” aqui apresentado é a Guerra. Ainda que muitos preferem ignorar que estamos em estado de guerra, quando o número de mortes e de deslocados ascende o milhar ou milhares, há que encarar o conflito com outros olhos. E infelizmente, o que se vive em Cabo Delgado é uma guerra que desafia muitas lentes e muitos livros, mas mata, fere e deixa um rasto de destruição tremendo.

Por coincidência ou não o foco escolhido para se derramar o sangue de inocentes foi a província que hospeda um dos maiores se não o maior projecto de exploração de gás offshore do continente africano e do mundo – Cabo Delgado. Uma odisseia que dura quase a cinco anos e que já custou a vida a milhares de moçambicanos e vitimou outras dezenas e centenas de milhares de moçambicanos, incluindo crianças, mulheres, raparigas e idosos. Uma guerra horrível de desmembrou famílias e destroçou a unidade e cooperativismo característico da nossa sociedade. A guerra criou novas fronteiras físicas e mentais; destruiu famílias inteiras e criou mais crianças soldado para alimentar a sede fundamentalista e radical dos insurgentes.

Este conflito adia não apenas o crescimento económico e desenvolvimento do país que figura entre os mais pobres do mundo com índice de desenvolvimento humano baixíssimo e um PIB per capita aquém da média regional, continental e mundial. Mas adia o sonho de sermos mais país, mais nação e mais humanidade.

A guerra é o que nenhum moçambicano nacionalista cogitou para o país, mas parece ser a saída que os donos do mundo viram para empobrecer ainda mais um país pobre e uma oportunidade que os senhores da guerra viram para manter sua hegemonia e poderio sobre os mais desfavorecidos. A guerra é um dos “G” mais complicado e doloroso de abordar. É assunto sensível e delicado – Na verdade é até proibido falar dele para leigos como eu – ainda assim falei. E como leigo afirmo que esta guerra é apenas um lado de uma moeda sem valência para os moçambicanos, mas com grande valor e dividendos para várias contrapartes.

O quarto “G” – o Género é dos mais falados contemporaneamente e igualmente menos percebido e as vezes combatido pelos mais incautos. Urge repensar a narrativa sobre o género e falar dele não como teoria apenas, mas, como parte integrante e integral das relações sociais homem-mulher; respeitá-lo e aplicá-lo na prática.

Os discursos em torno do género são recentes em Moçambique e uma breve retrospectiva pode situar-nos nos finais dos anos 80. Porém antes dos anos 80 já se falava de forma tímida de movimentos de mulheres na política, na academia e nas organizações sociais. Expressões como “Isto é uma questão de Género!” “O Género dentro do trabalho…” “O Género e a Política…” “A construção de Género… entre outras, foram ganhando espaço nos discursos e agendas.

Ao tentar fazer este rasgo retrospectivo concluímos que os últimos 20 anos foram de lançamento e da socialização do debate sobre o género e de uma construção identitária do mesmo. Era preocupação inicial clarificar a dicotomia movimento de mulheres e movimento feminista para de seguida lutar pela inclusão do género na vida quotidiana, seja ela doméstica como institucional e desconstruir as narrativas sociais existentes. (…) Visualiza-se a mulher, com esta perspectiva, dentro dos movimentos gerais, tentando apontar para a ocupação de um segmento importante e, qualitativamente, numeroso no âmbito do Macro-social, ou seja. ‘Mulher: Participação e Representação Política’, podendo ser este o slogan deste período” (Bandeira e Oliveira, 1990, p.5).

Contemporaneamente, conseguida a sedimentação e aceitação por uma franja social e política, é chegada a hora de incluir o género na vivência social desconstruindo a base teórica que sobre ele fomos educados e ensinados a pensar. Não advogo isto por simples quesito de números ou de imposição mas por reconhecimento e valorização desta luta de décadas e por uma justiça social que respeite a diversidade e de valor as conquistas alcançadas da independência aos nossos dias.

Para terminar, o extra “G” é de gratidão por ainda poder escrever livremente e ver meus desvaneios publicados e lidos na minha pátria amada.

Albino Magaia nasceu há, precisamente, 75 anos. Foi jornalista, um dos nomes estelares do nosso jornalismo. Quis ser médico. Era o seu sonho. A mãe sonhava para o filho a vida de pastor da Igreja Presbiteriana. No entanto, ele queria ter direito à palavra. Foi esse impulso que o levou ao jornalismo. Chegaria à redacção da revista TEMPO, semanário que haveria de dirigir muitos anos depois, pela mão da sua irmã Lina, que também foi um nome ínclito na nossa imprensa. Pertenceu ao NESAM, que foi um núcleo de estudante historicamente relevante e foi prisioneiro político no tempo da PIDE.

Magaia assumiu, desde sempre, um compromisso: ser patriota. O seu espírito crítico não lhe tolhia esse entendimento. Defendeu um jornalismo patriota onde Moçambique adquiria primazia. Antes de tudo estava a Pátria. A Nação. Isso não impediu que a revolução praticasse sobre ele a sua furiosa insídia. Sobretudo no Niassa, que era uma espécie de Gulag moçambicano. Ele resistiu. Continuou a escrever e fê-lo sem acrimónia. O nosso processo ainda tem páginas que permanecem obscuras. Uma delas foi a purga dos intelectuais assumidamente engajados.

Foi poeta e ficcionista. Foi um cronista brilhante e um interventor assíduo na nossa imprensa. As suas crónicas são memoráveis. Os seus textos na revista TEMPO são exemplares. Publicou duas obras de poesia: “Assim no Tempo Derrubado”, em 1982, e, muitos anos depois, em 1999, “Trilogia do Amor”. De permeio, duas ficções narrativas: “Yô Mabalane” (1983) e “Malungate” (1987).

Pensou e escreveu sobre a informação moçambicana. “Informação em Moçambique –  Força da Palavra”, um ensaio editado em 1994. Postumamente, seria publicado o seu livro “Moçambique: raízes, identidade, unidade nacional”. Recentemente, num tributo da Fundação Fernando Leite Couto, foi dada à estampa “Duas Vidas a procura do mar e outros contos” (2019).

Magaia era um homem preocupado com o destino da informação e a sua função transversal e indispensável no devir moçambicano. Também via na memória um papel indeclinável no nosso destino colectivo e procurava preservar os seus referenciais. Sonhou biografar o escultor Chissano, mas este morreu cedo. Porfiou, posteriormente, a ideia de fazer a biografia do músico Eusébio João Tamele.

Albino Magaia era um conhecedor bastante competente da música moçambicana. Mas era também um cultor do jazz e da música clássica. Aliás, ele escrevia a ouvir Händel, Georg Friedrich Händel. Essa paixão levou-o a fechar-se em casa durante cinco horas para ouvir “O Messias”, o tempo que dura a famosa composição do músico germano-britânico. Um grande melómano este moçambicano magnânimo.

Tinha uma particular preocupação no estudo e valorização das línguas moçambicanas. Foi editor de “Zabela”, uma das primeiras obras de ficção de Bento Sitoe. Quis editar os textos de João Albasini, o fundador de “O Africano” e “O Brado Africano”. Incumbiu ao jovem Catigo Zita a tarefa de coligir os textos. Diligente, minucioso, Castigo recolheu os textos, copio-os dos jornais no Arquivo Histórico ou das microfilmagens do centro cultural português. O projectado livro emperrou na fase de composição (à época feita à chumbo) na Tempográfica.

Castigo Zita, que haveria de encontrar o infortúnio da morte, numa viagem ao Zimbabwe, em 1988, aos 27 anos, preparava-se para fazer o mesmo exercício com os textos de Estácio Dias, outra figura do nosso jornalismo, pai do escritor João Dias, autor de “Godido e outros contos”. O repto vinha do mesmo incumbente: Albino Magaia.

Devemos ainda a Albino Magaia a revelação de Isaac Zita, que morreu prematuramente aos 22 anos, autor de “Os Molwenes”. Antes dele, o poeta Fernando Couto se entusiasmara com o talentoso jovem, tendo-o publicado nas páginas do “Notícias”. A despeito, o prefácio que Magaia haveria de redigir para o livro póstumo de Isaac Zita é um dos raros documentos sobre a vida efémera e fulgurante daquele jovem escritor.

Haveria muito a dizer a favor de Albino Magaia. Sobretudo da forma como acarinhou os jovens e os encaminhou nos labirintos do jornalismo e da escrita. Como os amparou. Ou as suas iniciativas notáveis. A GAZETA da TEMPO, um dos esteios da literatura moçambicano, é uma delas. Mais tarde, enquanto secretario geral da AEMO, a publicação LUA NOVA, titulo que acena ao poema “Quenguelequêze” do precursor Rui de Noronha.

Isto diz muito da personalidade de Albino Magaia. Era generoso. Homem culto, cultíssimo. Discreteava sobre muitas e diversas matérias. Gostava de ouvir os outros. Mesmo os mais novos. Era um excelente conversador. Não se furtava a uma boa polémica, discutia ideias. Estava sempre do lado da justiça. Defendia os seus jornalistas. Era um director exemplar, preocupado e empenhado. Sabia criticar e apontar os erros dos seus profissionais. Elogiava quando gostava das peças dos seus repórteres ou redactores. Foi dos grandes editores deste país. Abominava a injustiça. Era de uma grande correcção. Um homem probo. Um homem cordial. Não tinha soberba. Era humilde. Um homem bom.

Albino Fragoso Francisco Magaia nascera a 27 de Fevereiro de 1947. Morreu a 26 de Março de 2010 aos 63 anos. Para além da sua extensa obra na imprensa, dos seus livros, deixou a sua marca, a sua postura, o seu largo riso (tinha os zigomas pronunciados e os olhos vivíssimos que lhe ampliavam o sorriso), o seu afecto e o seu exemplo. Como vivemos num país que não preza a memória e não cultiva os seus mestres praticamos sobre o seu nome um prodigalizado silêncio, o mesmo desafecto que destinamos aos melhores. Cá por mim – e faço quezília nisso –  lembro-o, aqui e sempre. Como hoje, no dia dos seus 75 anos.

 

Maputo, Domingo, 27 de Fevereiro.

 

 

A vovó Zita vive num dos bairros suburbanos da cidade de Maputo. É uma viúva de 60 anos. A idosa vive com os seus dois netinhos, o Carlitos e o Paulo, gémeos com apenas 10 anos de idade. Os meninos perderam os seus pais ainda bebés.

Após a morte misteriosa dos pais dos meninos, a vovó Zita começou um negócio. Abriu uma banquinha no quintal da sua casa para garantir sustento aos seus netos. O negócio não estava a ser fácil. O coronavírus tornou o negócio insustentável. O custo de vida dispara assustadoramente a cada ano. Está tudo difícil para a velha Zita.

O dia nasceu debaixo de um calor intenso na cidade de Maputo. A vovó Zita levou o televisor para o quintal da sua casa. Queria assistir a repetição da telenovela enquanto controlava a sua banquinha. Vê as horas no relógio pendurado na parede. São pontualmente 12 horas.

Pega no remote e liga o televisor. É surpreendida por uma tremenda chuva. Nenhum canal saía se não a chuva cinzenta. Tentou arranjar a antena, não resultou. Tirou a antena e voltou a colocar. De novo, não surtiu nenhum efeito. Ficou totalmente confusa e sem compreender o que estava a acontecer. Estava tudo estranho.

– O que poderá estar a acontecer? – Questionou-se a vovó Zita mergulhada num total desespero. – Isto não é normal. Estou aqui a bom tempo a tentar arranjar a antena, mas não está a resultar. Será que os meus netinhos, que têm tido o hábito de ficar todas madrugadas a verem a televisão, terão estragado o televisor? – Questionou-se sem encontrar alguma resposta. – Isto só pode ter a mão dos meus netinhos. Bato muito neles, mas não ouvem. Estão sempre a estragar. – Acrescentou.

A vovó Zita chamou os seus dois netos. Os meninos vieram numa corrida.

– Vovó, estamos aqui. Porque é que nos chamou? – Questionaram os meninos bem ansiosos.

– O que é que vocês fizeram com o televisor? Um de vocês estragou o televisor. Já não sai nada se não a chuva. Sempre vos digo para não ficarem até às madrugadas a verem a televisão e muito menos a disputarem o remote controle, mas vocês não ouvem. – Acusou-os. – Agora estou sem dinheiro para mandar reparar o televisor. Onde vou apanhar dinheiro? – Questionou-os.

Os meninos ficaram surpresos com aquelas acusações graves da velha Zita. O silêncio tomou conta do Carlitos e Paulo por alguns segundos. Pelo silêncio dos meninos, a vovó Zita concluiu que foram eles que estragaram o televisor. A velha fixou o seu olhar acusador nos meninos que viram-se obrigados a quebrar o silêncio.

– Vovó Zita, não foi eu quem estragou o televisor. – Respondeu Carlitos distanciando-se da acusação. – Quando fui dormir o televisor estava a funcionar. – Acrescentou.

– Então foi você Paulo. – Acusou-o a vovó Zita.

– Não, vovó. Não fui eu quem estragou o televisor. Ontem a noite não cheguei de assistir. Era a vez do Carlitos. – Desmentiu Paulo a acusação da vovó Zita.

– Eu já sabia que não iam assumir o vosso erro. Vocês nunca assumem quando estragam algo. Vamos ter que morrer de fome para que eu possa juntar dinheiro para mandar reparar o televisor. Se eu conseguir mandar arranjar, aquelas vossas brigas pelo remote não quero ver mais e muito menos quero vos ver nas madrugadas a verem a televisão. – Sentenciou ela.

A idosa trancou a porta. Pegou no seu chinelo e começou a bater neles. Os meninos choraram até ficarem com as vozes roucas. As chineladas duraram dez minutos. A velha ficou triste ao saber que não teria como ver os programas que mais gosta. Sem perder mais tempo, dirigiu-se à casa da sua vizinha para desabafar.

– Vizinha, não sabes da máxima que aconteceu lá em casa. – Disse a vovó Zita.

– Yu! Assim a vizinha está a me assustar e me deixa mais curiosa. Vai, diga logo o que aconteceu. Não aguento mais esperar. – Respondeu a vizinha Artimiza, que estava ansiosa para saber da nova.

– Os meus netinhos estragaram o meu televisor. Agora somente assistimos uma chuva que não pára de cair. Vou ter que passar a vir à sua casa todos os dias para assistir a alguns programas que adoro. Pode ser? – Questionou a vovó Zita.

– Yu! Que coincidência, vizinha. Também só estamos a assistir à chuva desde o início da tarde de hoje. Talvez esta chuva seja geral. – Disse a vizinha Artimiza.

A vovó Zita ficou surpresa ao saber que não era a única que estava a passar pelo mesmo problema. As duas velhas ficaram sem saber o que teria acontecido.

– Não acredito que isto também esteja a acontecer na sua casa. Mas vizinha, porque é que não vamos à casa da vizinha Celeste para vermos se é um problema geral ou não? – Sugeriu a velha Zita.

– É verdade vizinha. Vamos. – Concordou a velha Artimiza.

As duas velhas dirigiam-se à casa da vizinha Celeste, numa lentidão de passos forçados pela idade que já estava bem avançada. A porta de casa da velha Celeste estava aberta. De longe, as duas idosas ficaram surpresas ao verem que a televisão estava ligada e, lá não se assistia chuva como nas suas casas.

– Vizinha, bem que eu te disse que os meus netos é que estragaram o meu televisor. Veja em casa da Celeste, estão a assistir. Eles são mestres em estragar tudo em casa e depois desmentem quando são perguntados. – Gritou a vovó Zita.

– Mas vizinha, como é que se justifica que o mesmo aconteça também na minha casa? Olha que eu não tenho filhos que os possa culpar de terem estragado o televisor. Ontem deixei-o a funcionar devidamente. – Ripostou a vovó Artimiza.

A discussão entre as duas idosas ficava cada vez mais tensa. A velha Celeste, que se encontrava no interior da sua residência, ouviu-as atentamente do lado de fora. Saiu da casa. Foi ter com elas.

– Boa tarde, minhas vizinhas. Em que posso ajudar? – Questionou-as a velhota Celeste.

– Vizinha, é que nas nossas casas apenas estamos a assistir chuva ou apenas um azul. Agora vínhamos certificar se a chuva é geral ou não. Pelo que estamos a ver, só acontece em nossas casas, pois aqui na sua casa estão assistir. – Respondeu a vovó Artimiza.

– Pelos vistos vocês não sabem. Não andam informadas. Apenas usam a televisão para ver novelas. – Disse a vovó Celeste, que andava bem informada.

As duas idosas ficaram surpresas com aqueles pronunciamentos. Não percebiam o que a velha Celeste tentava dizer.

– O que é que você sabe e que nós não sabemos? – Questionou a vovó Zita.

– Deixem-me explicar. O país está num processo de transição do sistema analógico de televisão para o digital… – Explicou a vovó Celeste quando, de repente, foi interrompida de forma brusca.

– O que é essa coisa de transição do sistema analógico? Será que tem a ver com a chuva que está a sair nos nossos televisores? – Questionou a idosa Zita.

– É isso que eu estava a vos explicar quando me interrompeu. – Respondeu a vovó Celeste. – Continuando, isto significa que só assistirá a televisão quem tiver algum descodificador… – Interromperam-na mais uma vez.

– Vizinha, o que é essa coisa de descodificador? – Perguntou a vovó Artimiza, que estava a ficar cada vez mais confusa no lugar de estar esclarecida.

– Descodificadores são os aparelhos de diversos provedores que podem ser da ZAP, GO TV, TMT, STARTIMES, ou TV CABO, que vão nos permitir assistir a televisão a partir de agora. Na verdade isto já devia ter acontecido há cinco anos, todavia o nosso país atrasou. Quanto à chuva que sai nos vossos televisores é devido ao apagão do sinal analógico que começou hoje. A partir de hoje só assiste televisão quem tiver um descodificador. Há muito que o Conselho de Ministros vinha avisando sobre o apagão. Estão a ver aquela antena parabólica ali em cima da casa? – Questionou-lhes a vovó Celeste enquanto apontava para a antena.

– Sim, estamos a ver. Já agora, é essa tal coisa que se chama descodificador? – Questionou-a velha Artimiza.

– Aquilo é a antena de um descodificador. Aquela é da Go Tv. Eis a razão de eu estar a assistir aqui em casa. Mensalmente paga-se um certo valor que vai de acordo com os canais que o telespectador quer. – Explicou-lhes detalhadamente.

– Esse nosso governo não gosta de ver o seu povo feliz. Nunca pensa em nós os pobres. Onde é que havemos de conseguir o tal dinheiro para comprar essas coisas de descodificador? O negócio já não está a render muito com esta maldita pandemia que assola o país e o mundo. Esses nossos governantes querem que nós, os pobres, fiquemos sem assistir. Infelizmente é um adeus a televisão para nós. Agora, no nosso país ver televisão é apenas para os ricos. Nós estávamos bem antes disto tudo. Essa coisa de digital só trouxe exclusão digital para nós os pobres. – Desabafou a vovó Zita.

– Não é bem assim vizinha. Os que não têm dinheiro vão ter que fazer sacrifício para conseguir comprar um descodificador da TMT. Com este descodificador a pessoa pode não efectuar pagamentos mensais e apenas poderá assistir canais nacionais.

O dia já estava a anoitecer. As velhas Zita e Artimiza agradeceram a vizinha Celeste pelo esclarecimento. As duas despediram-se e regressaram às suas casas. Pelo caminho pensavam em como fazer para conseguir o valor para aquisição do dispositivo.

– Vizinha, tive uma ideia que pode nos ajudar a conseguir dinheiro para a compra dos descodificadores. – Disse a idosa Artimiza, bem animada.

– Que ideia é essa que vai nos ajudar a conseguir comprar os descodificadores? – Questionou a velha Zita. – Diga logo, pois eu já estou ansiosa para saber. Eu já tinha metido na minha cabeça que nunca mais iria ver televisão aqui na minha casa por falta de dinheiro. Por favor, diga logo. – Implorou a vovó Zita.

– A ideia é fazermos xitiki diário ou semanal e compramos um de cada vez. Nós fazemos negócios. Penso que se formos a poupar vai dar para adquirirmos. Com xitike pode ser mais rápido. Que tal a ideia, é boa? – Questionou-a.

– Sim, é boa. Podemos fazer. – Respondeu.

Minutos depois, a vovó Zita já estava em casa. Chamou os seus dois netinhos. Deram uma sentada na sala. Os meninos começaram a tremer e a ter medo. Questionavam-se sobre o que teriam aprontado desta vez e não conseguiam descobrir algo que teriam aprontado. Não viam motivos para serem chamados daquela forma.

– Já estamos aqui, vovó. Porque é que nos chamou dessa forma? O que é que aprontamos desta vez? – Questionou Carlitos.

– Meus netos, chamei-vos porque quero vos pedir desculpas. – Disse a vovó Zita, com o semblante triste.

– Desculpas? Será que ouvi bem? A vovó quer nos pedir desculpas? Desde quando a vovó pede-nos desculpas? Está muito estranho… Não devíamos ser nós a pedirmos desculpas por termos aprontado algo? – Perguntou o menino Paulo.

– É que joguei toda culpa em vocês de terem estragado o televisor de casa. Na verdade vocês não estragaram nada. O problema é geral. Fomos conferir em casa dos vizinhos… – Explicava a vovó Zita quando o Carlitos a interrompeu.

– Está a ver vovó, sempre anda a nos culpar de ter feito coisas antes de confirmar. Eu disse que não estraguei o televisor… já agora, o que é que aconteceu? – Questionou-a Carlitos.

– Dizem que é um apagão do sistema de televisão analógica… – Respondeu a velha Zita.

– Vovó, o que é isso de apagão? Quer dizer que desligaram os nossos televisores? – Questionou o menino Paulo.

– A partir de agora só vê televisão quem tiver um descodificador … Paga-se mensalmente. Temos que comprar os descodificadores. Infelizmente os dirigentes do nosso país não querem nos ver felizes. Onde é que vamos conseguir tanto dinheiro para essas coisas? Estamos entregues à sorte, meus netos. – Disse a vovó Zita em jeito de desabafo. – É por isso que vos peço desculpas. – Acrescentou.

As idosas apenas trabalham para comer. Dificilmente pensam em caprichos. As duas famílias ficaram dois meses sem ver televisão. A situação criou-lhes ódio para com os governantes.

Finalmente o dinheiro de xitiki tornou-se suficiente para se adquirir o descodificador da TMT para a primeira família. Dirigiram-se aos revendedores. Os locais andavam superlotados. Em noutros sítios os descodificadores começavam a escassear. A procura era maior. Foi necessário uma semana para que conseguissem adquirir o descodificador. Passado um mês, as idosas adquiriram o segundo descodificador. Porém não tinha sinal.

Centenas de munícipes amotinaram-se defronte da instituição que lidera o processo de migração digital no país. A agenda era única: reclamações por alguns descodificadores não transmitem sinal. Mais uma dor de cabeça instalou-se no seio da população. O director respondeu a preocupação dos munícipes. O erro de fabrico é o problema apontado pelo director. Trocou-se os descodificadores e os munícipes regressaram às suas casas. Já estava tudo controlado.

Num belo Domingo, a cidade foi assaltada pelo vento forte e chuva torrencial. O sinal da televisão apresentava falhas.

– Mil vezes se tivéssemos permanecido no tempo analógico. Não tínhamos todas essas dores de cabeça que estamos a ter hoje com esta coisa de digital. – Comentavam as idosas.

O sistema de televisão digital no qual o país está mergulhado empurrou centenas de famílias, as de baixa renda, para a dita exclusão digital. Há famílias que não sabem quando é que voltarão a ver televisão nas suas casas.

Enoque Daniel

Contador de histórias

[email protected]

“Há os que vivem nas trevas e os que vivem na luz.

É fácil ver os da luz, mas ninguém vê os das trevas.”

Bertolt Brecht

Convidado a dar o meu contributo no XVIII Curso de Literatura de Língua Portuguesa, fui ao escrínio onde estão guardados os tesouros da história da literatura moçambicana, de pouca idade, embora, mas significativa para a marcha da nossa história geral. Muita coisa lá encontrei, o que me deu, naturalmente oportunidade de opção em relação à minha tentativa de abordagem do tema proposto para este curso: <<A Pluralidade das Escritas: os Imaginários e os Discursos em Língua Portuguesa>>. Perguntei-me se não estaríamos a incorrer numa barbaridade, obliterando das nossas considerações académicas, algumas vozes que deram o corpo ao manifesto na nossa gesta literária, ao longo das distintas épocas por que passaram e contribuíram significativamente, com as suas criações para os Imaginários e os Discursos em Língua Portuguesa e para o seu desenvolvimento, no âmbito da Pluralidade das Escritas, tendo em linha de conta que esta língua é um veículo comunicacional de cerca de 300 milhões de falantes em todo o mundo (oito países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste e comunidades esparsas pelos diversos quadrantes do nosso planeta). Todos estes falantes expressam, com a língua portuguesa, as suas vivências quotidianas, ou seja, a realidade em que cada um se vê envolvido onde quer que esteja, convergindo toda essa experiência plural para os anais da história de uma língua dinâmica tornada visível pelas múltiplas escritas dos criadores literários que a têm, tanto como sua língua nacional ou materna ou, por contingências incontornáveis, como língua oficial (tal é o caso de Moçambique).

Busquei, Rui Nogar, um dos escritores sugeridos pela organização do curso, porque achei ser esta uma soberana oportunidade de se trazer à tona um nome que muito deu de si para a literatura de língua portuguesa, particularmente, a moçambicana.

Acredito que poucos aqui presentes, por conta da sua maturidade, sabem substancialmente quem é ou foi Rui Nogar. Mas acredito, também, que muitos, porque muito jovens ainda e o material sobre este poeta é exíguo, sabem apenas que ele é  um poeta moçambicano e nada mais. As razões são várias, intermináveis e plausíveis, emergindo com mais destaque o facto de este poeta não ter merecido, ainda, um estudo académico sistematizado e exaustivo da sua obra. Muito pouco existe escrito sobre Rui Nogar e a sua obra poética, o que, em medida grande empobrece o nosso panorama literário, porquanto ele faz parte da galeria histórica da nossa literatura, pela sua dedicação, pela sua entrega à causa literária moçambicana desde tenra idade.

Rui Nogar, pseudónimo de Francisco Rui Moniz Barreto, filho de pais goeses, tornou-se Rui Nogar ainda nos anos 50, tendo-se iniciado como poeta, na Lourenço Marques colonial, nos jornais Itinerário e Brado Africano.

Itinerário foi uma publicação mensal de letras, artes, ciência e crítica que existiu em Lourenço Marques, entre os anos 1941 e 1955. Tendo, o seu primeiro número, sido publicado a 7 de Fevereiro de 1941 e o último, o nº 149, em Outubro de 1955; O Brado Africano foi um semanário, propriedade do Grémio Africano de Lourenço Marques, fundado pelos irmãos João e José Albasini, em 1918, na sequência da venda de O Africano, por razões de carácter financeiro. O seu primeiro número foi publicado a 24 de Dezembro de 1918 e, em 1932 foi suspenso por sentença do Tribunal da Relação e retoma em 1933, sob a designação de Clamor Africano, indo até 1974, ano de publicação do seu último número.

Nogar poderá ser, eventualmente, uma daquelas relíquias poéticas nacionais esquecidas no fundo do nosso baú literário! Tanto somos levados a pensar assim, porquanto ele não é muito conhecido, na actualidade, não obstante ter sido muito marcante no seu tempo, não só como um lutador pela causa literária, mas também, pela abnegação em relação a todo um processo que levou Moçambique à sua libertação do jugo colonial português. Aliás, a literatura só veio subsidiar a sua dinâmica vida política. Ele soube pôr cada actividade em seu devido compartimento quando assim convinha que fosse, mas, também, sabia fazer as misturas necessárias, com dosagens bem equilibradas, quando o seu estro se guindava para o exercício literário e a sua audácia apontava para a defesa dos interesses nacionais e essas duas virtudes eram simultaneamente despertas e chamadas à luz do dia.

Poeta libertador da Pátria, porque um dos arautos da gesta libertadora, mesmo que na clandestinidade; poeta defensor da Pátria, porque um dos seus mais destacados guardiões, quando ameaçada, ainda acabada de nascer, pelas legiões da reacção; poeta promotor da ascensão da juventude ao Parnaso moçambicano, quando, por mérito próprio fora escolhido pelos seus companheiros para os representar como timoneiro da casa dos escritores do nosso país, corria o ano de 1982, ano da criação da Associação dos Escritores Moçambicanos, onde foi o primeiro Secretário Geral. Portanto, Rui Nogar foi um poeta na escrita e na acção. Foi poeta do protesto, da ruptura e da liberdade, porém, parafraseando o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht:

“Há os que vivem nas trevas/ e os que vivem na luz./ É fácil ver os da luz,/ Mas ninguém vê os das trevas.”

Pois, Rui Nogar, até hoje está esquecido dos estudiosos que lhe deveriam prestar a devida homenagem, estudando e sistematizando a sua obra e, enfim, divulgando-a às novas gerações para que conheçam com profundidade, os contornos da vida e da obra de um dos obreiros da moçambicanidade através da literatura. É necessário que os mais novos saibam donde viemos, conhecendo os feitos dos nossos escritores do protesto anti-colonial, da ruptura e da liberdade.

Com um único livro publicado, em 1982, no género poético, <<Silêncio Escancarado>>, Rui Nogar faz, com este retumbante título, uma ode à Independência de Moçambique, tornando o acto operado pelo valoroso povo moçambicano que lutara até se libertar do jugo colonial português, o desselar de um silêncio secular. No poema  com o título: “Subsídios para a Heresia Total”, elaborado em três momentos temporalmente distantes, o primeiro (Do guerrilheiro Prometeu), o segundo (Da Última ceia), ambos escritos na Cadeia Central da Machava em 1966 e o terceiro (Confissão), escrito um ano depois da independência (em 1976), ele exprime neste último momento, o fim do silêncio, dizendo que sente dentro de si um espaço liberto dos conceitos existenciais antigos condicionados à moral presa aos preceitos religiosos através dos quais se manietavam as suas vontades reais. citação:

“descobri em mim/ subitamente/ um novo espaço disponível/ mesmo no sítio, onde estaria talvez/ (todos assim m’o diziam)/ uma alma me habitando/ nem eu sei porquê/ nem para quê…” fim de citação.

A nova realidade do país traz como que uma lufada de ar fresco, a memória da infância em que retrovê as freiras a catequizá-lo e a sua mãe rezando desmedidamente com velas acesas em castiçais nas noites de trovoada. Foi tudo uma liturgia da mentira, pois, segundo ele nota, isso lhe ocupava o espaço que hoje se acha disponível. Citação:

“apesar das freiras/ da minha infância/ latindo ainda ladainhas/ nas catacumbas da memória/ apesar/ dos castiçais da minha mãe/ orações febris velas acesas/ nas tensas noites de trovoada// apesar de tudo/ assim que descobri/ a liturgia da mentira/ a verdade é que fiquei/ com muito mais espaço/ muito mais/ para respirar/ e o amor pelos outros/ que cabia apenas no coração// ah agora sim/ sou todo todo/ pela revolução// pela reforma agrária/ das almas todas/ que ainda se possam reinventar”. Fim de citação.

No seu livro, Nogar traz-nos reminiscências do passado colonial, não com o fito de nos fazer revivê-las, nem tão pouco como o tição de algum sentimento de vingança, mas como uma forma de fazermos uma leitura que nos leve a ganhar forças para enfrentar um presente ainda calcetado de escombro, em busca de um futuro risonho para a sociedade moçambicana. É uma forma de esperança renascida à força do conhecimento das vicissitudes de ontem. Como se a Fénix ressurgindo das suas próprias cinzas. É uma forma de se enfrentar com verticalidade o presente, com um projecto seguro para o futuro.

Nogar fora preso em 1965, e enviado à cadeia civil, altura em que, na prisão, juntamente com José Craveirinha, Luís Bernardo Honwana e Malangatana Valente Ngwenya viu gente a ser morta através de injecções com ar que provocavam embolia. Nesse tempo o verso era o meio de comunicação privilegiado, porque subtil entre si, transportado nas sapatilhas, nas palmilhas e nas panelas vazias. Alguns serventes eram cúmplices, fazendo que do lixo se resgatassem mensagens que circulavam. Os poemas e os desenhos eram escondidos debaixo do colchão, razão porque ninguém sossegava, com medo da transferência.

O facto de a maioria dos poemas do seu livro <<Silêncio Escancarado>> transmitir a sua experiência nas masmorras da PIDE, não serve de apelo à exacerbação de sentimentos vingativos, antes pelo contrário, trata-se de um apelo de quem sofreu na carne as vicissitudes coloniais para que desse passado, como se crisálidas, nos transformemos em borboletas que volitam e vão de poiso em poiso sem sermos vulgares, procurando a liberdade nas praças da nação.

Veja-se a trajectória de uma borboleta no traço que é, em si, a marca dessa esperança, no poema “Nova Dimensão”, de 1965, do livro <<Silêncio Escancarado>>. Citação:

“esta borboleta/ que volitando vai/ de cama em cama/ grade a grade/ de não-penses-mais/ a um-dia-hás-de-sair/ não é uma borboleta vulgar// é sim uma borboleta/ borboleta ainda/ que um homem nesta prisão/ jurou libertar um dia/ do ciclo deste poema/ nas praças desta nação// é sim uma borboleta/ borboleta ainda/ que ele aprendeu a amar/ em cada nova tentativa/ de profundas metamorfoses// é sim uma borboleta/borboleta ainda/borboleta política/ casulada seis meses/ na cela número três/ da penitenciária industrial/ da colónia de Moçambique.”. Fim de citação

Rui Nogar transmite-nos através dos seus poemas anteriores à Independência de Moçambique, as suas emoções de sonhar uma pátria Moçambicana (“O sonho é necessário. O homem que não é o homem que atingiu uma aridez que o desumaniza”), a realidade presente no espaço e no tempo de uma pátria moçambicana ocupada e o devir de uma liberdade assente nas tarefas da construção que se haveriam de impor, pois a Nação estava sendo dilacerada pela guerra, pelos impasses económicos, a fome e outras insuficiências vitais que não lhe davam o luxo de parar na política para escrever ou organizar os seus arquivos poéticos. Nogar era um poeta desprovido de tempo para a literatura, muito ligado aos compromissos políticos, mas sempre sonhando.

Nogar foi militante da FRELIMO desde 1964, ano do início da Luta Armada de Libertação de Moçambique, sina que lhe valeu a erosão da luta pala independência, dos maus tratos na cela da prisão onde esteve encarcerado, da construção de uma Nação, dos impasses da realidade pós-independência. De várias formas houve tentativas de lhe destruírem o seu sonho de homem, de escritor, de cidadão moçambicano.

Declamador por excelência, desde os anos 60 até às vésperas da independência, era um representante da corrente subterrânea, aquela que <<através de um discurso de resistência em que se suprime o eu-poeta, passa  “o mundo sócio-cultural invisível de Moçambique colonial”>>, de acordo com Russell G. Hamilton. Ainda, segundo este estudioso, aquele “era o testemunho do clima difícil em que os produtores de uma literatura clandestina militavam.”. Assim, a poesia de Rui Nogar encontrava enquadramento no movimento de desintegração do discurso reivindicatório convencional.  o estilo poético de Nogar operava a reintegração da oralidade africana e da oratória neolatina.

Portanto, a poesia protestatária e panfletária de Nogar e de seus contemporâneos deixava vislumbrar aquilo que um dia poderia ser a raiz de uma literatura moçambicana. Era uma poesia inspirada na realidade social, a chamada poesia engajada, que se associava à realidade quotidiana de um povo, impregnada de magicidade. Aqui podemos ter como exemplo eloquente o poema XICUEMBO, onde estão evidentes os aspectos acabados de referir, tais, como: a reintegração da oralidade africana, a oratória neolatina, a realidade quotidiana de um povo e a magicidade.

Contudo, pesem embora, algumas opiniões críticas, Rui Nogar não pode nem por lapso ser ajuizado com a bitola do espartilho do que se tem rotulado poesia panfletária porque este poeta, no dizer de Cremilda de Araújo Medina, no livro “Sonha Mamana África”” (1987):

“compreende a nova geração que quer afirmar o poema de amor junto ao poema-arma. Sua sensibilidade poética extravasa os limites de um programa político. Este o cumpre na militância do dia-a-dia. Aquela espelha-se pelos delírios da noite. As raízes da loucura contida percorrem muitos caminhos.”

No tempo da juventude do poeta, Moçambique era historicamente lugar privilegiado de degredo, portanto, destino de exilados políticos, opositores ao regime político vigente em Portugal, o que valeu a Rui Nogar a sorte de ter uma professora que lhe ensinou as dimensões da injustiça e da revolta para lhe opor e ensinou-lhe os fundamentos do sentimento de respeito humano que tiveram depois a sua continuidade no liceu, nas disciplinas de história e filosofia, igualmente com professores exilados políticos portugueses.

A par dos estudos, Rui Nogar não só apreciava o futebol como o praticava nos caminhos da periferia da cidade de Lourenço Marques. A sua fibra poética teve influências bebidas de boas leituras acumuladas em biblioteca e, sobretudo, da dignidade ímpar do pai, um ferroviário que gozava de muitas simpatias por parte das pessoas com quem a família se relacionava. Também foram influências literárias de Nogar o Neo-realismo português; os grandes nomes da literatura Russa, destacando Máximo Gorki; os brasileiros Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e outros.

Depois da proclamação da independência em 1975 até os dias que correm, Rui Nogar foi, desde 1982 até 1987, Secretárioo-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), sendo o primeiro, de entre os escritores moçambicanos a assumir aquele cargo. Gostaríamos de deixar bem saliente que naquele período foi um grande impulsionador da literatura moçambicana, um verdadeiro lapidador de jovens talentosos que desde a fundação da AEMO calcorrearam o espaço físico da agremiação, realizaram, animados por Nogar, intensa actividade literária e muitos deles são o ponto referencial da literatura moçambicana, pós-independência, portanto, actual. Alguns, talvez os mais significativos, de entre os quais orgulhamo-nos de fazer parte, criaram a revista Charrua. Estes são, inegavelmente, frutos da visão sábia e vidente, futurista, como se quiser apelidar e pragmática de Rui Nogar, como Secretário-Geral da AEMO que, fazendo das tripas coração, enfrentou colegas seus, completamente cépticos quanto à valia que os jovens que ele protegia, pudessem trazer à Literatura Moçambicana. De uma biografia sua, publicada em 1987, há sensivelmente 19 anos, portanto, no mesmo livro Sonha Mamana África, de Cremilda de Araújo Medina, sob o título: Auto-retrato, extraímos a seguinte passagem: “Na época que ainda habita esta terra…, Nogar curte um carinho especial, uma compreensão paterna: diante da energia e da rebeldia das novas gerações moçambicanas, ele se emociona e as ampara.. o que acontece com o grupo Charrua e a revista que produzem os jovens escritores, às voltas com inúmeras dificuldades. Qualquer livro futuro de Rui Nogar estará na fila de espera para ser impresso e, certamente, autores de 20 a 30 anos passarão na frete.”

Outra eminente estudiosa da literatura moçambicana, a Professora Dra. Fátima Mendoça, dizia, em relação à época em referência, no seu livro “Literatura Moçambicana – a história e as escritas” (1988): “São várias vozes em vários tons. É um tempo rico, mas de espera, tempo de gestação e amadurecimento. Tempo que mostra que afinal em Moçambique… a Literatura está viva. Porque a nação também.”.

À propósito da sua tendência protectora de jovens escritores, de que tinha plena consciência, Rui Nogar afirmou numa entrevista que lhe fora feita por Patrick Chabal, em 1994, o seguinte: “Eu acho que uma das minhas características é ser mais provocador de vocações do que ser eu próprio vocacionado. E eu orgulho-me disso. Prefiro provocar os outros do que ser eu próprio.”.

Rui Nogar surge, como poeta, nos anos 50, como um lastro da poesia

que irrompe com o pós-guerra “Com as ressonâncias das primeiras explosões nacionalistas de que o V Congresso Panafricano é um claro indício que determina a emergência de uma nova geração de escritores moçambicanos”. Pois, são iniciáticos dessa nova era, Noémia de Sousa (Vera Micaia), Orlando Mendes e Fonseca Amaral, José Craveirinha e Marcelino dos Santos (Kalungano), cujo empenho se repercutirá, mais tarde, em Rui Nogar, Sérgio Vieira e Outros.

Nasce a 2 de Fevereiro de 1932 em Lourenço Marques e Morre, com 62 anos de idade, vítima de doença, em 1994, em Lisboa (Portugal).

 

Bibliografia:

 

CHABAL, Patrick. 1994. Vozes Moçambicanas – Literatura e Nacionalidade. AssírioBacelar. águeda

 

FERREIRA, Manuel. 1985. No Reino de Caliban III. Plátano Editora. Lisboa.

 

MEDINA, Cremilda de Araújo. 1987. Sonha Mamana África. Edições Epopeia. São Paulo

 

NOGAR, Rui. 1982. Silêncio Escancarado. Edições 70. Lisboa

 

PROLER. Maio de 2002. O Poeta, O Homem, A Obra – 80 Anos (Craveirinha). FBLP. Maputo

 

*in: (Arresto de Vozes – ou o cúmulo discursivo literário Vol. I) de Juvenal Bucuane

 

 

O Rui Nogar faz hoje 90 anos! É um dos nossos grandes poetas. Homem apaixonado por causas sociais, pelos homens do seu tempo e pela condição humana. Um extraordinário poeta. Um ser humano de excepção. Autor escasso e, no entanto, fundamental. Não só o seu “Silêncio Escancarado” (magnum opus), que deveria um dos nossos breviários. Ou “Nove Hora”, esse poema arrebatador, que o Mutumbela Gogo encenou.

A sua poesia, como queria Gabriel Celaya, é uma arma carregada de futuro. As suas metáforas, as suas imagens, o seu poder e a sua excelência de exegeta. Um grande tribuno. Um belíssimo declamador. Um amigo e um camarada de ofício. Um homem bom. Disse-me ele numa entrevista: “Não me interessa que seja ou não considerado poeta. O que me interessa é que eu seja considerado homem que se preocupa com os outros homens da sua época”.

O Rui é, no entanto, um dos mais deslembrados. Moçambique, sublinhe-se, cultiva a arte do esquecimento. Diverge dos seus melhores. Há, entre nós e sobre nós, uma ideia maniqueísta da história e da memória. O país não se revê nos seus poetas. A cultura é um parente pobre. Não passa da sua condição de apêndice. É elevada para os momentos de celebração. Quando nos queremos ufanos. Sobretudo nos comícios.

Este é um ano pródigo para a literatura moçambicana: celebramos os 100 anos de José Craveirinha; os 90 anos de Rui Nogar e de Rui Knopfli. Luís Bernardo Honwana fará, em Novembro, 80 anos de vida.  O Albino Magaia faria, este mês, 75 anos. O Gulamo Khan, nascido em Março e morto em Mbuzini, faria 70 anos. E se quisermos um escritor mais próximo, da minha geração, há o Suleiman Cassamo, que faz 60 anos em Novembro.

Isto poderia ser um bom pretexto para lembrar que o Estado tem obrigações e função indeclinável numa política activa do livro e da leitura. As obras de autores como Rui Nogar deveriam ser adquiridas obrigatoriamente pelo Estado e distribuídas por bibliotecas escolares e públicas, como a Biblioteca Nacional, ou as provinciais, distritais e municipais, ou ainda pelas casas da cultura e outras associações e organizações culturais sem fins lucrativos. Uma sociedade não se constrói sem cultura e não há sociedades sãs sem cidadãos livres, cultivados e esclarecidos, política, social e culturalmente.

Ler estes autores, celebrar estes escritores, festejar suas vidas e conhecer as suas obras é uma obrigação de cidadania. Hoje celebro Rui Nogar, que nasceu a 2 de Fevereiro de 1932 e morreu a 11 de Março de 1993, aos 61 naos. Foi o primeiro secretário-geral da AEMO e acolheu, amparou e albergou aquela que seria a mais importante geração de escritores logo a seguir à independência – a geração da “Charrua”. Foi muito mais do que isso. Um homem da sua época e de todas as épocas. Militante na clandestinidade, companheiro de prisão de José Craveirinha, Luís Bernardo Honwana e Malangatana Valente Ngwenya. Um combatente pela liberdade. Um intrépido combatente pela nossa liberdade. Para mim, continua vivo. Faz hoje 90 anos!

Viva Rui Nogar!

Patrício Langa[1] & Jorge Ferrão[2]

(Parte  II e Conclusão)

A decisão pelo estabelecimento do ensino superior, nas colónias Portuguesas de Angola e Moçambique, foi, por um lado, tomada com muita hesitação e sob pressão interna dos colonos nessas províncias do ultramar colonial, e, por outro lado, externa, particularmente, pelas Nações Unidas, devido ao intensificar dos movimentos reivindicativos das independências dos povos Africanos que já tinham na independência do Gana em 1957, sob liderança do carismático Kwame Nkrumah, uma fonte de inspiração.

O ano de 1960 e subsequentes viram mais de 13 colonias Africanas a ascenderem a independência. O ambiente interno, na colónia, como o externo, não era favorável ao status quo. Assim, o regime foi forçado a adoptar medidas de reforma do Estado, incluindo no sector da educação.  No seu âmago, as reformas não visavam alterar o carácter colonial do regime, mas mistifica-lo ideologicamente com um rosto mais humanista, particularmente em relação ao tratamento oferecido às populações nativas não brancas.

As ideias do luso-tropicalismo, isto é, da celebração da miscigenação racial e cultural atribuída pelo Antropólogo Brasileiro, Gilberto Freyre, ao carácter idiossincrático do colonialismo Português, foram inicialmente rejeitadas por Portugal, nos anos 30 e 40 do Estado Novo. No entanto, o luso-tropicalismo passou a ser ideologia do Estado colonial implementada nos anos 60, particularmente, através de reformas propostas por Adriano Moreira, ministro Português do ultramar, como forma de mitigar a crescente contestação ao regime colonial fascista e ao status quo.

A pergunta fundamental sobre o estatuto e o papel do ensino superior na sociedade mostra-se aqui relevante. Numa altura em que Portugal ainda sonhava e agia para a manutenção do status quo, é legitimo questionarmo-nos sobre para que projecto de sociedade a nova universidade estava a ser criada? Que função social a nova universidade iria cumprir? Seria a nova universidade o laboratório, por excelência, do experimento luso-tropicalista, no contexto das colonias africanas? A quem, então, o regime Salazarista iria confiar a gestão das novas instituições de ensino superior em Angola e Moçambique, sabendo do potencial que as universidades podiam representar para o despertar da consciência nacionalista e da necessidade de transformação profunda da sociedade? Parte das respostas à estas questões encontram-se nas lideranças que Portugal identificou para conduzir os desígnios das novas universidades em Angola e Moçambique.

Os Primeiros Reitores da EGUM e ULM 1962-1970/6

José Veiga Simão (JVS) foi o primeiro de três reitores coloniais, e aquele que mais tempo permaneceu no posto, quase oito anos, entre 21 Agosto 1962 e 15 de Janeiro de 1970. A sua saída da reitoria foi por via de uma promoção  à Ministro da Educação Nacional. Simão foi um exímio equilibrista entre a academia e a política, granjeado simpatia em ambos os campus. Nascido em Portugal, em 1929, veio a falecer em Lisboa em 2014. Cedo formou-se em ciências físico-químicas na Universidade de Coimbra (UC), em 1951, com uma licenciatura e, depois, seguiu para o doutoramento em física nuclear na prestigiada Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

De reitor da Universidade de Lourenço Marques (ULM), passou ao cargo de Ministro da Educação Nacional até a altura da Revolução dos Cravos que destronou o regime fascista em Portugal. Entre 1974 e 1975, foi embaixador de Portugal nas Nações Unidas e, mais tarde (1983-1985), deputado da Assembleia da República Portuguesa pelo Partido Socialista. Recebeu vários Doutoramentos Honoris Causa, incluindo um pela actual Universidade Eduardo Mondlane (UEM) que, quanto a nós, só pode ter sido resultado da amnesia histórica dos proponentes em relação ao papel de Simão na perpetuação mistificada e demagógica do status quo do regime fascista e colonial.

Os cerca de oito anos do mandato de Simão, definiram o carácter colonial da ULM, mas sempre envolto num discurso demagógico reformista. Simão foi sucedido em 1970 e, ao que tudo indica, por seu delfim escolhido a dedo, Vitor Pereira Crespo (1932-2014), cujo reitorado foi apenas de dois anos, até Janeiro de 1972. Crespo viria, mais uma vez, a tomar o lugar de Simão, desta vez, como Ministro da Educação Nacional.

Tal como Simão, Crespo tinha formação de base em ciências físico-químicas, tendo feito o doutoramento em Química na Universidade de Berkeley, Califórnia em 1962.  Para além da gestão universitária, onde foi Director Geral do Ensino Superior no Ministério de Educação Nacional (1972-1973) e, posteriormente, Ministro, Crespo, foi deputado e Presidente da Assembleia da República (1987-1991), pelo Partido Social Democrata (PSD).

Entre Janeiro de 1972 e 25 de Abril de 1974, altura do golpe de estado em Portugal, que colocou fim ao regime fascista de Salazar, José Alberto da Gama Fernandes de Carvalho assumiu o leme da ULM. O derradeiro reitor da ULM foi o terceiro de nome José, desta vez, José Marques Correia Neves entre 25 de Abril de 1974 e Janeiro de 1976. Geólogo de formação rumou para o Brasil onde fez carreira na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), após abandonar Moçambique com o advento da independência.

Neves assistiu a génese da EGUM e a sua elevação ao estatuto de universidade em 1968, passando a designar-se ULM. A confiança do leme de uma instituição de ensino superior nova na colónia, num contexto volátil, de crescente contestação ao regime fascista de Salazar, tinha que recair sob figuras que inspirassem alguma tranquilidade ao regime. Com efeito, o pecado original da submissão dos reitores das IES públicas, mesmo quando a retórica sugere o contrário, tem origens coloniais, com a tentativa de mistificação da inclusão social e democrática.

Cada reitor tornou-se e manteve-se em função da habilidade de servir ao regime e a liderança política. Apenas em sistemas democráticos, nos quais a governação universitária se emancipou das pressões políticas hodiernas, como nos Estados Unidos da América e na Europa, vemos lideres de IES públicas sucederem-se sem um lobby directo com o regime político do dia.

O presidente dos EUA, seja este republicano ou democrata, exerce quase nenhuma influência na nomeação ou demissão de reitores das universidades americanas. Com isto não queremos sugerir que o acto de nomeação seja meramente académico e não político. O Estado vê na autonomia efectiva do sistema universitário uma das condições da sua própria existência e credibilidade. Não quer isto significar que as políticas públicas do sector e a gestão das instituições, particularmente as públicas, não estejam sujeitas ao beneplácito das autoridades do Governo. Todavia, no caso da ULM, a nomeação do reitor tinha a mão directa do Ministro do Ultramar e do Governador da Província, sendo o reitor membro do Governo colonial.

A Universidade de Coimbra (UC) granjeava respeito ao nível da Europa como um centro de conhecimento com alguma autonomia académica e intelectual.  Era na universidade de Coimbra e na Universidade Técnica de Lisboa (UTL) que o governo recorria para buscar quadros para gestão e implementação das suas políticas coloniais, incluindo as relativas ao ensino superior. Entretanto, era também para a universidade aonde se refugiavam os desavindos, por alguma razão, com as políticas do status quo.

Marcelo Caetano, por exemplo, considerado um dos políticos reformistas do regime fascista e colonial de Salazar, fracassadas as tentativas de convencer o regime a ser mais condescendente, dialogante e menos beligerante no assunto da independência das colónias, após fracassada a tentativa de convencer Eduardo Chivambo Mondlane a integrar o governo de Salazar, retomou a sua cátedra na universidade de Coimbra. Portanto, a universidade de Coimbra teve sempre uma relação ambivalente com o regime fornecendo os quadros para a manutenção do mesmo, mas também servindo de refúgio da actividade política directa.

O regime colonial procurou encontrar quadros e intelectuais, com habilidade de mistificar a continuidade da Portugalidade nas colónias, projectando um discurso de inclusão e alargamento das oportunidades educativas para os colonos e para os nativos, desde que assimilados a cultura Portuguesa.

A universidade criada e gerida em Moçambique pelos seus primeiros quatro reitores era uma universidade branca na sua composição demográfica e colonial na sua ideologia. Portugal, sob pressão das Nações Unidas e dos seus aliados, particularmente os Estados Unidos da América, insistia na integridade territorial e política entre a metrópole e os territórios do ultramar. Os documentos oficiais insistiam na ideologia de construção de uma sociedade multirracial, e pluricultural. Este discurso, no entanto, também era articulado pelas lideranças da ULM, mas não correspondia a realidade, como iremos abordar mais adiante ao falar da composição do corpo discente, docente e técnico administrativo.

O Currículo colonial

Um ano após da criação da EGUM, através do Decreto-Lei 45180, de 5 de Agosto de 1963, os “Ministérios do Ultramar e da Educação Nacional – Direcção-Geral do Ensino Superior e das Belas-Artes” promulgam o regime de funcionamento da nova IES. O artigo 8 do decreto indicava os cursos a serem ministrados, nomeadamente: a) Curso de Ciências Pedagógicas; b) Curso Médico-Cirúrgico; c) Curso de Engenharia Civil; d) Curso de Engenharia de Minas; e) Curso de Engenharia Mecânica; f) Curso de Engenharia Electrotécnica; g) Curso de Engenharia Químico-Industrial; h) Curso Superior de Agronomia; i) Curso Superior de Silvicultura; j) Curso de Medicina Veterinária. Os cursos de medicina e de veterinária teriam uma parte leccionada na colónia e uma outra parte na metrópole.

Com excepção das ciências pedagógicas, que visavam formar professores, nenhum curso visava formar pensadores críticos. Ironicamente, os cursos promovidos pelo regime colonial, na altura, actualmente são misticamente designados na sigla inglesa – STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) – e promovidos pelo governo como prioritários para o desenvolvimento do país. Como se pode depreender pelos cursos aprovados, a universidade teria mais um carácter politécnico que propriamente universitário.

A universidade não foi criada para ser um lugar para promoção do pensamento crítico, típico de uma sociedade aberta e democrática. A universidade colonial era um instrumento, um veiculo operativo para massagear e mistificar a continuidade de uma sociedade colonial cuja distribuição de oportunidades (incluindo as educacionais) era em função da origem social. O currículo e as áreas de estudo permitidas resumiam-se a aqueles que, na percepção do regime, permitiriam formar quadros úteis para o projecto colonial.

O Corpo Discente, Docente e Técnico Administrativo

O corpo discente da EGUM e, mais tarde, da ULM era, fundamentalmente, constituído por estudantes brancos. Imagens fotográficas de antigos estudantes e membros da Associação Académica de Moçambique são bastante ilustrativas do tipo de composição demográfica da universidade colonial.  Se o corpo discente era quase que na generalidade branco, não se podia esperar diferente do corpo docente e do Corpo Técnico e Administrativo (CTA).

A nossa hipótese de trabalho para dar conta da ausência de uma população (negra) nativa na nova universidade segue a linha de pensamento do politólogo Ugandês Mahmood Mamdani sobre a constituição de minorias pelos Estados coloniais. Com efeito, segundo Mamdani, o projecto colonial e imperial tinha um substrato ideológico de uma missão civilizadora. Dois mecanismos principais permitiam o processo civilizatório pelo Estado colonial, por um lado, a introdução de um quadro regulatório (leis do Estado) e códigos de conduta sobre como ser cidadão civilizado (neste caso Português) e, por outro lado, um sistema educacional de matriz colonial para educar os membros da sociedade.

Através destes processos, igualmente, descritos por Eduardo Mondlane, em Lutar por Moçambique, cria-se uma minoria de cidadãos colonos e nativos assimilados educados e civilizados no padrão cultural colonial. Estes nativos assimilados, como diria Franz Fanon, de Peles Negras e Máscaras Brancas, que julgam pensar, agir e sentir como o próprio colono branco, servem de intermediários entre a metrópole e a colónia, na administração da colónia. A universidade serve assim de instrumento de reprodução da estrutura e estatuificação social da sociedade colonial.

A educação rudimentar para os nativos e todo um conjunto de barreiras educacionais fez com que, até finais da década de 1960, apenas uma porção insignificante de negros tivesse frequentado o ensino liceal ou técnico de modo a que reunisse os requisitos mínimos necessários para estarem aptos ao ingresso no ensino superior.  Com efeito, o ingresso ao ensino superior era baseado em exames de aptidão feitos na universidade de Coimbra.

Portugal não tinha como, do nada, inventar negros qualificados para frequentar o ensino universitário, pois muitos destes eram, por desígnio do sistema, eliminados pela estratificação do próprio sistema educacional para brancos, assimilados e nativos que durante décadas criou barreiras para impedir a educação dos nativos. É, em parte, por estas razões, que apesar de uma retórica para reforma do sistema educacional, a nova universidade nasce e continua, fundamentalmente, branca e colonial até ao êxodo massivo dos colonos com o advento da independência em 1975. Os brancos e os poucos negros assimilados que decidiram permanecer no país após a independência, tornaram-se a elite académica e intelectual da universidade e do país com a missão de construir uma nova universidade para a servir ao desenvolvimento do país independente.

Conclusão

O primeiro decenário do ensino superior em Moçambique (1962-1972/5) foi da instalação sob pressão da primeira instituição de ensino superior, fundamentalmente, com o intuito de amainar a crescente contestação interna (dos colonos progressistas), dos nativos (independentistas) e a pressão externa das Nações Unidas e dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em particular, os Estados Unidos da América (EUA) sob o regime fascista e o Estado Novo de Salazar.

As sucessivas lideranças da ULM cumpriram o papel de assegurar o trabalho da mistificação ideológica, através de um discurso de integração dos territórios do ultramar com a visão de uma Portugalidade como nação multirracial e pluricultural. No entanto, na prática, esta retórica não se reflectia na composição demográfica do corpo docente, discente e técnico administrativo da ULM, até 1976, um ano após a proclamação da independência de Moçambique por via de insurreição armada.

O currículo e as áreas de estudo da ULM eram estabelecidos por dispositivos normativos (decreto-lei, portarias), controlados pelas autoridades coloniais, a partir da metrópole. Com forte inclinação para cursos das ciências naturais e tecnológicas, a ideia da formação superior era a de preparar quadros para administração colonial dos territórios do ultramar e não para formar uma possível intelligentsia subversiva, dai a total ausência de cursos nas áreas das ciências sociais e humanas.

Com o acelerar da Guerra colonial, e o advento da Revolução dos Cravos, que colocou término ao regime fascista de António Salazar, a gestão da ULM foi praticamente de crise e transição. José Veigas Simão foi praticamente o único reitor que fez quase dois mandados de 4 anos entre 1962 e 1970, quando foi promovido a Ministro da Educação Nacional. Os sucessivos reitores tiveram reitorados relativamente curtos de cerca de dois anos, sendo Vitor Pereira Crespo (1970-1972), José Alberto da Gama Fernandes de Carvalho (1972-1974) e José Marques Correia Neves (1974-1976).

Todos reitores coloniais estavam, de uma ou de outra forma, relacionados a figura de JVS e, provavelmente, tenham sido por este sugeridos como seus sucessores. Quase todos tinham alguma relação de afiliação com a Universidade de Coimbra ou com a comissão Técnica de criação da ULM, cujos quadros também provinham da Universidade Técnica de Lisboa.

Em suma, a universidade colonial em Moçambique representou o início titubeante do ensino superior, mas, acima de tudo, também representou um esforço das autoridades coloniais de manutenção ideológica do status quo. A independência de Moçambique do colonialismo Português, em Junho de 1975, veio encerrar o primeiro decénio e abrir espaço para uma nova realidade do ensino superior que iremos abordar no período de 1972/5- a 1982. (X)

[1] Correspondência: [email protected] (Professor de Sociologia do Ensino Superior)

[2] Reitor da Universidade Pedagógica de Maputo

Dizem que a única constante é a mudança, e o panorama de episódios de fraude prova-o quase todos os dias. O jogo do gato e do rato entre criminosos e bancos é algo recorrente.

As equipas de Risco e Fraude fazem um esforço contínuo no sentido de adaptar as tecnologias de prevenção à fraude e, em pouco tempo, os autores das fraudes desenvolvem formas mais arrojadas de as contornar e levar a cabo os seus esquemas. A fraude está cada vez mais direcionada e orientada para o contexto digital.

Sendo o continente africano um dos mais afectados esta é, sem dúvida, uma preocupação global crescente.

Segundo o Inquérito Global Economic Crime and Fraud Survey (edição de 2020) conduzido pela Price waterhouse Coopers (PwC), no qual foram inquiridos cerca de 5.000 líderes empresariais de 99 países diferentes, uma em cada duas empresas (47%) viu-se exposta a eventos fraudulentos e a episódios de crime financeiro nos últimos dois anos. Trata-se do segundo maior pico dos últimos 20 anos – tendo o mais grave ocorrido em 2018, quando 49% dos inquiridos reportou a mesma ocorrência.

O estudo demonstra, ainda, que a criminalidade financeira tende a tornar-se cada vez mais generalizada, com os crimes cibernéticos e a fraude consideradas as duas formas mais destrutivas e perturbadoras de criminalidade financeira, a nível mundial.

Em 2020, 35% dos inquiridos afirmou ter presenciado um aumento dos casos de fraude reportada por clientes, o que representa um aumento de 6 pontos percentuais (contra 29% em 2018).

Actualmente, um dos maiores riscos enfrentado pelos consumidores é a fraude conhecida como “Cartão Não Presente” ou fraude nas transacções online, através da qual os fraudadores acedem de forma ilegal à informação dos cartões de pagamento dos clientes, roubando dados bancários de websites de compras online, onde os dados de milhares de cartões encontram-se armazenados.

A adopção do sistema EMV veio reforçar o nível de segurança dos cartões nos pontos de venda, mas em contrapartida, tornou as transacções de cartões “não presentes” ainda mais frequentes. O resultado? Os níveis fraude online dispararam. Na prática funciona da seguinte forma: depois de se autenticarem e acederem a informação confidencial, os fraudadores compram grandes quantidades de mercadorias a outros comerciantes, também eles autores de esquemas fraudulentos, defraudando os clientes em valores exorbitantes.

Mas se pensarmos que o risco de fraude ameaça apenas clientes particulares, estamos enganados. Temos testemunhado um crescimento acentuado na ocorrência de fraude no meio empresarial, sendo o BEC (Business Email Compromise) o tipo de fraude actualmente praticado de forma mais significativa, esta técnica debruça-se sobre a correspondência entre as empresas e os seus clientes: os e-mails dos clientes são interceptados por fraudadores que se fazem passar por funcionários da empresa em questão e efectuam comunicações subsequentes no sentido de levarem clientes insuspeitos a transferir valores para as contas bancárias indicadas pelo fraudador.

Olhando para África, os níveis de ocorrência de fraude crescem exponencialmente, considerando o volume significativo de incidentes relacionados com roubo de identidade por engenharia social, o que se deve essencialmente aos níveis reduzidos de alfabetização da base de consumidores, que não vê qualquer risco em solicitar ajuda a estranhos em operações de ATM, por exemplo.

Esta tendência agravou-se com a pandemia, durante a qual assistimos a um aumento sem precedentes das compras online e, a partir daí, a um crescimento dos incidentes de fraude relacionados com esta forma de compras.

No caso do FNB Moçambique, como em outros bancos, têm sido realizadas campanhas de sensibilização, alertando os clientes para os riscos que podem enfrentar se as suas credenciais forem comprometidas, ou pedindo ajuda a estranhos quando recorrem às ATM para realizar as suas transacções. Também sensibilizámos os nossos Clientes sobre as precauções a tomar ao abrir e-mails de fontes desconhecidas e/ou com anexos e implementámos recentemente o passo adicional de segurança 3D Secure em todos os cartões de débito e crédito FNB, como um passo adicional de segurança em compras online, por forma a assegurar um nível de defesa reforçado contra a utilização fraudulenta dos cartões de pagamento.

Em resumo, temos feito um esforço contínuo para monitorar as transacções, controlar e optimizar a nossa capacidade de detectar incidentes relacionados com fraude e colaborarmos com a indústria financeira assim como com outros parceiros relevantes para assegurar a protecção dos dados dos nossos clientes.

Estas acções são cada vez mais relevantes numa era de exposição a novos e graves perigos trazidos por um mundo cada vez globalizado, onde os bancos podem e devem proteger os seus activos através da implementação controlos preventivos sempre que possível e comunicando os incidentes que enfrentam entre si, de modo a que a informação proteja a indústria bancária como um todo.

As parcerias com vários intervenientes, tais como as  empresas de telecomunicações, os gateways de pagamento (VISA, Mastercard, Etc) assumem um papel de relevo no sentido de minimizar a exposição ao risco e, em última, análise transferir parte desse risco para as companhias de seguros, com vista a uma recuperação adequada no caso de perdas difíceis de prevenir.

Há que recordar algumas medidas de prevenção essenciais: tenha cuidado nas transacções online, seleccione sempre websites com Secure Checkout (3D Secure), não solicite nem aceite assistência de estranhos enquanto utiliza a ATM, confirme sempre as ordens de pagamento feitas via e-mail, não abra anexos de remetentes desconhecidos ou suspeitos, mantenha as suas credenciais seguras e escolha PINs e passwords mais fortes e, finalmente, pense sempre bem antes de clicar!

Mónica Souto – Directora de Risco do FNB Moçambique

Da praga de insectos e dos odores nauseabundos pós-carnaval…

 

Dizem os que sabem que “depois da bonança vem a tempestade”. Ou é ao contrário? Bom, se não for aquele o adágio correcto, reais foram os eventos que se seguiram às efusivas celebrações do carnaval. Os organizadores daquele evento tinham alguma dificuldade em recordar-se do modo cíclico, repetitivo, em que esses mesmos fenómenos que vou relatar se sucediam. Uma das mais graves omissões na estratégia daqueles era disponibilizar locais para o imperativo do alívio das necessidades aos presentes nas festividades. Estas, durante três dias e três noites tiveram como  epicentro, e como já se referu acima, a Avenida de Angola. Aquelas multidões consumiram tudo o que estava em oferta. Empantorraram-se de guloseimas, de mabadjia, amendoim torrado, castanha de cajú, mapfilwa, tintsiva, magumba frita, e  embriagaram-se com as bebidas adquiridas nas cantinas abertas ao longo da estrada. E daí, era ver gente com esgares nos rostos, motivados pelos apertos nos intestinos. As Nas barrigas rugiam explosões, as bexigas quase rebentavam de pressão. Retretes públicas, onde achá-las? As que haviam eram as privadas, as das habitações dos bairros  Indígena e da Mafalafa. Alguns foliões, pelo respeito ao pudor, e não pela saúde pública, aproximavam-se aos proprietários das residências e solicitavam pelo uso das instalações sanitárias. Assim  formavam-se longas filas de gente aflita nos quintais. Outros, que constituíam a maioria, não se detinham a pedir ajuda a ninguém. Encostavam-se aos muros ou às cercas de caniço e aí, sem pudor, aliviavam-se das aflições. Referimo-nos às necessidades menores, porque para as maiores procuravam lugares mais esconsos, pouco frequentados. Aí acocoravam-se e faziam o que tinham a fazer. Ao fim de cada dia era muito complicado percorrer aqueles caminhos, muito menos os becos, sem se correr o risco de pisar aqueles volumosos bolos de excrementos. Dir-se-ia que os terrenos daqueles bairros haviam-se convertido em sentinas colectivas ou em campos de minas anti-pessoais.

Acrescentemos a este evento, a pestilência dos fumos que provinham da incineração dos lixos da Bucaria. Adicionemos também, talvez pior, a parcela dos baldes das residências que extravasavam com o súbito aumento do número de utentes. Os Serviços de Salubridade cumpliciaram para tornar a vida da população num verdadeiro inferno: durante os dias de carnaval não houve recolha dos baldes.

O desastre instalou-se. Nuvens de moscas varejeiras_ que o meu amigo Cleto, cheio de fumaças de intelectual, denominava chrysomya putoria_ invadiram aquelas duas comunidades. Nos seus vôos ofuscavam a luz do sol que teimava em derramar um calor húmido e asfixiante. Os insectos, esverdeados e pesados, zumbiam e pousavam em tudo, sobre as comidas, sobre os lábios das pessoas, sobre tudo, uma autêntica praga que trouxe consigo surtos de diarreias e doutras doenças. Os cheiros nauseabundos eram de cortar o apetite_ referimo-nos ao de boca, porque doutro é tabu mencionar.

Decorreram duas semanas até que as epidemias foram debeladas. A própria natureza encarregou-se de vir ao socorro dos residentes ao enviar aquele vento e aquela chuva redentora que varreu os terrenos e apagou os incêndios da lixeira municipal da Bucaria.

Por Peter Blenkinsop, Administrador Delegado do FNB Moçambique

Após alguns anos marcados por alguma degradação de serviços e da rentabilidade, os últimos tempos desencadearam uma reflexão profunda para o FNB Moçambique.
Impôs-se a necessidade de definir uma estratégia sobre a melhor forma de nos posicionarmos e sermos o Banco de eleição para os nossos sectores-alvo, focados em sermos, não necessariamente o maior, mas o melhor Banco no nosso mercado.

Tanto o Grupo FirstRand, grupo financeiro sul africano do qual o FNB Moçambique é parte integrante, como o FNB estão empenhados em expandir a presença do Banco em Moçambique e impactar de forma positiva a economia e as comunidades em que opera. Alcançar este objectivo implica um foco constante e consciente nos nossos Clientes e, também, na digitalização dos nossos produtos e serviços.

No que toca a servir os nossos Clientes, fazemos questão de relembrar os nossos profissionais que, mais do que trabalhar para o Banco, eles prestam serviços directamente ao Cliente e que todas as decisões devem ser centradas nele. Esta abordagem é alavancada em metas ambiciosas que passam pelo crescimento transacional, interacção com o Cliente, reequilíbrio do balanço e da rentabilidade. O alcance destas metas requer uma compreensão profunda dos nossos sectores-alvo e o desenvolvimento de soluções que se adaptem às suas necessidades, e não apenas daquelas que se alinham à oferta do Banco.

Voltamo-nos para os bons velhos princípios básicos – simplicidade na interacção com o Cliente, eficiência operacional e segurança, uma abordagem aparentemente simples, mas que requer clareza estratégica, compreensão cultural em todo o Banco e processos e infra-estruturas adequados para o fazer de forma sustentável.

Os sectores Corporate e Commercial são o nosso foco principal, porém também contamos que o Retalho surpreenda positivamente tanto os Clientes como a nós próprios. Embora a nossa presença no mercado moçambicano seja ainda relativamente jovem, somos parte de um Grupo maior, o que nos dá acesso ao know-how necessário para trazer as melhores soluções aos nossos Clientes.

O desenvolvimento digital do FNB Moçambique representa, para nós, um importante catalisador estratégico. Um inquérito revelou categoricamente que o FNB Moçambique não é percepcionado como um Banco inovador nem orientado para soluções, e está aquém da esperada compreensão do mercado. Esta percepção contraria a cultura do Grupo FirstRand pelo que fizemos da abordagem a estes desafios uma prioridade. Actualmente o FNB opera em todo o país, com presença na maioria das províncias, mas é preciso expandir esta presença e estar mais próximo dos nossos Clientes, o que implica foco e investimento em serviços digitais, daí a nossa plataforma operacional encontrar-se também a atravessar um processo de mudança, estando previstas alterações muito positivas na frente digital até ao final do ano que simplificarão, substancialmente, a actividade bancária. Iremos trabalhar, de perto, com os nossos Clientes na jornada de transição para uma experiência bancária digital, que será uma mais-valia tanto para o Cliente como para o Banco.

Acreditamos que a cultura do Banco e a colaboração interna representam um factor diferenciador fundamental para o Cliente, num mercado com reduzida diferenciação de produtos. Temo-nos empenhado profundamente no alcance deste objectivo (com progressos significativos até ao momento). O nosso processo de recrutamento encara este factor como um requisito fundamental, a par da contratação de recursos altamente qualificados.
Aspiramos ser o empregador bancário de eleição nos próximos dois anos, uma meta exigente considerando a existência de bons bancos entre os nossos concorrentes, porém acreditamos que iremos consegui-lo. Entre as nossas maiores inovações, tanto para o nossos Clientes como para os Colaboradores, destacamos o facto de podermos contar com profissionais cuja actividade não se limita ao local de trabalho, estando estes preparados e capacitados para interagirem, presencialmente e directamente com a nossa base de Clientes.

Vivemos um momento de recuperação da economia moçambicana, com boas perspectivas para o desenvolvimento do sector financeiro e do panorama empresarial. Como Banco, procuramos apoiar tanto os orgãos reguladores como as grandes empresas para viabilizar o desenvolvimento de um cenário financeiro e de mercados de capitais positivo, nos próximos 3 – 5 anos. Acreditamos, assim, que vamos criar instrumentos de investimento alternativos para os investidores assim como contribuir para a sustentabilidade da economia a longo prazo. Estamos profundamente empenhados em transformarmo-nos para transformar a economia, continuando a colocar as questões complexas. A viagem está em curso.

Sim, eu tenho fantasmas, nem todos eles mortos

Fazendo poeira dos meus sonhos, girando e girando

Ao redor na minha cabeça.

in “Yes, I have ghosts”, David Gilmour.

 

Tornado é uma história que começa in medias rés, isto é, no meio dos acontecimentos. Quando, logo no primeiro período, a narradora afirma Soube anos mais tarde, quando vasculhava nos arquivos do Notícias à procura de uma maldita crónica ou sinal daquele dia (…), já se percebe que no acto da enunciação discursiva houve o cuidado de se evitar o real princípio das coisas, de modo a fazer desse mesmo princípio narrativo algo mais imaginativo e apelativo. O começo da história de Teresa Noronha diz muito em termos das modalidades técnico-narrativas adoptadas. Ao invés de uma proposta cronológica, com um início, meio e fim linear, a autora textual (des)arrumou os episódios de tal ordem que arroja ao leitor a identificação dos eventos cardinais. Nesse sentido, aliás, a tarefa do leitor não está de todo facilitada, pois, sem respostas categóricas e muito menos dadas no instante em que se desejam, o enredo o impulsiona à uma visão 360º graus sobre os fenómenos e as suas motivações.

Editado pela portuguesa Exclamação, a proposta literária de Teresa Noronha é daquelas narrativas à volta de sobressaltos que atravessam o corpo e alma. No centro da ficção está uma menina que cresce sem nunca se desfazer das lembranças da infância, uma personagem que quer aprender a compreender e a domar a dor, o amor intermitente e a perda de um irmão que, aos 20 anos de idade, por decisão/ indecisão entrega-se aos braços da morte. Esse suicídio é a primeira grande imagem indefinida da história. Enquanto a trama é desenrolada, colocamo-nos fixos nessa condição na vã tentativa de levantar cortinas possíveis rumo à visualização a preto e branco dos factos.

De igual maneira, é o episódio da morte que neste Tornado inaugura uma narrativa marcada por inscrições domésticas, relembrando, certamente, que em cada Homem habita uma potencial novela digna de ficção. Talvez por isso, ao lermos Teresa Noronha ficamos com a vaga sensação de que a escritora fechou os olhos para ouvir os sussurros dos silêncios, identificando, de seguida, uma família normal, com ligações a África, Ásia e Europa. Nessa apresentação genealógica, é interessante a proposta de debate sobre a identidade, sobre como as pessoas se vêem em função dos olhos dos outros, sobre o que é ser moçambicano, goês ou português num mundo que atribui demasiada importância à cor dos anjos.

O contexto doméstico desta história, não obstante o quadro sombrio sempre atrás de alguma porta por abrir, é um leitmotiv para pensar a infância, parafraseando Maurice Blanchot, esse momento da fascinação, essa idade de ouro que parece banhada numa luz esplêndida porque irrevelada. No caso de Tornado, a infância é um lugar corrompido, para onde se regressa porque a maturidade resiste a aceitar o inesquecível. Logo, denota-se na personagem central uma espécie de conflitos tácitos entre a criança esperançosa, a adolescente irreverente ou a mulher inconformada.

A infância da narradora autodiegética (que integra o enredo como protagonista), presente sempre de forma cíclica, é crucial para a trama porque, historicamente, coincide com alguns eventos que contribuíram para a independência de Moçambique. Aí percebe-se que o tempo, para Teresa Noronha, é deveras importante, inclusive, porque é no rescaldo das lembranças da protagonista que se adivinham acontecimentos para lá da ficção. Na tenra idade iniciam os dramas da narradora. Do mesmo jeito, é na fundação do Estado moçambicano que as incertezas em relação ao futuro colocam uma certa sociedade eufórica e inquieta.

Partindo dessa história familiar, que aparentemente é sobre uma partida inesperada, Teresa Noronha tem o cuidado de se apropriar dos contextos da época em que escolheu fixar a narrativa. Assim, esses Moçambiques orientais, africanos ou ocidentais aparecem a recuperarem fragmentos que se foram perdendo nos labirintos da grande História nacional no último meio século.

À semelhança da protagonista de Tornado, cuja felicidade é condicionada pela morte prematura do irmão, o país que Teresa Noronha ficciona surge com cheiro à morte (veja-se os casos dos fuzilamentos públicos). Em determinados momentos da trama, a morte não é apenas o outro lado da fronteira, é uma imposição, se preferirmos, uma chantagem que se acredita contribuir para estabilidade social. A morte traduz a incapacidade de aceitar a diferença ou a intolerância acirrada quanto à indiferença, semeia ódio e ainda revela a ambiguidade da vida. Atenta a isso, a narradora atira: “A morte é uma floresta cerrada onde se escondem todos os segredos, anteriores, posteriores, todas as palavras que não encontram a luz do sol” (p. 13).

É no jogo repleto de suspense em que se movimentam as personagens, transportando a ficção a diversas regiões. Primeiro, os espaços são responsáveis pela definição e fixação realista ou não da história, conforme observa Yves Reuter. Segundo, propiciam a fundamentação das visões externas sobre as diferentes tonalidades raciais, étnicas ou culturais que constroem Moçambique. Falando de si, a narradora vitaliza uma condição sobre o contraste entre a afirmação e a negação, conforme o tempo e o espaço geográfico em que se encontra:

 

A nossa cor nunca foi a dominante. No tempo colonial não éramos brancos, éramos arraçados de monhés, canecos de cú lavado, o termo pejorativo para falar de um filho de goês e portuguesa. No período pós-colonial, eu não era negra e se, em Lisboa, me tomavam por brasileira ou por cabo-verdiana, já em França perdiam-se em cogitações sobre de onde seria e espantavam-se quando descobriam que era africana. Lá tinha de explicar as deambulações do meu ADN antes de assentar arraiais em Moçambique, (p. 38).

 

Escrevendo sobre a mocidade da personagem em permanente paralelismo com a de um território, incluindo essas situações ligadas ao sentido de pertença, Teresa Noronha humaniza determinados capítulos da História moçambicana, fazendo da verosimilhança um factor de inteligibilidade contemporânea. Este argumento ganha relevo com a reconfiguração do lugar, no entanto, nunca se trata de recontar episódios existenciais, mas, de certo modo, se trata de um processo de apropriação, de mergulhar na memória particular e transmissível, quiçá, para impedir a própria morte de morrer. Seja como for, o que se ouve no discurso é a narradora recusando-se a esquecer o tempo que passou. Quem pode esquecer o que passou?

                                                                           ***

Se, por um lado, toda a história é história das personagens, por outro, a manipulação dessa mesma história depende do narrador. No caso de Tornado, a protagonista acumula a função de narrar, de desenvolver ou sofrer acções. A enunciadora do discurso encontra-se profundamente envolta aos eventos. Sofre pelos outros e por conta própria, como se o destino a tivesse reservado apenas momentos de angústia. A melancolia é o principal fermento da narrativa. Logo, qualquer proposição alegre diluiu-se facilmente, já que Tornado também é isso: uma proposta antagónica entre a possibilidade de ser e a dureza da circunstância.

No meio de várias crises ideológicas e sociais, a narradora absorve, de facto, tempestades que a arrasam, transparecendo o estado do espírito com que os eventos são revelados. A esse respeito não há nada a esconder. Pelo contrário, é a necessidade de descrever acontecimentos, muitas vezes ao ritmo catártico do Yes, I have ghosts, de David Gilmour, que amplia o universo interior da protagonista. Ou seja, a narradora de Tornado sofre infinitamente pelas complicações do seu destino. A dor, essa sensação que segundo Anton Tchekov leva o Homem à perfeição, é tanta que o silêncio não sorve. Então, a tentativa de diálogo com a memória do irmão, à laia de monólogo interior, apresenta-se como o grande trunfo de um relato introspectivo totalmente diferente do que é habitual na ficção moçambicana. Assim é porque Teresa Noronha arrumou o universo diegético de modo a que a lembrança e o diálogo mudo com o morto, por parte da protagonista, sustentassem a narração direccionada a quem já perdeu a faculdade de resposta.

Basicamente, Tornado é uma construção anímica da protagonista que evolui em espiral. A ficção reúne fortes vestígios psicológicos adequados à tragédia grega. A personagem central é a síntese da narrativa. A história cabe toda nela, mas isso não a proporciona um domínio demiúrgico sobre as acções. O acto de narrar, claro está, é uma maneira de a narradora tentar compreender as razões de a sua própria vivência ter sido lesada, de certo modo, por uma entrega desinteressada ao amor e, depois, à liberdade.

O livro de Teresa Noronha é uma odisseia sobre a degeneração da vida e sobre o salto que sempre é possível dar em direcção à luz. É uma narrativa incisiva, na qual os tornados da narradora (receios, desilusões, perdas, solidão) se confrontam com tantos outros tornados que movem o mundo (preconceitos, intolerâncias, extremismos, racismos, patriotismos dissimulados). Realmente, há aqui uma lição sobre aprendermos a lidar com os fantasmas que nos rondam sem que a permanência dessas entidades nos sufoque. Tornado é uma história sobre matar esses fantasmas ou domestica-los.

 

Título: Tornado

Autor: Teresa Noronha

Editora: Exclamação

Classificação: 16

Quando o caso a ser julgado é o amor, os amantes podem queixar-se de tudo perante o tribunal da vida, menos da falta de avisos. Entretanto, porque os avisos estão sempre na tendência de rejeitar os acontecimentos vindouros, enquanto o desejo tem esta tendência de apelar à experimentação do inédito, este último vence amiúde o conflito entre a carne e a razão.

Elvis Presley já nos havia adiantado da força motriz do desejo sobre a sensatez das advertências, quando cantou:

 

“Wise men say

Only fools rush in

But I can’t help falling in love with you”

 

Será o amor Eros um doce e trágico fenómeno que jamais falha o seu alvo, por mais sábias advertências haja contra si? Infelizmente, a poesia de Énia Lipanga, no livro “Para enxugar as nódoas dos meus olhos” não se configura como uma resposta a esta questão, senão como um efeito melancólico do que acontece com o alvo abatido pelo próprio amor.

Destarte, nestas linhas que seguem, a mais importante preocupação a ser atendida será conhecer a verdadeira natureza do amor eros através dos mais doces e maus tratos que este deu ao sujeito poético exposto na obra em referência.

A julgar pelo belo e triste título “para enxugar as nódoas dos meus olhos”, já se pode adivinhar a natureza tampouco feliz dos versos que nos aguardam. E se a causa das nódoas dos olhos (lágrimas) tem a ver com este sentimento chamado amor, há já primeira razão para olhar-se para este sentimento com ar de tão poucos amigos. Afinal, por que algo que se diz tão belo e nobre poderia ser motivo das nódoas dos olhos de Lipanga?

Talvez, só se a nossa autora lhe tiver dado as razões para mostrar-se-lhe rude ao ponto de causar-lhe as indesejadas lágrimas. Vejamos como o sujeito lírico descreve a sua relação para com este sentimento e de que modo o amor lhe reage. Comecemos com o poema que mostra o sujeito na condição de uma ultra serva:

 

Como queres que eu te ame?

Diz-me

De que canto dos teus lábios queres meu beijo

 

Como desejas que seja

Queres-me de olhos fechados ou preferes que veja?

Quantas pinceladas da minha língua?

 

Como queres que eu te ame?

Que cor devo usar para tingir o teu abraço?

Diz-me como queres que eu sente?

 

Queres que venha calma e suave

Que seja as asas da tua ave?

Ou que te esmurre de bruços (entre sussurros)?

 

Não importa!

Como queres que eu te ame?

Diz-me a tua fórmula

 

Sim, amo-te, mas diz-me

De que forma queres.

 

Neste poema, é nítida a submissão do sujeito lírico assim como o seu desespero em garantir a satisfação plena da coisa amada, como se não bastasse o simples facto de nutrir o amor por ela (a coisa). Veja a maneira suplicante com que termina o mesmo poema: sim, amo-te, mas diz-me de que forma me queres.

Se estes versos não denunciam com clareza o bem-querer do sujeito lírico pela coisa amada, dêmos oportunidade a estes que seguem:

 

Para mim

Deus

Ter-te-ei para mim

Após dar-te oferendas ajoelhada no teu altar.

O pulso da tua firmeza

Desbravará a mata dos meus lençóis

Meu Deus preto.

Suplico beber do veneno da tua língua

E continuar sobre a sombra do teu braço

Para mim,

Bastam-me estes milagres.

 

Como vê, caro leitor, a veneração do sujeito poético é tão intensa ao ponto de endeusar a coisa amada, prometendo-lhe oferendas num estado de prostração.

E para encerrar quaisquer dúvidas sobre a devoção e os bons tratos providenciados pela autora, no poema sentença, pode ler-se versos de hospitalidade como “eis o meu coração, a tua última morada segura” ou versos de discernimento presentes ainda no mesmo poema “crias que aquilo fosse felicidade, desconhecia sossego e orgasmos, pensavas apenas que ter paredes era tudo”.

Em função desta boa entrega e dedicação do sujeito lírico, era suposto que houvesse uma correspondência de gratidão por parte do amor, mas tal expectativa fracassou. Ao longo do desenrolar da poesia, notamos mais descuidos e sofrimento do amor que o sujeito poético vai narrando com uma certa angústia. Num dos poemas, o sujeito poético chega a denunciar a ingratidão manifesta por este sentimento a que tanto se dedicou.

 

Plantio

Primeiro

Ele escolhe o pedaço de terra

Sacha

Remove as ervas daninhas

 

Segundo

Ele remove todas as impurezas

Rega

Fertiliza

 

Terceiro

Ele lança a semente

Noutra terra:

Virgem.

 

Com este poema e outros da mesma índole, torna-se cada vez mais clara a ingratidão e, sobretudo, a irreverência do amor. Duma natureza incontinente e inconsequente, segundo a poesia melancólica de Lipanga, o amor reitera a sua inconquistabilidade ante bons actos ou belos sacrifícios contrariando as expectativas dum coração comum. E esta irreverência do amor vai além da manifestação artística, ela se observa em várias histórias da vida real de gente que ora despende fortunas na tentativa de conquistar o amor duma donzela, sem sucesso, ora mostra virtudes qualificáveis para merecimento do amor tais como fidelidade, paciência, cordialidade, protecção e generosidade, mas que se deitam por água abaixo.

A poesia de Lipanga é mais uma confirmação de que na matéria de amor, desconhece-se a fórmula da sua conquista. Casos diversos já houve do amor que nascesse e aumentasse em relações abusivas e sem mínima reciprocidade. Por esta razão, nunca a culpa do insucesso duma relação caberá somente ao amante dedicado ou ao amado desinteressado, quando o próprio amor se afigura irreverente, incontinente e irresponsável por natureza.

Se calhar, a melhor forma de lidar com este sentimento fosse aproveitar o momento (carpe diem) sem guardar as esperanças de que o amor dure até o dia de amanhã. Deste modo, evitar-se-ia indagações do tipo “um nó eterno fez-se pó?” Ou fosse melhor enveredar esforços similares tomados pela autora no sentido de ir olvidando este sentimento que, no lugar do prazer, começa a plantar a dor da ausência. Ademais, esperar continuamente pela imprevisível carícia do amor também cansa, como diz a própria poetisa, “os deuses também cansam”. Sendo assim, inconsolável e sabendo que as promessas têm bolor e já fedem” o sujeito lírico decide partir para longe de tal sentimento irreverente com os mais variados seguintes versos:

 

Passado

Regressas à casa que abandonaste

Será que do amor há resíduos?

Tentas remover os escombros que me cobrem

Queres encontrar-me, não é?

 

Sacodes dos lençóis sobras do nosso prazer

Recolhes do nosso quintal as tuas folhas falecidas

E vês: o meu sorriso não é mais lágrima

Sou luz que escapa das frestas das chapas da casa.

 

Tuas frases são este livro já lido

Tentas cavar os nossos sonhos no caniço

Mas é já impossível

Há poeiras, há chuvas

 

A cor não é a mesma.

 

Com estes versos, notam-se esforços da parte da autora em avisar que, se o amor nasce, também pode morrer e ficar enterrado no passado. Entretanto, a tarefa de olvida-lo nunca foi fácil. Qualquer distração pode ser suficiente para remeter-nos a ele, pois este tem andado em “todos os caminhos”. Para poetisa, esta omnipresença já nem lhe causa comoção, chegando a escrever que “sorrio/ não do susto,/ Já não me surpreende/ encontrar-te em todos os caminhos”.

Quase a findar a narração do seu doce, intenso e malogrado amor por Alves, o seu único, o sujeito lírico revela-nos na sua última poesia a sua apaixonante e culpada vulnerabilidade.

 

Apenas sinto

 

Tenho o cuidado de carregar as imagens com as mãos

Sem apreciar a cintilação das estrelas

 

Teimo em comprar sem ler o rótulo

Não consigo pensar

 

Sinto somente

Não existe cola para prender os meus pés no chão

 

A solidão é contrição

O passado é onde escolho sentir.

 

É deveras um poema a partir do qual se deve perguntar vale a pena entregar-se ao amor ou armar-se contra ele? Apesar da sua mesquinhez e irreverência, o amor mais profundo e mais íntimo possível só se experimenta quando se é vulnerável, na medida em que este é o sentimento que mais requer a integridade dos que amam. Armar-se contra ele significaria escolher a razão como guia rígido da vida em detrimento da emoção. E a razão tem muito de prevenir do que arriscar ao contrário do coração. Já discutia Sócrates com um sofista sobre a felicidade. O filósofo identificava a felicidade com ausência de prazeres carnais e controlo racional da vida. Por sua vez, o sofista entendia que a felicidade é a contínua satisfação dos desejos, chegando a acusar Sócrates de querer que o homem viva feito zombie na matéria do sentir.

Enfim, mais uma vez, insisto na pergunta, vale a pena sentir o prazer do amor eros e no final pedir uma toalha branca “para enxugar as nódoas dos meus olhos?” ou melhor jamais atrever-se a conhecer o doce beijo dum amor incontinente? O direito à escolha está em cada um dos leitores. Entretanto, a nossa poetisa fez a sua escolha e, hoje, passou o testemunho de quem amou e decidiu seguir adiante com doces e incómodas recordações que não a mataram, senão torna-la mais forte.

 

LIPANGA, Énia. Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos. 1ª ed. Gala-gala Edições, 2021.

“Gerson, estás a dizer aqui neste artigo que temos de ter mentores para nos ajudarem nas nossas carreiras!  Mas, afinal de contas, o que é isso de mentores? Porque aqui na town agora, há muitos mafiosos a quererem se passar por intelectuais. Como podemos diferenciar esses tipos?” Este foi um dos feedbacks que recebi, do Gaspar Malik, com relação a um dos conselhos que dei, no último artigo, sobre a importância de ter mentores que nos ajudem nas nossas carreiras profissionais.

Mentores são “sábios conselheiros”, dotados de experiência, que servem de guias, estimulam, inspiram e nos orientam com ideias com vista a realização dos nossos projectos profissionais e/ou espirituais.

Eu creio que existam duas categorias de mentores, o primeiro grupo que pode orientar num domínio específico e outro pode orientar “sobre a vida”. Creio que a preocupação do Gaspar Malik está principalmente neste segundo grupo.

 

Como escolher mentores

Experiência do mentor é o elemento primordial a analisar e ponderar antes de escolher um. A vida têm  estações, tal qual um ano: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Isto quer dizer altos e baixos. E só quem passou por estas estações é que lhe pode falar sobre elas. Livros, experiências dos outros vão apenas dar-lhe ideias que lhe podem ajudar e orientar, no entanto, apenas as pessoas que realmente viveram certas situações tem legitimidade para falar na primeira pessoa. Existe uma enorme diferença entre “saber sobre algo” e “ter vivenciado certa realidade”. Só quem viveu pobreza pode lhe falar daquelas noites em que acorda esfomeado depois de ter sonhado a comer algo de bom, e se esforçar para voltar a dormir, porque sabe que só a meio do dia seguinte poderá comer um pão “sem nada” e água quente com açúcar para acompanhar. A experiência junta-se a idade, só a partir de uma certa idade é que nós podemos medir se alguém já passou por certas experiências profissionais e/ou da vida. Não me estou a contradizer com relação à minha filosofia sobre recrutamento, para recrutar uma pessoa para trabalho, a pessoa tem de ter talento, não experiência. E o talento pode ser demonstrado ainda muito jovem. No entanto, para orientar outras pessoas é preciso que o dito mentor tenha conhecimentos sólidos sobre a matéria em causa e ter passado, pessoalmente, por “algumas estações do ano”.

 

Não desista; se fizeres Z te garanto que terás Y; o sucesso é isto e mais aquilo

A alguns dias vi no Facebook, um post em que alguém dizia “A experiência transforma” e outro, em sua publicação, por sua vez, escreveu “A vida se resume na resolução de problemas”, ambos assinam e colocam suas fotos como quem diz, eu tenho algo a dizer. Sinceramente!!! Alguns até escrevem livros feitos apenas de compilação de ideias tiradas de livros de outros autores. Fico triste ao ver isto porque acredito no trabalho positivo que mentores exercem na vida dos demais, principalmente, mentores de vida, no entanto este grupo de gente descredibiliza esta disciplina e os verdadeiros mentores.

Muitos destes indivíduos que falam sobre sucesso não tem a mínima ideia do que é realmente sucesso. É verdade que cada um pode definir seus critérios mas há que ter bases e essas bases são, ou poderiam ser, na minha opinião, por exemplo: Ter uma profissão, ou fonte de rendimento (não mero emprego) que lhe permita pagar suas contas e ter um extra que possa beneficiar aos outros; Ter uma boa relação com família (não apenas ter filhos e mulher); Ter amigos (estou a falar de amigos que atravessam estações do seu lado); Espiritualidade (me refiro a seu propósito na vida, de que forma e até que ponto esta pré-disposto a servir o próximo durante a sua existência). Aqui não estamos a falar de ter muito dinheiro, casa, viajar, ter “amigos” falsos. Estamos a falar de ter um certo equilíbrio em cada um destes sectores como critério para definir sucesso.

Vamos lá agora pegar o exemplo de “um Samuel Gerson”, de apenas 40 anos e que ousa dizer a um terceiro “não desista” da vida. É bonito e talvez verdade, mas que legitimidade tenho eu para dizer algo parecido. Quantas estações já se passaram para poder falar “da vida” a quem quer que seja? Como posso falar de sucesso na vida se meus filhos tem apenas 10 e 12 anos, com estas idades (apenas) me obedecem, não sei se realmente me respeitam ou me têm como uma inspiração. Será que sou realmente um bom pai? Será que realmente estou a constituir uma família ou tenho apenas filhos? Como posso falar de sucesso profissional se estou ainda entre o plantio e pequenas colheitas. Como posso garantir que sou espiritualmente elevado se não posso ainda medir o impacto da minha vivência na vida das pessoas que amo (principalmente meus filhos)? Depois vem essa outra parte em que estes ditos mafiosos ousam dar garantias aos outros. “Se fizeres Z lhe garanto que terás Y”. Mesmo Jesus, profeta que foi, não deixava de (se) colocar questões. Quem somos nós para garantirmos algo aos outros? A vida não oferece garantias a ninguém e em circunstância alguma.

Um bom mentor, via de regra, têm uma boa qualidade de escuta, coloca várias e boas perguntas e consequentemente fala pouco; um bom mentor não lhe dita as decisões a tomar, lhe orienta para que tomes suas próprias decisões; um bom mentor não lhe faz cobrança; um bom mentor incentiva.

A vida ela se passa de maneira diferente para cada um de nós, para alguns ela não cria muitas complicações, para outros ela pode ser bastante “estúpida”. E por que ela é assim?  Porque é a vida. Apenas por isso. Eu acredito, que, em alguns casos, o que se passou com alguns pseudo mentores foi que a vida não lhes causou muitas dificuldades, acabaram acreditando que tal se deveu, simplesmente, ao seu mérito (sem querer lhes tirar o mérito dos seus esforços) e por isso que começam a escrever “dizeres”, sobre os quais muitas vezes eles mesmos ignoram a origem e/ou o racio, por detrás. Não leiam dizeres de pessoas sem legitimidade, mesmo se o que escrevem parecer verdade, sob pena de perderem interesse e não se sentirem estimulados quando realmente forem a precisar.  Espero que algumas destas dicas que aqui partilhamos possam  ajudar a selecionar um bom mentor. Eu disse um bom, mas aconselho a ter e manter alguns, não apenas um. Um Espiritual, outro no domínio profissional,um para questões emocionais e por aí em diante. Seja um bom estudante do que cada um deles lhe ensina e não um seguidor cego. EU ACREDITO EM NÓS.

Recomendação de livro para o mês de Janeiro 2022: Poder da Mente  – “Agostinho Levieque”

Samuel Gerson Andrisse

Especialista Internacional em Recrutamento

Presidente do Pelouro Diáspora da Associação Moçambicana de Empresas e Profissionais de Recursos Humanos – AMEPRH

Autor do livro “Be ready for your next job interview”

28 de Dezembro de 2003. Pavilhão do Maxaquene! Qual ovo de Colombo, a “catedral” do basquetebol indígena rebentava pelas costuras. Não havia espaço sequer para uma agulha!

Vivi, e com inusitado entusiamo, 40 minutos do duelo Moçambique vs Nigéria que foram um autêntico regalo para os sentidos. Maldita Mfon Udoka, estrela-mor da Nigéria que nos roubou o sonho de marcarmos presença, pela primeira vez na história do basquetebol moçambicano, nos Jogos Olímpicos de Verão. Precisamente em Atenas, corria o ano civil de 2004, lá onde o árbitro moçambicano Abreu João atingiu o pico da sua carreira.

Não há nada de bom que se possa dizer da sua passagem (Mfon Udoka) pelo pavilhão do Maxaquene, comandando a armada nigeriana com 28 pontos na dramática quanto amarga derrota de Moçambique (69-63) na final. Provocou-nos tamanha agonia.

Os 20 pontos de Clarrisse Eulália Machanguana (“Match”) e entrega total do conjunto então orientado  pelo americano Nelson Guiliam Isley não foram suficientes para tocarmos o céu. O limite, pois claro. Em boa verdade, diga-se, e após o término do quarto quarto, “fomos todos as lágrimas” de Deolinda Carmen Ngulela, Carla Denise Pedro Botão Comissário da Silva, Clarisse Eulália Machanguana, Ana Domingos Soeiro Branquinho, Nádia Navessa Noormamad Rodrigues, Ana Flávia Azinheira, Iracema Paulo Ndauane e Rute Elias Muianga.  Entusiasmo refreado! É como se o mundo tivesse desabado! O silêncio magoava como socos na garganta! Há precisamente 18 anos, com todo protocolo observado para campear, Moçambique sofrera uma derrota difícil de digerir.

Não se pode, nem tão pouco, acusar as meninas de não terem tido “pedigree” para açambarcar o título. Pelo contrário: fizeram história, nas vésperas colocaram em sentido a senhora equipa do Senegal com incrível parcial de 20-0 com 5:00 minutos por se jogar no primeiro quarto.

O homem das inúmeras tácticas de ataque, Nelson Guiliam Isley, coadjuvado por Nasir “Nelito” Ismael Issufo Salé e Francisco “Chico” da Conceição anulou, nas meias-finais, o temível Senegal que caiu com estrondo com a derrota por 63-62!

Consolou-nos ver Deolinda Carmen Ngulela, fabulosa base-armadora, ser coroada MVP (jogadora mais valiosa) do Campeonato Africano de Basquetebol. Elevação de qualidades acima da média, demostração de toda uma classe e espalhar de um perfume cujo aroma até hoje “mora” na Académica.

Ngulela encheu a quadra: dribles em progressão, capacidade de fazer o passe no “timing” certo, excelente nos ataques posicionais e espírito de liderança e motivacional!

Processos consolidados depois de se transferir para os EUA: Seward County Community College, NJCAA, e Augusta State University, NCAA.

A sua carreira foi escrita, sempre e sempre mesmo, com encanto pelas actuações de extrema competência. Tão competente que, em 2015, aquando da sua retirada dos palcos internacionais, a FIBA-Africa destacou-a: “Deolinda Ngulela ganhou vários prémios individuais ao longo de sua carreira no basquetebol, o mais recente deles foi eleita a melhor armadora do “Afrobasket 2015”.

Há, e como, uma indisfarçável frustração de não ter testemunhado a consagração ao nível de selecções de uma geração de atletas com enorme qualidade.

Sim, sem sombra de dúvidas, porquanto o título de campeão africano de clubes conquistado pela Académica dois anos antes, 2001, em Abidjan, Costa do Marfim, indicava os passos certos a dar para se chegar ao olimpo de África.

De resto, foi assim com a Nigéria. No mesmo ano (2003) em que conquistou o seu primeiro “Afrobasket”, colocara o First Bank no topo do Campeonato Africano de Clubes (Taça dos Clubes Campeões Africanos), prova conquistada, curiosamente, em Maputo.

Mas, afinal, quem fazia parte da equipa do First Bank que conquistou a 10ª edição da Taça dos Clubes Campeões Africanos, prova na qual o Maxaquene de Carlos Ibrahimo Aik ocupara a 3ª posição com saldo de três vitórias e duas derrotas? Caros patrícios, nada mais nada menos que seis  atletas que compuseram a astuta selecção da Nigéria campeã africana: Mfon Udoka, Aisha Mohamed, Funmilayo Ojelabi, Mactabene Amachree,  Patricia Chukwuma e Nguveren Iyorhe.

Um momento, certamente, para nunca olvidar! Ter na retina. Enorme apoio do público como se voltou a ver na também magnifica campanha no “Afrobasket” 2013, que culminou com o segundo lugar na prova e inédita qualificação para o Mundial de basquetebol da Turquia (2014).

Engavetamos, por momentos, os egos que fazem escola numa das modalidades colectivas que orgulha o país. Unidos numa causa, fizemos do pavilhão do Maxaquene um “inferno” para os nossos adversários.

Em pararelo, toda uma estrutura montada pelo elenco de Aníbal Aurélio Manave (ndr: na altura presidente da Federação Moçambicana de Basquetebol) foi determinante para o sucesso, feitas as contas, do “Afrobasket” 2003. Aliás, e outra coisa não seria de esperar, Manave respira basquetebol. Vive a modalidade da bola ao cesto!

Uma vitória diante da frágil África do Sul, a 18 de Dezembro, foi o mote para acionar o rolo compressor ainda na fase de grupos, e embalar para novos triunfos diante dos Camarões (70-47) e Tunísia (93-51). Pelo meio, a 20 de Dezembro, uma derrota com a incómoda Angola (73-66) não abanou a nau. Cumprida a primeira missão, com a qualificação para as meias-finais, havia que derrubar o hendecampeão Senegal.

Embaladas no ritmo frenético da competição, as comandas por Nelson Isley disputaram cada lance como se fosse o último, superaram-se e brindaram aos moçambicanos com a qualificação para a finalíssima. A receita para a final com a Nigéria era: concentração total e crer. Falhámos nos momentos cruciais, mas demos claras indicações do enormíssimo potencial e qualidade do basquetebol moçambicano. Estrondosa ovação, por isso, às vice-campeãs africanas de 2003!

Proporcionaram-me, ainda foca na profissão e movido pelas leituras constantes do extinto “Campeão” e recomendadas leituras de Franz Kafka, Fiódor Dostoiévski, Gabriel Garcia Márquez, Ernest Hemingway, Carlos Drummond de Andrade, Luís de Camões, entre outros, momentos de grandes emoções! “Khanimambo”, basquetebol! Obrigado, Milton Machel, pelas lições e ensinamentos!

Onde nós começamos é onde nós terminados.

in “Where we start”, David Gilmour.

Boa tarde a todos!

Começo esta intervenção com um exercício anacrónico. Há umas semanas, no outro lado da cidade, a Alcance Editores lançou o livro O rosto e o tempo, antologia poética que reúne textos publicados por Armando Artur ao longo de 35 anos de percurso literário. Durante a cerimónia, lembro-me de ter ouvido Albino Macuácua (apresentador do livro), Lucílio Manjate (organizador da antologia) e Álvaro Taruma (poeta convidado ao evento) sublinharem qualidades literárias arturianas, apoiando-se no argumento de que Armando Artur é um autor comprometido com questões ligadas à reinvenção do ser, oscilando nessa fronteira entre o estético e o filosófico.

Taruma até foi mais longe, ao defender que Armando Artur é a prata da poesia moçambicana, sendo José Craveirinha o ouro inalcançável. As posições de Macuácua, Manjate e Taruma despertaram-me a seguinte pergunta: como é que se podem resumir as qualidades de Armando Artur, exaltadas na cerimónia de apresentação de O rosto e o tempo? Ao invés de uma resposta assertiva, naturalmente, ocorreu-me o termo génio. No entanto, nada a ver com o génio da lâmpada dos desenhos animados de Aladdin, que os meus filhos tanto gostam. A noção do génio a aqui invocada tem a ver com essa entidade demiúrgica que, durante o Romantismo, acreditou-se ser responsável pelo processo criativo dos poetas.

A noção do génio romântico é interessantíssima, pois contribuiu para o surgimento da grande crítica literária moderna, o Biografismo, que teve como expoente o francês Saint-Beuve. O Biografismo defendia que para se estudar a obra, antes, devia-se desenvolver um estudo aprofundado sobre o autor. Por exemplo, com enfoque nos seguintes aspectos: origem, naturalidade, relações de parentesco, de afecto, os gostos, as preferências e as convicções do autor. Para teoria biografista, havia uma ligação umbilical entre o autor e a obra. “Tal árvore, tal fruto”. Assim, para a compreensão da escrita, acreditava-se que o crítico tinha de conviver com o autor, pois todos os aspectos da sua vida encontram-se reflectidos na obra.

Apesar da sua importância, sobretudo como referência da crítica literária moderna, o Biografismo mereceu muitas críticas. Afinal, a escrita é uma coisa e o autor é outra. A obra não traduz necessariamente o que o escritor/ poeta pensa ou acredita. Aliás, sendo o poeta um fingidor, conforme sugere Pessoa, sempre pode escrever sobre matérias contrárias as suas próprias convicções. Segundo, os críticos dedicavam-se mais a estudar o autor do que a sua escrita.

No séc. XIX, o Método Histórico Filológico aparece como proposta, digamos, actualizada para os estudos literários. Ao contrário dos biografistas, o historicista Hippolyte Tain vai propor o estudo da obra mais focada ao contexto de produção, se preferirmos, a aspectos históricos. Quer dizer, nesta perspectiva não há um génio que vai conspirar para que o autor tenha qualidades únicas e irrepetíveis. Esta teoria baseia-se no ambiente civilizacional. Isto quer dizer que, enquanto o Biografismo entendia que o autor é singular, logo a sua obra também, o Método Histórico Filológico defendia que não existem qualidades únicas e irrepetíveis e que as condições sociais contribuíam para que os autores tenham semelhanças. Portanto, para o Historicismo, o que no Biografismo torna o autor génio, mediante questões psicológicas, é fundamentado por aspectos sociológicos: raça, meio e momento. Quer dizer, as pessoas da mesma raça, do mesmo meio e do mesmo tempo apresentam proximidades criativas. Como se pode depreender, este entendimento foi ultrapassado ao longo dos anos.

Ora, iniciei a minha intervenção com esta breve apresentação teórica porque o livro de Armando Artur, Minhas leituras e outros olhares, nos conduz ao melhor que o Biografismo e o Historicismo propõem. Por um lado, ao lermos este livro compreendemos que autores foram determinantes na estruturação do pensamento arturiano, desde a adolescência até agora. Esta é uma viagem pelo tempo que permite delinear a biografia intelectual do poeta, isto é, uma biografia diferente daquela que assenta em questões mais pragmáticas: natalidade/ naturalidade, descendência e etc. Na verdade, com este exercício pausado, introspectivo, Armando Artur sublinha o que não deve tão-pouco constituir novidade: os intelectuais e todos os que aspiram a escritores são produtos de leituras e do que fazem com isso. Certamente, há aqui uma espécie de filiação literária imprescindível a quem se interessa pela escrita do poeta.

Por outro lado, os textos escritos e publicados no jornal O País, entre 2019 e 2020, como se lê na nota do autor, “constituem simplesmente um olhar de um leitor apaixonado e extasiado por outros cultores”. Dito de outro modo, o livro não traduz apenas um eterno respeito pelos seus heróis da palavra. De igual modo, aduz uma apreciação desinibida e espontânea sobre os fundamentos da escrita dos autores contemplados. Portanto, não se trata aqui de crítica literária ou ensaio com proposições académicas. Não. Ao invés disso, o nosso autor optou por um exercício mais íntimo, através do qual se posiciona como leitor do mundo.

Os 10 livros poéticos publicados por Armando Artur desde 1986 não são consequências directas das leituras que o autor fez, conforme diriam os biografistas. No entanto, essas mesmas leituras, ao conduzirem o poeta pelo universo das descobertas, consentiram a construção de territórios literários onde habitam sujeitos preocupados com a referida (re)escrita do Ser, no cruzamento entre o estético e o filosófico.

Todo o leitor tem referências literárias. Entre as suas, Armando Artur destaca Luís Bernardo Honwana, Marcelino dos Santos e tantos outros poetas e escritores que deixaram de ser estrangeiros porque, como os nossos, já não cabem em muros construídos em jeito de fronteiras. Por exemplo, Carlos Nejar, Pablo Neruda, Franz Kafka, Khalil Gibran, Mikhail Gorbatchov, Albert Camus, Paul Éluard e, claro, Sophia de Mello Breyner Andresen. Com alguns destes autores, Armando Artur conviveu e fez-se amigo. Ficamos a saber disso ao lê-lo e a grande consequência que daí advém é mesmo essa: conhecimento alargado sobre os autores retratados.

De facto, num primeiro momento, Armando Artur assume as referências literárias sobre as quais escreve como o fio condutor de uma trajectória biográfica, ao nível intelectual, que se deve tirar o maior proveito. O poeta é a ligação entre a obra imortalizada (dos outros) e a sua (própria) experiência na condição de leitor voraz. Logo, em Minhas leituras e outros olhares não se aprofundam conhecimentos sobre o homem, as suas relações, os seus amores, as suas decepções, a sua carreira profissional ou realizações de vida, mas aprofundam-se conhecimentos sobre os seus universos intangíveis, nos quais habitam a matriz, a forma e, quiçá, as principais ferramentas do trabalho literário.

Porque ao exprimir-se, na verdade, Armando Artur também está a pensar nos outros, o seu livro também funciona como introdução às leituras que construíram autores de sua geração. Assim, este livro composto por 155 páginas condiz, parcialmente, com a visão de Hippolyte Tain, quando o crítico francês afirma que não há particularidades únicas e irrepetíveis entre os autores, pois a época e as condições sociais contribuem para que os poetas apresentem semelhanças (em muitos casos, sem se terem lido). O meio e o momento podem contribuir para o que Julia Kristeva designa intertextualidade, todavia, não há aí receitas e nem sequer prescrições teóricas do que literalmente aproxima ou deixa de aproximar a escrita de autores contemporâneos ou conterrâneos.

Em todo o caso, Minhas leituras e outros olhares é um livro através do qual podemos captar os títulos que, por exemplo, os escritores nacionais, hoje consagrados, leram desde os anos 80. Quem se interessa pela história literária de Moçambique ou pelo processo evolutivo dos nossos autores vai encontrar neste livro marcas indeléveis de como a arte da palavra, no país, consolidou-se ao longo de décadas na sua relação com o exterior. A literatura nunca se trancou a um território, seja de pedra ou imaginário, e muito menos se limitou a uma orla hidrográfica. Afinal, bem sugere Guimarães Rosa, há sempre uma terceira margem do rio que, inclusive, nos faz exploradores de nós próprios e das nossas circunstâncias.

A literatura sempre superou contextos, crises e desastres, edificando, com efeito, pontes que viabilizam travessias seguras e constantes, nem que seja para um lugar qualquer. Honestamente falando, penso em Minhas leituras e outros olhares como uma ponte que nos convida a olhar o passado com acuidade. Neste mundo tão acelerado e que o presente parece eterno, é importante parar, contemplar, lembrar e reconhecer a relevância desse lugar comum que são as nossas memórias.

A paixão pela arte literária é o grande pretexto para esta viagem pelo passado que, definitivamente, projectará futuros de todos que souberem aproveitar as várias lições encobertas. É como entende Ricardo Santos, o Escutador de silêncios, está aqui um manual de leitura para aqueles que pretendem ser poetas e escritores. Aliás, há milhares de anos, Horácio, em A arte poética, já defendia que apenas se torna poeta quem antes investe na sua própria formação. Se reconhecermos o papel formativo da leitura no desenvolvimento das habilidades linguísticas, realmente, a partilha de Armando Artur tece possibilidades irrepreensíveis na apresentação de obras que se devem ler antes de se ousar escrever um verso.

Como diria Levi-Strauss, as obras e os autores a que se refere Armando Artur, neste seu novo livro editado pela AEMO, despertaram no poeta pensamentos desconhecidos. Julgo que esta asserção é importante considerar porque o mesmo acontecerá, certamente, com quem for a lê-lo.

Minhas leituras e outros olhares não é um lugar de certezas, é, sobretudo, um lugar de partilha de emoções. Tudo começa com literatura, com poesia para ser mais específico. Depois, lá segue a ficção a colocar altas doses de prazer na oficina da palavra. E porque a escrita literária não está desligada dessas vicissitudes humanas a que Kafka baptizou de Metamorfoses, Armando Artur pensa o lugar da humanidade no planeta, demonstrando a sua sensibilidade política na interpretação dos fenómenos sociais. Ao escrever sobre a obra do último líder da União Soviética, por exemplo, afirma:

Há muito que se aprende lendo Perestroika de Mikhail Gorbatchov. E também há muito que se diga sobre o mesmo livro. Muitas das questões e análises trazidas ao de cima mantêm-se actuais. Se o processo moçambicano pode ou não aprender com a perestroika, eu diria que sim, e muito!, uma vez haver, em muitos aspectos, semelhanças e dissemelhanças (p. 70).

Nesse excerto, Armando Artur refere-se ao contexto político moçambicano, que, no passado, tanto se inspirou no marxismo-leninismo e no stalinismo soviético. O poeta sabe, com efeito, o que a restruturação gorbatchoviana significa num país em que a corrupção e os jogos de poder que a preserva envergonha todo um Estado, como se tem dito, com tudo para dar certo.

A referência à Perestroika, neste livro, parece-me muito oportuna para o contexto em que vivemos. Armando Artur soube ir buscar a algum lugar, lá atrás, um livro decisivo para entender a actualidade sem confrontos, possivelmente, indelicados. O bom trato intelectual, disfarçado em poeta e num exercício de memória possibilita-lhe dizer muito sem ter de atravessar atalhos armadilhados.

O que começa com a badalada Perestroika, continua com Os condenados da terra, de Frantz Fanon. Esse é outro livro obrigatório para quem pretende aprender a pensar o país e o continente. No seu texto, Armando Artur provoca o leitor, convidando-o a responder a perguntas retóricas. Por isso, ao invés de algumas respostas: “Deixo aqui o leitor, dentro da sua liberdade, fazer as suas próprias conjecturas”, (p. 77).

Com a menção a’Os condenados da terra, Armando Artur faz uma ode ao pensamento africano, lembrando-nos que, à semelhança do passado, não devemos tolerar qualquer tipo de opressão. Portanto, o poeta, com estas Minhas leituras e outros olhares, faz da literatura um excelente objecto semiótico na busca pela compreensão do indivíduo, do território nacional e do espaço continental. Pode-se reconhecer esse apanágio em “África responde a Sarkozy”, um texto acutilante, profundo e reflexivo, em que o autor exibe perspicácia na revisão bibliográfica.  “África responde a Sarkozy” trata de temas muito actuais, desde o colonialismo, o racismo ou mesmo o preconceito sempre baseado em coisas fúteis.

Para terminar, leio aqui duas passagens que, de alguma forma, resumem o que disse até aqui e que justifica a leitura desta obra. A primeira passagem é extraída do prefácio assinado por Ungulani ba ka Khosa. Diz o seguinte: “É sempre reconfortante conhecer a estante de livros dos escritores e poetas. É lá que descortinamos as suas grandes famílias literárias e, por vezes, assistimos, deslumbrados, à emersão de parte da oficina literária”, (p. 7).

A passagem seguinte, com efeito, é do próprio Armando Artur: “Penso que qualquer que seja um texto literário, neste caso, da lavra de um poeta, haverá nele inegavelmente marcas da sua vivência literária e social”, (p. 14).

Ambas as passagens são testemunhos de toda essa carga textual que proporcionam ao leitor, aos potenciais escritores e estudiosos de literatura, matéria indispensável para pensarem a escrita de Armando Artur e dos autores sobre os quais escreve. Há-de ser por reconhecer a relevância disso que, umas semanas depois de ter tido o privilegio de publicar, no jornal O País, o que agora é primeiro texto do livro (não digo o título de propósito, para que fiquem curiosos), um agente de um poeta brasileiro enviou-me um e-mail a solicitar os contactos de Armando Artur, sem esconder a admiração ao nosso poeta ou pelo menos ao seu texto. O agente estava deslumbrado com esse primeiro texto deste livro e… mais não digo porque as narrativas abertas, claro está, estimulam a imaginação.

Muito obrigado a todos!

 

[1] Texto escrito de cor (e ampliado) na sequência da apresentação do livro Minhas leituras e outros olhares, de Armando Artur. A cerimónia de lançamento realizou-se dia 8 de Dezembro, na AEMO.

Por Armando Artur

Acontece um pouco por todo o lado, e de forma recorrente, o público leitor ser presenteado com peças textuais publicadas tanto nas redes sociais quanto na imprensa escrita. Para os que estão atentos ao fenómeno,  são artigos da lavra, invariavelmente, das mesmas pessoas, quer seja no Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, entre outros espaços de expressão portuguesa, e não só, ora assinando pelos próprios nomes, ora, para confundir,  sob pseudónimos, mas com o objetivo inexorável e iniludível de assassínio de carácter.

É uma prática que decorre da tomada de consciência da sua própria pequenez, da sua crónica invisibilidade, do seu distante reconhecimento, cuja manifestação traz ao de cima a falta de educação básica em termos de civilidade e urbanismo. Este fenómeno manifesta-seem vários sectores de actividade da sociedade, desde os campos políticos, económicos, académicos aosartísticos-culturais. Digamos que é um velho e execrável paradigma de afirmação a todo custo, mesmo que para isso seja necessário urinar nos pedestais da História colectiva ou mesmo daqueles que, em algum momento das suas vidas, tenham sido fundamentais como suportes, o que configura pura ingratidão de quem, claramente, enferma de complexo de Édipo! O que importa, sim, é tornar-se conhecido na sociedade, não pela postura irrepreensível, pelo lado do trabalho árduo e abnegado, pela qualidade desse trabalho, mas sim tornar-se uma espécie de vilão “respeitável” efamigerado, pelo desplante e atrevimento de, sistematicamente, pôr em causa aqueles que são referências positivas da sociedade. Por isso é que se vai pelo lado mais fácil, de baixeza, de falta de pudor,bastando para isso apenas coragem, mas muita coragem, como faz qualquer um sicário.

Acreditam, esses protagonistas, que atacando os íconesdo orgulho colectivo, estarão ascendendo ao patamar da grandiosidade, da visibilidade social. Pena. Mas não o fazem sem que antes tenham ingerido uma poção mágica, seja ela de inveja ou raiva, consequente de um diferendo qualquer entre eles próprios e as suas vítimas. Muitas das vezes até nem é preciso existirdiferendo algumContenta-lhes somente o “showoffismo” exibido aos que os rodeiam em conversas de café ou bar, por terem ousado tamanha proeza! É um problema comportamental, como também de quem não podendo ascender de uma forma o faz lançando pedras, para desfrutar de alguma glória que lhe falta.

 

O berço social, tal como afirmam os psicólogos, determina sempre o comportamento ulterior de cada indivíduo, a sua actuação no dia-a-dia, e o seu ser-e-estar, sintetizando. Em muitos casos ainda, são simplesmente problemas patológicos, em consequência de alguns traumas sofridos na infância ou no decurso do processo vivencial. O mal maior é quando tais “ilustres” têm acesso fácil àquilo que eu designaria de códigos de armas de destruição maciça”, neste caso os meios de comunicação social incluindo, naturalmente, as redes sociais.

Vem isto a propósito de um texto muito elucidativo da autoria de Eugénio Lisboa, partilhado no dia 12 de dezembro de 2021 por Carlos dos Santos, na sua página do facebook. Pela importância e abrangência darealidade que o texto retrata, replico-o aqui para que, eventualmente, o público leitor não seja surpreendidoquando confrontado com situações similares. Ei-lo:

«HÁ TRIUNFOS QUE SÓ SE CONSEGUEM PELO PREÇO DA ALMA, MAS A ALMA É MAIS PRECIOSA QUE TODOS OS TRIUNFOS.» 

Rabindranath Tagore 

Todos nós os conhecemos, os que vendem diariamente a alma ao diabo, para receberem mais uma honra, um prémio, um título, um penduricalho, uma homenagem. A caça ao triunfo é um desporto que abunda por aí. Discípulos do Rastignac, de Balzac, atropelam tudo e todos, denigrem aqui, autopromovem-se além, lisonjeiam acolá, prometem, ameaçam, namoram, prostituem-se, porque sabem que, não havendo verdadeiro mérito ou havendo-o diminuto, os caminhos para a glória são outros: duros, trabalhosos, obstinados, enviesados, torpes, se necessário, gastando nisso uma energia nervosa que teria podido ser melhor empregue, trabalhando mais e intrigando menos. 

 

Na classe dos escritores, este tipo de esforçado puxador de cordelinhos, que alterna entre a manipulação subtil e o esticão grosseiro, que usa as graças sociais mas não desdenha, ocasionalmente, o pontapé boçal, encontra-se por todo o lado, mas alguns atingem, nisso, um apuramento genial, que de todo lhes falta na obra que assim promovem. 

Somerset Maugham, homem amargo e cínico, mas exímio observador das bizarrias humanas, escreveu, sobre estes manipuladores incansáveis da própria glória, um romance admirável: CAKES AND ALE, que recomendo calorosamente aos nossos aspirantes à glo-glória, como exaustivo manual de operações que lhes afine a técnica de que precisa a sua desmedida ambição. Nada se ensina melhor, nesse romance perfidamente analítico, do que a arte de esconder uma ambição devoradora por detrás de uma falsa humildade. Tartufos consumados, vestem os vícios com os trajos das virtudes e, depois de se servirem dos outros como seus servidores e promotores, dão-se ares de nada daquilo lhes dizer respeito, fazendo-se muito surpreendidos por uma honra afinal buscada e arrancada sem elegância. No mundo da escrita, como no mundo da religião, como no mundo das universidades, raramente sopra o vento do sagrado. São mundos darwinianos, em que triunfam, frequentemente, não os mais fortes, mas os mais desmunidos de escrúpulos. Conheci e conheço alguns destes exemplares, que habitam o meu zoo privativo. Tenho a certeza de que povoam também o jardim zoológico de La Bruyère. Mas não estou agora com pachorra para o ir confirmar. Molière também os não deixou escapar, marcando-os, para a eternidade, com o ferrete mordente do seu génio. 

Eugénio Lisboa

Surpreendeu-me há dias, ler o poema “Novos Antiparadigmas”, da lavra do poeta Armando Artur, a circular pelos WhatsApp. Surpresa primeira encontro-a mesmo na preocupação do poeta, velada no título do poema. Se encaramos o antiparadigma enunciado pelo poeta como um acto de ruptura com os paradigmas imperantes nas estruturas da sociedade, um poeta contrariado com esse rompimento será sempre um ser elevado a condição de simples relíquia de museu, cuja marcha histórica ocorre unicamente pela acção do espanador.

E logo no primeiro e segundo versos do poema “Novos antiparadigmas”, perito em dividir para reinar, o poeta evoca “Alianças e armistícios/Que tardavam a chegar”, como quem receia algum caos, face a uma concórdia alheia. Todavia, a literatura não é um lugar de relações inconciliáveis, entre os deuses e outros espíritos do além. Uma área de pensamento, abrirá hoje espaço para discórdias, como também dará lugar a aproximações; isso não deve constituir preocupação para ninguém, salvo talvez para algum ululante pretenso senhor de crocodilos.

Por uma questão de ordem natural da existência humana, uns nascem antes dos outros, e é também natural que os primeiros ocupem antes alguns territórios, sejam eles espaços físicos ou interacções sociais, todavia a primazia do parto não torna ninguém dono daquilo ou daqueloutro, pois um homem digno de assim ser considerado será sempre senhor das suas próprias escolhas, mesmo perante uma ilusão de óptica, gerada por qualquer espelho dos dias, em bandeja de prata recheada de cervejas e codornizes.

O poeta de “Novos Antiparadigmas” acredita ainda que “Em política, / Tudo que parece é / Mas em literatura, / Tudo que parece só parece / E o que é sempre será!”

Podendo criar “amizades”, e sendo igualmente polido, o poeta de “Novos Antiparadigmas” coexiste com um político, quase que numa irreconciliável dualidade. Como político, aos olhos dos demais, agirá nas relações de amizade que estabelece, buscando parecença de adestramento do outro. Mas, como poeta, afinal sabe, de facto, que em literatura tudo que parece só parece. Até ser maior poeta vivo, só se parece. Epítetos do tipo Alexandre, o Grande, não merecem espaço na literatura, em detrimento de uma coexistência, na qual cada escritor faz o melhor no seu próprio texto. Moçambique é terra de poetas, não há lugar no poema para um único maior poeta vivo. Mas visando sempre manter esse estágio de vanglória, o poeta agora incendeia-se no verso, e segue: “O inimigo nunca foi o crocodilo do Nilo/Mas sim os seus omnipresentes criadores.”

Que omnipresentes criadores? O crocodilo do Nilo estabelece uma relação de coexistência com uma pequena ave, o pássaro-palito que se alimenta dos restos de carne das presas (em literatura entenda-se como carne ideias, pensamentos, etc) que ficam entre os dentes do réptil. Também, às labaredas um dia, o pássaro-palito poderá julgar-se criador/dono do crocodilo?

Se assim for, face a qualquer vento de mudança, de fogo no bico, o pássaro-palito procurará  calcinar e assassinar o carácter alheio: “O crocodilo tem sempre um dono/Não importando se da faraónica linhagem ou não!”

Hoje, face a necessária mudança do paradigma segregacionista, entre poetas da faraónica linhagem e “plebeia”, já em desespero de causa, o poeta não sabe onde começa e termina o político, confunde tudo, erige humanas esfinges (aliás, nisto de estátuas a experiência política é sempre providencial), mas o poeta há muito advertira: não apresse o rio, ele corre sozinho!

Há momentos na vida em que as palavras dizem muito pouco e são incapazes de sugerir a “exactidão” de um instante. Quando a menina do vestido vermelho apresentou-se ao palco do Cine Scala, ontem à noite, como que a preencher o silêncio de cor e movimento, as palavras deixaram de ter sentido. Afinal, mal se podia adivinhar o que estava por vir. O Coro  Xiquitsi, certamente, sabiam de tudo e, com recurso àqueles sons indecifráveis que produziam com a boca e com os pés, ajudaram a tornar o momento sublime.

A menina do vestido vermelho chama-se Lenna Bahule. Canta que só ela sabe arrepiar. Por isso, foi uma das vozes convidadas a participar no concerto de encerramento da Temporada de Música Clássica, em Maputo. Entretanto, Lenna foi muito além disso. Numa noite em que os astros conspiraram a favor, a cantora reclamou protagonismo para si ao interpretar a sétima música de Nômade, seu álbum de estreia. “Essa música chama-se ‘Kungô’ e é uma música da minha autoria”, afirmou a cantora, num compasso que não se viu mais no Scala. Pelo contrário, Lenna Bahule tornou o exercício do canto coisa maleável. Deixou-se acompanhar pelo Coro Xiquitsi como se tivesse nascido para aquele momento. Ora com a voz e com os gestos, ora com as mãos batendo nas coxas ou com os pés batendo no chão, Lenna tornou a emoção inteligível e conduziu o auditório a uma dimensão longe da terra.

“Kungô”, na verdade, é um vocábulo inventado a partir de uma língua que não existe. Ainda assim, no contexto do álbum Nômade, aspira significar ‘canção do povo’, do proletariado, funcionando como uma marcha rumo à justiça social, à conquista de melhores condições de trabalho. Logo, no concerto de Fim do Ano da Temporada de Música Clássica, Lenna e o Coro  Xiquitsi, de pés descalços, fizeram vibrar o palco e os corações de todos aqueles que não resistem a uma performance além dos padrões habituais. Em jeito de marcha…

O momento Lenna Bahule durou seis minutos. Muito poucos. Pelo poder criativo que a cantora demonstrou, merecia estar em palco mais tempo. Mais do que todos outros convidados, Lenna encaixou-se perfeitamente no rigoroso desempenho vocal do Coro Xiquitsi. Portanto, a autora de Nômade elevou a expectativa com uma exibição que só não foi perfeita porque a perfeição é uma constante busca.

 

De Estevão Chissano a Stewart Sukuma

Se calhar, não estava previsto que Estevão Chissano, formado no Xiquitsi, voltasse a merecer tanto protagonismo. O que estava previsto era a “Missa para o meu Sol, Kyrie, Glória, Credo, Sanctus e Agnus Dei”. Aí a noite foi de música clássica no rigoroso sentido da expressão. Orquestrou-se a Chissano na direcção de Kika Materula, que, até esse momento, ocupava um papel aparentemente secundário. Depois de 17 minutos de música composta por Chissano, que admitiu ao Xiquitsi em 2014 e já compôs 14 obras, lá vieram os aplausos a reconhecerem um compositor distinto.

E aquele não foi o único momento Chissano. Mais tarde, Stewart Sukuma deu-lhe créditos da orquestração de duas músicas suas. Por exemplo, “Xitchuketa marrabenta”. O menino, sincero na sua humildade, ficou todo embaraçado e aceitou, uma vez mais, os cumprimentos dos colegas, do próprio Stewart e do auditório que não se fartou em aplaudir.

Além de “Xitchuketa marrabenta”, Stewart Sukuma interpretou “Why” (com arranjos de Daniel Moreira), “Batata-doce” (arranjo de Humberto Tandane), “Felizminha” e “A inadiável viagem”, música inspirada na escrita de Luís Carlos Patraquim. Nada mau, mas os músicos não precisam de se alongar em discursos ao fim de cada tema que interpretam num concerto. É aborrecido e ficam ali a parecer políticos em dias de campanha. Nesse pormenor, lá voltamos a ela, Lenna Bahule foi um bom exemplo. A cantora não falou mais do que devia e cantou mais do que se pretendia. Surpreendeu. Já Stewart, não se pode negar a simpatia e o carácter demasiado conversador. Nessas suas investidas, bem, o músico foi assertivo ao lembrar os “mestres”: Calane da Silva e Hortêncio Langa. Oportunamente, lamentou a perda dos artistas, mas não se poupou de contar histórias longas para uma noite como de música clássica.

Em memória a Calane da Silva, à data do falecimento membro da Associação Kulungwana, Kika Materula convidou Sónia Sultuane a dizer poesia que, numa edição anterior da temporada, tinha sido o “menino da Malanga” a declamar.

 

Deltino Guerreiro e o King da Marrabenta

Deltino Guerreiro subiu ao palco do Cine Scala cantando “Baba yetu”, de Christopher Tin. Essa música não valorizou as virtudes vocais do artista e nem foi dos melhores momentos do Coro e Orquestra Xiqutsi. Se os artistas correm atrás de prejuízos, foi o que Deltino Guerreiro, o Coro e Orquestra Xiquitsi fizeram no momento seguinte, afinal lá se interpretou “Eparaka” e, depois, “Sonhos”. Ao interpretar as suas próprias músicas, aí, sim, percebeu-se por que Deltino Guerreiro é um dos mais interessantes cantores moçambicanos da actualidade. Em geral, o Eparakaman esteve desinibido, preparado e, portanto, não desiludiu.

Quem também não desiludiu foi o King ou um dos Kings da Marrabenta: Dilon Djindji. Logo ao subir ao palco, aplausos. E quando começou a interpretar “Podina”, o Cine Scala se transformou numa espécie de palco de temporada de música popular moçambicana.

Aos 94 anos de idade, o King de Marracuene cantou, dançou e, talvez, deixou-se deslumbrar pelas vigorosas jovens “Podinas” que, à sua frente, mexeram as ancas, sensuais, como se a encarnação fosse tudo aquilo. Uma coisa é certa, Dilon Djindji não fingiu indiferença. Tem 94 anos, é de carne e osso. Reparou nas meninas e, como se impunha, manteve aquela chama acesa típica do estilo que criou ou que ajudou a criar.

 

As Formigas do Tavinho, segundo livro de Almiro Lobo na qualidade de ficcionista, depois de ter publicado O Berlinde com Eusébio lá dentro (2016), é um fresco para a memória. Mais adiante, tentarei explicar por que atribuo a qualidade de ficcionista ao autor, mas, por enquanto, vejam comigo, e a propósito da formiga, essa diligente, trabalhadora, persistente e incansável criatura, a associação que faço entre ela e a memória.

Entendo a memória como processo contínuo de construção e reconstrução de sentidos e destinos. Mas é interessante pensar, e isto tentarei explicar também mais adiante, que a construção ou reconstrução da memória pode ser alheia às nossas próprias vontades, qual um arrumador de missangas no fio do tempo. Pode ser que de agentes desse processo, às vezes passemos a seus pacientes. Ou seja, pode ser que a memória seja o nosso destino formigueiro. É, de resto, a delicadeza formigueira que neste livro ressalta da arrumação de cenas do passado, com base no recurso que o autor faz ao verbo afinadíssimo, lapidado – amiúde a lembrar um clássico como Nós Matámos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana –, com recurso ainda ao humor, discretamente ou ironicamente construído, como afinal convém ao jogo da sedução ficcional; aliás, o humor é um expediente usado pelo autor para revestir a memória de um profundo sentido de humanidade, como podemos ver no texto «O poder da chave»:

 

Viajando de carro de Quelimane a Maputo, precisávamos de parar em Gorongosa para um café despertador. Ainda eram 5 horas da manhã. Os restos da noite digladiavam com o romper do dia. À entrada de um edifício com o pomposo nome de “Café Restaurante”, a conversa com um sonolento trabalhador:

‒ Queríamos tomar café ‒ dissemos, quase em uníssono.

‒ Não temos.

‒ Nós temos. Só queremos água quente ‒ continuámos.

‒ Ainda não temos.

‒ Mas pode aquecer água? ‒ insistimos.

‒ Pode. Mas vai demorar por causa da lenha: está na despensa.

‒ Não há problema. Vamos esperar ‒ éramos nós, já pensando que, depois daquele sítio, dificilmente encontraríamos outro “Café Restaurante”.

‒ O dono da chave da despensa ainda não chegou. Ouvi dizer que está doente! E vive um pouco longe daqui!

Desistimos. O poder da chave venceu-nos. E “pouco longe” em Moçambique é outra coisa… (p.49)

 

A minha adjectivação pomposa (“verbo afinadíssimo, lapidado”, “humor de profundo sentido de humanidade”) é a expressão do encanto que me envolveu ao ler o livro, e, quem conheça o seu autor, sabe que ele gosta de contar estórias e fá-lo bem, sem baixar a guarda à vigilância verbal e com esse sentido de humor que nos dá sempre mais um minuto de vida. É caso para dizer que, a conversar com Almiro Lobo ou a ler as suas narrativas, vale a pena perder um minuto na vida, se calhar para não perder a vida num minuto, sobretudo neste tempos pandémicos, pobres em motivos ao menos para sorrir. Enfim, como eu adivinho que muitos o conhecem, acredito, também, que esses muitos vão concordar comigo, mesmo sem terem lido ainda o livro, que o narrador destas estórias confunde-se com o seu autor.

A fusão a que me referi levanta um problema conceptual sobre as figuras do narrador e de autor, sobre o qual não me vou deter, mas que a teoria da literatura manda distinguir para, entre outras razões, não imputarmos a Almiro Lobo a prática de cenas que, de facto, se passaram com ele. A minha ironia pode ser um ataque à teoria, mas tomemos este ataque como uma hipótese. É que o tom quase confessionário destas estórias confunde-nos: este livro não é apenas um produto da ficção do seu autor, mas é também um produto da sua própria vida, o que, de resto, faz jus à segunda parte do seu título: E Outras Recordações.

É verdade que não tenho como provar a afirmação que acabo de fazer, mas tenho como agravar esta suposta provocação, dizendo, por exemplo, que, mais do que a confissão que a segunda parte do título possa revelar, é sobretudo o imaginário do passado que abraça o leitor – com as suas cenas, ideias e figuras típicas – e a atmosfera que o envolve no processo de leitura que me fazem dizer, intuitivamente, que estamos diante de um livro também cheio da própria vida do seu autor. Mas este argumento pode ser refutado, porque há quem não deposite na intuição a qualidade de argumento, uma vez que ela não nos dá elementos de prova. De resto, o que serão as recordações, senão cenas, ideias ou figuras soltas a reclamarem um sentido ordenador dado pela linguagem?

Ora, será na linguagem, no exercício ordenador de mundos a que ela se propõe e impõe, que essas peças ganharão contornos difíceis de frear pelo autor, uma vez que ele é co-substância da mesma linguagem. Então, se Almiro Lobo existe enquanto produto da linguagem (como aliás existimos todos), então ele é convocado a ficcionar: não se pode ordenar o passado sem o ficcionar, já dizia Agustina Bessa Luís numa epígrafe ao Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa.

Portanto, como que a instalar uma contradição, é mesmo pela linguagem ou pelo exercício da ficção, da imaginação, que o autor se revela, fala de si e dos outros realmente, fala do tempo, do passado, da memória realmente. Este livro convida-nos a pensar, por conseguinte, que não há contradição entre ficção e realidade ou que a fronteira entre as duas é uma linha descontínua, que nos permite ora transitar para uma faixa ora para a outra, umas vezes fazendo uma ultrapassagem estratégica à ficção, dando velocidade à realidade, outras beneficiando a ficção, dando-lhe também velocidade. Há quem poderia chamar a isto um dilema. A questão então seria: como resolvê-lo?

Nem todos os dilemas carecem de uma resolução, e se me permitem, assim saio do problema conceptual entre autor e narrador, sobre o qual havia prometido não me deter.

Alguns dilemas animam assim mesmo, porque são dilemas. E é este ânimo que me envolve. Neste envolvimento, detenho-me no ambiente construído por estas estórias, que nos chega em filigrana, como delicados quadros antigos, cinzentos, mas dourados ao detalhe. A este propósito, é flagrante perceber que, em alguns casos, mais do que contar uma estória, o que interessa ao autor ou ao narrador, enfim, a ambos, é fixar essas memórias nas paredes de hoje. Poderão reparar, então, que algumas das entidades ou referências que dão título aos contos são representadas, na estrutura ou economia da narrativa, apenas final das histórias; tal é o caso do conto que dá título ao livro: as peripécias do Tavinho, o seu protagonismo, já previsível no título, só aparece já quase ao secar do verbo. Então, essas referências funcionam, nesses casos, como pretextos para o mapeamento das memórias que ambos, autor e narrador, nos trazem. Este facto denota um falso protagonismo dessas mesmas entidades enunciadas nos títulos, pois o grande protagonista, aqui, é a memória. Neste sentido, assenta bem afirmarmos, com Levi Strauss, que não são os homens que falam através dos objectos, mas estes que falam através dos homens. Ou seja, Almiro Lobo, o responsável deste livro, é vítima do passado, está preso nele, mas é um “querer estar preso por vontade”, como diria Camões. E volto, então, à minha hipótese provocatória: resulta disto que este livro é o reflexo de uma outra narrativa, a narrativa do seu autor, um autor que sofre de passados e suas memórias, memórias que o leitor vai reclamar como sendo também suas, quer tenham a ver com o passado colonial, quer tenham a ver o passado recente do pós-independência, que aliás teima em confundir-se com o nosso presente.

Ao representar esses nossos seres, colonial e primeiro republicano, o autor sugere-nos, por um lado, um mundo polarizado entre a portugalidade e a moçambicanidade, essas outras margens da nossa vida social, cuja transição de uma a outra não se faz sem a tensão, o choque, o conflito ideológico, a violência e a gravidade de uma dor apenas amenizada pelo tom humorístico, terapêutico e reconciliador das suas estórias. Pressente-se também um investimento numa visão anti-maniqueísta desse passado, que questiona e chega mesmo a fazer implodir alguns clichés sociais. O conto “Remédio para não morrer cedo” oferece-nos um belo exemplo de fuga aos maniqueísmos estéreis. Trata-se de um texto que nos sugere a importância do estudo ou da loucura, porquanto deparámo-nos com duas classes sociais, uma escolarizada, representada por um jovem loiro do sétimo ano liceal, e outra «não escolarizada», representada pelo menino-pescador, que só fez a primeira rudimentar. Ora, este último concebia como loucos todos aqueles que estudavam muito, via no jovem loiro a personificação da loucura, por isso evocava o mito “de que estudar muito fazia mal à saúde” (p.23). O narrador-autor aproveita esta deixa para descrever o comportamento do jovem loiro, que, gostando de carros e flores, passava a vida alheio à realidade circundante.

Simbolicamente, temos no conto acima descrito a inscrição dos temas da viagem, evasão, sonho, liberdade, entre outros. Ora, seguindo o raciocínio que esboçamos há pouco, de uma visão não maniqueísta do mundo, percebe-se que autor e narrador acabam usando o motivo do carro, ou, como diria Levi Staruss, o imaginário ocidental do motivo do carro acaba usando-se de Almiro Lobo, resultando esse acto, dessa espécie de personificação, na construção da alegoria do poder da imaginação, que advém (esse poder) do facto de se ter estudado, o que se pode traduzir em quatro ideias preliminares:

  1. É o estudo que nos permite imaginar;
  2. Os que não aprenderam a imaginar, interpretam os factos imaginados dos que imaginam como loucura;
  • Então, a palavra loucura pode ser apenas uma forma de rotular o incompreensível, o inacessível;
  1. Podemos ser todos loucos, porque já fomos um dia crianças.

De resto, a descrição que o autor faz das brincadeiras aparentemente loucas das crianças, ao longo das 78 páginas do livro, brincadeiras comuns às crianças de todo o mundo, diga-se, acaba projectando a infância como o tempo da loucura, o tempo de todas as loucuras. E então força-nos a dizer, com Erasmo de Roterdão, que a loucura pode ser a expressão da sabedoria, esta que permanece guardada nos livros que o menino-pescador se recusava a ler, mas só até ao dia em que ficou a saber que “Quem não estuda, morre cedo! Nós vamos à escola para viver muito mais tempo!” (p.24) Não será caso para dizer que a longevidade exige uma dose certa de loucura?

Se a memória é um tema estruturante das estórias de Almiro Lobo, a infância não é menos. Aliás, chega a ser por implicação que da memória do autor se chega à sua infância e vice-versa. Com efeito, é, geralmente, no tempo da infância e no seu lugar, isto é, em Mepanhira, em Luabo, em Molubo, etc., onde tudo se passa, usando-se o narrador, muitas vezes, de uma voz pessoalizada para nos aproximar das brincadeiras, suas e dos outros, em casa, nos bairros, nos campos desportivos e nas fábricas de então; para nos aproximar das trapaças da escola – em meio as alcunhas dadas aos professores e a processos educativos hoje considerados machistas e um atentado à equidade de género; para nos aproximar também de mitos, tabus, rifões desse tempo colonial e primeiro republicano.

Mas esta aproximação é, não raras vezes, feita com o tom subversivo do humor do contador de estórias que é Almiro Lobo, amiúde a lembrar-me o conto «Dois munda, quatro ganha», de Aldino Muianga. E, por falar em diálogo, este é um livro que dialoga, de forma interessante, por exemplo, com o já citado Nós Matámos o Cão Tinhoso ou com A Cidade e a Infância, de José Luandino Vieira.

Se a infância pode simbolizar o tempo colonial, o antes do nascer da República Popular de Moçambique, a juventude, neste livro, pode sugerir-nos o nascimento da Nação moçambicana. Vemos, aqui, a memória do Centro 8 de Março ou do Centro Educacional de Mepanhira, este último, local onde o autor desempenhara o ofício de professor e onde aprendera que

 

“na sala de aulas, o professor representava o Presidente da República. E o Presidente da República era Samora Machel, admirado como exemplo! Embora a milhares de quilómetros, era como se Samora se tivesse multiplicado. No contacto com a população, descobri que imitar Samora tinha um efeito imediato sobre as pessoas. Imberbe ainda, sobravam-me os gestos, o tom de voz e a estratégia de me mascarar com uma segurança que estava longe de sentir.” (p.38)

 

Trata-se, aqui, de representar o papel aglutinador que esses centros desempenharam e o seu carácter diligente no processo de formação dos continuadores da geração da utopia. Aliás, A Geração da Utopia, de Pepetela, pode entrar para a mesa dos diálogos possíveis com o livro de Lobo, pois os oitomarcistas acredita(va)m no carácter sagrado da pátria, como que a lembrar-nos, agora, a Sagrada Esperança de Agostinho Neto.

Mas se as razões até aqui apresentadas podem ser justas à ideia de que As Formigas do Tavinho e Outras Recordações é um fresco para a memória, assinale-se também o seu tom distópico em relação a essa geração da utopia, que se deixou render perante a erosão político-ideológica de uma Nação que Craveirinha disse que ainda não existia, e cujo raio x é visível em três cartas estruturantes da mentalidade do nosso funcionalismo público, cujas sínteses podem ser lidas justamente no conto que leva o título “As três cartas”:

Primeira carta: “Quando perceber que não está a conseguir resolver os problemas e fazer avançar a máquina, culpe o seu antecessor!” (p.52)

Segunda carta: “Se, depois de culpar o antecessor, ainda não tiver os resultados que pretendia, faça uma ofensiva político-organizacional!” (p.53)

Terceira carta: “Se nada resultou, o melhor é escrever as suas três cartas para quem vier a seguir!” (p.54).

E, por falar no que poderá vir a seguir, deixo os meus votos de que mais livros nos venham da lavra do escritor Almiro Lobo. Muito obrigado pela atenção dispensada e…

Parabéns ao autor!

[1] Texto de Apresentação do novo livro de Almiro Lobo, lançado no passado 24 de Novembro de 2021, no Centro Cultural Português, em Maputo.

Aqui estou

 

no meu rico e empobrecido continente.

 

Vocês sabem que nunca vos pedi asilo nenhum

 

nem por terra, nem pelas nuvens, nem pelos mares.

 

Sei que só os fracos o fazem,

 

e mesmo estes quando vos demandam

 

vão à busca do espólio e dos bustos dos seus antepassados.

 

Em contrapartida, eu, aqui, sou milhões de braços

 

intrépidos e robustos…

 

Vezes sem conta culpam-me vocês de todas

 

as contrariedades do mundo,

 

e até dizem que o infortúnio tem a cor da noite,

 

só porque eu sempre soube da exacta posição das estrelas,

 

muito antes de vocês próprios.

 

Embora me tenham desenganado quando eu quis,

 

acreditaram então que o mundo era somente Partícula,

 

quando eu já remava no anverso da Onda do universo.

 

Agora que sei o que vocês sequer imaginam

 

jamais apelarei à vossa falsa bondade

 

nem mesmo à vossa estranha e obsoleta

 

amizade e solidariedade!

 

 

 

Armando Artur

O status de Jei-Jei em Museu da Revolução

Revolução significa construção, mas também implica sempre demolição. in Perestroika, Mikhail Gorbatchov   A ciência da narrativa comprova que a personagem é um elemento imprescindível

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