O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

Eu tinha 56 anos de idade lá no início dos anos 2010, altura em que me foi exonerado do cargo de Director Nacional da Agricultura. Eis que recebo uma chamada do Presidente recentemente eleito.

Foi uma conversa muito longa. O Presidente não falava coisa com outra. Falámos do tempo em que eu fiquei em Manica, quando ele era o Secretário Permanente do distrito com o mesmo nome. Houve muita risada, mas, no fim, desligou a chamada.

Eu estava frustrado. Não me perguntou nada sobre as minhas aspirações. Não falou nada sobre pastas que estavam vazias. Até àquela data, eu sabia que as pastas de Agricultura, do Desporto e dos Combatentes estavam disponíveis. É o que estava nos corredores do partido.

Duas semanas passaram. O Presidente ligou-me novamente. Desta vez, foi muito grosso, sem gargalhadas e sem recordações. Disse que eu teria de preparar uma roupa formal, porque, depois dele, eu teria de tomar posse como Governador de Manica. E, de seguida, desligou o celular. Não passaram dois minutos antes que ele ligasse outra vez e com uma mensagem mais curta ainda. “Terás de dar a vida pela pátria”.

Esta última mensagem, para mim, tinha um valor simbólico, mas não tinha nenhum alcance real. Depois da tomada de posse, a pátria iria dar-me a vida. Os meus dias de glória estavam próximos.

Naquela noite, eu chamei a Suzana para a sala junto de Carlitos e Marlene. Contei-lhes que teríamos de sair de Maputo para viver em Manica. Os meus filhos mostraram-se assustados. Logo, eu acalmei-os e fi-los compreender que seríamos “a família real da província”.

Eu sabia que Carlitos não se seguraria e contaria aos amigos para ganhar popularidade. Aliais, nem o Presidente pedira sigilo. E eu não fazia questão de esconder. Mudei tudo para garantir que a minha vida se adequasse a de um Governador.

Passaram-se algumas semanas e o dito aconteceu. Foi-me chamado a tomar posse. A minha esposa e eu estávamos muito bonitos, modéstia à parte. Aliás, não é por ser a minha esposa, mas a Suzana é uma mulher que, até hoje, se veste como se nunca se tivesse casado.

Depois de tomar posse, foi-me apresentado ao povo de Manica. Tive uma receptividade muito interessante. Todos olhavam para mim com admiração. A minha passagem, nos tempos de secretário do Governador, tinha sido marcante.

Então, marquei o primeiro evento público dirigido por mim. Seria a entrega de títulos de Direito de Uso e Aproveitamento de Terra. Antes de ir ao pódio, chamei o Gervásio, meu Ajudante de Campo, e pedi-lhe que garantisse que a fotografia do Presidente estivesse num lugar de destaque.

Quando cheguei, havia gente em todo o lado. Tocavam uma música popular e os jovens, alguns meio pálidos, outros estilosos a tentarem merecer destaque nas raparigas, todos olhavam para mim com respeito. Olhei para baixo fingindo humildade. Fez-se um palco onde eu ficaria e acompanharia, antes de tudo, todo o espetáculo de grupos culturais.

Levantei-me para dar alguns passos de dança também. Todos aplaudiram… não que eu me tivesse saído melhor que os profissionais, mas era a crença de que, na minha posição, as pessoas não precisavam de saber dançar, bastava tentar que era destaque. Chefe não precisa de saber dançar, mas mesmo assim tenta.

Não podia transpirar muito, senão daria muito trabalho à minha equipa de higiene governamental. Voltei à poltrona governamental. Olhei para a Suzana que sorriu charmosa e governamentalmente. Virei-me para o traseiro governamental. Vi a foto do Presidente. Sorri e agradeci pela confiança governamental. Aquele primeiro dia em público estava a ser aquilo que eu sempre sonhei, governamentalmente falando.

De repente, ouvi um som assustador do lado de trás. Quando virei, não podia acreditar. Com as mãos, as duas, tentei segurar a cabeça que não mais cabia no pescoço. Um menino tinha atirado uma pedra na foto do Presidente.

Chorei tanto, mas tanto que vi que aquilo não fazia sentido se a pessoa que me mandara para este lugar fora tão desrespeitada em público. O que eu ficaria naquela província a fazer, se a pessoa a quem eu representava tinha tido a sua fotografia partida com uma pedra misteriosa?

Naquele dia, eu desisti de absolutamente tudo. Foi como se alguém me dissesse que a vida não passa de uma ilusão e o que é verdade é aquilo que eu ainda não sei, a morte. Fui à minha suíte governamental, abri o cofre governamental e tirei dali uns calmantes que eu sempre tomava sempre que o nervosismo me honrasse com a sua visita.

Naquele dia, tomei tudo aquilo que restava… e nunca mais pude tomar mais nada. Dei a vida para recuperar a honra do meu Presidente. Dei a vida pela pátria. Sei que me foi julgado, mas se eu fiz o que fiz, é que era proporcional ao lugar que aquela foto tinha ocupado na minha vida governamental, sendo que a minha vida já se tinha transformado, toda ela, em governamental.

Durante aquela sessão de consumo de xikadju na residência da Eva o Valgi andou um tempinho meio ensimesmado, de boca fechada, como se algo no ambiente o confundisse e preocupasse. Parecia enfadado. Não sorvia os goles da bebida com a celeridade dos outros convivas, mas sim, gole-a-gole, a degustar a leveza e a doçura da mesma. Outros que o vissem naquele estado apostariam que era o receio de que aquela cerimónia fosse um pretexto para apresentá-lo à pequena comunidade como o noivo oficial da dona da casa.

Da veracidade sobre uma ou outra especulação só o próprio Valgi poderia apontar a razão verdadeira por detrás da sua aparente tristeza. E essa foi por essa razão que fez aquela pergunta ao amigo:

“ Garrincha, quem é aquele sujeito maluco que se pôs a lamber o chão quando os polícias partiram os garrafões de cajú?”.

Eu aqui tomo a responsabilidade e a honra de intervir, porque emprestada me foram a voz e a vez pelos protagonistas destas histórias. E a do sujeito que lambeu o chão  encontra-se firmada no cadastro do meu caderno de memórias, tal e qual ela aconteceu.

“Houve um tempo, desde há dois anos talvez, que as ruas do bairro de Maria Caldeira andavam assombradas. Já não se podiam cometer as audácias de frequentar os caminhos, menos ainda os becos entre as cercas dos quintais, sem se correr o risco de um cruzamento com aquele espectro. Sim, porque atendendo ao que se dizia, deambulava por lá um homem avantajado, alto como um poste, estreito de corpo e de andar curvado. Pessoas houve que lhe colocaram no rosto umas barbas frondosas, como as copas das árvores das florestas, que lhe cairiam até ao peito e que se cobria de um sobretudo esfarrapado e comprido que lhe chegava até aos pés. Outros discordavam e diziam: “…como é que isso pode ser?…eu vi bem que ele é bem baixinho como aqui o compadre…que barbas tem-nas longas, ah nisso concordo…”. E mais  destas asserções, todas atoardas  alimentadas pelo temor e pela imaginação.

O curioso das histórias que dele se contavam não consta que, até àquela data, ele tenha agredido ou morto algum residente das redondezas, ou cometido alguma atrocidade que alarmasse a comunidade. Era cordato e caminhava o seu passo com a lentidão dos caracóis. Espreitava sempre os movimentos doutros com olhares esguelhados, carregados de alguma suspeita.

A sua verdadeira identidade e proveniência ninguém conhecia com acerto, embora alguns jurassem tê-lo visto nas cercanias dos bazares de Xipamanine, do Diamantino e mesmo do Vulcano, lá para as bandas do Cemitério de Lhanguene. Sobre os motivos do seu aparecimento na zona aventava-se que o trouxera àquele lugar o aroma e a abundância dos desperdícios do mercado, porque neste tempo de canícula, à falta de frescura e refrigeração, as vendedeiras desfaziam-se dos produtos, como investimentos sem valia, inúteis mesmo para venda ao desbarato a clientes carecidos. As sobras delas eram seus banquetes.

Qual poderia ser a habitação do homem das barbas longas senão aquele morro espesso por detrás do Entreposto, denso de trepadeiras, abrigado à sombra daquela mphama gigantesca, sobrevivente dos tempos de antanho no cruzamento daqueles caminhos que atemorizavam os habitantes? Por via de segurança, estes contornavam aquele bosque à distância: não vá o Diabo tecê-las e num repente, destacarem-se das sombras aparições ou figuras de fantasmagoria, _que as havia naquele cerração, segundo testemunhas de idoneidade acima de toda a suspeita.

O que mais intrigava em toda a figura daquele homem era o facto de sobraçar nos sovacos livros volumosos, calhamaços enodados e cadernos encardidos pelo tempo e pelo uso.  Foi já visto a rabiscar arabescos em sebentas, sentado sobre um pedregulho  junto à entrada da toca. Ou, destacado nos cruzamentos dos caminhos, proferia discursos em voz de ser escutado, que acompanhava com gestos dos braços e dos dedos a desenhar esquemas e situações abstractas no ar. Dir-se-ia que se tratava de um intelectual que pretendesse transmitir alguma mensagem a uma audiência atenta e numerosa. Porque, segundo se diz, estes sábios, à custa de muito estudar e raciocinar, na maioria das vezes acabam num manicómio, aturdidos e embriagados pela ciência ou pelas filosofias que com tanta avidez absorveram dos compêndios”.

“ O que é que esse monstro barbudo da tua história tem a ver com o Sebastião?”, perguntou o próprio Garrincha, que deveria ter uma versão diferente da minha.

“ Tem e muito, porque o monstro barbudo e o “Sebastião” são a mesma e única pessoa”, esclareci. “Cada história tem o seu começo. Estou ainda a fazer a introdução. Tem calma porque o resto vem depois”.

A audiência sossegou, arrebitou os tímpanos e da minha boca escutou:

“ O nome verdadeiro do “Sebastião” é Massinga, Carlos Massinga. Desconheço a razão de lhe terem dado aquela alcunha. Ele era professor na Missão de São Roque em Ricatla. Era viúvo e vivia com duas filhas menores, a Martinha e a Minda, respectivamente de seis e oito anos de idade, um manancial de travessuras. Possuía a algumas propriedades e gozava de muito pristígio na zona, como sucedia com muitos professores e enfermeiros, um assimilado.

Durante o tempo das férias daquela Páscoa enviou as duas crianças à cidade Lourenço Marques para a casa duma irmã sua, que vivia aqui perto da Missão de S. José.  Com isso pretendia que as crianças da família se conhecerem e se habituassem umas das outras. A irmã do professor Massinga, a mana Isabel, tinha a sua, por sinal uma menininha chamada Ginoca, da mesma idade que a Minda. Durante as férias da quadra festiva anterior a Ginoca passara momentos empolgantes, a cometer toda a sorte extravagâncias em casa das primas em Ricatla. Era o clã que se alargava em paz, numa harmonia que augurava uma continuidade sólida  e unidade na família.

As crianças de Ricatla trouxeram uma nova alegria para a casa da tia Isabel. É como se lá uma nova luz irradiasse e com esta outro calor inundasse o lar.

“ Sim, um lar sem crianças é como um dia escuro e cinzento”, disse a Eva, não se sabe com que intenção.

“ A meio daquela manhã a mana Isabel deu algumas moedas à filha para adquirirem algumas guloseimas, cadernos e lápis-de-cor na cantina do Muchina, doutro lado da Avenida do Trabalho, justamente no ponto oposto à Escola da Missão de S. José. Aquele era um lugar de travessia com muito tráfego de viaturas e de pessoas que da Missão iam ao Birbilha, à Serração Mecânica ou ao Hospital, e vice-versa. As viaturas cruzavam-se nesse ponto, umas para tomarem a Estrada Nacional Número Um, outras provinham de Marracuene, da Manhiça e dos distritos de Gaza e Inhambane. Havia muito colorido por ali, os negócios das cantinas prosperavam.

As três primas deram-se as mãos. “…nada de deixares as tuas primas atravessarem a estrada sòzinhas…”,  fora a recomendação da mana Isabel. Assim procederam. Olharam para direita e para esquerda. Deixaram passar alguns camiões conduzidos por motoristas apressados. E estrada estava livre para a travessia. Depois de se certificarem da ausência de perigo e sem hesitações, fizeram-se à estrada de mãos dadas, numa corrida que as levaria à outra berma da via.

Mas eis senão quando, um camião dasarvorado, vindo do lado da Brigada Montada surgiu e, como um monstro agigantou-se diante das crianças no meio da via e colheu-as com uma violência tal que as arremessou ao ar como bonecos de palha. Tombaram no asfalto da via com muito estrondo. O camião prosseguiu a sua viagem para a tragédia. Galgou o passeio e embateu no muro da vedação do edifício do Entreposto e esmagou duas mulheres que vendiam amendoim torrado e tangerinas.

“Que coisa”, Deus do céu!””, suspirou a Eva, escandalizada.

“Aquele foi um espectáculo difícil de crer que fosse uma realidade. Os corpos das três primas jaziam no piso da estrada, sem vida, mergulhadas em poças do seu próprio sangue, Aquelas mulheres morreram sem terem percebido porque razão a morte as levou assim tão de súbito. O motorista saiu ileso, como é costume acontecer nestas situações”.

“Parece que começo a compreender o desespero do “Sebastião”, disse o Garrincha, a abrir uma pausa na audição.  Levou um copo cheio de sumo de cajú aos lábios, beijou-o e deitou umas gotas do mesmo ao chão e completou, “ Paz à alma daquelas pobres crianças!”.

“E daquelas mulheres inocentes. Também tinham família, ora essa! Mas porque razão haviam elas de estar ali naquele momento exacto? Sem dúvidas que Deus tem os seus caminhos para chamar os Seus filhos para perto de Si”, disse uma outra mulher no meio do ajuntamento, a benzer-se.

“A notícia do atropelamento mortal daquelas crianças abalou o Chamanculo e outros bairros adjacentes. Acreditava-se que algum feitiço entrara no seio das famílias das mesmas. Outros diziam que aquilo aconteceu por causa da negligência da mana Isabel, “…como é que uma mãe responsável deixa três crianças de tenra idade atravessar estradas sòzinhas, só para comprar bolachas e rebuçados?”.Outros acreditavam na fatalidade dos nossos destinos “…aquilo foi o destino delas…mesmo em casa teriam morrido, ou  num incêndio ou doutra coisa qualquer…”.

“ Como é de se ver o pai Carlos Massinga julgou alucinar quando a notícia da morte das filhas lhe chegou aos ouvidos. Como crer que isso fosse verdade se cinco dias antes estivera com elas em tagarelices sem fim, a pularem dum lado para o outro, a reclamarem por uma visita à casa da tia na Missão para se juntarem à prima Ginoca? Com crer que a morte da esposa, aquando do nascimento da Minda, naquele parto de tristes memórias, fosse o prelúdio da desgraça que acabaria por destruir a sua família? Já não fora suficiente a morte da esposa amada, agora a das filhas, num golpe, a esteira da tragédia ainda a desenrolar-se no seu lar?

O professor Massinga entrou num processo de um esgotamento nervoso. O seu estado deteriorava-se que dava mesmo muita pena vê-lo assim. Começou por deixar de comer. Já era visto a falar para si próprio aí pelos caminhos. De Ricatla transferiu-se para a casa da irmã para ter de perto a memória das filhas. Calcorreou os caminhos destes bairros todos. Frequentou a Avenida do Trabalho, e por ela vagueou, para cima e para baixo. E parava à beira da estrada, no passeio, naquele ponto onde as filhas e a sobrinha perderam as vidas. Aí orava em voz alta e amaldiçoava-se, condenava a Deus pelo acto injusto de lhe furtar toda a felicidade, de todo o bem que possuía, que era o amor das suas filhas. Abrigou-se naquele morro por detrás do Entreposto. Da toca fez a sua habitação. Ostracizou-se do mundo e da sociedade. Hoje em dia, na clausura desse universo compulsa compêndios, regista notas, à busca duma explicação para a tragédia que é a sua vida”.

“Quem não ficaria assim depois de tamanha desgraça?”, interveio a Eva, “Muitas vezes julgamos as pessoas por aquilo que vemos nelas, mas não por aquilo que elas são ou por aquilo que passaram”.

“Essa é que é a verdade. Por dentro desses vagabundos que vemos por aí, há um homem ou uma mulher com uma história de um grande sofrimento”, concordou o Valgi.

“Hoje é o que resta daquele pobre professor. Hoje vemo-lo a deambular pelas estradas, pelos caminhos, a fazer discursos, a rir-se de si próprio, para si próprio, mas ninguém compreende quanta dor habita no seu coração, ou quanto sofrimento carrega no seu espírito”.

“Tristezas não pagam dívidas. À nossa saúde, companheiros!”, era o Garrincha, animador, a erguer um copo cheio de sumo de cajú no ar, num convite para o retorno à vida real.

“ À nossa!… tchim-tchim!…”, responderam todos em coro.

 

  * Hê wene, xaka la mina

   Hê wene, xaka laminôôô!

   Ussama uvona a xikhova

   Xi kina bayelôôô!…

 

O senhor Pachorro, porque era essa a sua função principal, puxou pela guitarra e dela arrancou as notas daquela cantiga popular para diluir da atmosfera a nuvem de tristeza que ameaçava ensombrar a festa.

E, numa só voz, todos aderiram ao estribilho:

 

 Ussama u vona a xikhova

    Xi kina bayelôôô!…

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

Este é um tema complexo, uma vez que acaba sempre por nos remeter para a velha questão: Escrever para quê? Ou seja, para que serve a literatura? Ou ainda, o que é a literatura? Na minha opinião, qualquer resposta ou definição será sempre incompleta, dado que a literatura, em si mesma, encerra componentes diversos, como os de ordem estética, ideológica e também espiritual. Por isso mesmo, o processo de escrita, como tal, está intimamente ligado à sua motivação e, por conseguinte, à finalidade da própria literatura.

Começaria, então, na minha perspectiva, por tentar definir a literatura como sendo uma forma de introspecção, de questionamento, de desassossego, de inconformismo, de conhecimento, de arquivo, de retrato da realidade interior e exterior, de crítica e intervenção social, de liberdade, de sonho, de amor à vida, de complemento e aperfeiçoamento do mundo, ou mesmo de transformação da realidade que nos rodeia.

Tal como refere Isabella Lígia Moraes, “A literatura, ainda que tenha o poder de aplacar momentaneamente nossa sensação de descontinuidade e incompletude, não traz paz ao espírito, mas indagações e angústias. A arte, de modo geral, não traz certezas e respostas, pois elas mesmas são manifestações da incerteza humana.”

Mas para que seja realmente literatura, tal como a conhecemos, todas estas formas têm de estar revestidas daquele manto que sempre a caracterizou, e que chamamos de Estética. Portanto, em poucas palavras, diria que literatura é a problematização da realidade interior e exterior, usando recursos estéticos.

Pela minha experiência pessoal, e olhando para aquilo que é a nossa história recente, não posso conceber nem aceitar uma literatura que não tenha, na sua essência, uma função social. Um texto que seja simplesmente lúdico e desprovido de algum poder provocador ou transformador, então não pode ser literatura. Aliás, ainda que seja apenas lúdico, por isso mesmo, esse texto terá sempre uma função social, desde que reúna requisitos literários.

Olhemos então para o nosso caso. Todos nós sabemos que a literatura moçambicana, tal como o nosso País, são recentes. Não têm sequer cem anos de existência. Tanto é que temos ainda vivos alguns dos seus precursores. Refiro-me concretamente ao nosso prosador-mor Luís Bernardo Honwana. Eu tenho dito que a literatura moçambicana, como tal, nasce justamente com a independência nacional, assumindo que antes desta independência éramos simplesmente cidadãos dum País que ainda não existia, parafraseando o poeta José Craveirinha.

A literatura produzida no período da resistência colonial, a par dos temas transversais ao tempo e espaço, como o amor e as questões existenciais, teve o condão de denunciar a opressão colonial, criando e alicerçando assim uma consciência nacionalista e africanista, por escritores como Rui de Noronha, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Luís Bernardo Honwana, entre outros, por sinal precursores da literatura moçambicana.

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!

Eu sou o teu carvão, patrão.

(José Craveirinha)

Durante a luta de libertação nacional, uma vez mais a literatura configurou-se como um dos instrumentos de luta contra o colonialismo, de denúncia e também de diplomacia, angariando apoios internacionais para a causa dos moçambicanos, através de textos e da poesia de Combate, com autores como Marcelino dos Santos, Armando Guebuza, Jorge Rebelo, Sérgio Vieira, Rafael Magune, entre outros.

AS TUAS DORES

As tuas dores

mais as minhas dores

vão estrangular a opressão

 

Os teus olhos

mais os meus olhos

vão falando da revolta

 

A tua cicatriz

mais a minha cicatriz

vão lembrando o chicote

 

As minha mãos

mais as tuas mãos

vão pegando em armas

 

A minha força

mais a tua força

vão vencer o imperialismo

 

O meu sangue

mais o teu sangue

vão regar a Vitória.

 

(Armando Guebuza)

 

No período pós independência, o País testemunhou o surgimento da geração 80, pontificada pelo movimento literário Charrua que, face à realidade do seu tempo, e movida pelo sentido patriótico, ensaiou rupturas com o seu tempo, introduzindo na literatura moçambicana novas formas e novos conteúdos, em contraposição ao texto panfletário e laudatório em voga, em relação ao sistema político então instituído no País. Por outro lado, porque herdeira de uma tradição de luta, a Charrua produz uma literatura também de denúncia, desta feita, da guerra civil e das atrocidades dela consequentes, da fome e da precariedade generalizadas no seio da sociedade moçambicana, dos excessos e abusos de poder, entre outros males associados ao processo. Mas mais do que isso, é realmente a geração Charrua que lança as sementes daquilo que é a literatura produzida hoje em Moçambique.

Homoíne
[fragmento]

Os nossos mortos são muitos,
são muitos os nossos mortos
dentro das valas comuns

e há um enorme pássaro que se encanta,
é o pássaro lento do esquecimento,
pássaro de sangue, pássaro que se levanta
dos vermes que estão comendo os nossos mortos por dentro

(…)

(Eduardo white)

A geração de escritores posterior à Charrua e outras subsequentes, herdeiras também de uma tradição de rupturas com o seu tempo, (aliás, esta é uma característica da génese da própria literatura) tem sabido dar continuidade, com sentido patriótico, a toda esta herança literária recebida das gerações anteriores, despertando consciências para causas colectivas, preocupando-se com uma identidade nacional, alicerce da nação ora em construção.

A terra a saudade sobre o meu terraço.

Aço azul do céu. Seta certa perto do peito.

Emakhuwa é como onda no asfalto.

Lembra-nos a casa, a cana, o caniço

ou bambu. Nosso barco encalhado com terra,

transportando marítimo o silêncio da Ponta da Ilha.

(Tufo mudo na cicatriz da tarde).

Onde em Maputo  porque circuncisos garotos somos

nossas garotas o rosto de m’siro maquilham?

(Sangare Okapi)

Em síntese, podemos então concluir assumindo que o processo de escrita, ainda que seja um acto individual e solitário, é consequente da experiência vivida ou presenciada, pessoal ou colectiva, que decorre num espaço e num tempo determinados em que  o escritor está inserido, e donde este capta os problemas existenciais, a realidade e os dilemas sociais, processando-os através da criação literária, a fim de propor novos caminhos, novos paradigmas, novos mundos igualmente possíveis.

 

*Texto introdutório da conversa com escritores e leitores no quadro da feira internacional do livro de Quelimane.

Por: Jeremias Langa

 

Livro 1

Quando, sem nos conhecermos, por via do watssap, a Cláudia me pediu para ler o rascunho do seu primeiro livro e fazer os meus comentários, estava longe de imaginar o fascínio que me causaria a qualidade discursiva que encontraria neste “Vidas, paixões e o oculto”.

Recorrendo a técnicas discursivas que fazem escola nas modernas teorias literárias, como a analepse e a prolepse, a autora alia, como diria Roland Barthes, a inteligência crítica com a sensualidade verbal.

Uma temática que perpassa por toda a obra da autora é a do “realismo”, isto é, da possibilidade e das condições da representação da realidade na arte.

Muitos dos temas que perpassam neste livro são essa representação da realidade.

Muitos de nós nascemos e crescemos com esse imaginário dourado da África do Sul, seja por influência directa de familiares, seja por vizinhos. A Manuela é apenas mais uma vítima deste sonho por uma vida melhor que naqueles tempos só se conseguia na terra do rand.

Mas também temas como o tráfico sexual, exploração laboral nas plantações, as idiossincrasias das crianças que, na ausência dos pais, são educadas pelos avós… são temas que preenchem o nosso o nosso imaginário quotidiano.

Barthes lembra-nos que o realismo é uma ideia moral”, na medida em que é uma escolha do escritor quanto ao modo de representar o real.

A nossa autora fez está escolha consciente de trazer para os seu livro está forma peculiar de narrar estórias.

A Cláudia decidiu enveredar pelo romance para a sua estreia em livro. É uma ousadia tremenda. Os nomes maiores do panteão da nossa literatura notabilizaram-se na poesia (como são os casos da Noémia, do Craveirinha, Rui Knoplfli, Rui Nogar, Nelson Saute, entre muitos outros) e muito poucos se atreveram no romance (ou será antes um conto grande?).

A matriarca da nossa literatura, Paulina Chiziane, tem-se desafiado no romance e com sucesso estrondoso.

Não é comum a incursão no romance na nossa literatura e só por isso a Cláudia entra para um lugar privilegiado na galeria dos nomes da nossa escrita. O romance é um género literário para os eleitos. Exige criatividade, competência linguística e capacidade discursiva notáveis.

Este romance “Vidas, paixões e o oculto” não é evidentemente uma obra perfeita. Denúncia aqui e ali a inexperiência e algum domínio incipiente das modernas técnicas literárias. Mas isso aprenderá a autora na estrada na criação. Afinal, ninguém nasce perfeito.

O mais importante é que temos que celebrar a entrada triunfal desta nova voz nas nossas letras, que nos traz um discurso pujante, uma estória cativante e que nos toca a todos nós.

A Manuela, a Cristina, a Rebeca, a tia Bia, a avó Rapoi, a Glorinha, o Xitlhango, antes de serem personagens do livro, são personagens do nosso próprio quotidiano e cruzamos com eles amiúde nas nossas vidas.

A ingenuidade da Manuela na procura da vida fácil, o amor genuíno de Xitlhango, a matreirice de Gloria para tirar proveito de meninas incautas… a tudo isto é a nossa sociedade.

Veja-se o desfecho da Rebeca, que tanto se esforçara para ter uma carreira sólida e bem-sucedida; que tinha apostado na escola, termina a estória bem-sucedida mas bem só, com vários Meticais em vários bancos, sem ter ninguém com quem desfrutar o que amealhara.

E este romance nos levanta esta necessidade de reflexão auto-fágica: para que vivemos? Qual a noção do sucesso?

Por isso, este livro somos nós todos aqui, nas nossas perfeições e imperfeições. Leiamo-nos!

 

Livro 2

Os mendigos de uniforme

Diferentemente do que fiz no primeiro livro, não me alongarei não apresentação deste segundo livro de tao furto que ele é. Os mendigos de uniforme é Fotografia do nosso social com todas as suas imperfeições.

Satira da nossa distopia comum como país, do nosso desassossego social; da nossa perturbadora existência, o livro convoca-nos para a nossa de (Deus)valores.

Personagens emblemáticas:

. Cossa:: representa o passado idílico de honestidade e valores – os valores do desvalor

Basílio: A nossa vergonha com as origens, corrupção, bajulação, puxa saquismo e lambe botismo sem limites, arrogância e falta de escrúpulos – esta ideia de alienação sem precedentes que guia orgulhosamente as nossas vidas- Basílio

O Basílio é muita da nossa elite que venceu na vida sem olhar a meios.

Na esteira da anterior, a autora começa por nos alertar que esta obra retrata retalhos da nossa realidade individual e social de tal forma que vários episódios lhe parecerão muito familiares.

 

*Texto apresentado na cerimónia de lançamento dos livros Vidas, paixões e o oculto e Mendigos de uniforme.

Demitir um colaborador é uma das experiências mais desagradáveis que líderes, engajados em desenvolver talentos no seio das organizações que dirigem, tem que viver. Por outro lado, este acto cria uma sensação agradável para os boices* que encontram nestas ocasiões motivação  para satisfazerem seus egos ou justificar sua própria incompetência no que concerne à gestão do capital humano.

 

As razões pelas quais os líderes engajados são menos propensos a despedir seus colaboradores incluem, de entre outras, o facto destes lideres consagrarem boa parte do seu trabalho a criarem condições para que os colaboradores tenham melhor desempenho; estes estão (também) engajados em criar mudanças positivas na vida profissional e pessoal dos seus colaboradores; estes questionam-se frequentemente sobre as suas competências enquanto líderes e assumem como sua a responsabilidade pelo fraco desempenho dos seus colaboradores.

 

Embora seja uma tarefa complicada a ser cumprida e nem todos estejam preparados para a executar, demitir um colaborador é por vezes necessário. Os motivos que levam a demissão de um colaborador podem ser vários, dentre eles, são frequentes: baixa produtividade, mudanças ao nível da gestão, mudança de tecnologia, fraca assiduidade do colaborador ou comportamento do colaborador.

Para este artigo gostaria de fazer o convite para que nos focalizássemos na demissão por fraca produtividade.  Vamos a isso…?

 

Nos últimos anos, entre meados 2016 e princípios de 2021 vimos passar 3 treinadores pela nossa seleção (carinhosamente apelidada de “Mambas”). Se não contarmos com o ano de 2020 que foi atípico e improdutivo, ficamos com aproximadamente 4 anos, período em que pela gestão da selecção passaram 3 treinadores e todos foram despedidos por alegada fraca produtividade. Antes da chegada de Abel Xavier em 2016, os resultados dos Mambas já eram maus o que leva a acreditar que sua contratação visava desenhar um projecto e construir uma equipe que pudesse trazer resultados positivos a médio e longo prazo. Ora vejamos, todo projeto tem no mínimo fases de planejamento; execução; avaliação e por fim encerramento ou continuidade. Tendo em conta que os jogadores de seleções passam mais tempo nos seus clubes do que ao serviço dos treinadores nacionais, o período de execução e avaliação do projeto torna-se neste caso mais longo comparativamente a projectos clássicos.

 

É um facto de conhecimento comum que o nosso campeonato nacional não é suficientemente competitivo de modo a produzir talentos num período muito curto. Por outro lado, que condições colocamos a disposição não apenas do treinador, mas também dos atletas e da equipe técnica para que tais resultados sejam alcançados nestes períodos relativamente curtos?  Esta análise leva a conclusão de que 4 anos é um período curto para exigirmos que um treinador, mesmo da craveira de “um José Mourinho”, traga resultados para uma selecção como a nossa.

 

Demitir um colaborador nunca foi e nunca será a solução para resolução de problemas de produtividade de qualquer organização que seja.

 

No seu livro “Getting to yes”, os autores Roger Fisher e William Ray dizem: É importante separar as pessoas do problema.

Antes de pensar em demitir um colaborador os líderes devem ter certeza de ter tomado em conta alguns dos seguintes aspectos: Avaliar as competências do colaborador para o exercício das tarefas que lhe foram incumbidas; Dar-lhe autonomia e confiança para que se sinta parte da equipe; Desenvolver uma boa política de comunicação que permita ter feedback constante sobre como o colaborador aprecia seu trabalho e como ele se vê na própria organização; Reconhecimento é outro aspecto a ser tomado em conta (os colaboradores precisam saber que são úteis para a organização); Fornecer ao colaborador todos os equipamentos, infraestruturas e tecnologias necessárias para o bom exercício das suas funções; Remuneração (as organizações devem ter em conta que a remuneração que oferece ao colaborador está dentro dos padrões aceitáveis de acordo com as suas responsabilidades).

 

Depois de terem sido verificadas e colocadas à disposição do colaborador algumas destas condições ou outras aqui não mencionadas, e mesmo assim os resultados esperados não correspondam, aí sim o líder poderá cogitar a ideia de uma demissão por fraca produtividade.

 

Consequência de demissão de colaboradores

 Custos inerentes ao recrutamento e formação de novos colaboradores; instalação de um clima de medo no seio da organização, principalmente quando as demissões são recorrentes; custos inerentes a indemnização; a demissão pode afetar drasticamente no moral do colaborador despedido, e em casos extremos, chegando mesmo a suicídio; dificuldade em contratar bons candidatos quando o despedimento é injustificado.

 

Durante um processo de recrutamento, algumas das questões que os bons candidatos colocam aos recrutadores são: Esta vaga já existia ou está sendo criada; quanto tempo ficou a última pessoa que ocupou o cargo; porquê a pessoa decidiu sair; porquê foi demitida?. Estas questões servem para medir o clima organizacional. Os bons candidatos sabem que não se pode produzir a solo e o índice de turnover* é um indicador de instabilidade numa organização. Quando a percepção do candidato é de uma organização cujo fluxo de turnover é elevado, este crê que não poderá ficar por muito tempo na organização à semelhança dos seus predecessores. Nestas situações, os bons candidatos recusam a oferta. Caso aceitem, será apenas para satisfazer suas necessidades financeiras imediatas, sem expectativa de longa carreira na organização, o que pode resultar num fraco nível de produtividade. Esta é a razão pela qual as grandes organizações estão nos últimos tempos engajadas em criar ambientes de trabalho de qualidade de modo a atrair e manter bons candidatos (Marketing Interno).

 

Voltemos para caso dos Mambas e tomemos como exemplo o que antecedeu o jogo contra Rwanda, notamos que algumas das condições acima referidas não foram tomadas em conta, como por exemplo o facto de se mudar o dia do jogo (voo) sem consultar o principal responsável e motivador dos atletas, neste caso o treinador. E que no final foi sacrificado por falta de resultados. Se publicamente um CEO mostra desrespeito aos seus gestores, é pouco provável que estes últimos tenham motivação ou autoridade perante a equipe que dirigem. Outro aspecto importante a ser tomado em conta e que joga um rol importante no resultado das organizações, e neste caso especial dos Mambas, é a questão da autoestima. O que quero dizer, nós gostamos de trabalhar em organizações que prosperam, em que os seus PCAs fazem parte de grupos empresariais importantes, organizações que têm atenção à questão da preservação do meio ambiente, organizações que patrocinam e estão engajadas em programas de responsabilidade social. É motivador, o nosso ego agradece, nos sentimos parte de uma organização com influência positiva na sociedade e, por consequência, nos leva a dar melhor de nós pela organização. Imaginemos por alguns instantes a moral dos nossos atletas, quando sabem que terão almoço/ jantar pago por terceiros (leia-se despesas arcadas pela FMF), que terão de sacrificar o período de descanso que é primordial para atletas de alto nível para beneficiarem em troca de hospedagem mpwerrule*.

 

Penso que uma mudança de atitude pode nos ser de grande valia se quisermos ter melhores resultados. Dizem os autores Roger Fisher e William Ray, no seu livro acima referido, que “Se perguntarmos a duas pessoas porque estão discutindo, a resposta normalmente identifica uma causa, não um propósito.”

Esta é uma atitude que temos tido frequentemente, seja nas organizações ou mesmo nas nossas vidas privadas. Não procurar soluções para os nossos problemas, mas culpados. E quando se trata de uma organização o colaborador mais fraco é substituído pelo problema e paga pelos maus resultados que são geralmente fruto da má gestão.

 

Foi nomeado recentemente um Secretário do Estado do Desporto em Moçambique, o senhor Gilberto Mendes, dinâmico, jovem, ambicioso e com certa experiência no que concerne ao desporto moçambicano no geral. Temos jogadores a fazerem parte de campeonatos competitivos como é o caso de Mexer, Zainadine ou Renildo, temos um povo que ama aos Mambas assim como treinadores nacionais capazes como é o caso de Artur Semedo. Resta-nos desenhar um plano inclusivo, traçarmos metas a serem alcançadas e atribuirmos responsabilidades. Estou confiante que este exercício vai nos ajudar a trazer bons resultados a médio e longo prazo e evitar demissões recorrentes de treinadores na nossa seleção nacional. EU ACREDITO EM NÓS.

 

*Mambas – (Serpente) – Nome ligado a mascote que representa, e carinhosamente usado para apelidar a selecção nacional de Futebol 11 de Moçambique.

*Boices – Líderes (maneira recentemente desenvolvida no sul de moçambique de designar um superior hierárquico).

*Mpwerrule – De borla (Macua – língua falada no norte de Moçambique – Provincias de Nampula e Cabo Delgado).

* Turnover- Termo da língua inglesa que significa “renovação” frequentemente utilizado na área de Recursos Humanos (RH) para designar a rotatividade de colaboradores em uma organização.

 

Recomendação de livro para o mês de Junho 2021: De Emprego á Empresário– “Kátia Vanessa”

Samuel Gerson Andrisse

Especialista em recrutamento

Autor do livro “Be ready for your next job interview”

www.kensyle-recruitment.com

 

Naquela sessão de consumo de sumo de caju em casa da Eva o grupo em convívio era diversificado. Dele faziam parte personalidades da vizinhança e convidados doutros bairros, acompanhados pelas respectivas damas, todos ansiosos em passar momentos diferentes, senão inéditos. Cada qual trazia a sua contribuição de um garrafão de bebida. As senhoras esmeraram-se na preparação de nhangana, à qual adicionaram um nadinha de piri-piri sacana. Outras fritaram e trouxeram magumba e pescadinha para variar a ementa. Doçuras de petiscos! Na mesma compareceu um sujeito de nome Nhamposse, dado a galã e que residia na zona do Vieira, nas proximidades da Praça de Touros. Era um contador de histórias nato e prolixo, o que atraía largas audiências à sua volta para escutá-lo.

Foi com agrado que o galante Nhamposse recebera do “Garrincha” _ amigo de longa data _ o convite para a abertura oficial da época de caju em casa da Eva.  Na sua área não era muito bem quisto, em virtude de uns guiza-guizados com os maridos dalgumas damas um pouco liberais nos seus relacionamentos com homens. Receava que algum dia, se se juntasse aos mesmos naquelas sessões, acabaria envenenado por algum ciumento. Sentia-se bem e seguro longe daqueles fracassados que eram os esposos das suas amantes.

Ele tinha a sua habitação nas adjacências da Escola Primária da Malhangalene, no centro de um aglomerado de fogos de madeira e zinco. A sua era a mais próxima de uma fontenária para onde afluíam rapariguinhas adolescentes à busca de água. Rapariguinhas e não só; mesmo mulheres adultas e solteirões escolhiam aquela como a fonte predilecta para se abastecerem.

Dava-lhe imenso gosto postar-se à varanda da sua habitação e assistir àquelas escaramuças entre o mulherio que ia carretar água naquela fonte. Fazia-o com um ar superior, as mãos metidas nos bolsos e um sorriso permanente entre os lábios, como se ele fosse o proprietário daquela obra.

Por vezes refastelava-se numa cadeira de lona, os braços muito abertos, um aqui outro ali, a gozar as emoções das trocas de olhares com as mulheres e as raparigas que por ele passavam. Dia não havia em que se não registassem brigas entre grupos que rivalizavam na urgência em abastecer-se. Quando o faziam nem sempre era pela mesma razão. Muitas vezes eram apenas rivalidades pelo gosto e pelo hábito de rivalizar. Porque contradições é costume sempre havê-las entre pessoas que habitam os mesmos bairros. Outras, essas já melhor fundamentadas, tinham a ver com divisões  por questões de invejas e de ciúmes, “…porque disseste que…porque a Jorgeja é que me disse que disseste que…”, de competições por causa de namorados, eu sei lá.

Em momentos de alguma paz o Nhamposse convidava uma e outra rapariga ao seu reduto “para toma uma chávena de chá”. Em outras ocasiões era alguma mulherzinha, respeitada mãe de família que se não coibia de abrir tréguas na abstinência forçada pela ausência prolongada do esposo e aceitava de bom gosto os convites para as ditas sessões de “tomar um chá” com o galante Nhamposse.

Naquele fontenário eram notórios os grupos da Teresa “Nkadjuíne” e da Quitéria “Xiguindlana”. O cerne das contradições entre estes grupos fora o próprio Nhamposse que, pela Nkadjuíne  preterira a Xiguindlana. Como é uso e costume nessas situações, esta não se fez rogada na cobrança do desforço. Ao pretenso namorado não iria bater, porque para isso não possuía nem força nem competência. Descarregou, porém, o tanque do fel sobre a rival. Pegaram-se na fontenária, nos caminhos, no mercado e nos seus próprios domicílios. Onde quer que uma se cruzasse com a outra invariavelmente tomavam lugar verdadeiras batalhas, verbais e físicas, que se prolongavam por horas e terminavam sem vencedora. Se a “Xiguindlana” chegasse primeiro à fonte, nenhuma filiada ao grupo rival tinha o direito a servir-se, tivesse ou não urgência, porque essa deixara de existir para qualquer elemento do campo adversário. E por detrás da lata ou tambor que marcasse “vez” as filiadas alinhavam os seus recipientes, e abasteciam-se até a noite fazer-se escura. E o inverso sucedia-se a  “Nkadjuine” aportasse à fontenária antes da segunda. E longas filas aí se formavam, para desespero doutros residentes que assim se viam privados ou atrasados em abastecer-se.

Ao redor da fontenária havia sempre riachos de aguadilhas a correr, formados pelo jorro contínuo das torneiras negligentemente fechadas. Os que iam buscar água outra solução não tinham senão mergulhar os pés nesses lodaçais de solo negro.

O Nhamposse, naquela sessão de cajú em casa da Eva não se poupou a narrar histórias presenciada na fontenária da Malhangalene e outras mais, nas quais o protagonista principal era um hipotético e imaginário senhor Zunguza, um barba-azul que “não podia ver uma saia abanar à sua frente”. E, como era para esse efeito que para ali se juntaram, os presentes arregalaram-se com a frescura do caju, com as delícias dos petiscos, com a empolgância das narrações, com graça das conversas e a prolixidade dos narradores.

Com a noite as línguas entaramelaram-se, as cabeças aturdiram-se com a força dos vapores do fermentado. Todos falavam alto e riam-se ao mesmo tempo, mas entendiam-se. E, como não poderia deixar de ser, entoaram-se cantigas próprias para a ocasião.

O senhor Pachorro, que era um guitarrista que nunca primava pela ausência nesses ajuntamentos, desmontou a viola das costas e executou aquele número musical. À sua voz fundiu-se a do Nhamposse. E ambos, em dueto improvisado, elevaram aos ares as notas daquela canção que era, a um tempo, uma mensagem de paixão, de nostálgica melancolia por amores perdidos:

 

Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora ****

E conta logo a tua mágoa toda para mim

Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora

Que não vai embora, que não vai embora

Amor, eu quero o teu carinho

Porque, vivo tão sozinho

Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora

Se ela vai embora

Porque gosta de mim!  

 

E todos entoaram em coro:

 

…se ela vai embora…

… porque gosta de mim!…

 

O Nhamposse, de olhos cerrados, uma mão espalmada sobre o peito, e outra no ar, era o próprio Almir Sater, no transe do canto. A voz apaixonada, o timbre ondulante e a expressão facial sofrida conferiam-lhe a imagem do homem enamorado, abandonado o seu profundo amor ao desdém dalguma mulher insensível e caprichosa.

A ovação que se seguiu foi o convite inevitável para o prosseguimento da exibição. Outros números foram executados e entoados, com a questionável perfeição que seria de esperar de bardos improvisados e embriagados.

A noite também embebedou-se com o calor das festividades. Com estas as mentes toldaram-se. Os becos entre as cercas das casas testemunharam as marchas cambaleantes dos consumidores que iam entoando cantigas de nostalgia pela felicidade breve ainda há momentos vivida.

E tudo silenciou no bairro do Chamanculo. A noite voltou a cobrir os fogos com o seu manto escuro. A madrugada sobreveio com outras novidades. As mesmas que abalaram a paz da época, esfriaram o calor das celebrações e trouxeram uma lição renovada de que o respeito pelas coisas ou pela propriedade alheia é uma norma fundamental para que reine a paz e a harmonia na comunidade.

Os residentes nas vizinhanças da cantina do Mário acordaram sobressaltados com aquela notícia: um homem jazia morto e descoberto junto ao muro traseiro do estabelecimento. Era o de um indivíduo desconhecido na zona, que pela aparência devia ser de meia-idade. Um ajuntamento de curiosos formou-se ao redor do malogrado, sem que ninguém, pela surpresa _ diria_ não cometeu a temeridade de dele aproximar-se para melhor identificação; ou, movido por algum sentimento samaritano, o envolvesse com uma capulana para cobrir-lhe o pudor.

A manhã de Domingo ia no começo, eram dez em ponto, quando o “Garrincha”, sobressaltado pelo burburinho causado pela presença dum homem morto ali nas redondezas, sacudiu-se da lazeira e foi testemunhar. Uma brigada da Polícia Judiciária já lá se encontrava a colher evidências, a tirar fotografias e a questionar eventuais testemunhas do evento.

E eis senão quando, para seu espanto e incredulidade, o “Garrincha” descortinou as feições daquele indivíduo e testemunhou a tragédia que fora a morte daquele seu amigo. Porque era, nada mais, nada menos, o corpo despido do seu convidado da véspera, o Nhamposse da Malhangalene! Tinha os órgãos genitais expostos, esmagados, envolvidos por coágulos de sangue já escurecidos, à mistura com uma massa escurecida e disforme de tecidos macerados e pedaços de peles esmagados. O rosto sem expressão era uma máscara cruzada de escoriações e hematomas. Do resto do corpo distinguiam-se com nitidez marcas de lanhos, sinais de que o malogrado fora vítima de uma violenta agressão e que, provavelmente, fora morto algures e deixado ali ao relento.

“ Este teve o que merecia”, disse um mirone no ajuntamento de curiosos, a apontar para aquele corpo sem vida.

“ Você não tem mesmo alma. Como pode dizer que a morte duma pessoa é coisa boa?”, protesto duma mulher, comiserada com aquele infeliz.

“ Digo isso porque vê-se que ele foi surpreendido em flagrante na cama doutro”, esclareceu o primeiro. “ Já vimos casos como este aqui o bairro. Não é a primeira vez que isto acontece. Procurou e encontrou o que procurava. Aqui entre nós é assim, e doutro modo não pode ser. A nossa justiça funciona desta maneira. Morreu por onde pecou”, desabafo daquele justiceiro, a ranger os dentes.

Ao Nhamposse custara a vida a aventura da última noite. O fim daquela sessão de consumo de caju terminara como muitas outras. Embevecidos uns pelas delícias da bebida e outros pelos apelos espirituais das melodias entoadas, libertaram-se das amarras da inibição e deram asas a desejos não confessados. Recolheram ao abrigo das cabanas cujas sombras foram cúmplices de actos de amor proibidos. E esse fora o seu caso com aquela dama de lábios tenros e carnudos, dona de uns olhos grandes que vertiam ternuras a mirarem-no com lascívia e _ só podia ser_ a transmitir-lhe uma clara mensagem de convite para outros encontros, em outros lugares, para outras finalidades. E o esposo dela., que afinal não estava no piquete da Estiva, regressou a casa, a tempo de presenciar a sua esposa legítima em flagrante acto de adultério, na sua cama, na sua palhota. O Nhamposse rendeu-se à evidência de que cometera o mais pecaminoso dos actos dos que em toda a vida cometera. E teve lugar aquela que foi a sua luta pela sobrevivência. Manietado pelo medo a sua resistência foi mínima. O dono da casa era um sujeito afeito a lutas, das quais travara muitas, e longas, lá na aldeia donde provinha. Em pouco tempo neutralizou e subjugou o adversário. Remeteu-o à inconsciência com um estrangulamento e, na presença da própria esposa_ paralisada de temor e culpa_ esmagou-lhe os órgãos genitais com um martelo e um bloco de cimento. Sorte semelhante teve a adúltera. Morreu estrangulada na mesma cama onde cometera a infracção matrimonial.

Consumados aqueles actos, o esposo enganado carregou às costas o corpo do Nhamposse e depositou-o nas traseiras da cantina do Mário para pasto de cães. Regressou à cabana e aí enforcou-se sem deixar mensagem.

 

 

O jornal “O País” completa esta semana 16 anos de existência, 16 anos construídos, dia após dia, e edificados pedra a pedra. Ao longo destes 16 anos, nasceu e foi-se consolidando a lealdade e até a cumplicidade entre pessoas que não se conhecem e talvez nunca se encontram fisicamente durante a sua vida (jornalistas, editores e leitores).

Não é possível descrever o papel da mídia na democracia moçambicana sem referir o jornal “O País”, que é precisamente um dos frutos dessa democracia.

O jornal moçambicano "O País" surgiu num contexto democrático e de abertura política que possibilitou a emergência de uma imprensa independente, investigativa, séria e combativa, não ao serviço dos interesses de um único partido, mas livre para reportar aos moçambicanos a sua interpretação dos factos de forma transparente e imparcial.

Pautando-se por um compromisso de responsabilidade e pensamento crítico, este periódico laureia-nos com histórias do presente e de futuro, histórias que nos tocam de perto. “O País” é uma das casas, uma das avenidas, uma das instituições onde passam, vivem e trabalham muitos dos seus leitores, sempre promovendo o gosto pela leitura.

O grande desafio do jornalismo, em todos os tempos, consiste em libertar-se das amarras partidárias. Resistir com firmeza ao ódio e ao medo que os sistemas antidemocráticos sempre semeiam. Por inerência, a mídia integra o sistema odiado e perseguido pelos sistemas autocráticos – e consequentemente “O País” fez parte desse sistema, mas cabe também aos mídias o papel de tentar melhorar tal situação e promover a liberdade, funcionando como contrapoder, dentro das regras de equilíbrio das instituições democráticas, mau grado os constrangimentos que, nestes dias, o regime tenta reerguer com uma inesperada proposta lei de imprensa.

Ao longo dos 16 anos, “O País” tem estado ombro a ombro e de mãos dadas com o povo moçambicano na denúncia do mal e no anúncio da harmonia e concórdia entre todo o povo moçambicano. Tem, tenazmente, combatido vários casos de injustiças e mesmo de corrupção, procurando corajosamente a interligação de factos e, bem assim, a revelação do que pretende manter-se oculto. O jornal O País é exímio na construção de pontes de amizade e não de muros de separação. É importante que o jornal “O País” prossiga o seu trabalho, praticando um jornalismo de saber ouvir, perscrutar as verdades, acima de todos os constrangimentos, para que os que governam se sintam obrigados a estar à altura de quem os elege e escolhe e para que os leitores sejam correctamente estimulados a decidir as suas próprias preferências e orientações políticas e sociais.

A mídia desempenha um papel de suma importância na manutenção e consolidação da democracia, criando, com a apresentação da verdade, o

caminho para uma sociedade democrática mais robusta. E “O País” tem sido, de facto, um elemento estabilizador dos poderes públicos, sempre atento a divulgar factos, a disseminar informações com rigor e rapidez, garantindo o imprescindível primeiro lugar aos direitos à informação e a liberdade de expressão.

A luta pela manutenção da democracia deve ser uma constante. E ao Estado deve caber, naturalmente e acima de qualquer interesse, garantir a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça ao seu povo. Por sua vez, os órgãos de comunicação social, devem promover a concretização, de uma forma mais completa de participação política, fortificando os ideais democráticos, constituindo um verdadeiro instrumento de defesa aos direitos dos cidadãos.

Com a presença de “O País”, temos, de facto, testemunhado o exercício pleno da cidadania, uma vez que, ao garantir o acesso à informação, o jornal sempre se demarcou de uma linha segundo a qual os jornalistas devem exercer as suas funções a mando dum determinado partido político, designadamente o partido no poder.

Este jornal, como acima referido, enobrece e engrandece o orgulho de ser moçambicano, e encaixa-se nos princípios universais da liberdade de imprensa, porque contrariamente a alguns jornais públicos, nomeadamente Notícias e Domingo, cujas linhas editorais seguem  e representam o pensamento do governo do dia e como diriam alguns são ate controladas, senaocensuradas pelo governo, “O País” consegue mostra-se vertical, imparcial e transparente, proporcionando aos leitores uma opção editorial de alta qualidade e isenta de amarras politicas, sejam de que origem for.

Ao Daniel David, a quem tenho a ousadia e o privilegio de chamar de amigo quero recordar-lhe  um momento impar em que demonstrou estar onde esta por merito proprio e com os pes bem assentes no chao. Estavamos numa recepcao alusiva a recepcao do entao Primeiro Ministro Adjunto da Gra Bretanha e Irlanda do Norte, na residencia da Alta Comissaria, na altura a senhora Kuensberg, que fez questao de nos apresentar ao ilustre visitante. No seu gesto caracteristico a senhora Kuensberg ao apresentar o DD, como lhe chamamos fora das horas normais de expediente, fez questao de dizer que ele era o PCA da SOICO e para dar uma ideia ao Deputy PM da importancia de DD na sociedade mocambicana comparou-o ao … senhor Murdoch, na altura dono dos mais importantes jornais na Inglaterra e se não me engano na Australia, de onde e originario. E disparou a Alta Comissaria Kuensberg: He is the Rupert Murdoch of Mozambique! 

Quando menos esperavamos e para aquilo que eu considerava um super elogio da parte da Alta Comissaria, DD respondeu: I am not Rupert Murdoch of Mozambique, I am Daniel David from Soico! Para bom entendedor meia palavra basta!

Um segundo encontro inesquecivel foi em terras lusas, durante um dos Mozefos na diaspora. Recebi um convite para estar numa das edicoes do Mezefo em Cascais, no Casino Estoril e quando la chego estava uma naipe finissima da elite bancaria, academia e politica portuguesa para não falar das presencas do Presidente da Republica Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, do Paulo Portas, da mana Luisa Diogo, do PCA do BIM, do mano Namburete do Banco BIG entre outros. Recolhi-me a minha insignicancia e perguntava a mim proprio, no regresso a Lisboa o que e que eu fazia naquela sala!

Face a todo o exposto, auguramos sucessos nesta vossa dignificante e já longa marcha rumo ao progresso económico, social e cultural dos moçambicanos, visto que é através de jornais como “O País” que os moçambicanos, acedendo a informações plurais, podem alicerçar as suas opções de natureza social, económica e política.

Pois, na verdade, apenas actuando, como é unanimemente reconhecido, com total isenção relativamente a correntes políticas, é que “ o País”, pode ser um relevante pilar do progresso social, económico e político do nosso país.

Nessa conformidade, saudamos “O País” na efeméride dos seus 16 anos, formulando e reiterando votos de prossecução desse desígnio e missão. O desafio que lanco e que não desistam na expansao as provincias e que Quelimane esta aberto para ser a sede de uma delegacao da Soico na zona centro.

Em tempo de tempestade no alto mar, sois uma das poucas bussulas…

Um abraco,

Manuel de Araújo

28 de Maio 2005 é um dia ímpar. Um dia sem comparação, que o futuro não ousará repetir. Ainda que tentasse, a magia da criação do jornal O País tem aroma único e a fórmula perdeu-se na imensidão das partículas do tempo. No presente, só nos é permitida a viagem pelos anos passados e, em todas as estações, escalpelar as emoções euforicamente vividas, por quem produziu e por quem consumiu este produto.

São 16 anos que hoje celebramos, 16 anos de um produto que, de forma indelével, escreve nos anais da história do país, uma parte significativa da história de Moçambique no contexto da democracia multipartidária. Aqui, orgulha-nos saber que contribuímos para a edificação deste pilar, que ainda procura solidez na esfera pública.

Rasgando memórias e perscrutando as milésimas páginas de história produzidas e publicadas, regozijamo-nos por saber o quão importante fomos ao informar e contribuir, com matéria-prima, a essência do pensamento crítico, elemento fulcral para dialética que gera o desenvolvimento. Tudo fizemos num claro compromisso com a verdade, com rigor e com responsabilidade.

Hoje, vivemos novos tempos, nos quais mudar ou se adaptar é condição sine quo non de sobrevivência. A estas imperiosidades, respondemos com tranquilidade, como resultado da resiliência que as turbulências nos proporcionaram. Eram muitos os cépticos que auguravam o nosso fracasso quando, há 16 anos, surgimos, mas vincamos. O golpe da penhora também ressuscitou o prognóstico de falência, porém ultrapassamos. Na passagem para o diário, chamaram-nos de aventureiros que entravam na mata densa sem protecção, contudo desbravámos e criámos caminhos. Na migração para a publicação digital, os amantes do papel resistiram, mas já se adaptaram. Portanto, tudo isto e muito mais foi injecção de força que se transformou em tranquilidade para lidar com adversidades.

Mais um ano passou e, uma vez mais, celebramos o nosso aniversário no meio da pandemia da COVID-19, que neste intervalo infectou mais de 70 mil pessoas, das quais 834 vítimas mortais. Apesar da significativa redução de casos activos, agora a volta dos 600, continuamos em sentido de alerta e, por isso, precisamos de ter atitudes comedidas. Na media, a pandemia também arrasou, mas também elevou a nossa importância, enquanto canal disseminador de informação. Temos, pois, orgulho do papel que temos neste capítulo.

Ao celebrar os 16 anos, juntam-se a nós distintas personalidades para expressar o seu olhar sobre o nosso jornal e o país. A estas e a todos que, nestes 16 anos de existência, dialogam com os textos d´O País, os nossos agradecimentos pela confiança. Tudo faremos para continuarmos a merecer o vosso apreço.

Com o sentido de acção activo, continuaremos a trabalhar em prol da vossa satisfação para somar histórias na vossa companhia. Bem haja, O País!

O jornal O País inaugura uma época de imprensa moderna cuja liberdade de expressão calcorreia as novas tecnologias, enfrentando momentos incertos e vencendo receios, ventos e tempestades.

Trata-se de um jornal que cultiva um jornalismo que foge da mera conveniência de alardear títulos capciosos e bombásticos, feitos de frases pré-fabricadas, tanto assim é que se distancia dos grupos de interesses (com exclusão, como é óbvio, da publicidade paga), como se não se deixa levar por pressões de uns e outros, em busca de exposição positiva para ganhar mercado político ou empresarial ou qualquer outro quando não seja para com a mesma exposição em sentido negativo contribuir para o derrube, por essa via, dos mesmos adversários (políticos ou concorrentes empresariais ou quaisquer outros actores sociais), num mundo cada vez mais volátil à notícia, sobretudo, quando ruim.

Deste modo, O País usa a lisura, bom senso e responsabilidade num mercado onde todos os stakeholders nesse campo são importantes para os leitores, para a cidadania e não menos para o mundo global. Quantas vezes, entre outros, os turistas e os investidores são influenciados pelas notícias para demandar um certo país, no caso, este, o do território e não o do jornal.

Ao longo dos seus dezasseis anos de adolescente que é, O País tem feito jornalismo com uma mestria que o marca como referência, fazendo jus ao seu nome, ao trazer material informativo de toda a largura territorial, do Rovuma ao Maputo e do Índico ao Zumbo, e nas diversas vertentes temáticas e cobrindo actividades de diversos segmentos e grupos sociais, o que constitui uma materialização incondicional da democracia.

Na verdade, não se pode falar de democracia em qualquer país civilizado, como o que pretendemos que Moçambique seja, sem que haja liberdade de imprensa, o que é corolário da liberdade de pensamento do jornalista na sua acção de recolha e tratamento de informação para torná-la fiável, porque testada e contraditada no terreno.

A liberdade de imprensa, em democracia plural, é o reverso do direito à informação que aos cidadãos é devido.

E nenhum direito se conquista sem esforço, pois mesmo o pão para a boca depende da labuta diária em sua busca.

Assim, também se busca a liberdade de imprensa como se de pão para a boca se tratasse.

A liberdade de imprensa, ancorada na liberdade de expressão, carrega consigo o consequente benefício social dos cidadãos, pelo correlativo direito à informação. No dia em que faltasse a liberdade de expressão e de imprensa e, desse modo, ficasse vilipendiado o direito à informação a que os cidadãos pudessem ter acesso, então teríamos de nos preparar para o funeral da democracia!

Do mesmo modo, no dia em que faltar a pluralidade de ideias e todos nós passarmos a pensar da mesma maneira, estaremos carregando a mesma cabeça e faltará, por completo, a diferença – esse património universal inalienável do Homem.

O País tem trazido a verdade, ou pelo menos, tem feito tudo o que é possível e tudo o que não é possível para apresentar, somente, a verdade aos seus leitores.

Esse tipo de conduta e forma de ser e de estar do jornal O País fez com que ganhasse, neste período dos dezasseis anos, o seu espaço na comunidade leitora nacional e internacional e, bem assim, se afirmasse como um matutino diário de referência e de destaque no mercado nacional e internacional.

Assim, O País tem demonstrado, também, que, além da informação e comunicação relativa, entre outros, ao pano de fundo, à política e à sociedade, internacional, há mais vida, nomeadamente, no desporto e cultura, já que, aliás, bem se sabe, o Homem não vive só de pão, mas também de circo.

O País é, certamente, mais do que um jornal, não só por extravasar as fronteiras nacionais, como, sobretudo, por se ter tornado um amigo diário indispensável, do qual se busca informação fiável e credível, captada em qualquer ponto do país e do mundo, por via do também mundo moderno, nomeadamente, o digital.

Este jornal configura, assim, uma marca de prestígio que merece ser acarinhada, tal como qualquer adolescente, para continuar nessa epopeia de transformação e adaptação permanentes, em benefício dos leitores, expondo Moçambique pelo mundo e trazendo o mundo a Moçambique.

Mas, nenhum sucesso teria sido alcançado sem a irreverência juvenil dos jornalistas afectos ao matutino. Só com a sua determinação e entrega ao trabalho, conseguiram-se alcançar os níveis e resultados que estamos a celebrar.

A esses jovens aguerridos, aos quais coube durante este período produzir um jornal diário, o que representou uma empresa verdadeiramente difícil, carregada de uma acrescida pressão para apresentar artigos e torná-los credíveis, para assim tomar para si um bom segmento de mercado, num espaço onde cabem todos, cada um na proporção do seu empenho, vai, por ser de justiça, um reconhecimento
sem paralelo.

Assim é, pois, porque O País é um jornal que cobre o seu espaço por mérito próprio, daí que, efusivamente, lhe celebrarmos a pujante e promissora adolescência, pela qual lhe apresentamos, aqui e agora, os nossos cumprimentos de merecidos PARABÉNS!

Dezasseis anos atrás, era colocado a circular o jornal O País com uma apresentação invejável em leyout, assim como em termos dos conteúdos.

Um lançamento rodeado de pompas e circunstâncias, próprio do Grupo SOICO. Chegava às nossas mãos um jornal diário, com uma forma de tratar as notícias e assuntos defundo, com responsabilidade, que acabou por nos acostumar a querer sempre comprar o jornal ou a aceder electronicamente.

Os 16 anos, que passaram, foram consolidando o jornal O País na “praça” e, nos momentos em que por razões alheias aos donos do jornal esteve fora da circulação, sentimos a sua falta.

Dezasseis anos, período de adolescência, se fosse um ser humano, seria o momento de muito questionamento, de rebeldia que precisaria sempre de diálogo com os pais.

Mas, como se trata de um jornal, não acontecerá isso, pois os editores, os jornalistas, sempre cuidando da deontologia profissional, nos acostumaram a ter notícias que constroem o país.

Longe der ser um jornal sensacionalista, pautou-se por abordar assuntos que ajudaram a elucidar os momentos vividos pelo nosso país em termos políticos, sociais, económicos e não só.

O jornal o País soube ser e estar na sociedade moçambicana.

O jornal o País passou a ser um sujeito activo de forma positiva, um actor relevante e imprescindível na construção de uma sociedade de respeito, de diálogo e pluralidade de ideias, ou seja, a abertura para o diferente.Quero acreditar que o jornal O País continuará a brindarnos de forma responsável na veiculação das notícias que contribuam para o desenvolvimento do nosso país. Bem haja, jornal O País!

Neste momento de turbulência por causa do terrorismo que teima em adiar os sonhos não realizados dos nossos antepassados, dos nossos e das gerações vindouras de ver o país com os seus habitantes sorridentes e felizes devido ao usufruto dos recursos abundantes transformados de forma justa, esperamos que o jornal continue a sua caminhada como actor responsável e ético, ajudando-nos a não desfalecermos, mas a olhar, com esperança, os dias que virão rumo ao desenvolvimento do nosso belo Moçambique.

Muitos 16 anos virão e o nosso desejo é que o jornal O País celebre sempre com a dignidade merecida.

Se a única razão que justificasse a necessidade duma imprensa independente fosse a mera garantia do direito que as pessoas têm de dizer o que pensam, provavelmente essa imprensa não seria absolutamente necessária. Há mérito, claro, em garantir que as pessoas se informem de forma diversificada, algo que não poderia ser garantido se dependessem apenas de fontes oficiais. Todos sabemos que as fontes oficiais têm a sua verdade, ou melhor, têm uma “verdade” que lhes interessa transmitir. Nesse aspecto, não existe diferença entre regimes autoritários ou democráticos. A verdade oficial é sempre refém dos interesses de quem detém o poder político e, por isso, ela não corresponde necessariamente à “verdade”.

Se dissermos, também, que precisamos duma imprensa independente para podermos satisfazer as necessidades que as pessoas têm de estarem informadas, também não estaríamos a proporcionar boas razões para a sua existência. Todas as sociedades dependem,  até um certo ponto, da troca de informação, independentemente da forma como essa troca está organizada. No fundo, sociedade não é outra coisa senão a troca de informação. Viver com os outros é saber dos outros, saber como estão, o que fizeram ontem, o que vão fazer amanhã, o que acham disto e de mais aquilo. Nessa satisfação da nossa curiosidade flui informação, falsa e verdadeira, na base da qual cada um de nós orgnaiza a sua vida. Portanto, com ou sem imprensa independente, a informação fluiria.

Existem, contudo, três razões impecáveis que justificam a existência e necessidade duma imprensa independente. É que ao dar substância à ideia de liberdade de imprensa a imprensa independente garante três coisas fundamentais, nomeadamente a liberdade de expressão, o pluralismo e a cidadania activa. Dito doutro modo, uma sociedade democrática precisa duma imprensa independente porque esta dá conteúdo à própria ideia de democracia. Democracia não é um rol de coisas que preenchemos mecanicamente, do tipo eleições, liberdade de imprensa, liberdade de expressão, etc. Democracia é o reconhecimento da importância capital que a liberdade de expressão, o pluralismo e a cidadania activa têm na viabilização da própria democracia. Ou por outra, a democracia é o seu próprio conteúdo.

Pode ser útil reflectir sobre cada uma destas três coisas. A liberdade de expressão protege o direito que cada um de nós tem de articular a sua opinião. É claro que não se trata de qualquer opinião. Como qualquer outra liberdade individual, o seu usufruto só tem validade até onde ela não interfere com a liberdade dos outros. É por isso que existem leis contra a calúnia e difamação. Mas o essencial é que a liberdade de expressão nos protege contra aqueles que não gostariam de nos deixar falar para serem eles a dominarem a esfera pública só com os seus pontos de vista. A liberdade de expressão constitui o reconhecimento de que ninguém detém o monopólio da verdade. A existência duma imprensa independente concretiza este reconhecimento.

Alguém pode levantar uma objecção neste ponto. Pode dizer, por exemplo, que a ideia segundo a qual ninguém teria o monopólio da verdade significa, consequentemente, que mesmo aquilo que não é verdade pode ser veiculado publicamente. Sim, a ideia é efectivamente essa. Dizer que ninguêm açambarcou a verdade não quer dizer que certas coisas que passam por informação na esfera pública não possam ser falsas. Podem ser. A ideia, contudo, é de que é melhor correr o risco de consumir falsa informação do que o risco de ser privado de informação para que alguém tenha o direito de impôr a sua verdade. Os momentos conturbados que o País atravessa com a violência em Cabo Delgado são particularmente instructivos. Sem a protecção da liberdade de expressão estaríamos sujeitos à prerrogativa repetidamente demonstrada do governo de desinformar sobre o que lá se passa. Quando pessoas próximas do governo falam mal de quem comenta a violência em Cabo Delgado e acusam-no de “insurgência digital” e epítetos afins, elas estão efectivamente a manifestar aquele desejo profundo de serem os únicos a desinformarem. Não são necessariamente pela informação séria.

Ora, a protecção da liberdade de expressão está intimamente ligada à segunda coisa que a liberdade de imprensa garante. Refiro-me ao pluralismo, talvez a coisa mais fundamental que a democracia promove e protege. O pluralismo é, na verdade, um princípio. Segundo ele, existem várias maneiras de viver a vida. Nenhuma dessas maneiras tem prioridade sobre as outras a não ser, claro, que para eu viver a vida como eu gostaria de a viver tivesse que eliminar todas as outras maneiras de viver. Por exemplo, se eu sou católico ou muçulmano, e tenho poder para determinar as coisas, se eu exigisse que toda a gente fosse católica ou muçulmana, estaria a violar esse princípio. Isto não é apenas no campo religioso. Mesmo no campo político pode acontecer.

Aconteceu no nosso País quando se declarou a independência. Os libertadores da Pátria impuseram como condição para se ser moçambicano estar de acordo com a orientação marxista que eles tinham. Isso limitou as liberdades daqueles moçambicanos que tinham outra concepção da vida e, por que não, uma outra ideia de Moçambique. A rejeição do pluralismo em 1975 criou, por sua vez, condições para a instabilidade militar que o País viveu durante 16 anos durante os quais milhares de compatriotas perderam a vida e o nosso desenvolvimento económico se atrasou com todas as infra-estruturas que foram destruídas. Portanto, o pluralismo é muito importante. A viabilidade dum País depende muito da sua protecção e mesmo promoção, pois isso garante que apesar das diferenças que existem entre nós possamos viver em comunidade e de forma pacífica uns com os outros.

O pluralismo articula-se com a liberdade de imprensa no sentido em que esta permite que outras maneiras de se ser moçambicano, de pensar Moçambique e de organizar a vida tenham espaço legítimo para se exporem e, quiçá, procurarem convencer outras pessoas da sua beleza. Do ponto de vista político, contudo, a liberdade de imprensa articula-se com o pluralismo lá onde ela garante que outros projectos de governação encontrem espaço para serem expostos sem que, por isso, os seus autores tenham que sofrer represálias, ou, para dizer as coisas moçambicanamente, sem que alguém parta as pernas dos seus autores. A liberdade de imprensa protege, neste sentido, o direito que cada um de nós tem de não concordar com quem detém o poder, e de poder dizer isso de forma aberta, ainda que com o devido respeito.

É neste ponto onde intervém a terceira coisa fundamental, nomeadamente a cidadania. Cidadania não é apenas ter um bilhete de identidade, pagar impostos e votar. Cidadania é fazer parte da esfera pública, isto é ter interesse nos assuntos que dizem respeito a todos e ter a liberdade de se manifestar de forma crítica em relação a esses assuntos. Moçambique é uma república e isso significa que a participação de cada moçambicano na coisa pública precisa de ser garantida. A prerrogativa que cada um de nós tem de interpelar criticamente aquele que governa constitui uma manifestação essencial do republicanismo. Com a liberdade de imprensa, todo o moçambicano tem a possibilidade de interpelar quem governa.

Há quem pense que quando um governo é interpelado existe a possibilidade de se comprometer a governação. A crítica, diz-se, pode diminuir a confiança no governo e isso pode fazer com que as pessoas sejam menos disciplinadas na maneira como seguem orientações. A verdade, porém, é que uma interpelação crítica só enfraquece um governo que já é fraco. Pouco surpreendentemente, são normalmente governos fracos que nutrem hostilidade à crítica. Com efeito, quanto mais fraco for um governo, maior é a sua necessidade de controlar a informação e maior é o seu investimento no silenciamento da crítica. Um governo forte, pelo contrário, sai sempre mais fortalecido da interpelação crítica, pois através dela ele tem a possibilidade de ver aquilo que talvez não via e, se estiver de acordo, claro, corrigir as coisas.

Eu, por exemplo, acho que o programa SUSTENTA foi mal concebido. Gente próxima do governo tem muitas dificuldades em ouvir isto. Por essa razão, essa gente reage irada e sempre com aquela suspeita de que quem critica o programa o faz por não gostar do governo, do ministro ou, pior ainda, por não querer o fim da fome no País. Mas a questão não é essa. O programa definiu mal, em minha opinião, o problema da productividade agrícola no país. Esse problema não me parece ter nada a ver com as cadeias de valor, mas sim com o facto de muita gente nas zonas rurais não ter alternativa à agricultura de subsistência.

Ademais, o programa foi mal definido, também, por assentar numa solução que exige um estado muito mais eficiente do que o nosso, infelizmente, é. O meu receio é que tudo isto termine num desastre humanitário e político. Não seria a primeira vez. A socialização do campo ensaiada nos anos imediatamente a seguir à independência teve também um fim desastroso justamente por ter definido mal o problema. Agora, essa é a minha opinião. Não significa que eu tenha razão e que aqueles que conceberam o SUSTENTA sejam idiotas. É apenas a minha opinião. É minha responsabilidade como cidadão interpelar o governo. Se o governo achar que vale à pena incorporar o que eu digo numa revisão dos seus planos, tudo bem. Se achar que não, também tudo bem.

O que um governo não pode fazer, contudo, é abafar a articulação dessas outras opiniões, ou partir do princípio de que quem não concorda, está contra o governo ou contra o país. Infelizmente, o nosso governo é apoiado por muita gente que promove esta postura problemática. Mas ao fazer isso priva o governo e, em última instância, o País inteiro, da assessoria gratuita que a cidadania activa garante. E é justamente isso que a liberdade de imprensa ajuda a proteger e a garantir porque ela é um recurso importante à governação.

É neste conjunto de razões que reside a importância da existência do jornal O País. Ele não existe apenas como fonte de rendimento de quem o faz. Ele existe para participar na construcção dum Moçambique melhor porque esse Moçambique só é possível onde se respeita a liberdade de expressão, o pluralismo e a cidadania. A efeméride que o jornal festeja não poderia ser mais auspiciosa numa semana em que um partido que reúne algumas das pessoas mais hostis à liberdade de expressão se reúne sob o lema “Unidos fazemos Moçambique desenvolver”. Numa sociedade civilizada, a unidade não é unanimidade. É o reconhecimento de que ninguém detém a verdade e, por isso, só na deliberação é que se chegará lá.

Dou os meus parabéns ao jornal pela sua perseverança. Não é a verdade como notícia. É a notícia como convite ao debate de ideias. Mas não vou ser eu a estragar o slógan…

Olá paz.
Parabéns a’O País pelo 16º aniversário! Informação fiável por ser feita com isenção, entretenimento ético e alimento espiritual inclusivo é como eu classifico o nosso Querido O País.

A natureza jovem que usamos no título, por um lado tem a ver com o próprio O País enquanto por outro tem a ver com a maioria dos seus hábeis Jornalistas. A maturidade que revelam no desempenho das suas funções levaria a pensar que tem dezenas de anos de experiência, dada a alta qualidade do produto com que nos presenteiam nas 3 manifestações de informação, entretenimento e nutrição espiritual.

O nosso País necessita de Jovens como estes que se entregam de modo abnegado a juntar aquilo que alimenta as necessidades dos leitores. Estou convencido que há muitas pessoas, dentro e fora do País que regularmente se organizam para não perderem as ricas matérias que preparam para nós.

Temos orgulho de Moçambique ter um órgão de informação e formação como O País.
Deus continue fazendo prosperar as iniciativas que com muita criatividade O País toma, abençoe todos os envolvidos no seu funcionamento e proteja de tudo quanto possa ser ruim.

O jornal diário moçambicano “O País” faz esta sexta-feira, 21 de Maio, 16 anos. É um marco importante dado o espaço de referência que o diário conseguiu no cenário informativo nacional, contribuindo para que os cidadãos sejam mais informados e munidos de ferramentas para, eles próprios, contribuírem para uma sociedade mais aberta e participativa.

É um aniversário que se celebra num contexto de pandemia da Covid-19, que nem por isso relaxou o dever da comunicação social de informar, formar e educar nesta que é conhecida como a era de desinformação e fake news. Afinal, informar ao cidadão com verdade e transparência deve prevalecer sempre, e a isso bem se alinha o lema “A verdade como notícia!” que o jornal carrega.

Refiro-me a desafios editoriais: a adaptação da comunicação e dos conteúdos que são levados ao público leitor, entendendo e considerando as especificidades de informar sobre uma área temática complexa que é a saúde, mais concretamente sobre o coronavírus e a Covid-19.  Por outro lado, falo do desafio da sustentabilidade, de manter uma publicação diária num contexto em que só o papel físico que veicula um jornal pode, em si, ser um elemento de risco na transmissão do vírus.

Sobre esses desafios, e outros mais, um aniversário é o momento adequado para uma reflexão a volta do percurso do jornal, o seu impacto sobre leitores diversificados nos seus interesses, sobre as diferentes áreas temáticas de reportagem e sobre o espaço que é dedicado a estes leitores para passarem as suas opiniões sobre o contexto moçambicano e não só.

A minha relação com o jornal, como leitor, é relativamente recente, mas saber do percurso anterior, como semanário, e ver hoje uma linha diária mais noticiosa e multi-plataforma sobre temas políticos, económicos e sociais, desporto, cultura e arena internacional, é algo por que felicitar aos mentores desta iniciativa multimédia.  É, para nós, também um momento de agradecimento pelo espaço que muitas vezes o “O País” nos concedeu para abordarmos a acção da União Europeia e dos Estados Membros em Moçambique, na área da reconstrução pós-ciclones, promoção da paz, mudanças climáticas, resposta à Covid-19, entre outros âmbitos da cooperação para o desenvolvimento e interação com diversos actores nacionais.

Saúdo a aposta da equipa do “O País”, desde o grupo directivo aos jovens que, dos corredores das instituições, das ruas e das redacções, trazem ao grande público conteúdos noticiosos sobre este vasto país. Essa aposta é uma grande contribuição não só para a liberdade de imprensa, mas também para o aprofundamento da democracia em Moçambique. Uma imprensa livre significa um país livre.

O cometimento e a responsabilidade assumidos devem continuar, com “O País” a renovar o seu compromisso perante os leitores e até com os anunciantes, a reinventar-se e readaptar-se enquanto diário, sem deixar ninguém para atrás no que ao acesso à informação diz respeito.

Para quem se interessa em estudar a história política e contemporânea de Moçambique, não pode deixar de constatar que a nossa história é estruturalmente uma sucessão de guerras, de instabilidades, de acordos de cessão de hostilidades e acordos de paz. Podemos, por isso, dizer que o teor mais profundo da história de Moçambique nos últimos 57 anos, para além do ideal de liberdade qui ganha corpo com a luta de Libertação Nacional encetada pela FRELIMO de 1964-1974, é o espectro da guerra e instabilidades permanentes. Ou seja, desde o inicio da Luta Armada em 1964, Moçambique, sendo um projecto ainda inacabado, não poucas vezes impreciso ou indefinido, tem sido um problema existencial para os povos que o habitam. Ao invés de ser um ideal de paz, de tranquilidade, de riqueza, de prosperidade e de projeção do futuro para milhões de cidadãos, Moçambique tem sido um tormento crónico. Tal como mostra Rousseau no “Contrato Social” e no “Discurso sobre a origem e fundamento das desigualdades entre os homens…”, o problema da paz não se pode confundir com a ausência da guerra. É muito mais do que isso, é igualmente tranquilidade e sociedade menos desigual. Se pensarmos nestes termos, podemos dizer que o problema de Moçambique desde a sua projeção enquanto nação foi de, no seu interior, ter sido produtor das contradições sociais, culturais, politicas e económicas que o levam à guerra e instabilidade quási-permanentes.

Esta situação impele-me, como não podia ser diferente, a afirmar que Moçambique vive uma situação de “estado de guerra”, pois a forma como tem sido construído, projectado ou criado tem fabricado todos os elementos que perigam a sua própria existência enquanto lugar pacifico e mesmo enquanto projecto nacional. É por essa razão que imaginar Moçambique enquanto terra pacífica não me parece ser possível enquanto não se repensar o que Moçambique se tornou hoje para a sua grande maioria; social e economicamente inútil ou quase isso. É necessário recolocar no centro da reflexão desse repensar Moçambique o ideal libertário da FRELIMO de 1962 e do Moçambique de 1975-1986. Isso implica, certamente, questionar com lucidez o Moçambique actual que ao invés de se constituir enquanto ideal para grande parte dos Moçambicanos, tornou-se o elemento que cria angustia persistente. Nessas condições, um país como Moçambique tem poucas possibilidades de se imaginar enquanto terra de tranquilidade. Sabemos que um dos graves problemas para a instabilidade em Moçambique, entre outras razões, tem sido, primeiro, ausência de uma reflexão profunda sobre o modelo de desenvolvimento nacional e, segundo, o agravamento das desigualdades entre as elites dirigentes e as populações que vivem no submundo da paupérie, da mendicância grave, da nudez, da instabilidade, da guerra, entre outras situações.

O Jornal O País significa, para mim, a “poesia de combate” que é cantada nos momentos de incerteza, dando esperança aos que vivem atormentados pela perplexidade do presente e do futuro. Participa, de forma extraordinariamente particular, na epopeia nacional, fazendo dos problemas de Moçambique não uma fatalidade, mas sempre uma abertura para repensar melhor o destino de Milhões de moçambicanos. É nesse sentido que ao conhecer o Jornal O País, estava a conhecer um projecto cujo fito era dignificar criticamente a construção do projecto Moçambique fazendo do jornalismo crítico o seu único critério e finalidade.

Tendo conhecido o Jornal O País, primeiro como semanário, e depois como diário, não deixo de fazer duas constatações. Primeiro, ao emergir no mercado dos Media em Moçambique, este jornal fez das questões de sociedade, de desenvolvimento, de cidadania, de combate à delapidação do erário público o centro nevrálgico da sua actuação. Foi por meio deste Jornal que muitos de nós moçambicanos, e não só, descobrimos a historia social imediata dos bairros desfavorecidos, da ausência de projectos para esses lugares, das desigualdades crescentes, da insalubridade, de larápios infiltrados no aparelho do Estado e não só.  Este primeiro elemento fez do Jornal O País dos poucos jornais no pós-1990 a fazer dos grupos desfavorecidos, sem expressão social, actores importantes nas suas peças jornalísticas. Ademais, este jornal conseguiu deselitizar os personagens do jornalismo moçambicano ao aproximar o jornalista daqueles grupos sociais vivendo nas diferentes periferias, que nunca tinham imaginado participar na esfera publica por meio do espaço que lhe era atribuído nas diferentes secções do jornal (sociedade, politica e economia).

Segundo, este jornal ao fazer isso, permitiu-me ver que o nosso país era uma fábrica de desempregados, de marginais, de drogados, de doentes… pois ao mostrar a realidade crua do estado real da nossa sociedade permitia mostrar que o desenvolvimento em Moçambique não estava a beneficiar a todos. Urge igualmente realçar que me permitiu ver o potencial que tínhamos como país.

Foi a partir das suas peças sobre as manifestações de fevereiro de 2008 e setembro de 2010 que me apareceu a ideia segundo a qual o problema da instabilidade, da guerra em Moçambique não poderia ser resolvida apenas com a integração da Renamo, que a Renamo não era o problema mais perigoso em Moçambique. O grande problema de Moçambique era o número de pessoas que viviam excluídas de todo e qualquer desenvolvimento, pessoas que viviam cobertas da míngua, da forme, da inópia, da lazeira. Este era o perigo que me parecia mais radical. Os depoimentos publicados pelo O País foram nisso uma contribuição estruturante para que eu chegasse à essa ideia.

Revoltas Populares e os acordos de paz a partir d’O País

Moçambique é um país cujo processo democrático ainda está em vias de “consolidação”. Muitos aspectos de “sociedades não abertas ou fechadas” (Bergson, Popper, Hayek) ainda pairam da cultura politica nacional, como a limitação do exercício das liberdades fundamentais, por exemplo a de imprensa. Porém, em fevereiro de 2008 e setembro de 2010 duas grandes revoltas populares eclodiram em Maputo, revoltas que marcaram um momento político particular; a contestação social e politica de cidadãos indefesos contra um Estado fortemente armado, e com características autoritárias muito pronunciadas. Tudo o que o governo de então queria é que os moçambicanos não tivessem acesso à informação detalhada o evento. Foi nesse contexto que, mais uma vez, o Jornal O País mostrou não só a sua lucidez, profissionalidade mas também a sua determinação em defender as liberdades fundamentais, a sociedade aberta, portanto, ao reportar com detalhes tudo o que acontecia naqueles eventos, sem tomar partido e dando objectivamente as informações sobre o curso dos eventos. Vimos uma cobertura imparcial, rigorosa e multifacetada, o que permitiu que tivéssemos uma perceção mais ampla do fenómeno, das razoes que tinham levado aquelas pessoas a se revoltarem. Isto permitiu ver que o discurso do combate à pobreza não estava a produzir os efeitos desejados, pois enquanto o número de indigentes, desvalidos aumentava e o custo de vida piorava, os governantes mais ricos e afortunados ficavam. Tornavam-se parasitas. Esta posição do jornal marcou imensamente a minha perceção da utilidade do jornalismo, tendo eu mesmo passado pelo grupo Soico e escrito para O País entre 2009-2010, pois ali víamos o pleno sentido do jornalismo; informar com objectividade e rigor. E, hoje, como académico e intelectual, este jornal constitui ainda uma referência quando me quero informar sobre o país.

Um outro assunto que me marcou pela forma como O País cobriu, são os acordos de paz de 2014 e 2019. Historicamente, a cobertura desses assuntos não é fácil, sobretudo, quando uma das partes pretende dar a impressão que todos os erros são imputáveis à sua contraparte. Moçambique, em todos os processos de paz, nunca fugiu à essa tendência. Sabendo que era um assunto que definiria o destino de Moçambique e que todos os actores estavam ansiosos em ver o seu papel aclamado, este jornal fez das suas peças jornalísticas não a extensão de nenhum dos actores, ou ainda espaço de recados, propagandas de quem quer que fosse. Com todos os perigos que se corria ao dar igualdade de tratamento à Renamo e ao Governo, vi neste jornal o principio fundamental para qualquer jornalista; equilíbrio no tratamento das informações. Aqui, mais uma vez, tive a possibilidade de ver as múltiplas versões desse processo, as discussões à volta do que cada um dos actores pensava do processo. Isto permitiu reforçar a minha ideia de que os órgãos de informação, como O País, representam o que há de melhor no sistema de Media nacional.

Para terminar, quero dizer que esses dezasseis anos de existência foram marcados, como bem indica o nome, pela vontade de falar de todo o país a todo o país, sem regionalismos e elitismos. Ao negar-se toda e qualquer interferência de quem quer que fosse, este jornal contribuiu para a minha formação intelectual e, certamente, de muitos outros.  Esses dezasseis anos são, para mim, marca de resistência, de destreza, de rigor e de coragem, mormente, quando sabemos que exercer um jornalismo livre em Moçambique é ainda uma aspiração que muitos sonham. Não se pode pensar na democracia em Moçambique sem se reconhecer o papel determinante que O País tem desde a sua fundação.

 

 

Muitas vezes, não damos a devida importância e não pensamos sobre o papel da imprensa e da grande influência que esta tem para o nosso país e até para o mundo, quer para o desenvolvimento das sociedades, bem como para a simples missão de manter as pessoas informadas. O desporto como uma instituição social que exerce uma grande influência nos vários domínios das sociedades, não escapa dessa influência. Contudo, para a nossa sociedade, em particular, tal situação nem sempre se verificou.

Por muito tempo a imprensa foi vista como uma despesa ou custo desnecessária para muitos gestores desportivos, clubes e até atletas. Muito disto porque a imprensa (jornais, emissoras de rádio, canais televisivos, etc), na sua maioria, limitava-se em reporter acontecimentos políticos quando comparado ao desporto. Exemplo disto, era o limitado espaço que os destaques deportivos ocupavam num jornal, não chagava se quer a meia página.

Actualmente, com a evolução das redes sociais e facilidade de comunicação, a imprensa deixou de ser uma ferramenta a ser utilizada apenas para destaques de empresas e governos. Hoje em dia a imprensa tornou-se uma peça fundamental no desporto, tornando as modalidades, clubes e atletas em constante assunto de interesse público, ajudando as equipas na sua preparação, a ganharem visibilidade, a conquistarem patrocinadores e parceiros comerciais, a divulgarem informação técnicas (estatísticas) e desempenho das equipas, a divulgarem o quotidiano das equipas e estrutura, a gerirem crises, a angariarem adeptos, e venderem bilhetes de jogo. No caso específico dos atletas, especialmente quando se trata de atletas jovens e talentosos, a imprensa ajuda a capitalizar as suas qualidades, divulgar a sua imagem, e criar oportunidades de contratação.

É neste contexto que hoje dou os meus aplausos de parabéns e agradecimento ao jornal O País, pelo legado jornalístico de boa qualidade, e pelos contributos que tem prestado ao nosso Desporto nos seus 16 anos de existencia, cumprindo o seu dever cívico de informar com excelência. Parabenizo ainda aos actuais colaborarados e todos aqueles que passaram deste orgão. Que venham mais 16 anos de sucesso.

Quando se me pedem para dissertar sobre os 16 anos do jornal O País, a primeira dificuldade óbvia é por onde começar. Deixem que me concentrem na história do jornal que poucos conhecem. Historicamente, o jornal O País passou por quatro fases de evolução. A primeira fase compreende a sua criação e lançamento da primeira edição, em 2003, pela Editores Associados, cujo director e um dos accionistas era António José Correia Paulo. Esta fase durou quase dois anos, entre finais de 2003 e Maio de 2005. Não há muito a contar sobre este período.

A segunda fase inicia em Maio de 2005, quando a publicação é adquirida pelo grupo Soico. Este momento foi marcante, não só para o grupo Soico, também para nós recém-contratados que trabalhávamos neste jornal. O jornal sofreu uma revolução quer no aspecto gráfico, desde as cores até ao layout (passou de cores vermelha e branca a azul e branca), bem como na sua linha editorial. A nível editorial foi-nos colocado a todos um grande desafio que constitui a visão do grupo: sermos a referência em Moçambique e na região da SADC. Para isso deveríamos optar por um jornalismo de isenção e guiar-nos pelos altos padrões éticos e técnico-profissionais. Tínhamos de romper com a anterior linha editorial. Houve, de facto, uma ruptura com o passado. Aprovámos um quadro de princípios ético e deontológico. A primeira decisão, após termos assinado contratos, é que deveríamos ser jornalistas multimedia. Não tínhamos na noção do que isso significava e representava, mas foi-nos explicado que isso significava que assinámos os contratos com o grupo Soico para fazer simultaneamente o jornal, a televisão e a rádio.  Ou seja, há 16 anos, quando o conceito de convergência multimedia era quase desconhecido, o grupo Soico já estava avançado nos processos de implementação de multimedialidade de plataformas. Tal como todas as mudanças suscitam resistência, esta decisão também não foi completamente aceite e implementada por todos. Era mais fácil um jornalista que cresceu a escrever para um jornal fazer televisão do que um jornalista da televisão fazer o jornal. Em quase todas as reuniões, Daniel David enfatizava que “o jornalismo multimedia é o futuro, não há voltas a dar” e ameaçava, como sempre, aos gritos: “quem não quer abraçar a ideia e o projecto a porta esta aberta. Todos devem saber fazer jornal, televisão, rádios e no futuro saberem filmar, editar as imagens e tirar fotografias. Quem não se adaptar não tem espaço neste grupo”. Essas ameaçam deixavam-me pessoalmente com arrepio, quão uma tempestade, no estomago e uma insegurança laboral tremenda. Quando ele saísse a redacção ficava toda ela gelada e em silêncio por alguns segundos ou minutos.

Raramente Daniel passava pela redacção sem deixar o ambiente de pânico. Se não era Daniel David era Jeremias Langa. Claro, era mais fácil aguentar pressão de Jeremias que já o conhecíamos do que de Daniel. Era difícil saber quando o trabalho era melhor? Quando eu julgasse que tinha feito excelente trabalho, em vez de elogios vinham críticas. Havia sempre algo de errado. Ou era a linguagem ou era o título ou era qualquer coisa. Às vezes o título era de Jeremias Langa, mas quem apanhava com críticas éramos nós. Jeremias Langa era profundamente influenciado pelo jornalismo desportivo português. Por isso, não gostava de títulos óbvios, adorava títulos fortes. Isso influenciou-me bastante na construção de títulos.

A multimedialidade criou, na altura, desgaste em nós do jornal O País. Era previsível, porque alguns jornalistas da televisão tinham limitações óbvias para um jornal. Era violento obrigar um jornalista da televisão a escrever um artigo de uma página ou duas do jornal. Eram poucos os jornalistas que tinham experiência de jornal. Recordo-me que apenas tínhamos Jeremias Langa (director editorial), Alfredo Júnior e Francisco Mandlate. Os restantes jornalistas não tinham experiência de jornal, embora alguns tenham estagiado em impressos. Nós, mais integrados no jornal, fazíamos as duas coisas, sem grandes dificuldades. Com o tempo, a resistência aos processos de mudança foram aumentando. Muitos preferiram fazer televisão a jornal. Em 2006, o semanário O País, com 32 páginas, chegou a ser produzido por três repórteres (eu, Arão Valoi e Ramos Miguel, este último chefe da redacção), sem textos de jornalistas da televisão.

Relativamente ao layout, tinham sido desenhados três ou quatro versões de layout que foram discutidos numa das salas do VIP. Duas versões foram as mais votadas: o layout muito próximo do anterior jornal, o mais votado e o de cor azul e branca, o segundo mais votado. Claramente que eu também tinha votado vermelho e branco. O argumento era de que a cor vermelha era viva do que a azul. A azul e branca eram pálidas e não atraiam aos leitores. Nessa reunião, Daniel David disse que o jornal tinha de marcar diferença e considerava a palidez da cor do jornal como uma das grandes diferenças em relação aos outros semanários. Era um jornal com mais cor branca do que azul. Prevaleceu a ideia vencida.

A terceira fase foi de transformação de semanário em diário e a respectiva reforma no layout, em 2007. Se produzir um semanário era difícil, mais difícil era aventurar para um diário de 32 páginas. É verdade que entre 2006 e 2007 tínhamos recebido um reforço de quatro estagiários, idos da Escola de Jornalismo e Universidade Eduardo Mondlane, com potencial enorme que viriam reforçar sobremaneira o jornal O País.  Hoje são referências incontornáveis no jornalismo moçambicano. Refiro-me a Boaventura Mucipo, Ricardo Machava, Orlando Macuácua (Escola de Jornalismo) e a própria Olívia Massango (vinha da UEM). Estes vieram aliviar-nos muito o fardo antes da transformação do semanário em diário. Como era de esperar, a transformação do jornal em diário trouxe enormes problemas. Saíamos da redacção de madrugada esgotados, no dia seguinte nova edição tinha de ser preparada. Fui-me incumbida a missão de negociar a contratação de bons e experientes jornalistas na praça para integrar o projecto de diário. Na altura negociei com vários jornalistas experientes e excelentes da praça. Quase todos aceitaram a proposta, mas à hora de assinatura do contrato recuaram. Outros vieram buscar contratos para irem ler e não regressaram mais. Os argumentos eram os mesmos: “ali se trabalha muito”, “ali só há hora de entrada e não há de saída”, “Ali não há tempo para descanso, nem aos fins-de-semana”, “ali há muita insegurança, mandam-te embora com facilidade, por isso, prefiro ganhar pouco mas com emprego seguro”.

Com a recusa dos jornalistas experientes só nos restava uma saída: lançar um concurso público para contratação de jornalistas e de estagiários. Pelo menos conseguimos vários estagiários. Dessa lista, ainda me recordo de Elísio Uamusse. O País diário foi fundamentalmente produzido por um muito de jornalistas experientes e de estagiários ou recém-contratados após estágio com sucesso. O projecto de diário fez com que a multimedialidade funcionasse em pleno. A redacção foi construída para servir todas as plataformas. Deixou de existir chefes da redacção para o jornal e para a stv. Só havia chefe e sub-chefe da redacção do grupo Soico. Igualmente, as secções também passaram a ter apenas editores de todas as plataformas, ou seja, o editor de sociedade era o mesmo para o jornal e para a televisão, ide em relação às outras secções. A resistência a mudança cessou. Claro que havia um e outro que ainda resistia. Esta foi a fase mais difícil. Numa primeira fase, a edição do jornal só fechava entre 3 e 4 horas. Com o tempo, o entrosamento e experiencia de jornalistas, fomos reduzindo a hora do fecho para 1 e 2 horas de madrugada. E finalmente, o fecho acontecia entre 22 e 23 horas.

A quarta fase é a que não participei. Apenas acompanhei como leitor. Nesta fase o jornal impresso foi descontinuado, dando lugar ao electrónico. Embora o electrónico tenha sido introduzido há bastante tempo, o marco desta fase seria 2020, após a eclosão do Covid-19.

Em todas estas fases há momentos que merecem destaque. Um dos momentos foi o início da governação do Presidente Armando Guebuza. Havia muita expectativa de que aquela seria uma governação transformacional e que romperia com o espirito de “Deixa Andar”, o burocratismo e a corrupção. O jornal O País desempenhou um papel do primeiro plano na monitoria de governação desse período. A cobertura de explosão de paiol de Malhazine a 23 de Março de 2007, que culminou com a morte de mais de 100 pessoas, as manifestações populações de 5 de Fevereiro de 2008 e de 1 e 2 de Setembro de 2010 constituíram também um momento marcante, nos quais o jornal se mostrou à altura, cumprimento, com excelência a função social. O mesmo papel cumpriu na cobertura dos processos eleitorais autárquicas e gerais de 2008/2009, 2013/2014 e 2018/2019; na cobertura dos ciclones e cheias e nos conflitos militares entre as forças governamentais e os homens da Renamo (2012-2014 e 2015 em diante; de Cabo Delgado, entre outros eventos. Um papel que continua a desempenhar, com maior ou menor dificuldade. Os tempos são outros.

“Alguns livros são imerecidamente esquecidos,

nenhum é imerecidamente lembrado”, Frederich Nietszche

 

“Catorze mil versos de sermões assim, quem poderia lê-los sem desmaiar de cansaço ou de sono? (…) nada faltou a Dante senão um bom gosto e discernimento na arte”, lê-se nas cartas virgilianas (1758)  escritas pelo douto jesuíta Saverio Bettinelli (apud ECCO:2007) sobre a Divina Comédia. Por ocasião da morte do poeta Baudelaire, o escritor francês Émile Zola escreveu “dentro de cem anos Les Fleurs du mal serão apenas recordadas como uma curiosidade”. Já the London Critic (1855) chegou a afirmar que “Walt Whitman tem a mesma relação com a arte que um porco com a matemática”. Mediante tais observações desagradáveis dos críticos literários renomados daqueles tempos, quem dos consumidores de literatura ousaria protestar e prever o sucesso desses autores clássicos sem ser tido como ridículo?!

Entretanto, ao longo do tempo, o belo da arte dos autores supracitados prevaleceu sobre a crítica mordaz de quem naquele tempo afigurava-se uma autoridade da literatura.  Como se explica essa estranha imortalidade de certas obras literárias que sobrevivem ao tempo e à crítica dos maiores doutos da arte? Se calhar fosse o caso para dizer-se que o valor estético não é definitivamente relativo quanto ao tempo e espaço, como convencionalmente se pensa. Ou talvez tenhamos de aceitar o aspecto óbvio de que toda a obra de arte tem um valor intrínseco, por conseguinte, não carece de nenhuma validação do crítico literário. Aliás, o real papel dum crítico literário é lançar a luz sobre o enredo textual, descortinando a graciosidade da sua estrutura, a problemática do seu tema e as implicações do seu assunto sobre a nossa actual condição humana.

Ainda retomando o questionamento do relativismo do belo artístico, se concordarmos que a literatura é um meio de narrar nossas imaginações, sentimentos e pensamentos da maneira mais bela possível, e o belo é um valor estético que varia em cada época, como se pode responder ao facto de, por exemplo, a Odisseia e Ilíada de Homero granjear admiração desde antiguidade grega até aos nossos dias? Mostra-se, deste modo, necessária a compreensão de que a literatura seja imbuído doutros valores e interesses, além do belo na sua forma. A ideia de que a literatura seja bela, mas inútil já não é mais uma conclusão convincente num debate sobre o poder da arte. Houve tempo em que se mostrava conveniente defender-se a ideia de fazer-se arte pela arte, ou seja uma arte totalmente desinteressada, de tal maneira que ela não sucumbisse ao moralismo social, político e, ou, religioso. Porém, sujeitar-se a arte a esse sacrifício de inutilidade afigura-se-me um auto-engano de quem assim a sentencia, pois ela jamais se revelou inútil ao mundo. A arte, especificamente, a literatura, em seu modo desinteressado e ficcional, sempre sugeriu as virtudes da vida, sem precisar de dize-las ou defini-las.

O desafio que se nos impõe a todos nós como consumidores da arte é a capacidade de interpretação. Na literatura assim como na própria vida é disfuncional o adágio de que “contra factos, não há argumentos”. Esses dois mundos, um carregado de ficção e outro de realidade, têm a mesma exigência de interpretação que é um exercício em busca do sentido das coisas. E quando a literatura, em particular, assim o exige, ela torna-se o objecto do pensamento, porquanto o acto de pensar configura-se como este exercício (inexorável) em busca do sentido. Por essa razão, pode atribuir-se à literatura a função primordial de instigar a reflexão sobre a condição humana. Haverá outras funções não menos importantes nas quais se destaca a catarse, empatia, autorreconhecimento e autossuperação perante modelos regenerativos e degenerativos fornecidos pela literatura.

Diria que a função primordial da literatura que é de provocar pensamentos despoleta automaticamente funções secundárias, algumas delas já supramencionadas. A múltipla funcionalidade dos textos literários tem a ver com a própria natureza da literatura que é miscelanicamente holística.  Ou seja, a literatura configura-se como um conhecimento que aborda a vida em quase todos os seus aspectos. Diferente das ciências que tendem a compreender a vida num só ângulo, como a psicologia o faz, focando-se em reacções comportamentais, a sociologia em relações sociais, a biologia em termos da funcionalidade dos órgãos, a literatura não fragmenta, apresenta-nos a vida sob influência de vários aspectos, incluindo os principais aspectos biopsicossociais.

Sendo assim, a literatura mostra-se a ferramenta mais aprimorada e completa em relação às ciências para compreensão da vida. Entretanto, a sua anomalia benigna consiste em ser incapaz de definir ou sistematizar, mas apenas contar, descrever e insinuar. Jamais a literatura ousará definir com logicidade o que é amor, mas atrever-se-á a contar alguma coisa sobre este sentimento, tal como o faz com a justiça, a morte, a dor, a solidão, a amizade, a crise existencial, etc. E a sua glória reside especialmente quando ela fala desses elementos, sem ter de se impor como uma autoridade do saber, mas o fazendo com a beleza das palavras, a metáfora dos sentidos, a originalidade do estilo e a coerência das ideias. Ao todo, julgo serem esses elementos que tornam a obra literária agradável e memorável de ler-se. Perdendo-se a beleza das palavras, a obra literária torna-se seca ou entediante de ler, dificultando a compreensão das metáforas. Com a escassez das metáforas, a obra literária mostra-se pobre na matéria de imaginação e dessensorialização do mundo físico. E a ausência da originalidade do estilo faz da obra um elemento totalmente confundível. A falta da coerência das ideias deixa a obra literária desprovida do pensamento. E sem pensamento, não há significado. Sendo assim, todas as razões para que obra literária sobreviva ao teste do tempo tornam-se nulas.

A ideia de que a imortalidade da obra literária seja, em grande parte, garantida pelo pensamento fundamenta-se com a própria natureza do pensamento que é intemporal. Todo e qualquer pensamento tem a tendência de tornar-se universal, não somente pela sua constituição lógica, mas pelo seu poder de abstração. Ou seja, todo o acto de pensar envolve abstração que é o processo que permite a mente descurar-se da realidade sensível e passar a lidar com as formas e conceitos. E, ao contrário das impressões que variam de acordo com o tempo e espaço, as formas e conceitos mantêm-se inalteráveis de tal modo que, por exemplo, se alguém nos fala da árvore ou montanha, não precisamos de lembrar-nos da primeira ou última árvore ou montanha que a gente viu no mundo, mas chegamos ao entendimento do enunciado, pois dispomos do conceito e forma destes dois elementos independentemente do tempo e espaço em que estivermos.

Deste modo, a glória da literatura sobre o tempo deve-se basicamente ao pensamento fundido nela de maneira inobjectiva e sob os condimentos estéticos. Normalmente, o pensamento dentro das obras literárias revela-se-nos através das famosas lições morais que desde os tempos do ensino primário éramos obrigados a retirar dos contos e poemas. Obviamente que haja mais lições que se podem tirar dum texto literário, mas a ideia duma lição moral configura-se como aquele valor que se aprende duma experiência para toda a vida. Por conseguinte, um livro com uma lição moral tem asas para desprender-se duma experiência limitada pelo tempo e espaço rumo ao universo metafísico. Tratando-se da literatura, é preciso que essa lição moral (pensamento) tenha sido estabelecido num exemplo indutivo (poema, romance, conto, etc) adornado de elementos estéticos inéditos. Sem os elementos estéticos, corre-se o risco de, no lugar da literatura, ter-se um livro deformado de filosofia, um ensaio científico ou uma auto-ajuda totalmente desprazerosos (ou pouco prazerosos), mas úteis de lerem-se. Se calhar, seja essa a grande diferença existente entre a maioria dos best-sellers e a maioria dos escritores talentosos, porém menos populares. Ou seja, quem lê Paulo Coelho ou José Rodrigues dos Santos, best-sellers lusófonos, pode notar que nas suas obras o nível de erudição supera o domínio estético da língua, enquanto escritores como Ernest Hemingway, Ungulani Ba Ka Khosa, Mia Couto ou Machado de Assis procuram manter equilíbrio entre a estética da palavra e a erudição, um exercício tão imperfeito em que o domínio estético da palavra se mostra normalmente avantajado em relação à erudição.

Entretanto, quando o domínio estético da língua suplanta a erudição, a obra literária tem menos chances de sobreviver ao seu tempo, pelo facto de não ter nenhum valor a transmitir a novas gerações, senão experiências corriqueiras que, embora contadas de maneira requintada, não agregam nenhuma lição ao desenvolvimento da consciência humana. E quando é a erudição a suplantar a dimensão estética da obra, ela tem relativamente mais chances de sobreviver ao teste do tempo, pois apesar de ser uma obra austera na beleza da palavra, ela torna-se útil à humanidade pelo conhecimento e reflexão envolvidos na sua composição. Todavia, tal obra jamais vai ser considerada uma referência literária, mesmo que seja enquadrada na estante da literatura, pela razão de ter-se descuidado consideravelmente dos elementos estéticos que causam fruição na leitura. Deste modo, para imortalidade duma obra literária, em stricto sensu, é necessário um meio-termo ou equilíbrio ainda que não perfeito entre o pensamento e a estética da palavra. Quando um se sobrepõe gravemente sobre o outro, ou viola-se a imortalidade da obra ou dissolve-se a literariedade da mesma. Para uma intemporal obra literária urge sempre a união entre o útil e o agradável, parafraseando o poeta romano Horácio.

 

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O diálogo com a narrativa oral no universo literário moçambicano (para não dizer africano mesmo com poucas credenciais para o efeito) é já uma premissa adquirida, partilhada e aceite sobretudo por aqueles que observam este fenómeno de fora para dentro. Para esses, a narrativa escrita que foi sendo feita ao longo do tempo, apresenta-se-lhes como um palimpsesto da narrativa oral talvez pelo discurso modesto que se quer honesto “vendido” in e outside por vários escritores: eu sou contador de histórias do meu povo. Quando acolhido à primeira vista, este discurso, gera a ilusão de que há pouca ficção como se ao escritor e ao escrivão a vida reservasse o mesmo ofício.

É deste diálogo intertextual com a narrativa oral que se foi forjando a narrativa moçambicana sob a égide criativa dos seus cultores numa esfera que não se esgota na cedência de espaço, na escrita, para ressonância dessas vozes ágrafas mas perpassa a apropriação do seu discurso e estrutura para se conceber a ficção, conforme recorda-nos Lourenço do Rosário, ao afirmar que a literatura de tradição oral encontra-se refletida na literatura escrita na forma e no conteúdo, com a adopção de recursos estéticos, integração de elementos estruturais e recuperação de valores.

Esta simbiose ocorre, talvez, por motivos de busca de retalhos que lhes permitam a identificação do rosto no campo do fingimento literário ou, se calhar, por mero fluir identitário porque se na literatura há espaço para o fingimento, o ADN furta-se a esse jogo e evidencia-se onde quer que seja.

É este elo identitário que nos permite aferir que “Ilusão à Primeira Vista” de Almeida Cumbane inscreve-se, também, neste domínio, fazendo com que denotemos, na narrativa, os binómios prémio/castigo e ruptura/continuidade.

O primeiro (prémio/castigo) resulta deste diálogo permanente da narrativa moçambicana com o universo oral do ponto de vista estrutural, que organiza o enredo de tal forma que a interpretação do valor temático-ideológico que uma determinada narrativa veicula deve passar pela aplicação de dois critérios: o morfológico e o temático-antropológico.

Este modelo interpretativo fora cunhado por Vladimir Propp (1928/1983) que em “Morfologia do conto maravilhoso” estabeleceu diversos aspectos que constituem bases da actual narratologia. Um dos aspectos a destacar é que com base na comparação e análise da distribuição dos motivos em diversos contos, Propp descobriu que, “muitas vezes os contos emprestam as mesmas acções que se resumem numa mesma acção na qual o que muda são os nomes e os atributos das personagens, mas não suas funções.

Entenda-se, no entanto, que Propp define função como “a acção de uma personagem definida do ponto de vista de seu significado no desenrolar da intriga”.

Assim, na esteira de Propp, ROSÁRIO (1989: 15) postula que morfologicamente, as narrativas serão identificadas como: Ascendentes (quando terminam bem e com o prémio ao herói) e Descendentes (quando tudo se processa de forma inversa à do primeiro caso).

No que diz respeito ao critério temático-antropológico, identificamos as narrativas conforme elas se apresentam com, por exemplo: pessoas e/ou animais através do comportamento dos quais se pretende abordar questões ligadas aos costumes da comunidade, hábitos morais ou culturais, premiando os cumpridores e castigando os transgressores.

Este foi (e é) em grande parte o modelo discursivo/estrutural da narrativa moçambicana que costura os enredos a ponto de resultar no que Francisco Noa chamou de “dimensão escatológica da ficção moçambicana” apresentando cenários tipicamente perfeitos de castigo a um determinado agressor no universo narrativo, lendo-se, então, um certo pessimismo/cataclismo, no enredo (e quiçá do próprio autor), relativamente aos comportamentos das personagens da ficção (e quiçá de que/quem elas representam).

É neste prisma que sobressai, também, o binómio ruptura/continuidade. Vítor Manuel de Aguiar e Silva em sua “Teoria de Literatura” afirma que a continuidade no panorama literário funda-se numa discursividade intertextual que privilegia a manutenção da cultura, a invariância dos modelos, a atemporalidade das normas e convenções retóricas e estilísticas. A ruptura, contudo, tal como o conceito denuncia, processa-se de forma inversa.

Não há, apesar disso, uma situação de conflito conforme alerta-nos Aguiar & Silva (2007: 270) porque a característica primordial de qualquer sistema cultural é a procura fervorosa da manutenção do seu equilíbrio, das suas entidades, normas e fins, isto é, a sua tendência para a homeostase. Esse sistema mantém-se essencialmente inalterado, através da introdução de alguns ajustamentos e modificações – um processo de homeorrese que, ao efetuar pequenas alterações, permite que a estabilidade do sistema não seja afectada. É, tal como o autor reitera, a actuação concertada dos fenómenos da homeostase e da homeorrese (entenda-se continuidade e ruptura) que contribui para o privilégio de um determinado “sistema literário” com base numa componente de estabilidade e não de ruptura total ou parcial.

Portando, Almeida Cumbane continua este permanente diálogo com o oral, modalizando a realidade “mística” com o enredo decorrendo, sobretudo, no espaço rural e com personagens típicas desse meio. Por seu turno, a rutpura emerge também desse universo dos prémios e castigos buscando um quê de humanização dos blocos interpretativos desses binómios, demonstrando que no percurso daquilo que parece ter um fim escatológico há, afinal, um espaço para redenção, para o optimismo: uma segunda chance.

De Almeida Cumbane, busca-se estas inferências num enredo em que se nos apresenta o professor André Fernando Matuassa. Ora, saber que Cumbane é, também, professor pode-nos reenviar para uma leitura biografista que não vinga porque acaba se fitando em detalhes da vida íntima do autor (do ponto de vista social, económico, político, cultural, etc.) e tudo que pré-existe ao texto no sentido de criar, em retalhos, uma imagem do autor como se a obra fosse o espelho fiel do ego do escritor. Não querendo, contudo, ignorar o facto de que mesmo sendo ficção o texto só pode apresentar aquilo que o seu autor conhece ou imagina.

André Fernando Matuassa nutre um amor profundo pela N’weti que brotou da infância nas companhias frequentes na aldeia 16 de Junho em Chicualacuala, no contexto doméstico e na escola porque fizeram o primário juntos e a N’weti não pôde prosseguir porque as amarras tradicionais não permitiram que continuasse com os estudos.

Já formado como professor e perspectivando leccionar em Chicualacuala ou nas imediações, André vê a sua perspectiva reduzida a negação e contrariedade em prol de uma unidade nacional pensada nos escritórios de Maputo que o faz rumar para Zambézia (Alto-Molócuè). Lá a ilusão de funcionário assalariado, dono de si e dos seus, desnuda-se e dá espaço à insuficiência financeira de se resolver sentimental e socialmente com a N’weti porque esta já entrelaçava o corpo e os destinos com outro homem na sua aldeia enquanto ele sucumbia de amores e esperanças de um dia esposá-la. Regenera-se, então, com a Ana que a ele se junta com uma menina (sua filha com outro homem) e juntos dão vida a um casal de gêmeos. Num reencontro fortuito com o seu pai em Alto-Molócuè, que abandonara a família em 16 de Junho, revela-se o castigo da pouquíssima convivência: a sua enteada é, afinal, sua irmã.

Ana, ao descobrir que o seu sogro é, na verdade, a pai da sua primeira filha, cede ante a hipertensão arterial e desvive. Com três filhos por criar, sozinho nas terras Zambezianas, longe da família em Gaza, André faz diligências para regressar à casa mas não consegue fixar-se além de Inhassouro (Inhambane) onde continua como professor e consegue levar as crianças para junto da família em Chicualacuala. Passa, então, a trabalhar na SASOL em virtude de ter sido apurado num concurso público e chega-lhe como um presente a morte de Ultimisso Maluleque, marido do objecto do seu amor: N’weti.

Na viuvez de ambos, unem os trapos, perspectivam a recuperação do tempo perdido, uma vida conjunta e eterna. Alcançaram todos estes objectivos excepto o da eternidade porque a traição de N’weti com Madjaco rompeu esse elo conjugal e fez a vida de André dar mais uma guinada “amorosa” e profissional após os apelos da sua tia que tinha maus pressentimentos relativamente à sua vida e sugeria uma consulta médico-tradicional.

Depois desta experiência e da repercussão que teve até no contexto laboral, o que fez dele objecto de piadas não muito bem geridas pelo seu ego masculino a ponto de se envolver em agressões físicas com um colega na SASOL, eis que se esgota a sua “temporada laboral” naquela multinacional e, com o apoio de um amigo de infância abraça a carreira de caçador furtivo. Tendo evoluído rapidamente no ofício através de uma “bênção” peculiar de Nyanga ya Ndere e, sob orientação do mesmo, aberto os braços para acolher uma nova mulher, a Inocência, embora nunca lhe tivesse aberto o coração já molestado.

Com a nova vida de “lord” facultada pelo novo ofício, buscou desassossego porque passou a estar na “mira” das autoridades moçambicanas e sul-africanas que, numa operação conjunta, acabam por encarcerá-lo e condená-lo a catorze anos de prisão. Enquanto preso, Inocência e seus dois irmãos (do André) dão continuidade à vida e encetam contactos para que após sete anos, André beneficie-se de liberdade condicional e ganhe vida nova.

 

Repare-se que estruturalmente, esta narrativa enquadra-se no modelo ascendente em que o enredo culmina com a premiação do “herói” (André Fernando Matuassa) que parte da ideia da função da personagem aludida por Vladimir Propp em “Morfologia do conto maravilhoso”, para quem todo o conto parte de uma carência e passa por funções intermediárias e termina com uma recompensa ou um castigo, dependendo daquilo que foi a atitude da personagem ao longo das funções intermediárias.

Ao que é legítimo aplicar o binómio prémio/castigo consoante as transgressões de André e assumir, também, com estas “transgressões” a dimensão da continuidade do ponto de vista estrutural deste enredo com outras narrativas produzidas nos anteriores períodos da literatura moçambicana. Contudo, esta regeneração (prémio) de André do ponto de vista social revela-nos uma ruptura com uma dimensão pessimista, se quisermos escatológica na já aludida perspectiva de Francisco Noa, e abre espaço para um quê de herança de contos de fada (espólio de outras latitudes) em que os enredos, na sua maioria, se encerram com o famoso “…e todos foram felizes para sempre”.

Como consequência das mazelas contraídas durante “a batalha do Beira-Mar”, o Garrincha permaneceu em casa a convalescer durante uma semana. Embora homem de largo arcaboiço e de força taurina, os jogadores do Gazense e seus apoiantes  inflingiram-lhe uma sova de que guardará recordações pelas temporadas mais próximas. Obviamente que naquele evento houve muitas vítimas, com registo de traumatismos em ambas as facções, uns mais graves do que outros, segundo testemunhos dos enfermeiros do Hospital da Missão de S. José.

A época era de produção e de consumo de canhu e de sumo de cajú, bebidas redentoras dos aflitos e pretexto principal para encontros de confraternização entre amigos e familiares. Aquelas chegavam à cidade provenientes de várias localidades, situadas nos arredores da cidade, como Mahlanguene, Minchafutene, Boquisso, Mahotas e doutras com semelhante tradição, transportadas pelas carreiras de “Teresa Lino & Filhos” e da “Companhia de Transportes de Moçambique”. Alguns residentes aventuravam-se em viagens aos locais de produção para, pessoalmente, carregarem e transportarem as encomendas para venda nos quintais das suas residências. Outros desafiavam a sanha das autoridades e mercavam-nas nas vizinhanças dos bazares. Assim sucedia no Xipamanine, no Diamantino, no Adelino, no Vulcano. Era sempre com ansiedade que se aguardava pelos fornecimentos. Muitos dirigiam-se para esses locais a fim de adquirirem a sua quota-parte do mesmo.

O Garrinha levou o igualmente combalido Valgi ao bazar do Xipamanine para a compra de cinco litros de cajú. A manhã daquele sábado ia meio quando o autocarro da “Teresa Lino” acostou ao lado do mercado. A chegada matutina da carreira foi saudada com alegria e ululações. Trazia no tejadilho embalagens de garrafões de vinte litros camufladas em capulanas e sacos de serapilheira. Alguns cabritos, frangos e coelhos encarcerados em gaiolas formavam o resto das mercadorias que atulhavam o tejadilho do veículo. Era a promessa de um fim-de-semana festivo. Doutro modo nem poderia ser. Com a quadra festiva mesmo à porta a ocasião propiciava-se para umas entradas  em grande estilo.

Durante o descarregamento da consignação dos garrafões registou-se a habitual  barafunda. Cada cliente  queria todo o descarregamento para si.

“ Esta encomenda é minha”, esbracejava uma grossista de nome tia Xi-Guindatxe que tinha em casa  fregueses à espera, a empurrar os outros clientes.

“ Mentira! Esses três garrafões são meus; fiz a encomenda na semana passada. Pergunta aquela mamã ali”, dizia uma outra mulher, que respondia pelo nome de tia Xi-Kwakwati, dona de uns braços cheios duma  gordura empapuçada, pendular, e uma barriga dilatada que não deixava dúvidas sobre os níveis da sua gula digestiva. Nisso, a Xi-Kwakkwate emparceirava com outras gladiadoras que respondiam pelos nomes de Halima e Mingindatche, também presentes no ajuntamento.

“ Eh, tu mamã, cala masé a boca. Se lutam ninguém não vai apanhar nada”, dizia o ajudante-carregador do autocarro que também era um dos proprietários de parte da mercadoria, a apontar um dedo ameaçador a uma terceira cliente de nome Halima, interveniente em muitas bulhas que se registavam naquele tipo de concentrações.

Como a procura fosse enorme, os fornecedores imediatamente subiram os preços.

“ Cada garrafão de vinte litros custa sessenta escudos. É pegar ou largar. Clientes não faltam”, diziam aqueles com os olhos a luzir de cobiça.

Um burburinho de vozes de protesto subiu na atmofera da aglomeração.

Dos garrafões o sumo de cajú espumava e derramava-se ao longo dos gargalos. Era a prova de frescura e do excelente paladar que ninguém, sob nenhum pretexto, tinha intenção de perder.

Embora abstémio, o Valgi não resistiu em concordar com a sugestão do “Garrincha” em adquirir dois garrafões para consumo de ambos e seus amigos, vizinhos da Eva. Seria esse o seu baptismo de consumo dalguma bebida alcoólica, porque até aí contentava-se com o maheu e a Tombazana.

“ Ó Valgi, não sei qual é o teu problema. O cajú só se bebe uma vez por ano. Aliás, vais consumi-lo ainda doce. Faz de conta que é refresco”, assim o “Garrincha” aliciava o amigo a provar aquele sumo sacro-santo, uma dádiva dos deuses, tão benevolentes que lhes davam à boca aquele líquido para sua fruição. Mesmo assim o Valgi desconfiou. Não ia dar-se o caso de o fermentado provocar-lhe os efeitos semelhantes aos do canhu, dos quais já ouvira falar.

Todos foram servidos a contento. Cada qual carregou à cabeça ou pela mão a sua encomenda. Mas eis que, da varanda duma loja destaca-se um pequeno contingente de agentes da polícia municipal e de sipaios à paisana.

“ Todos os que carregam garrafões de cajú parem onde estão!”, vociferou o caudilhodo grupo que era, nem mais nem menos, o já historicamente odiado pelas populações, João Mulato!

Tudo à volta estremeceu. Ia suceder, e sucedeu o habitual.

Numa voz, os agentes tomaram de assalto as encomendas de garrafões de cajú à vista. Sobre elas desferiram golpes com mocas, pontapés e cassetêtes, com uma ferocidade de soldados em combate. Estilhaços de vidro voavam para todos os cantos. O líquido cremoso e fresco do sumo de cajú derramava-se no chão e o solo seco tragava-o com rapidez, sem apelo nem agravo, sem nenhuma possibilidade de salvação.

Os que presenciaram o espectáculo da destruição mal conseguiam conter a fúria, o  profundo desapontamento por tão maldosa acção das autoridades que assim privavam muita gente de uma oportunidade para celebrar uma época de confraternização com algum divertimento e dignidade. Aquele fora, como muitos outros o foram, o esvaziamento de um esforço colectivo, o furto de momentos de convivência e descontração em nome da saúde pública. Era mais uma manifestação da prepotência da polícia que não entendia quão importante era para muita gente a prestação de um tributo de agradecimento aos deuses e à natureza pela dádiva do fruto e do sumo que lhes era concedido.

Se lhos tivessem contado, o Valgi não poderia crer que aqueles actos tão bárbaros quão desumanos fossem reais.

“ Porque razão fazem isto?”, perguntou ao atónito “Garrincha”.

“Dizem que é por causa da higiene. Que o cajú está contaminada por micróbios e  provoca muitas diarreias na população”, foi a resposta que aquele achou, e fê-lo com tremuras na voz. Conseguiram escapulir-se da vista dos agentes e cada um segurava  o seu garrafão com discrição e notáveis cuidados.

Durante a retirada ainda conseguiram assistir ao espectáculo do “Sebastião”, um doente mental frequentador da zona, agachado sobre uma mancha de líquido derramado, a lamber o chão com gosto e gula. E gargalhava alto, divertido por saciar aquela sede de xikadju que a tantos esmagava.

 

Portugal exerce neste semestre, pela quarta vez desde a sua adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, a Presidência do Conselho da União Europeia. Trata-se de uma responsabilidade que sempre assumimos com convicção, com espírito de compromisso e com forte dedicação às causas da Europa.

No contexto desta Presidência, elegemos, uma vez mais, o aprofundamento da parceria entre a Europa e África – uma parceria entre iguais – como prioridade de política externa, num momento a todos os níveis importante, incluindo nas vertentes económica, de paz e segurança, digitalização e transição verde.

Tínhamos, à partida, como objetivo crucial, a renovação do quadro de parceria entre a UE e os países de África, das Caraíbas e do Pacífico (ACP), atendendo a que o Acordo de Cotonu – essa pedra angular de parceria entre 79 países de três continentes distintos – havia terminado a sua vigência. Noto, aliás, com singular apreço, que foi também durante uma outra Presidência Portuguesa da UE que, em 2000, se assinou o Acordo de Cotonu, abrindo então campo a duas décadas de esforço conjugado em prol do desenvolvimento económico, cultural e social dos países envolvidos.

Foi, pois, com grande satisfação que rubricámos, no passado dia 15 de abril, o Acordo “pós-Cotonu” com os países da Organização de Estados de África, Caraíbas e Pacífico (OEACP), concluindo com sucesso dois anos de laboriosas negociações. Ao abrigo deste novo Acordo, a UE continuará a aprofundar a cooperação com estas três importantes regiões, consolidando uma agenda cada vez mais sólida no plano económico, político e comercial.

Realço a cooperação no plano económico e comercial porque se tornou bem evidente, ao longo dos últimos anos, que, para ser bem-sucedido, o crescimento sustentável reclama cada vez mais a ativa participação do setor privado: é ele que cria empregos, é ele que produz riqueza e, no fim da linha, é ele o verdadeiro motor da sustentabilidade do crescimento económico, não só no espaço e no tempo, mas também nas dimensões social e ambiental.

Tal correlação foi, aliás, o mote do Fórum de Alto Nível UE-África sobre Investimento Verde, que organizámos em Lisboa, em parceria com o Banco Europeu de Investimento (BEI), no passado dia 23 de abril, tendo como pano de fundo a crescente interdependência entre as dimensões económica e ecológica do desenvolvimento e o efeito potenciador do digital na transição verde, clarificando, nesse contexto, o papel do setor privado bem como o contributo das instituições financeiras internacionais.

É também a nossa esperança que este evento contribua para a consolidação de uma agenda substantiva para a próxima Cimeira UE-UA, a qual confluirá com outros desenvolvimentos de grande impacto, como a referida implementação do acordo Pós-Cotonu e a operacionalização Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) – esta última em vigor desde o passado dia 1 de janeiro.

Se no plano europeu as prioridades desta Presidência Portuguesa (PPUE) são a promoção da recuperação económica e a transição verde e digital, a par da concretização do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, no plano externo tais preocupações refletem-se numa agenda orientada para o desenvolvimento social sustentável, para uma agenda climática comum e para o reforço da parceria económica com África.

Com olhos postos no futuro, Portugal congratula-se, naturalmente, com a aprovação, este semestre, do novo Instrumento de Vizinhança, Desenvolvimento e Cooperação Internacional (IVDCI) da União Europeia – um poderoso mecanismo de apoio ao crescimento das economias africanas, munido da maior dotação financeira de sempre, cerca de 80 mil milhões de euros para o horizonte temporal de 2021-2027, dos quais quase 30 mil milhões destinados à África Subsariana.

Uma fatia importante deste envelope financeiro destinar-se-á a apoiar os setores da saúde e da educação, enquanto que 30% terão de ser alocados a projetos de mitigação e adaptação climática – ambos, como se sabe, absolutamente prioritários para um país como Moçambique, vulnerável às alterações climáticas e a catástrofes naturais.

O IVDCI é, simultaneamente, inovador na forma como associa o setor privado, através de instrumentos de apoio que permitirão a criação de emprego local, a industrialização, o comércio e a internacionalização das economias dos países parceiros, gerando e multiplicando impactos positivos.

Estes são severos desafios que se colocam à capacidade de resistência das nossas economias, no rescaldo do terrível impacto da pandemia Covid-19, tão destrutiva de vidas e tão perturbadora do nosso dia-a-dia. O combate coletivo que se impõe, tanto na aceleração da vacinação como na recuperação económica dos países africanos, é, assim, de importância crucial para a UE e têm constituído preocupação constante da Presidência Portuguesa.

Muito já se fez. Mas, juntos, muito mais continuaremos a fazer nesta Presidência Portuguesa, na certeza de que a relação de África com a UE está e sempre estará no centro das prioridades de Portugal, constante, leal e convicto Estado-membro.

António Costa Moura

Embaixador de Portugal em Moçambique

Por: Gerson Monjane

 

É importante, antes de mais, expressar meu sentimento de apreço pelo espaço partilhado com grandes pensadores da nossa literatura, do qual me sinto intruso, em partilhar ínfimas reflexões sobre o fenómeno literário.

A ocasião de consagração do poeta Armando Artur, a concessão do Prémio de Literatura José Craveirinha a esta figura, na quarta-feira passada, coincidiu com o instante em que me encontrava a folhear os volumes de arquivo do Jornal Savana, correspondentes ao ano dois mil e três (2003). Essa coincidência consubstancia agora uma actualização de factos que interligam um debate dessa época à recente premiação.

No processo de consulta em que me encontrava, deparei-me com um texto, onde Luís Nhachote, editor da página cultural, no último semanário daquele ano, afirma que a partida (a morte) de José Craveirinha e o Debate da morte da literatura foram eventos que marcaram o ano de 2003. Factos que na minha opinião, dezoito (18) anos depois, a cada premiação, confirmam a vida da literatura Moçambicana, assim como, a homenagem ao Craveirinha, o imortaliza e responsabiliza os escritores laureados a não defraudar o signo de qualidade que marcara o exercício da escrita craveiriniana, conhecida principalmente, pelos infalíveis vaticínios.

É sabido por literatas e não só, que a concessão de prémios literários é uma das práticas que asseguram o fenómeno literário a sua feição de estabilidade e de notoriedade pública, portanto, os prémios literários têm um objectivo legitimador. Sendo Moçambique um país onde a obra de um escritor é quase sempre valorizada em post mortem, haverá agora muita ou pouca certeza sobre a obra de Armando Artur? Disso até podem teimar algumas dúvidas, mas com certeza, a qualidade literária, essa é legitimada pela concessão. Passo assim, a comentar sobre o Júri para sustentar a minha posição, segundo a qual, a obra de Armando Artur, sem dúvida, é validada, sem com isso significar que não fosse válida, mas que agora passa a ganhar outra e maior notoriedade pública.

O Júri

Sobre o júri, muito pode se expressar, todavia, no júri composto por Manuel Tomé, Adelino Timóteo, José Castiano, Ungulani Ba Ka Khosa e Teresa Manjate, não encontro objecções, uma vez que, todos respeitam a teoria dos jurados, isto é, relacionam uma autoridade que se deseja aceite pela comunidade literária, a diversidade das personalidades que constituem o jurado, estudiosos da literatura, criadores e/ ou produtores da própria Arte literária, filósofos, que unânimes julgaram e decidiram tendo em conta critérios, facto que robustece um dos instrumentos de institucionalização da literatura, o júri, que por conseguinte, valida a obra do consagrado. Ideia realçada por Vergílio Ferreira, citado por Reis (1999), ao declarar o seguinte:

Um prémio, para lá de várias outras compensações, confere ao premiado um pouco de certeza sobre o que realizou […] se um júri tem qualidade, uma consagração significa alguma coisa que importa à confiança em nós mesmos.

É essa postura acima descrita, que o laureado pelo maior prémio literário no país, o Prémio de Literatura José Craveirinha, Armando Artur deve assumir, reformulando a sua expressão «Nenhum prémio faz um grande ou pequeno escritor» para «o maior prémio de literatura Moçambicana, Prémio de Literatura José Craveirinha fez-me grande escritor».

As compensações

É lógico que uma bolacha não tem o mesmo valor que um carro, uma casa, uma obra literária, entre outros bens. Será verdade que montar-se-ia uma plateia, em tempos de pandemia, de dirigentes, gestores e académicos para laurear um imerecido, com um cheque de vinte e cinco mil dólares? Acredito que não, e que a recompensa no caso da obra de Armando Artur é proporcional ao valor do mesmo, até porque este, é um dos mais complexos processos «Fazer um livro» na lista dos feitos que a sociedade julga que tornam um homem importante, ao conseguir os seguintes três feitos cumulativamente: fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, acrescento, um conjunto de livros representativos.

Atitudes de despeito ao laureado no universo literário não faltarão, é preciso assumir que se trata do melhor, por outras palavras, do escolhido para representar na literatura Moçambicana à luz dos preceitos do prémio.

Portanto, o júri (com base em critérios, credibilidade em matérias literárias e não só, confirmado pelo repertório de conhecimento, experiência comprovada) e as recompensas constituem elementos importantes para a continuidade dos prémios literários, consequentemente, garantir o carácter institucional da literatura moçambicana, pois, por tal razão, estendo a minha imensa estima em jeito de realce de papéis de alguns envolvidos, (in) directamente na consagração de Armando Artur, isto é, nessa coisa vivificar a literatura Moçambicana.

O papel do júri, em repetição; à prestigiada instituição: Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) pelo continuado patrocínio, que significa acreditamos na nossa cultura e por isso a valorizamos. À Associação dos Escritores Moçambicanos, uma casa bastante frequentada por novos literatos, não pode haver dúvidas desta estar a conseguir a assumir o papel de agremiação-mãe das associações artísticas.

Culturais nacionais, pois para além de congregar escritores, aglutina fazedores doutras modalidades artísticas, que a par dos poetas, acolhe músicos, actores, artistas plásticos e outros. A animação cultural havida na cerimónia de divulgação do vencedor do Prémio de Literatura José Craveirinha, evidencia esse facto, começando pela valorização dos nossos escultores, pois o troféu do galardão é uma escultura em formato de livro, em pau-preto, diante de uma abertura do evento a cargo da Yolanda Chicane, uma voz interpretando músicas inspiradas nos poemas de autores moçambicanos e, quando se podia pensar que o ápice da animação tivesse sido atingido, a plateia foi brindada por um envolvente jogral, uma adaptação de Aurélio Furdela, na sua veia de dramaturgia a fundir textos de Fátima Mendonça, José Craveirinha, Calane da Silva, Luís Bernardo Honwana, Lília Momplé e Ungulani Ba Ka Khosa, com interpretação de Lucrécia Paco, Iracema de Sousa, Sangare Okapi, Eduardo Quive e Cheny Wa Guni, vestidos pela marca Quaqua, na sonoridade da nossa Timbila: uma distinta interdisciplinaridade das artes.

Um facto que não nos pode passar despercebido, é a valorização que a TVM e a RM deram ao evento, um evento cultural que mereceu uma transmissão em directo nesses dois canais, que só se pode enaltecer o grande préstimo à divulgação e valorização da nossa literatura.

À Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, e todas aquelas entidades, entre Reitores e PCAS, merecem destaque, por salvaguardar a literatura, apresentando-se no maior galardão literário do país, que reconhece e consagra o conjunto de obras literárias, dos melhores criadores, o Prémio de Literatura José Craveirinha que, com apoio da nossa HCB, vivifica a literatura, ou seja, premiar é podar/manter viva a literatura Moçambicana.

 

A Eva tinha um vizinho de lado que era doido por futebol. Seu nome era Samuel Garrincha por causa de um ligeiro entortamento da perna esquerda, o que não lhe diminuía nem o gosto nem as habilidades para a prática daquela modalidade desportiva.

O Garrinha conheceu o Valgi em casa da Eva. Fizeram-se amigos e eis que num dia qualquer aquele atreveu-se a convidar o novo camarada para assistir a uma a partida de futebol a que ele próprio, o Garrincha, ia participar.

“Valgi, queres ir ao futebol comigo?”, perguntou.

“ Não sou lá muito dado a futebóis, mas prontos! Irei contigo se a Eva me deixar”, foi a resposta.

Claro que a Eva deixou, dava lastro ao amigo porque era outra forma de familiarizá-lo com os hábitos da comunidade.

“ Você, Garrincha, leva o Valgi, mas quero-o de volta, inteirinho”, recomendou a Eva.

Todos riram-se com a brincadeira.

O campo do Beira-Mar estava “superlotado”, se assim se pode dizer, porque primava pela ausência de bancadas. Os espectadores agitavam-se, nervosos, junto ao perímetro das quatro linhas do campo. O sol das duas horas da tarde abrasava. Chapéus multicores, ou mesmo as mãos em pala filtravam a luz que coloria o ambiente. Vendedores de amendoim torrado e tangerinas acotovelavam os assistentes e ofereciam os seus serviços.

Em contenda: o Clube Desportivo Gazense contra o Inhambanense Futebol Clube. Um derby do futebol ultramarino, uma espécie de Benfica-Sporting metropolitano. Era um tira-teimas eterno entre as duas agremiações. Diziam esses assimilados armados em políticos que estes dois grupos, mais do que por rivalidades desportivas, degladiavam-se por questões de “natureza étnica”. Mas esse era problema deles. O que o público queria era assistir a uma partida de futebol a valer. E essa só tendo em campo estes dois “inimigos”.

O Garrincha jogava na posição de médio direito pelo, claro, Inhambanense. Oriundo da Maxixe, nem por sonhos iria jogar por outra equipa que não fosse a da sua terra de origem. Da equipa do Inhambanense destacavam-se estelas como o defesa-central Carlos Guitungo (carpinteiro nas obras de construção civil); o Alfredo “Diploma” Di Stefano (jovem no aprendizado da arte no talhe de madeira); o Rafael Maluleque, o capitão da equipa (pedreiro de profissão) e detentor de um cadastro de três fracturas de tíbias inflingidas aos avançados adversários; o habilidoso avançado-centro Sebastião Rungo (pintor na construção civil) e o guarda-redes Julião Fai-Khokho regressado à equipa, da qual esteve afastado quase meia temporada em virtude duma comoção cerebral contraída numa colisão cabeça-com-cabeça com um jogador duma equipa adversária. Estas eram as pedras-chaves da equipa do Garrincha.

Por obrigação e por fidelidade ao convite, o Valgi deveria apoiar a equipa do Inhambanense. Esta envergava camisolas de cor amarelo-torrado com mangas em branco. Nas costas das mesmas figuravam algarismos que identificavam os jogadores. Cada qual escolhia o seu. E em virtude dessa liberalidade, uma vez registou-se o caso duma coincidência de números nas camisolas de dois jogadores em campo, o que foi uma dor de cabeça para o árbitro da partida. Cada qual vestia calções que variavam na cor e na qualidade de tecido. Uns preferiam o caqui, outros a ganga, outros ainda a cor preta ou branca com barras de cor oposta, conforme as preferências de cada um. Não poderia falar-se de uniformização no calçado. Aqui também a agremiação denunciava os seus fracassos financeiros. Uns calçavam botas convencionais, outros contentavam-se com sapatilhas, as mesmas que calçavam no dia-a-dia; os restantes, nem umas nem outras: jogavam descalços!

O Clube Gazense não ficava atrás dos rivais de Inhambane. Tinha o mesmo que os outros: carência de fundos para dar uma apresentação condigna aos seus representantes naquelas partidas tão populares como prestigiantes. Envergavam camisolas duma cor que poderia ser a fusão de um verde com castanho, muito desbotadas, com mangas amarelas. Do mesmo modo que os rivais, a cor e o corte dos calções dependia do livre arbítrio do seu proprietário, e aquelas variavam entre o caqui, a ganga, ou qualquer outro tecido.

Do elenco de jogadores figuravam, primeiro, o guarda-redes José Mavecanhane, reformado da actividade de bandido e servia como cozinheiro num restaurante da Polana; o Titos Xingove “o Gato”, canhoto exímio em fintas, sempre “à mama”, estafeta numa empresa de um conhecido advogado da cidade; o extremo direito Pedro Xicabeçane, com um cadastro pessoal de três crânios de adversários fracturados em lances de bola no ar; o defesa-central Augusto Mataque, natural de Chibuto e serviçal doméstico dum lisboeta. Apenas um parêntesis para tecer algumas considerações acerca desta personagem: o Mataque ficou com a alcunha de Mata-Aqui porque, conforme ele dizia e disso orgulhava-se ”se a bola passa, tu não passas; se tu passas, a bola não passa. Eu mata aqui mesmo!”, dizia todo impante de orgulho. Outros ases que se destacavam no plantel gazense eram o Domingo Mabulukwane, pasteleiro de profissão e que envergava uma camisola em cujas costas figurava um hieróglifo que dificilmente se poderia catalogar como um três ou um oito, dadas as imprecisões nas curvaturas do sinal; o extremo-esquerdo Jaime Xiphuko-Phuko, mainato na messe dos oficias da Marinha, tornado famoso pela sua velocidade e pela capacidade de falhar noventa e nove por cento dos remates que fazia à baliza adversária. Daí a alcunha de xiphuko-phuko, “ o maluco”, que os companheiros lhe atribuíram; o capitão Djossiane Marrime, o comando em pessoa, temido por colegas, adversários e pelos árbitros, pelo sentido de justiça que os seus punhos podiam e sabiam impor. Não que fosse um executante por aí além, mas a sua presença sempre valia pela inspiração e pela confiança que espalhava no seio da equipa, e, finalmente o Ngungunhane, que outro nome não possuía senão este, era o marcador de serviço do grupo; não tinha lugar certo no terreno do jogo, ora era visto como defensivo ora como atacante, um jogador vagabundo. Mas a verdade manda dizer que, onde quer que ele estivesse era um patrão que deixava muita canela adversária a necessitar de cuidados dos massagistas.

Relatar aquela partida seria fastidioso e ocupar-nos ia muito espaço e tempo, do que não dispomos. Por outro lado, carecemos do engenho e da arte para tarefa tão grandiosa, como detêm profisssionais como o locutor Paulo Terra, da secção desportiva do Rádio Clube de Moçambique. Basta apenas declarar, porque testemunhado por todos os que presenciaram, que aquela partida foi uma batalha campal, que ficou na memória dos residentes como “ a batalha do Beira-Mar”. A mesma terminou com um empate a duas bolas para cada lado. A dado momento da partida, registou-se um incidente que exigiu a intervenção da Polícia de Choque. Esta, por sua vez, fez dezenas de feridos entre espectadores e jogadores. O início da confusão teve lugar quando o guarda-redes do Inhambanense sofreu um golo_um frango_! dum remate frontal do expedito Xiphuko-Phuko. Depois do lance de conversão o guarda-redes do Inhambanense, o Fai-Khokho, precipitou-se sobre a bola e pôs-se aos gritos, a sacudi-la no ar: “dentro desta bola tem um pintainho, eu ouvi; tem um pintainho aqui dentro!”.

“Qual pintaínho, qual carapuça, dá cá masé a bola e vamos retomar a partida”, disse o árbitro, o senhor Ismael Osman, homem imparcial e competente nestes mesteres de dirigir partidas de futebol. “Levaste tanta bolada na cabeça que agora só te dá para ouvires pios de pintainhos. É golo sim, senhor! Dá cá masé a bola.”

Os do Inhambanense discordaram e não se ficaram pelos ajustes; o golo era inválido porque “estes mashanganas estão a jogar com cuche-cuche; é só ver que dentro da bola tem um pintainho. Nada!, o golo não vale!”. O árbitro não era pessoa para muitas contemplações. Tirou a bola ao Fai-Khokho e sobraçou-a sob um sovaco. Dirigiu-se ao centro do terreno para reiniciar a partida. Mas não chegou ao destino, nem logrou os seus intentos. O “Di Stefano” interceptou-o e agarrou-o pelos colarinhos, para em seguida derrubá-lo no chão. Foi a faúlha que iniciou o incêndio. Os gazenses não eram rapazes de deixar o pobre homenzinho à mercê daqueles bárbaros. Os adversários pegaram-se pelos pescoços. Cenas de pugilato multiplicaram-se. Dezenas de espectadores invadiram o terreno e envolveram-se na confrontação. Um dos alvos foi o senhor Osman que, na comoção ficou sem os calções e com a camisola feita em farrapos, embora à sua conta tenha distribuído o seu quinhão de pontapés e murros. Valha-nos Deus!, não ia deixar-se esmurrar como uma estátua ou como um paralítico. Rendeu-se à superioridade numérica dos oponentes. Na ocorrência perdeu o apito e dois dentes incisivos inferiores. Muitas testemunhas juraram ter visto os fiscais-de-linha em galope muito acelerado em direcção ao aglomerado das cabanas vizinhas ao campo, onde tiveram refúgio temporário até ao retorno da tranquilidade nas imediações.

Os presidentes de ambas as agremiações, o senhor Isaac Cuamba pelo Gazense e o senhor Sebastião Nhassengo pelo Inhambanense, foram detidos pela Polícia por incitamento à violência e encarcerados nos calabouços da esquadra da Brigada Montada. Aí as hostilidades prosseguiram. Acusações mútuas colidiram na atmofera da cela: “…seus batotoeiros…você comprou o árbitro… quem joga com cuche-cuche não são vocês?…”. E por aí adiante. Empurras tu, empurro eu. Pegaram-se pelas patilhas, que as tinham frondosas, e teve então início a segunda fase daquela batalha que opunha adversários empedernidos, sempre com algum pretexto para se combaterem. Na movimentação da peleja o representante do Gazense aplicou as célebres joelhadas e cabeçadas _ chimbhutso muzaya_ ao adversário. Este, pouco ou quase nada equipado com tácticas combativas, utilizou o único recurso defensivo que possuía: enterrou uma profunda dentada ao peito do gazense. Quando os agentes do piquete acudiram, alarmados com os ruídos da contenda, encontraram o presidente Cuamba a sangrar duma ferida no peito, como resultado duma amputação do mamilo direito.

“ Eu não morda, dá com este!”, ufanava-se o Cuamba e brandia o punho direito no ar, mesmo junto aos narizes dos polícias.

O senhor Nhassengo deu-se conta da presença dos agentes na cela pelo sentido de audição porque tinha os olhos cerrados, muito tumefactos, trabalho e arte dos golpes do adversário.

“ Estes tipos não podem mesmo uns com os outros, xiça! Se quiserem matar-se vão fazê-lo muito longe daqui. Sipaio, abre a cela e tira-me já estes animais daqui!”, berrou o comandante da esquadra, o tenente Júlio Sampaio, exasperado com tanta violência.

E foi deste modo que o Valgi se estreou na área do desporto na cidade de Lourenço Marques, com algumas escoriações no corpo e muitas memórias para narrar.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

Era uma vez, sonhei que era um professor do ensino primário. Na minha turma tinha uma menina, acho que devia ter entre 9 a 11 anos de idade, acho que ela não me disse a idade dela no meu sonho.

Um dia pedi que os meus alunos escrevessem uma redacção a contar um pouco sobre a casa deles, como vivem e o que fazem. Essa menina que não me lembro do nome dela, escreveu um texto de uma página de caderno, mas no meio da redacção algo me deixou intrigado.

Ela disse que vivia com o tio da mãe e que não gostava dele.

Bem, corrigi o texto e no final da aula chamei a menina para conversar com ela e saber porquê não gostava do tio da mãe e respondeu apenas que não gostava porque durante a noite, ele tinha o hábito de levantar a saia dela.

Aquilo me deixou aterrorizado e tratei de ligar para a mãe da menina e pedi que e viesse a escola para ter uma conversa franca com ela sobre o que a criança me contou. Mas, instantes depois o meu despertador tocou e eu despertei.

Despertei sem conseguir conversar com a mãe da criança. Despertei sem saber ao certo o que estava a acontecer com a criança. Despertei sem conseguir ao menos ajudar a criança. Despertei sem saber o que mais o tio fazia além de levantar a saia da sobrinha de noite. Foi apenas um sonho, mas isso me dói a alma.

Fico me perguntando quantos tios levantam a saia das suas sobrinhas e quantos vão além disso? Quantas crianças são molestadas por pessoas próximas a elas, muitas até por parentes directos?

Quantas crianças são usadas como escravas sexuais de pessoas sem escrúpulos que usam a capa de família para as violar?

Qual é a nossa responsabilidade como pais na protecção das nossas crianças. Será que conversamos abertamente com elas para deixa-las avontade em falar connosco caso algo de errado aconteça?

Temos visto todos os dias histórias de crianças que são violentada sexualmente ppr pessoas com quem partilham o mesmo teto. Então. Por favor, não permita que a sua filha seja mais uma vítima de violência sexual, sobretudo se é praticada por alguém da sua família. Converse com a sua filha, vigie-a e corte pela raiz qualquer sinal de violência que possa ver, quer com a sua filha ou com a filha de outra pessoa.

Denuncie todas as formas de violência contra as crianças

Camarada Celso,

acabo de ler o seu Prémio Literário José Craveirinha 2021. Não me surpreendi. Percebi que continuas convicto, como eu, que Luís Carlos Patraquim, Mia Couto e Francisco Noa, como se fossem uma santíssima trindade, merecem tal distinção. Penso que os teus argumentos são autênticos. Os três autores contribuem verdadeiramente para a arte literária moçambicana. E não é de hoje, conforme observas, lá vão boas décadas que os temos como garimpeiros da palavra neste trajecto tão difícil e tão cheio de armadilhas.

Concordo contigo. “Ainda bem que nestes tempos pandémicos e incertos a HCB não apanhou Covid”. Há alguns meses, comentei sobre o HCB com amigos e manifestei o receio de o prémio ser cancelado. Contra as minhas expectativas, Dom Celso, eis que num zás, eu todo distraído, lá vens tu a dizer-me que amanhã iremos conhecer o próximo autor agraciado. Boa notícia! Logo que a recebi, pus-me a lembrar da cobertura que há dois anos e meio fiz na belíssima Vila do Songo. Nessa altura, acertei o prognóstico, embora não tenha sido algo público. Os amigos de sempre ouviram-me sustentar a minha posição. Quem venceu em 2018? Ungulani Ba Khosa, o que, salvo o erro, o permitiu estar entre os membros do júri da edição 2020.

Conforme dizia, camarada Celso, que já estou aqui a pensar em Tete, a província que me fez homem, estás certo quando sustentas que o Patraquim, o Mia e o Noa são altos candidatos ao prémio. Só quem não estuda, não acompanha e não compreende os passos da história literária moçambicana pode ter reservas em relação ao teu palpite. Não é o meu caso. Eu até sou distraído, mas sempre acerto qualquer coisa. Por exemplo, sei que antes de Ungulani, venceu o HCB Fátima Mendonça. Lembro-me que algumas pessoas fizeram caso disso, na altura. Mas eu me identifiquei com a decisão dos membros do júri. A consagração à professora Fátima foi feita em boa hora. Ela é um dos pilares da nossa literatura. Então, foi bonito! E este ano, será? Bem, Dom Celso, sabes que o país literário, nos últimos anos, vibra quando o assunto é premiação. Logo, imagino que não teremos uma escolha inquestionável.

Despois de sustentar a tua tese, Dom Celso, estendes a tua lista e lá colocas outros nomes: Paulina Chiziane, João Paulo Borges Coelho, Suleiman Cassamo, Nelson Saúte e Fernando Manuel. Na minha percepção, nem os três primeiros autores e nem estes cincos serão distinguidos com o Craveirinha, amanhã. Sei lá. Chame a isso intuição. Falível. Logo, não coloques a mão no fogo por mim, que eu também desconfio das minhas ideias. Às vezes. Será este o caso? Achas que sim? Eh pa, O País está para fechar a edição desta quarta-feira e o editor do jornal está aqui a pressionar-me para entregar as minhas páginas. Além disso, há uma peça minha que vai ao Jornal da Noite e tenho de a montar. São 19h41, agora, e já não me resta muito tempo. Por isso, tenho de terminar esta conversa que foi uma tentativa de te contrariar, a ti, um editor tão iluminado e que muito aprecio.

Camarada Celso,

sim, oiço-te perguntar quem vencerá o Prémio Literário José Craveirinha 2020, na minha percepção. Na verdade, bem, nem se trata de percepção, mas de observação. Não vou sustentar nada, como tu o fizeste. Tanto posso acertar como errar. Se errar, será a primeira vez que isso acontece desde que comecei a fazer prognósticos públicos. Nada grave. A vida, muitas vezes, parece um erro mesmo… Então pronto. Sem querer discutir se é justo ou injusto, adio essa discussão para mais tarde, acho que o grande vencedor do Prémio Literário José Craveirinha 2020, nesta quarta-feira, dia 12 de Maio de 2021, será… Não. Se contasse, não votaria nele neste momento. Porquê? Penso que o timing é importantíssimo considerar.

Bem, tenho mesmo de encerrar este assunto. Depois falamos dos erros e dos acertos. Sim, isso mesmo, camarada Celso: Armando Artur.

Enquanto me perdia no meu mundo de fantasias, ouvi os passos sorrateiros do Milano. Nesse instante, pensei que ele me quisesse pregar uma partida, como sempre faz, então fingi que estava a dormir para depois o surpreender. Mas, daquela vez, senti uma vibração estranha, senti que ele estava para baixo, afinal decidimos fazer a viajem de última hora porque ele precisava estar com os seus em um ambiente diferente.

Abriu a porta do meu quarto como se quisesse roubar algo; acendeu a luz para se certificar que eu estava a dormir; deu passos em direcção à cabeceira e disse:

– Eu sei que estás acordada. Eu estou muito bêbado e sinto vontades.

Continuei a fingir que estava a dormir. Ele foi desligar a luz, veio a cama, deitou-se, colocou as pernas na cabeceira e disse:

– Eu estou todo fodido! Espero que realmente estejas a dormir, assim é mais fácil, para mim, contar isso. Se estás a dormir, responderás com um peido daqui a um minuto.

Soltei uma gargalhada e disse:

– Apanhaste-me.

– Sabia que não estavas a dormir. Eu disse que estou com vontades.

– Tem sorvete e salada de frutas na geleira. Sobraram chamussas que a tua pita trouxe.

– Hummm, minha pita desde quando?

– Achas, achas que não sei que vocês costumavam se comer na casa de banho do bar quando vínhamos para cá? Assim és o namorado da cidade grande?

– Não sei do que estás a falar.

– Ah então estou a confundir a camisa azul com riscas brancas que comprei em para ti?

– Pode ser uma outra pessoa.

– Aham, que usa exatamente o mesmo perfume que eu e a tua gravidíssima noiva, quer dizer, ex-noiva, escolhemos para te dar presente quando defendeste?

– Sabe, eu estou com vontades.

– Aló, chamussas?

– Não quero comer.

– Então são vontades de quê mais?

-A minha vontade é de desaparecer.

– E deixar esse Napolitano só para mim?

– Cleide, desde que meu pai morreu, só acontecem azares na minha vida.

– Para alem da suspensão no trabalho, o que mais aconteceu?

– Engravidei a sobrinha da Célia e fiz sexo com a esposa do meu chefe. Tirando o acidente que provoquei por causa de conduzir bêbado, investi em vão 90 mil que pagaria pedreiros da obra no Crowd-1 e agora mesmo só falta o meu corpo ir porque a minha alma já bazou.

– Estás mesmo na bad Milanhonho.

– Porras, estás a me chamar esse nome porquê? Estou todo fobado

– O pior é que te fiz fugir da clínica de reabilitação.

– Ah ah ah ah.

– Milano!

– Mamã.

– Vai ficar tudo bem, nós estamos aqui para ti.

“Nós estamos aquí para ti, eu disse”. Ele deu tantos sinais, e nós simplismente os ignoramos.

– Tia, ele me contou, eu não fiz nada.

– Tu não tens culpa, Cleide, não tens culpa.

– Poderia ser diferente.

– Como?

– Sinceramente, não sei. Sei lá… Acho que eu devia ter percebido. Imagina, ele perdeu o único membro de sangue da sua família, e simplismente perdeu o seu equilíbrio mental.

– Podes-me contar com mais detalhes sobre o dia?

– Como sabe, pedi dispensa de tarde, no trabalho, para visitar Milano na Clínica de reabilitação. Comprei o nosso sabor de sorvete favorito, preparei uma salada de frutas para o dar de presente, pois, segundo a Célia, ele estava a se recuperar bem. Logo que cheguei, ele arrancou-me o telemóvel e mandou mensagens para a sobrinha da Célia. Pareceu-me estar bem, tanto que estávamos a falar sobre a minha despedida de solteira, onde supostamente ele seria o único homem porque ainda acreditava que o meu noivo não gosta dele. Do nada, ele sugeriu uma viajem, “Tal como quando éramos jovens, sem responsabilidades e felizes, vamos a casa de Praia do meu pai, esse será o meu último adeus ao álcool”, ele disse. Estava a sofrer com a suspensão no trabalho, mal sabia como pagaria a multa do acidente e eu senti que finalmente o meu amigo está a tomar juízo. Tia, já tiveste uma conexão tão forte, tão intensa, tão única que nem você mesma acredita que isso é possível? Já olhaste para alguém e disseste “essa pessoa é a pessoa da minha vida”? Já paraste para pensar no número de passageiros no teu autocarro que se chama vida e quem é o teu fiel ajudante, que está contigo em todas as viagens mesmo não estando no autocarro, que em todos os acidentes está lá para te ajudar a fazer o autocarro voltar a pegar e continuar com a viajem? Do nada, o teu autocarro da vida já parou e a tia simplismente não sabia como fazer arrancar. Então o teu fiel ajudante virou motorista? Acho que me perdi um pouco com a metáfora, mas creio que tenha entendido. Isso já aconteceu consigo?

– Eu..

– Milano era a pessoa, ele é quem eu levei comigo de outras vidas. Como eu poderia negar uma despedida ao meu? Como eu poderia dizer não? Eu sabia que ele estava a falar a verdade, que era para ele a sua última loucura embriagado. Também sabia que ele sentia muita falta do pai, que precisava se reconectar com ele de alguma maneira, que ele precisava de equilíbrio. Sabia que aquela casa seria a sua versão funcional, mas o facto de ele ter descoberto que a casa seria vendida o machucou bastante.

Fizemos o nosso plano de fuga. Como pode perceber, deu certo. Fomos buscar os gémeos no ginásio e partimos para Angoche, claro que não demorámos chegar, pois tudo que nós queríamos era ver o lindo pôr-do-sol na praia. Fomos só com a roupa do corpo, estávamos todos animados e cheios de energia, pois fazia tempo que não estávamos todos juntos. Durante o caminho, comentei sobre como a Célia é uma grávida linda e que os casamentos têm que acelerar, pois, se o bebé for parecido com o pai, e nascer antes do casamento, vai fazer-lhes umas perguntas muito assanhadas que não saberão o que responder.

– A criança que a Célia espera não é minha – disse.

– Como assim? – perguntou Deny.

– Ela me deixou depois do acidente, descobriu que estava grávida de outro.

– Como assim? – perguntou Deny, novamente.

– Eeeh, vamos ao bar, quero beber – disse Milano.

– Espera, espera Cleide, como assim a criança que a Célia está a espera não é do Milano?

– Então, a Célia tinha um caso há muito tempo, e engravidou.

– Mas…?

– Sim, tia, ela virá conversar consigo sobre isso.

– Desculpa-me a interrupção, sobrinha, peço que continue.

– Sim, eu e o Dany ficamos espantados pois acreditávamos que ele seria pai do filho da Célia. Entretanto, fomos comprar umas garrafas de bebidas alcoólicas. Ele mal bebeu, assim que passeamos pela vila decidimos fazer uma festa em casa. Convidamos todas as pessoas que encontrámos na rua. Foi uma longa e muito louca a noite. Como nos velhos tempos. Do nada vi o Deny e o Milano a discutir. “Talvez seja por causa de alguma coisa que o Milano fez”, pensamos. Do nada, o Milano expulsa toda gente de casa porque queria dormir em sua casa antes que fosse vendida. Os convidados foram-se, como já estava tarde. Cada um de nós foi para o seu quarto. Foi aí que ele veio me contar sobre o que se passava com ele.

Eu disse-lhe:

– Nós vamos superar isso, já passamos por tanta coisa juntos, vamos sair desta.

– Desta vez é diferente. Desta vez é muito diferente.

– Vamos pensar em alguma coisa juntos.

– Sabes, quando mais jovens, nunca imaginei que ser adulto é esta merda: ser dono das suas próprias decisões, ter responsabilidades, assumir os erros, a cena mais fudida é aceitar levar desaforo para casa, a maldade das pessoas à tua volta, é estupidamente insano. É impressionante como as pessoas não te deixam ser feliz, elas fazem questão de te sabotar, e eu que já me saboto. Estou todo acabado.

– Realmente, vamos então pensar em soluções. Vai ficar tudo bem.

– O que eu vou fazer? Aquela menina não quer fazer aborto, os pais já lhe expulsaram de casa. Meu chefe sabe que eu lambi a esposa, então a suspensão pode passar para demissão e a minha suposta noiva largou-me quando eu senti que mais precisava dela. Ainda não é oficial que já não estamos juntos, mas man? Essa vida. Eu acho que não tenho forças.

– Não faz mal não ter forças.

Virei-me para o lado dele, abracei-o que nem um bebé. Ele chorou e disse-me que acabou de saber que o Deny é o pai da criança que a Célia espera. Eles estão juntos desde que o Milano a fez o pedido. Ele só ficou com a sobrinha dela por vingança. Disse também que a ama do fundo do seu coração. No dia do acidente, ele bebeu muito só porque não conseguia aguentar dor de acabar de perder o pai e logo em seguida perder a mulher que ele ama.

– Porquê? Porquê eu? Porquê comigo?

– Vai ficar tudo bem.

Não vai, Cleide, não vai. O nosso melhor amigo, de infância, ficou com a mulher que eu amo. Eu quase matei alguém, eu estou perdido. Que porcaria de adulto eu sou? Qual é o meu propósito? Para quê acordo todos os dias? Meu pai tinha razão, eu sou uma merdinha mesmo.

– Não faz isso contigo, você é uma pessoa incrível.

– Para com isso. Posso dormir contigo? Como quando aramos mais novos?

– Pensavas que dormirias em outro lugar?

– Só não me bufa.

Naquele momento, as coisas começaram a fazer mais sentido para mim: “queria que as minhas paranoias estivessem todas erradas”. Infelizmente, estavam certas. E então dormimos.

Quando o sol começou a nascer, senti uma mão apalpando-me. Com a sua mão esquerda, ele começou a roçar a minha perna direita, endireitou-se e a mão direita dele começou a passear pela minha coxa esquerda em direcção às nádegas. “Será que ainda está bêbado? Será que é o que eu estou a pensar que é? Não é possível, devo estar a confundir. Vou deixar e ver até aonde ele vai”. Lentamente, começou a subir as suas mãos em direcção aos meus seios.

– O que estás a fazer?

– O que você está a fazer?

– Humm.

– Deixa eu te sentir pouco.

– Não.

– Isso vai fortalecer a nossa amizade! Não me perguntes se estou maluco, porque sabes que não estou. Vai ser só uma vez.

– Não.

– Se alguém descobrir diremos que estávamos bêbados ou negaremos até a morte.

– Mas, tens noção do que me estás a pedir.

– Só uma vez. Só uma.

– Isso pode estragar a nossa amizade.

– Mas também pode fortalecer.

– Milano, há mais de 20 anos que somos amigos, e quando mais novos isso nos passou pela cabeça, mas nós decidimos não o fazer pois somos muito mais que os nossos corpos “essas coisas carnais não nos podem separar” nós dissemos. E agora podem? As nossas almas?

– Pouco só, só uma vez, um pouquito, deixa o Milanhonho te sentir.

Começou a dar-me beijinhos no pescoço, dizendo que seria uma única vez. Só o sexo faria tudo ficar bem e que ninguém saberia: “as nossas almas precisam se tocar através dos nossos corpos, só elas saberão”.  As mãos dele sabiam aonde ir, como ir, ele sabia exactamente onde me tocar, e, principalmente, como. “Coitadinho, está a sofrer tanto, vou-lhe dar uma súper vitória e assim pelo menos recupera forças” pensei.

Afastou as minhas pernas, colocou-se entre elas, olhou-me nos olhos, deu duas reboladinhas só para me atiçar e mostrar que me desejava.

– Queres que te beije?

– Queres-me beijar?

– Depende de ti.

Xiei-lhe, aproximou-se ao meu ouvido, sussurrando, disse: “será a primeira e a última vez, prometo”.

– Então vamos fazer que valha a pena – Eu disse.

É como se as minhas palavras dessem início a uma música muito bem afinada, composta por Mozart, cantada pelo Luciano Pavarotti e dançada por Anna Pavolva. “Ele me deu um aqui e agora e eu lhe dei um amanhã será melhor que hoje”. Foi o que eu pensei, pois senti cada segundo e milésimo em que ele esteve dentro de mim, em cada suave, lento e profundo ir e vir eu senti suas fragilidades, seus medos, sua vontade de desistir do mundo, seu corpo me disse que ele estava tão desesperado, tão acabado, tão impotente. Sei também que ele sentiu que eu estava ali para ele, sentiu a minha força de vontade, sentiu o meu aconchego, o meu “tudo vai ficar bem”, mas ele ter sentido isso não foi o suficiente.

No momento em que me entreguei a ele, tive a certeza que ele carregava um peso enorme dentro dele, e a tal clínica de reabilitação apenas tirou o álcool do sangue dele. As nossas almas ficaram mais conectadas ainda, mas, infelizmente, não consegui o barrar. Assim que nós nos satisfizemos, ele saiu do meu quarto com a promessa de que aquilo nunca mais aconteceria. Adormeci.

– Clara, chama ambulância.

– Milanooo, Milanoooo, acorda. – Deny grita de desesperando sacudindo-lhe.

– Carrega-lhe e põe-lhe no carro. – Dany diz tremendo

– As chaves estão com a Clara – Deny Responde.

– Claraaa, chaves. – Grita Dany.

– Milanoooooooooo, acorda, acorda Milano. Clara estás parada, ele está a morrer Clara – Deny grita com toda a sua força.

– Clara, Milano está morto. Chama ambulância – grita Dany

– Milanoooo acorda. Milanooo – continua a sacudindo-lhe no desespero com a esperança dele estar vivo.

De repente, parei de ouvir as coisas. O mundo ficou muito lento, levantei-me numa velocidade, peguei nas chaves, fui a correr ao quintal, liguei o carro, os rapazes trouxeram-no, eu não consegui ouvir nada do que eles estavam a dizer. Assim que chegamos ao hospital, fomos atendidos.

Ele sentia-se tão vazio, tão impotente, tão não merecedor de viver, ele tentou ser forte, lutou, mas tudo que ele queria era deixar de sentir a dor. Lá estavam os sinais e eu não soube interpretá-los. Eu estava tão preocupada com os preparativos do meu casamento, com o trabalho, com as coisas do meu mundo, enquanto ele estava numa grande batalha com a depressão. Eu, que era sua alma gémea, a sua Cleidanhonho, o meu estou aqui para ti chegou tão tarde, foi tão insuficiente, me sinto tão impotente. Tia, eu sei que é a madrasta dele, que cuidou dele desde pequeno, que as coisas estão apertadas para vocês desde que o seu marido morreu, mas não venda a casa da praia, aquela casa é um dos poucos lugares que ele mais ama estar.

– Sobrin..

– O médico chegou.

– Vocês são familiares do Milano?

– Sim somos.

– Como ele está doutor?

– Não precisamos de nenhuma formalidade.

– Diga-la, então.

– A depressão é apontada como uma das principais causas do suicídio. Esta tentativa é não só um pedido de ajuda e um aviso para nos mantermos atentos, mas também é um questionamento. Têm vocês cuidado da vossa saúde metal? E a dos seus? Têm vocês prestado atenção nos seus sinais e nos sinais dos seus? Têm vocês olhado para vós mesmos e se entendido? Como profissional de saúde, aconselho que todos façam consultas para saber sobre o estado da vossa saúde mental, e conheçam formas de se manter mentalmente sãos. Bem conseguimos tirar as substâncias por ele ingeridas a tempo, graças à vossa rápida reação à situação. Como já foram prestados os primeiros socorros, já podemos fazer a transferência do paciente para o Hospital Central.

– De quê me valeu ser a pessoa mais conectada a ele. O meu ajudante quase se foi, o meu estou aquí para ti não valeu de nada, porque chegou tarde, doutor. O que podemos fazer agora?

– Cleide, não te culpes pelo que aconteceu. Agora é hora de receber a nossa pessoa, o teu ajudante. Quanto à Célia e ao Deny, marcaremos uma reunião de família e resolveremos em família.

– Está bem Tia.

– Agora descansa, que o dia também será longo.

“Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades”, Luís de Camões

  

Torna-se definitivamente inelutável aquela curiosidade, uma vez, expressa por Sebastião Alba que é “onde estava e como se sentia o autor quando escreveu isto?” em referência a alguma mensagem que a gente lê e bate-nos no âmago. Sobre a obra de Pedro Pereira Lopes, a (in)exacta resposta para tal curiosidade é que o poeta, quando escreveu a poesia, se encontrava algures num mundo carregado de blue (azul), uma cor que, por excelência, inspira saudades, solidão, o inverno, o abandono e a estranha quietude.

O livro, especificamente, a primeira parte dele “à beira da ilha: choviam meteoritos no mar” proporciona-nos uma viagem menos quente possível pelos lugares mais belos e menos alegres do mundo do poeta. É um livro que, mesmo lendo-se numa tarde de verão, o ambiente à volta começa a esfriar a cada verso do mundo blue.

Uma vez, Fernando Pessoa sugeriu que houvesse um distanciamento temporal entre o poeta e o acontecimento, de tal maneira que o poeta dêsse uma expressão madura dos seus sentimentos e pensamentos sobre o acontecido. Entretanto, Lopes parece ter quebrado esse princípio de momento de pausa cauteloso para que uma escrita não se transforme num veículo de pieguices, assim como deliberadamente não respeita as imposições gramaticais do uso das letras maíusculas em nomes próprios e em início de parágrafos ou períodos.

Ou seja, não houve um momento propedêutico. O poeta foi obrigado a escrever ao mesmo tempo que era acometido pelas saudades “à sua própria língua” que deve ser de ausências ou mesmo do silêncio. Se calhar fosse uma forma de o poeta buscar pela catarse, enganar a própria saudade, tendo confessado, em algum momento da sua expiação que “é preciso escrever para não adoecer”. Todavia, uma lição existencial que se pode vislumbrar na poesia de Lopes é que a saudade é sempre algo inexorável, imponente e repentino. Ela recusa-se a receber ordens de esquecimento e não tem bons modos, porquanto não costuma anunciar a sua chegada. Vem invadindo.

Esta rebeldia e petulância das saudades é que dominam os versos da primeira parte do livro. Este poeta mostra-nos uma estranha forma de começar e terminar um poema. Introduz-nos um assunto e, no meio do nada, desvia-nos a lembraças da sua amada, como se uma força incontrolável o domasse. Porque tal força incontrolável causa distração ao poeta sobre o que estava a escrever, levando-o repetinamente a concentrar-se na sua amada, essa força só pode ter o nome de saudades, pois é da sua natureza criar-nos tais transições ou transcendências em momentos inesperados. Vejamos este poema ilustrativo sobre essa questão:

os escritores são raça estranha

mas enfadonha seria a vida sem eduardo white

sangare okapi ou álvaro taruma

disse-me um filósofo – “os poetas são mais humanos”

(…)

refiz a nossa visita última ao mar

escalei pedregulhos e ofereci teu nome às águas

num voto afecto náufrago

está a fartar-me a surdez da academia

o resto conto-te quando cá estiveres

apeteceu-me um sorvete – como sempre – às segundas

o teu ficou embalsamado

com duas lambidelas de ternura.

 

Neste poema, o autor começa por retratar a existência excêntrica dos poetas e as suas funções surreais, mas que tornam a vida sustentável. Entretanto, o poema muda de objecto repetinamente e passa a concentrar-se na ausência da sua amada como ilustra a parte amarelada. Houve distração e concentração no poema, ou vice-versa. O certo é que o arquê dessa transição dum objecto para outro tem o nome de saudades.

Outro poema com o mesmo descuido é o que segue:

hoje foi o dia do bêbado: ministério da cultura

a classe do jat e munhuanense azar onde estrela o brilho

a tarefa do escritor exige do silêncio e – talvez

mais ainda da memória

o déjà vu mais sincero consentido ao homem

conheci zeferino coelho – o editor do saramango

emoção nenhuma. Sonhos literários? Não os tenho!

pensei em ti tantas ocasiões – igual ao inúmero

de vezes de revisitação esdrúxula

como põe omar khayyam – o céu é incompleto sem um

romance divino”

hoje faz frio no manual do nosso edílio.

 

O sujeito lírico fala do silêncio, a melhor companhia do génio poético e dum encontro não comovente com um editor do Saramango. E, inopinadamente, mergulha nos pensamentos da sua amada, duma maneira descontextualizada do espírito iniciante do poema. Esta transição poética é algo intrínseco da saudade no sentido empírico-existencial. Quem ama e amou vive nesse campo escorregadio de, a qualquer momento e inesperadamente, ver-se mergulhado na memória flutuante com o objecto do seu amor, não importando onde se encontre e o que esteja a fazer. E, várias vezes, não é preciso a ocorrência dum sinal para despertar-nos a memória da coisa amada. Basta viver para lembrar.

Os poemas 6, 7, 9, 11 e 12 da primeira parte do livro são o reflexo deste poder maníaco exercido pelas saudades. Nesta condição de maus tratos nostálgicos, o abandono do sujeito lírico no mundo blue é vísivel através das imagens metafóricas bem conjugadas pelo poeta que são, por exemplo, de (dois) sorvetes que derretem “sobre a mesa/ entre a pilha de louça suja e o tecto sem vida/. Outra imagem profunda, bela e triste vê-se na confissão do poeta que diz “rir sozinho é ruína de graça”.

A inexorabilidade desta saudade que acomete o autor é provada no poema 15: saudade não me falta porém desfez-se com/ excessiva pena o nutriente destas linhas que/ sempre importariam a priori a mim/ uma espécie de libertação áfona. Nestes versos, o poeta aceita a inexorabilidade das saudades, porém insinua que a a sua intensidade possa diminuir com escrita – ou, se calhar, o tempo.

Entretanto, a saudade é deveras severa que não se rende à distância e, se dependesse da vontade do autor, ele preferiria preterir a viagem a Lilongwe por um quarto com a sua amada: agora estou noutro buraco da minhoca/ melhor decisão não teria – se estivesse/ no nosso quarto/ ainda impregnado de ti – jamais pararia de escrever-te. (quantas vezes, amor, já te esqueci,/ para mais doidamente me lembrar./ mas doidamente me lembrar de ti?)

Como se a única forma de curar-se das mazelas do amor fosse buscar outro novo amor, o poeta tenta provocar a sua amada, dizendo “conheci alguém como tu. Terás tu ciúme?” Porém, no fundo, ele é abatido pela ideia de que “o amor não se desvanece fácil/ é como fé”, e por fim o sujeito lírico escolhe parar de escrever qualquer coisa que diz respeito à sua amada, como se isso fosse mais um meio controverso de salvar-se dessa saudade inexorável e repentina que o acompanha em todos os lugares do seu mundo blue. É deveras um processo árduo de cura, porém, provavelmente eficaz como prova a segunda parte do livro “névoa seca”.

Os cerca de 20 poemas que compõe a segunda parte da obra não fazem nenhuma referência à amada nem a saudades. Eles discorrem em vários assuntos, denunciando-nos um poeta que resolveu fazer pazes com o seu passado, aliás com a própria vida, – o palco de acontecimentos – tal como se adivinha no poema 7:

 

(“de tal maneira a vida nos excede”)

a vida não me roubou estrelas

nem mar ou canto dos pássaros

 

a vida não me roubou cores

nem sons ou ainda o pasmo

 

a vida não me roubou quase nada

deu-me dentes e um par de calças

 

amor utopias e palavras também

foi tudo lucro e nada mais

(…)

 

No poema supracitado, pode verificar-se o sentimento de gratidão em relação a todas as vicissitudes que acometeram o poeta bem como aceitação da vida como ela é. No fundo, o autor mostra-se consciente sobre a importância de abraçar-se o amor fati como fonte da construção e alimentação do seu sujeito poético.  O testemunho desta aceitação e assunção do amor fati sob o pretexto de ser algo indispensável para construção do ser poeta é deixado pelo próprio autor nos seguintes versos:

 

(…)

gente há que viveu

gente há que amou

uns mais outros menos

fizeram-se poetas

(…)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A minha pátria é a língua portuguesa

Fernando Pessoa.

 

Bom dia a todos!

Antes de me aventurar pelos artifícios da palavra, começo esta intervenção com um agradecimento prévio: à professora Paula Cruz e à Universidade Pedagógica de Maputo, afinal depositaram em mim mérito que almejo alcançar. É um enorme privilégio estar aqui, romper fronteiras da impossibilidade para, em harmonia, celebrarmos parte das nossas conquistas comuns, do que somos e do que nos representa. Ainda assim, receio frustrar expectativas. Ao invés de uma comunicação digna de um estudante de letras, de educação ou ensino de português, nos próximos 15 minutos irei apresentar uma reflexão apenas à altura de um aspirante, quiçá no intervalo entre o conhecimento e a ignorância. Portanto, não trago o resultado de um estudo científico baseado em análise de dados, inquéritos ou métodos quantitativos. Longe disso, antes preferi partilhar convosco uma certa percepção sobre o que realmente nos une, a nós, integrantes desta comunidade intercontinental, chamada CPLP.

Encerrado o intróito, neste simbólico dia 5 de Maio, penso na língua portuguesa como um lugar de pertença e de partilha, uma ponte de afectos que aproxima as nossas singularidades ou, se preferirmos, as nossas multiplicidades. A isso Samora chamou ‘língua de unidade nacional’ e o primeiro presidente moçambicano utilizou-a para construir num território uma nação africana. Desde esse episódio, e até muito antes, a língua portuguesa está enraizada na nossa cultura, ora transformando-se, ora transformando-nos também. Veio de longe, numa longa viagem pelo espaço-líquido. E, quando chegou ao continente, encontrou uma terra arável e germinou. Coube-nos a nós regá-la até vermos as primeiras vagens brotar; coube-nos a nós assumi-la e usá-la como instrumento da emancipação intelectual e, depois, da liberdade. Uma língua assim não se pode resumir apenas ao adjectivo ‘oficial’, pois, nas suas especificidades, aglutina contextos históricos sempre plurais. Esta língua viu Portugal nascer e libertar-se, acompanhou Brasil ao Grito de Ipiranga, uniu a mais audaz geração de africanos dos PALOP e hoje somos todos parte desses movimentos cronológicos que adicionam ao tempo sentidos particulares de co-existência colectiva.

Não há dúvidas de que o português nos posiciona no mapa mundo, ao contrário das línguas bantu faladas em Moçambique, infelizmente. Aliás, na impossibilidade de termos línguas bantu nacionais, é a oficial a principal ligação possível entre os moçambicanos de todas as regiões. Ou deveria ser. Afinal, num universo de 28 milhões de habitantes, pouco mais de 10 milhões falam a língua portuguesa. Muito pouco para um país que encontra no ensino o mais importante factor de desenvolvimento social e de verdadeira unidade nacional.

A diferença existente entre a densidade populacional e o número de fluentes na língua de ensino no país lembra-me um episódio. Em 2007, terminei o curso de formação de professores, no Instituto do Magistério Primário de Chibututuine, na Manhiça, Província de Maputo. Uns meses depois de me formar, tive a oportunidade de escolher a província onde gostaria de leccionar. Optei por Tete e viajei pela primeira vez ao Centro do país. Ainda imberbe, parti convicto de que as aulas iriam decorrer conforme o estágio realizado na Vila da Manhiça. Perspectiva frustrada. Eu e muitos dos meus colegas ficámos a saber que há um Moçambique real por descobrir.

24 horas depois de aterrarmos no Aeroporto de Chingozi, uma vez mais tivemos de escolher onde gostaríamos de dar aulas. Entre Zumbo, Tsangano e Marávia, optei por Macanga, mas não fiquei na Vila de Furancungo. Calhou-me então a localidade de Namadende, na altura, a mais ou menos uma hora da sede, de carro. Escusado é dizer que foi uma experiência incrível, sinceramente, das melhores da minha vida. No entanto, nem tudo foi um mar de rosas. Como professores recém-formados, queríamos transformar vidas, contribuir, formar e desenvolver. No primeiro ano a Direcção Pedagógica da EPC de Namadende atribuiu-me a 5ª classe, a última do segundo ciclo.

Lembro-me de que num daqueles dias de Fevereiro de 2008, apresentei-me aos alunos que, logo à minha entrada na sala de aula, cumpriram o protocolo: levantaram-se para me saudar. Retribuí com um “bom dia, como estão?”. Em coro, responderam: “estamos bem, muito obrigado!”. É sempre assim. Eles dizem que estão bem mesmo quando têm um dente a condicionar a fala. Feitas as apresentações, de seguida, a aula começou, mas, meus senhores, foi improdutiva. Os alunos que apenas falavam cinyanja não me compreenderam e nem eu a eles. Impasse! Afinal a língua portuguesa não é de unidade nacional?! Na teoria, sem dúvidas que é! Na prática, a realidade muitas vezes é outra. A pergunta que me podem colocar é: como dei aulas àquelas crianças de Camuiqueni, Xinxefu, Ximunda e Namadende?

Bem, na verdade, decidi partilhar este episódio porque é esclarecedor. Se quisermos que a língua portuguesa seja realmente de unidade nacional, devemos, de forma concreta, audaz, investir em cada aldeia moçambicana. A escola deve estar em nós e nos outros. Isso significa que os institutos de formação de professores devem adaptar-se aos contextos mais desfavorecidos e não o inverso. Não faz sentido que docentes e alunos sejam colocados na mesma sala de aula sem condições para se compreenderem. É contraproducente, e esta ocorrência contribui significativamente para as desistências escolares nos nossos distritos. Quem ficaria na sala de aula horas a fio sem compreender o que o professor diz?! Então, ao invés de aulas, os nossos alunos lá vão apascentar o gado ou ajudar os pais no cultivo. E as alunas, desapontadas com uma escola na qual não se revêem, caem nas armadilhas dos casamentos prematuros.

A língua portuguesa pode mudar estes cenários nas nossas aldeias; pode integrar ao invés de excluir, projectar futuros no lugar de amputar horizontes; pode construir e ser um veículo de viagem virtual pelo país para todos aqueles meninos que completam 10, 12 ou 15 anos de idade sem nunca terem experimentado o prazer de viajar à boleia de um carro.

Se quem aprende qualquer língua apreende um conjunto de códigos, de regras e de saberes, com o português, em Moçambique, primeiro, as crianças ampliam o número de pessoas com as quais podem comunicar. Segundo, aproximam-se da ciência e tornam-se protagonistas dos seus próprios destinos. Não pretendo sustentar que a língua portuguesa, no contexto moçambicano, é garantia de sucesso, mas que é uma base indispensável na busca de conhecimentos estruturados pelo Sistema Nacional de Educação e não só. A língua é o veículo, a azagaia, o anzol; é o caminho, o que somos e onde podemos chegar. Por isso, entendo eu, é urgente que as políticas curriculares sejam mais ousadas na definição do tipo de adulto almejado em cada criança por formar.

Num ensaio intitulado Os modelos curriculares para o ensino de português no nível básico, por publicar, defendo o seguinte:

A maneira como ensinamos uma criança pode determinar que tipo de adulto a mesma criança vai se tornar. Ensinar não é apenas um verbo, é uma missão, um modo de prever o futuro mediante as convicções que nos movem no utópico compromisso de gerar um ‘homem novo’. No domínio escolar, o acto de ensinar exige do professor uma formação e orientação particulares sobre como manipular as suas ferramentas pedagógicas. Porém, existem no processo de ensino e aprendizagem tantas outras questões exteriores à sala de aula, dependentes de decisões políticas do que consideramos nível macro.

Assumindo que não é certo ensinar a crianças de contextos e com necessidades diferentes da mesma maneira, conforme sustentei no ensaio há pouco referido, claro está, as políticas curriculares têm a função de contribuir para que no contexto da sala de aulas não triunfem as desigualdades sociais.

Em Chibututuine, Distrito da Manhiça, a uma hora da Cidade de Maputo, de carro, conheci alunos, na 4ª classe, que mal sabiam escrever o próprio nome. Vi essa situação replicada em Kombomuni Rio, Distrito de Mabalane, em Gaza. Para ser sincero, este retrato repete-se em todas as províncias moçambicanas. Será que é o problema dos alunos, dos professores ou do currículo? Mais do que encontrar culpados, depois de muito pensar nisto, apresentei possíveis soluções numa reflexão intitulada Propostas curriculares ao ensino da língua em Moçambique. A questão de fundo é: e se reintroduzíssemos o ensino pré-escolar, pelo menos nas regiões recônditas ou para aquelas crianças cujos encarregados de educação não têm condições de as levar às creches? Por exemplo, para quem tivesse uma língua materna bantu, aprenderia exclusivamente a falar português e as lições essenciais para se integrar sem dificuldades na 1ª classe. Se reunirmos especialistas, sistematizarmos a proposta e investirmos, pode dar certo e mais crianças poderão aprender a ler e a escrever logo no primeiro ano escolar. Afinal, quem cedo aprende, rapidamente define o seu futuro.

O pré-escolar é um dos desafios para que a língua portuguesa seja um objecto de inserção social e de progresso à larga escala no país. Mas há outros desafios. Por exemplo, a aposta na literatura inserida na disciplina de Português, no ensino primário.

No passado, a arte literária iniciou um percurso de consciencialização contra as atrocidades coloniais e envolveu-se com impacto nos projectos de libertação nacional. Actualmente, continua a ser um objecto de cultura, propenso na edificação das melhores propostas de nação. Como todas as artes, a literatura tem de ser a aliada da escola, pois ao mesmo tempo que, por consequência, instiga sonhos, também move montanhas. Para que a arte literária exerça o seu papel, caso tenha algum, é necessário estar bem representada no ensino básico, o que significa levar aos livros dos alunos textos de referência de Moçambique e dos outros espaços geográficos, por exemplo, da CPLP. Não é o que acontece neste momento. Os livros de referência escritos em português não estão integrados no ensino básico. Logo, a escola até pode formar alunos inteligentes, mas isso de nada valerá se a inteligência não estar associada à cultura. Só para se ter uma ideia, dos vários livros infanto-juvenis editados pela Escola Portuguesa de Moçambique, quatro são Altamente Recomendáveis ao ensino no Brasil. Refiro-me a O pátio das sombras, de Mia Couto; Leona, a filha do silêncio, de Marcelo Panguana; Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo; e O caçador de ossos, de Carlos dos Santos. Sobre os quatro livros, no ensino público em Moçambique, nenhum eco. Podemos aproveitar esses contos adaptados da tradição oral para pensar, inclusive, nas diferentes relações entre a língua portuguesa e o espaço geográfico. Assim, os contos da tradição oral do Vale do Zambeze podem ser lidos e compreendidos no Rovuma e os do Chiveve no Limpopo. Se isso é bom, então pensemos no que a literatura é capaz de fazer com as crianças, quando as leva a viajar naquela dimensão escrita por Almeida Garrett ou pelo universo da CPLP.

A propósito da CPLP, e deste 5 de Maio de 2021, a língua portuguesa é falada por mais de 265 milhões em todo mundo. Salvo o erro, é a mais falada no Hemisfério Sul. Há-de ser por essa amplitude que, de forma antecipada, Fernando Pessoa considerou a língua portuguesa sua pátria. Porquê nos limitamos a um território concreto, quando podemos ser cidadãos de cinco continentes? Podemos ser globais, cruzar mares e horizontes em prol de uma consciência pró-comunitária. Nesse sentido, parece-me urgente que os países integrantes da CPLP façam mais para que esta proposta de comunidade seja realmente feita de proximidade. Estamos longe uns dos outros, todavia, nada disso será distância significativa se se fizer mais pela mobilidade dos artistas, das obras, dos académicos, dos cidadãos, em geral, e do museu do pensamento, como diria Joana Bértholo.

Antes de encerrar esta comunicação, que já vai longa, deixo ficar aqui umas lindíssimas palavras de Fernando Pessoa. O poeta diz-nos assim:

A palavra falada é um fenómeno natural; a palavra escrita é um fenómeno cultural. O homem natural não pode viver perfeitamente sem ler nem escrever. Não pode o homem a que chamamos civilizado: por isso, como disse, a palavra escrita é um fenómeno cultural, não da natureza mas da civilização, da qual a cultura é a essência e o esteio.

Espero, sinceramente, que este 5 de Maio seja uma profícua oportunidade para todos pensarmos em nós próprios como cidadãos desta pátria vasta e intercontinental que é a língua portuguesa.

 

 

*Comunicação apresentada na Universidade Pedagógica de Maputo, no dia 5 de Maio de 2021, a propósito das celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Ao Valgi oprimia-se-lhe o coração de dor e de arrependimento. A história que contou enfurecera o agente de Braga e trouxera à tona da memória deste más recordações. E ele, o Valgi, ouvinte involuntário daquele drama conjugal, ia pagar as favas pela infidelidade da aludida Maria-Muchina. Apetecia gritar aos ouvidos daqueles homens que não era nenhum criminoso, que a Eva era solteira e bem solteira, que aventurara-se à rua porque era um homem responsável pelo seu trabalho, cumpridor dos seus deveres como cidadão. Apeteceu-lhe levantar a voz, para ela escutar e vir testemunhar a sua inocência, assim como fazer mea-culpa pela ousadia de introduzir-se no escuro da noite e desafiar os perigos aí escondidos. Agora estava ali, à mercê daqueles malfadados polícias, a ser encaminhado para os calabouços duma esquadra qualquer, para juntar-se a ladrões e assassinos, um bode expiatório pelas faltas cometidas por sacristãos e mulheres mistas-chinesas.

A sua era uma história que jamais contaria a ninguém lá em Porto Amélia, nem em nenhum outro lugar, um segredo que era preciso enterrar no fundo da consciência. O que diria a Mariana se um dia viesse a tomar conhecimento deste episódio de tão tristes recordações? Claro, as perguntas seriam as mesmas que as dos polícias: “…vinhas donde?…com quem estavas?…se te prenderam alguma razão tinham…essa Muchina era tua amante…porque é que estás a esconder?…fala a verdade…era ou não era tua amante?…”. Porque será que as pessoas passam a vida a fazer as mesmas perguntas, se antecipadamente conhecem as respostas e estas são sempre as mesmas? Mesmo confessando as verdades estas são distorcidas e transformadas em invenções, em mentiras, só mentiras _ dizem_  para salvaguardar conveniências. Essas é que são as respostas.  Por isso, o Valgi nunca no futuro perderá um minuto do seu tempo para relatar o que foi a noite mais longa da sua vida.

Os agentes da Polícia Montada deixaram-no à porta da cabana onde vivia. Aquela mphama gigantesca, crescida ao lado da cantina do Mussa, por detrás do “Botão Dourado”,  foi a testemunha da soltura, da sua devolução à liberdade.

Quando logo às oito horas em ponto ele apresentou-se ao trabalho, as companheiras acharam-no exausto e sonolento, nervoso e mal arranjado. A Mariazinha, naquela sua curiosidade tradicional, perguntou-lhe:

“ Donde vens assim tão moído, cheio de poeira e quase roto?”

“ Acabo de regressar de uma longa viagem por um país que nenhuma de vocês conhece”, foi a resposta. Compôs-se na máquina de costura e deu asas à imaginação.

As colegas encolheram os ombros e começaram duvidar da sua sanidade mental.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

Há algumas semanas no grupo de whatsapp “PIONEIROS USTM” no qual faço parte, recebi um vídeo de uma senhora, aparentemente inteligente e sofisticada como a sua dicção e articulação indicavam. Pelo sotaque, acredito que seja moçambicana. No dito vídeo, dentre outras reclamações, a senhora fazia menção ao facto de não poder “manter gravidezes” durante 9 meses e que o problema estaria relacionado com a empresa em que trabalhava (sector bancário). Dizia ainda que teria engravidado 3 meses depois de ter tido o seu primeiro filho e diz, passo a citar: “se o trabalho tiver que parar, que pare”; “prioridade não é mais a empresa”; “na empresa ninguém quer saber de si” (neste caso, seus colegas).

As redes sociais tornaram-se  nos últimos tempos meios incontornáveis para a promoção da imagem profissional e pessoal. As redes sociais permitem-nos partilhar informações, ideias, eventos profissionais, momentos com amigos e familiares. As redes sociais são uma plataforma ideal para a “venda da imagem”, seja na procura de trabalho ou mesmo para a venda de um produto ou serviço. Mas estes impactos positivos na esfera do usuário somente  acontecem quando estas ferramentas são bem usadas, pois, por outro lado, as redes sociais podem arruinar a carreira profissional ou mesmo a vida de um indivíduo.

Ponto de vista de um recrutador de talentos

Num processo de recrutamento, um bom diploma tem sido cada vez menos relevante na selecção do melhor candidato, pois o mercado está abarrotado de candidatos formados/diplomados. Hoje em dia é fácil para uma empresa encontrar o especialista que deseja ou formar um candidato mesmo sem sair de casa num período muito curto. Mas se  falarmos de qualidades interpessoais, os famosos  soft skills, essas são muito difíceis de serem avaliadas a partir de CVs ou de entrevistas de trabalho e/ou mesmo formar um candidato para obtenção dessas qualidades. Não obstante serem as qualidades mais exigidas pelos empregadores actualmente, cada vez menos candidatos dispõem dessas qualidades.

Sendo os soft skills qualidades fundamentais para a performance das empresas, no entanto difíceis de avaliar e encontrar nos candidatos, os recrutadores assim como os empregadores usam cada vez mais as redes sociais para  obter mais informações sobre a vida pessoal e comportamental dos seus candidatos e colaboradores. É por estas e por várias outras razões que devemos reflectir antes de fazer qualquer comentário nas redes sociais.

Caso queiram fazer comentários nas redes sociais lembrem-se sempre de: não fazer comentários negativos sobre a empresa onde  trabalha/ou aonde trabalhou; não faça comentários racistas ou homofóbicos; não façam vídeos ou mensagens quando estão sobrecarregados de emoção; não critique seus (ex) colegas e clientes de qualquer forma que seja; evite ao máximo possível expor sua vida privada.

No mesmo vídeo a mesma senhora fala do sacrifício que fazia: “…passava noites no hospital a cuidar do meu filho recém nascido, depois de um dia inteiro no trabalho, passava para dar um beijinho ao meu filho mais velho, em casa, para depois poder voltar ao hospital”. Na altura tive vontade de dizer “Bravo!!!”. Pois são estas histórias que num processo de recrutamento, nós, recrutadores, gostamos de ouvir. Estas histórias mostram coragem, motivação, comprometimento e dedicação. Mas só são boas de serem ouvidas se forem contadas no sentido positivo, sem culpabilizar a nenhum terceiro ou entidade pela situação. Um bom profissional assume sempre a responsabilidade da sua situação; um bom profissional dialoga com os seus superiores sobre seus problemas (mesmo pessoais) e caso não haja entendimento, com classe, pode, por exemplo, pedir para mudar de departamento; em último caso, um bom profissional pode considerar um pedido de demissão, mas em circunstância alguma um bom profissional fala mal da empresa com a qual têm um vínculo profissional e nem termina mal, por sua iniciativa, qualquer relação profissional;  um bom profissional tem compromisso não apenas com a empresa, mas também com seus colegas que apreciam a empresa e com a sociedade que precisa ver a empresa prosperar para o bem da comunidade; um bom profissional não pode ser um  xiconhoca*.

Ponto de vista de um empreendedor

Só um empreendedor conhece a dor de passar horas sem dormir a trabalhar e não conseguir pagar seu próprio salário em detrimento dos seus colaboradores, só um empreendedor sabe o que é ter dívidas com a banca, com o Estado, e por vezes ter de fechar as portas. Eu conheço essa dor. Portanto, ver jovens que deviam estar a dar o seu melhor para prospecção de empresas no nosso país dizerem “o trabalho  que pare de novo”, “o médico que me dê atestado novamente para eu ficar em casa”, é muito triste. Estas atitudes são na minha opinião piores do que corrupção. Corrupção podemos qualificar como uma atitude egocêntrica que pode tentar a todos seres humanos em algum momento, movidos por uma ganância em enriquecer rápidamente. No entanto estas atitudes, igualmente ou mais gravosas, classifico de sabotagem gratuita.

Se o trabalho da banca parar, quem vai fazer a transação ao fornecedor de medicamentos que o HCM precisa para a criança?  Quem vai finalizar a transação do salário do enfermeiro que está a cuidar da criança ou do médico para dar o tal atestado?

Recentemente a Olam anunciou o encerramento da fábrica de processamento da castanha de caju em Moçambique, justificando  recorrentes dificuldades em aceder a matéria-prima de qualidade nos volumes necessários. São cerca de 1750 trabalhadores directa ou indirectamente  afectados.

A Total Exploration & Production Área 1, Limitada (“Total”)  disse no passado dia 23 de fevereiro na voz do seu Director Comercial, o Dr. Leonardo Nhavoto, que algumas empresas Moçambicanas não são aceites como provedoras de serviços para os projectos da Total, pois “os seus produtos não apresentam a qualidade requerida e/ou nos seus processos de produção não cumprem com os requisitos mínimos de HSE exigidos para a prestação dos seus serviços no contexto da indústria do Petróleo e Gás.

Gostava de perguntar: Quem são essas empresas? Quem são os responsáveis pela qualidade e quantidade exigidas pela Olam e a Total?

Somos nós, nós jovens moçambicanos. As empresas são na verdade uma ficção, sem as pessoas, mesmo tendo equipamentos modernos as empresas não produzem “nem qualidade” e “nem quantidade”. Mas nós não, nós não somos ficção. Nós somos uma realidade. Portanto, somos nós responsáveis pela qualidade e pela quantidade de trabalho exigido.

Em 1776 (The wealth of nation) Adam Smith dizia: “nossa necessidade individual de satisfazer o interesse próprio resulta em benefício para a sociedade, no que é conhecido como sua “mão invisível”, segue-se que um aumento nos lucros dos empresários privados que é a base para o aumento da riqueza e da prosperidade coletivas”. Adam Smith quis dizer com isso que ao participarmos na riqueza de um único indivíduo ou das empresas, estamos a contribuir para a prosperidade de um grupo alargado de indivíduos.  Façamos disto nossa missão.

O presidente Joaquim Chissano, assim como o Dr. Helder Martins deram a sua juventude engajados no processo de libertação da nossa nação. Ou seja, estes Madalas* deram boa parte da sua juventude para que hoje, nós jovens moçambicanos sejamos “parcialmente independentes”. É nossa responsabilidade lutar para que ganhemos a outra parte da independência, que é sem dúvidas essencialmente econômica. Ninguém fará  isso por nós. É única e exclusivamente nossa responsabilidade. Se individualmente formos comprometidos com a causa, colectivamente seremos imparáveis. EU ACREDITO EM NÓS.  

*Xiconhoca – Sabotador

*Madala –  Ancião

Recomendação de livro para o mês de Maio 2021: The Secret Letters of a Psychotherapist–“Sharlene Sema Raston”

Samuel Gerson Andrisse

Especialista em recrutamento

Autor do livro “Be ready for your next job interview”

www.kensyle-recruitment.com

O casamento é uma parceria e não uma democracia.
Nicholas Sparks.

Muitas vezes, a literatura infanto-juvenil moçambicana explora universos campesinos. Como se observa em O casamento misterioso de Mwidja, o campo e as suas circunstâncias são o motor da narrativa cujo alicerce é a tradição oral – aprofundo esta constatação num artigo a publicar brevemente. Assim, ao invés de prédios, congestionamentos de viaturas e movimentos acelerados, neste caso, o livro de Alexandre Dunduro implora uma história pausada, farta em lições cristalinas.

Mwidja, logo se vê, é uma rapariga que cresce numa família humilde e conservadora. Logo, o que a norteia são valores que a engrandecem o sentido de fraternidade, pelo menos enquanto as religiões do coração estão livres de delicadezas estranhas, como diria Émile Zola. Quando a menina torna-se mulher encantadora, em contrapartida, inicia um processo de resistência em relação à educação proporcionada pelos pais. Por isso, ao invés de se casar com um candidato da sua aldeia, conforme a tradição, a presunção alimentada pela beleza cega-a e aí é introduzido um problema a comprometer a paz inicial. “Eu quero casar-me com alguém que venha de longe, de um povoado longínquo. Aqui em Chimbitucula não vejo ninguém que me mereça pois não são bons caçadores nem bons pescadores” (p. 5).

A afirmação torna Mwidja uma personagem vulgar e um exemplo de desrespeito à decência. E esse confronto retira-a protecção familiar, comunitária e, portanto, espiritual. Atentos à vulnerabilidade consequente, rapidamente, os vilões do povoado de Nditoda aproveitam-se do intervalo de lucidez da protagonista para a propor um casamento afinal misterioso. O episódio faz do conto de Alexandre Dunduro um desempenho cheio de intencionalidade. Tomando Mwidja como modelo, as acções do universo diegético conspiram para que a escolha da personagem resulte em consequência perniciosa. Não obstante, por julgar os homens em função da sua bravura ou da sua origem, Mwidja perde o contacto com o seu chão e com isso o discernimento. Então, como se pretendesse corrigir comportamentos, o discurso do narrador esmera-se em esclarecer que as pessoas valem pelo que são e pelas relações que mantém com a família. Para esta posição vingar, a ovelha negra de Chimbitucula é conduzida à gruta das hienas, onde paira o pavor, a incerteza e a desumanidade.

Claro está, O casamento misterioso de Mwidja move relações de interdependência na estruturação de uma sociedade pacífica, daí o enredo iluminar zonas de perigo que se podem expandir se os integrantes de uma pequena aldeia resolverem fazer da sua vida um exílio, isto é, à margem dos interesses colectivos. Neste e em vários outros aspectos, o texto de Alexandre Dunduro institui uma relação intertextual com o conto Leona, a filha do silêncio, de Marcelo Panguana. Em ambos os casos, duas jovens personagens reivindicam o direito de escolher o noivo, aparentemente, por encontrarem na felicidade algo instantâneo. No primeiro caso, a escolha é decepcionante. No segundo, o tempo dá razão à Leona. À parte essa diferença, as duas histórias colocam a rapariga ou a mulher, por analogia, no centro do seu próprio destino. Mwidja e Leona são sujeitos activos da oração e ninguém as demove mesmo parecendo erradas, o que dilata perspectivas cruciais ao debate sobre sincero sobre a mulher moçambicana por educar.

Ora, bem diferente de Leona, ao activar o seu instinto perverso, Mwidja faz-se ponte entre o bem e o mal. Nessa aproximação, entretanto, não se adivinha nada de positivo. Pelo contrário, a arrogância da protagonista atrai a Chimbitucula os que, de outro modo, nunca colocariam vidas em risco. Há em tudo um perigo à espreita, logo o conto de Dunduro tanto pode ser usado na educação das crianças quanto na dos que se deixam iludir pelas aparências.

Num outro ângulo, ler a história de Mwidja pode motivar uma certa discussão sobre como, em determinadas circunstâncias, as populações humildes colocam-se em xeque ao abrirem portas do seu território a desconhecidos estrangeiros. Mbitisse, noivo de Mwidja, é esse estrangeiro disfarçado, com intenções estranhas, que chega e apropria-se do que a aldeia de Chimbitucula tem de melhor. Obviamente, isso não teria acontecido sem a colaboração ingénua de Mwidja. Esse tipo de episódio não se passa apenas na ficção. Aliás, nesse sentido, a literatura (e a escrita de Dunduro, em particular) cumpre essa tarefa de despertar leituras sobre esta actualidade confusa que Moçambique enfrenta.

Título: O casamento misterioso de Mwidja
Autor: Alexandre Dunduro
Editora: Escola Portuguesa
Classificação: 13

…através deste decreto designa-se Dirdapkov para o cargo de Vice-rei e, por deferência, são-lhe incumbidas as tarefas de Rei.

 

Estas foram as últimas linhas do decreto que mesmo sem tencioná-lo silenciara as más-línguas que já se faziam ecoar no reino de Iemicecénia quando os boatos de uma iminente sucessão eclodiram.

Bem nas imediações da floresta boreal enquanto a União Soviética vivia os seus mais memoriais dias de glórias, aninhara-se um reino ao qual os documentos históricos pouco se referiram por não se ter tonificado em conversas que ao belicismo dizem respeito nem à produção agrícola que eram os labores mais vangloriados naquelas latitudes. Dele apenas encontram-se dois parágrafos que os historiadores dedicaram ao labor comercial que se engendrara naquela época em todo o Hemisfério Norte. E, haja justiça, mesmo que não tenha sido o único reino a se dedicar nessas matérias, Imececénia merecera os parcos parágrafos da história daquela região por se ter evidenciado no trato com o comércio. Dizem as lendas cartográficas que a sua exclusão na configuração dos mapas mundiais não fora propositada mas fora obra de um insólito infortúnio que ocorrera por cima da escrivaninha de Ptolomeu (pai da cartografia) quando um rato roera parte dos seus desenhos bem na área em que se representava o vasto reino de Iemececénia. Vencido pelos ditames da idade nada condescendentes com a argúcia intelectual, Ptolomeu não conseguiu deter o famigerado rato, daí a unanimidade das lendas em concluir que, em termos cartográficos, Imececénia localiza-se no buraco do rato.

Pronto! Deixemos as divagações típicas de narradores para quem o tempo e a ansiedade dos leitores são fontes entretenimento e voltemos à investidura de Dirdapkov.

Naquela manhã as ruas pareciam tapetes feitos de folhas secas que cobriam todas as vias de acesso ao palácio real onde iria decorrer a cerimónia. Era outono. Os presentes já se haviam antecipado para ocupar os lugares mais cimeiros dos quais iriam satisfazer as suas dúvidas. Saciar as suas espectativas. Confirmar os seus prognósticos.

«Julgo que Dirdapkov será elevado ao cargo de Rei, é o mais indicado» diziam vozes doutros reinos que se informavam sobre Iemececénia como se do seu reino de tratasse. «Ah, não! Dirdapkov parece novo para os zelos diários de um reino daquela magnitude, suponho que com a crise que se vive noutros reinos o conselho de anciãos irá chamar a si as responsabilidades do reinado e Dirdapkov continuará exercendo as suas tarefas na condição de vice-rei» assim opinavam vozes de distantes reinos que pouco ou nada sabiam sobre o reino nem conheciam o Dirdapkov em actividades do reinado senão em vagos encontros dos cavalheiros após uma batalha vencida ou no fim de uma actividade de caça que era prosseguida por rios de vinho que se escoriam pela goela adentro e faziam dos estômagos dos cavalheiros uma espécie de foz de um rio farto.

Fosse por um ou outro caminho, a unanimidade entre os presentes só se escancarava numa só certeza: após nove anos de reinado, Matenin Azarikov tornar-se-ia num antecessor de qualquer que fosse o novo rei.

Não que se possa dizer que Azarikov não esperava que aquela fatídica manhã chegasse mas também não fazia ouvidos de mercador aos murmúrios maldizentes, que nunca se calam mesmo em momentos típicos de absoluto silêncio, para as quais a durabilidade do seu reinado era uma espécie de um quiz no qual a eternidade era a pontuação máxima e única provável.

Dirdapkov e Azarikov não eram estranhos e mesmo naquele momento de tamanha tensão a estranheza não lhes embateu o peito nem a alma: juntos laboravam haviam anos. Aguardando a chegada do conselho de anciãos, abriram o verbo sobre lugares-comuns numa conversa muito horizontal que não se lhes cabia ao relacionamento vertical que tinham até àquele instante e se rompeu com a leitura do decreto.

Sobre o curioso decreto, o conselho de anciãos deteve-se por cerca de dezasseis semanas, vinte e quatro reuniões das quais surgiram quarenta e oito esboços do documento que iria definir o novo e, diga-se, inédito figurino da liderança do reino. Nas prolongadas reuniões, o nó de estrangulamento em nada se aproximava à continuidade de Azarikov no reinado. A sua cessação era já uma sentença, à qual ele próprio se antecedera. Discutia-se sim a colocação de uma outra figura no cargo de rei e a substituição de Dirdapkov caso este ascendesse. A sua ascensão não colhia consensos no conselho devido à sua multiplicidade de tarefas naquela região, o que predizia contínuas ausências nos cuidados do reinado, argumento que era imediatamente escamoteado por outras vozes que se socorriam, com razão, do perfil de Azarikov, que era mesmo esse, para justificar a sua visão. Outras mais ortodoxas apontavam a juventude de Dirdapkov como sendo o calcanhar de Aquiles do seu perfil para aquele cargo, o que gerou uma inesperada, escaldante e duradoura discussão que dividiu os anciãos em ortodoxos e vanguardistas. Os primeiros já se haviam esgotado nos argumentos mas os últimos vincavam o despautério que tais posições denotavam porque (1) viam na idade algo muito além dos números, (2) a maturidade de Dirdapkov para os zelos do reinado podia até suplantar a de outros cujos números etários roçavam os cinquenta, (3) davam exemplos de outros reinos mais vanguardistas bem a leste de Iemececénia que tinham indivíduos na aura da juventude exercendo o reinado com algum zelo exemplar.

Passadas dezasseis semanas, vinte e quatro reuniões das quais surgiram quarenta e oito esboços do decreto, os argumentos das alas não se harmonizavam. Eis que naquela manhã publicou-se o curioso decreto cujo excerto epigrafa estas breves notas.

 

 

 

 

Para

Albino Macuácua

 

Meu primo Germantino falou-me do novo bar, mas eu não acreditei. Era simplesmente impossível, incompreensível de todo um bar abrir apenas aos Domingos. Não no nosso bairro, «…o bairro dos bebedores inveterados», como disse um dia a caixa de um extinto jornal, aludindo ao facto de as fábricas de cerveja recrutarem entre nós os seus provadores mais oficiais.

Isso então não pode ser um bar, disse-lhe, Deve haver algo muito sujo lá dentro. O Germantino garantiu-me entretanto que era, mas não um bar qualquer, e quando ele fez um nó com os dedos indicadores, beijou-o e disse xikwembu xihanyaka, aquela novidade transformou-se na minha curiosidade incontida.

‒ Então vamos lá tentar bater uma Laura…

O Germantino não podia aceitar o desafio, tinha parado de beber nem ele sabia porquê. Acordou um dia e disse simplesmente Já não bebo!

‒ Já não bebes?! ‒ saltei do banco de madeira onde me sentava, a ponto de atirá-lo na direcção da Maria, a mais velha servente do Tio Tchoinado que naquele momento ia a passar com umas cervejas. A Maria tropeçou no banco admirado e as canecas acabaram escaqueiradas no soalho do bar. O Germantino pôs-se a rir das despesas do meu espanto, porque logo a seguir ela colocou na nossa mesa a conta das oito canecas bem calculada, de um lado o conteúdo e do outro o recipiente.

Eu ia insistir com aquela do meu primo parar de beber, pois desde o seu regresso da Alemanha tinha inspirado tanta gente a acreditar nos benefícios da cevada que se tornou no engenhoso criador da fama do nosso bairro, mas uma malta juntou-se à nossa mesa e já não valia a pena, nem todos ali eram amigos do Germantino. As minhas cautelas foram entretanto água em cima de pato, pois o pessoal assustou-se à mesma quando ele pediu sumo de laranja. Se uns perguntavam se ele estava doente, outros ameaçavam abandonar a nossa mesa. A Maria respondeu assustada que não vendia sumos, mas ofereceu-se para comprar numa mercearia do lado e depois colocou a gelar nos seus frigoríficos. A Maria gostava do Germantino, eu sempre soube, mas essa é outra história. O facto é que aparentemente todos aceitamos a mudança do meu primo, porque até chamamos um rapaz que andava ali a vender amendoim torrado e pedimos para ir comprar mais à mercearia, e ninguém admirou quando ouvimos a ameaça contra o miúdo:

‒ Hei, puto, ver bem a validade, senão eu é que te vou expirar…

O Germantino bebeu muitos litros de sumo, a ponto de ter a incrível ideia de erguer um pomar algures para um negócio qualquer que já ninguém quis ouvir. A partir desse dia, deixamos de nos ver como era habitual, no bar. É que no fim eu tive mesmo que lhe dizer:

‒ Primo, não é nada pessoal, mas não andas mais connosco. Desculpa lá, mas assim também não dá.

Portanto, para resolver o caso do bar que só abria aos Domingos, eu devia procurar alguém que ainda jogasse na nossa liga. Mas não podia ser apenas um jogador, antes tinha de ser um adepto muito ferrenho, como o Filipe, o Alexandre ou o António Descoberto, mas estes também andavam com ideias esquisitas. O primeiro meteu-se numas secas que de tão molhadas via-se claramente que aquilo era uma forma de sair da liga à francesa. O tipo era capaz de adicionar dez cubos de gelo num simples de uísque. Ninguém entendia aonde o Filipe ia assim sorrateiramente.

O Alexandre disse-me que tinha bebido cerveja toda vida e que a morte devia encontrá-lo rejuvenescido, por isso passou a beber vinho. Eu viria a descobrir que essa decisão afinal tomou-a depois de perder o emprego. Nessa altura percebeu que com um único pacote de vinho era capaz de andar exilado de tanta miséria como quando emborcava 36 bazucas. Como disse um dia o Germantino no seu melhor humor, o caso do Alexandre era uma questão de gestão álcooleconómica.

Já o António Descoberto só queria saber de cuidar dos filhos, porque descobriu que a mulher rivalizava com ele. Aconteceu num 7 de Abril: ao invés de a senhora voltar das celebrações com lenços, rosas e capulanas, entrou em casa a tropeçar num canto esquecido:

Eu vou morrer na escolinha

Com copo de vinho na mão…

Mal ouviram a voz da mãe, os filhos foram a correr para a abraçar, mas o Descoberto, que não podia ouvir a outra parte da canção pueril, bloqueou-lhes a saudade e tratou imediatamente de esconder as crianças na casa de banho, e acusou-lhes de terem despachado o banho.

‒ Tomem de novo.

Quando regressou à sala, a mulher ressonava derrubada no velho sofá encardido, sem uma capulana nova para cobrir-lhe as vergonhas descobertas. Segurava entretanto, firme na mão direita, um copo descartável com uma réstia de vinho tinto. Talvez por causa dessa firmeza o António quis saber: «Onde deixaste a calcinha estavas com quem?» E abanou-a para ver se havia uma confissão, mas a única coisa que ouviu foi um roçagar metálico e o ruflar de um saco plástico que a mão esquerda deixava pender com o peso de três latas de cerveja, um maço de cigarros quase vazio, uma garrafinha de uísque, uma peruca desgrenhada e dois preservativos.

Não podia ser com nenhum dos três. Só me restava o Chico Traquina, um sujeito que eu não suportava desde que abandonou a minha irmã. Tínhamos entretanto ajustado as contas porque eu convenci a mana a meter o caso na Justiça e assim garantir a pensão do filho deles. Apresentei então o problema ao Chico, disse-lhe que tinha ficado na esquina oposta ao bar um dia inteiro e que como um detetive tinha detetado muitos detalhes. Mas em síntese o caso era o seguinte: apesar de estar aberto, ninguém ousava beber naquele bar, pois todos que eu tinha visto a entrar saiam imediatamente enquanto atiravam manguitos não sabia eu para quem.

‒ Vamos lá…

‒ Tu não entendeste: Aberto aos Domingos

‒ Ouve cá, no meu bairro nenhum bar abre apenas aos Domingos.

‒ É o que diz o letreiro…

‒ Que brincadeira é essa? Eu só quero provar a cerveja. E digo-te: se não prestar é porque o gajo vende merdas e o álcool é apenas um pretexto. Porra, ainda lhe fazemos um abaixo-assinado… Cerveja apenas aos Domingos, essa é que era boa!

O Chico ainda sugeriu que levássemos connosco a Joana Ajoelha, mas eu não concordei. A Joana tem um problema muito sério: a coitada até gosta de beber, mas não engrossa e assim não nos permite qualquer avanço sobre o seu peito bojudo. É muito bonita, a Joana, mas não ajoelha para ninguém. A única vez que isso aconteceu foi quando nós, eu, o Traquina, o Filipe e o Alexandre, sugerimos ao António Descoberto um amor sem sonhos nem desculpas, e até chamamos para ele uma prostituta que o Chico conhecia muito bem, porque a tinha amado incondicionalmente. Nós queríamos muito que ele se curasse das traições da mulher, mas nisto apareceu a Joana, menina-senhora sem amigas, boa conversadora e amiga de um grupo de bêbados poetas da vida. Ela, muito esperta, percebeu imediatamente a missão daquela rameira já sentada no colo do António.

‒ Então é assim que vocês resolvem os cornos do vosso amigo?!

A Joana mandou embora a jovem e pegou o António pelas goelas:

‒ Tu agora vens comigo!

Aquilo era tão inusitado que nós queríamos acreditar que pela primeira vez a Joana tinha apanhado uma bebedeira, mas também era-nos difícil aceitar esse ciúme sem procurar o sacana autor da proeza que era embriagar a nossa amiga, a nossa Joana. Vimos o António impotente, a ser arrastado por um corredor que ia dar às casas de banho do Tio Tchonado e esperamos atónitos. Passados exactos quinze minutos, o nosso amigo regressou exultante, parou no meio do salão, abriu os braços e gritou para os bêbados como quem acabava de marcar o golo da desforra:

‒ Afinal a Joana ajoelhaaaaaa!!!…

Nunca soubemos o que realmente aconteceu no fundo do corredor, mas a Joana saiu também muito feliz. Nunca mais soube se eles se meteram nalguma outra escuridão, mas também podia ser o caso de não quererem que soubéssemos que continuavam a iluminar-se. Esta é, na verdade, a principal razão por que neguei levar a Joana connosco: confesso que ela nunca ajoelhou para mim… Enfim:

‒ Não levamos a Joana e ponto final.

Quando chegámos o bar estava vazio. Era um pub bonito e ao mesmo tempo estranho, o que o tornava atraente. Tinha um estilo industrial um tanto antiquado: o espaço havia sido adaptado de uma oficina colonial fechada durante mais de trinta anos. O dono conservara o chão de cimento, dando-lhe apenas algumas pinceladas irregulares com tinta branca para limpar os óleos. O que mais me impressionou foi ver, suspenso bem no centro do salão, o chassi de um camião militar Mercedes Benz, que nós chamávamos de Matchedge. A estrutura militar mantinha-se imperturbável e confiante nas suas glórias, memórias entretanto disfarçadas pela arte de algum grafiteiro que se tinha empenhado em exorcizar nela os anos de guerra com o amarelo, o branco, o vermelho e o azul da sua juventude.

As luzes intermitentes entre piscas, presenças, máximos e emergências, eram distribuídas pelos cantos inferiores, rentes ao chão, e projectavam sobre o chassi do Matchedge e nas paredes um mundo alternativo. Entre as quatro paredes havia uma especial, onde desenhavam-se a carvão outros carros da História, um Lada, um Niva e um Whaz. Nas restantes três paredes o proprietário tinha chamado algum artista plástico para fazer coisas da sua cabeça pós-moderna.

Ao lado da parede oposta ao mural da História, erguia-se uma área restrita a quem quisesse beber uma cerveja aos bancos de um Lada amarelo impecável. As mesas do bar eram de paletes de madeira em bases de jantes grafitadas com cores quentes e os assentos feitos de eixos embutidos no chão, encimados por pneus cortados e ajustados à longa conversa da gente que sabe que a vida é bela. Para a música havia uma jukebox mesmo debaixo do Matchedge, mas apenas tocava para os amantes de jazz ou de blues.

Quando chegamos ao balcão vimos quatro torneiras muito bonitas e geladas. Aqueles finos de certeza não se bebiam em qualquer parte do mundo e como sairiam apetecíveis os dois malucos e a Dona Laura! Chico Traquina ficou tão sequioso que não quis esperar pelos meus salamaleques, pediu logo:

‒ Uma Laura…

De repente todos empregados suspenderam os gestos habituais e olharam para dois sujeitos que às dez horas de uma terça-feira queriam beber cerveja. O barman ignorou-nos e continuou a fingir que limpava umas serpentinas. E todos começaram a fingir estar a limpar qualquer coisa que devia estar já muito limpa. Voltei o olhar para as quatro torneiras fumegantes de gelo, sobre as quais seis faróis, engastados no porta-copos de madeira um metro acima do balcão, derramavam luzes amarelas, verdes e vermelhas. Que maravilha!, disse o Chico em voz alta. É das luzes, adverti eu, mas sem deixar de meter goela abaixo um fino imaginado e esperado. Aquilo só podia ser obra de algum Sabazius de nacionalidade moçambicano. Esta ideia fez-me esquecer as mesuras que o Traquina detesta no meu comportamento e pedi como quem ordena:

‒ Dois malucos…

O homem das torneiras mirou-nos e disse simplesmente:

‒ Apenas aos Domingos… ‒ e afastou-se na direcção da garrafeira de vinhos atrás de si.

Será que Germantino tinha razão?, pensei.

‒ Mas então não estão abertos?!

O barman respondeu-nos de costas enquanto limpava os vinhos, mas percebemos perfeitamente que o estúpido sorria:

‒ Estamos abertos aos Domingos…

‒ E aquelas portas ali abertas?!

‒ Os bares não foram feitos para ficarem fechados ‒ disse de forma incompreensivelmente arrogante.

O Chico Traquina gostava de dizer que o álcool nunca nos pode aborrecer, por isso puxou-me pelo braço e disse «Não estamos aqui para mendigar favores a um empregado». Eu ainda lhe disse que, a ponto de nos impedir de beber, ele bem podia ser dono daquilo tudo, «Dono uma ova, só se eu for primo de Platão». De seguida arrastou-me para fora enquanto garantia em voz alta que voltaríamos no tal Domingo, porque aquele bairro era nosso, e ameaçou: quisessem fazer negócio na nossa república, perguntassem primeiro aos concorrentes como se afinavam as toneiras por ali. E fomos sentar no Tio Tchonado, o nosso velho e bom bar de todos os tempos, a dois quarteirões dali, onde inclusive podíamos encontrar todas as prostitutas do mundo. Mas, ainda que tentássemos evitar, ficamos todo o dia a mastigar aquele insulto.

No Domingo seguinte, fui acordar o Chico para irmos ao único bar no mundo onde só se bebe em dia sagrado. Ele ainda se mostrou indisposto, preferia ir ver as miúdas dele no Tchonado, mas eu disse que o novo bar era bom para lavar a alma, porque, pensando bem, não era um bar qualquer, e prometi pagar a conta. Ele aceitou, não porque eu pagaria a conta, mas porque custava-lhe admitir aquele insulto ainda grudado aos nervos, disse-me. E disse também que era urgente resolver o caso, porque aquele bairro era muito nosso. Aliás, para beber de borla todos tínhamos o Tchonado. «Essa cevada deve ser muito milagrosa», ainda o ouvi dizer aos seus botões.

Quando chegamos ao bar havia bêbados do mundo inteiro a abarrotar a antiga oficina que não podíamos acreditar, mas o Traquina observou imediatamente e certeiro:

‒ Estes bêbados não conheço. Quem são?

E tinha razão o meu amigo. Não havia uma cara sequer do nosso bairro. Entramos às cotoveladas por entre o mar de gente para poder chegar ao balcão, ao mesmo balcão que na terça-feira tínhamos alcançado tranquilamente. «Esta dificuldade é sinal de que hoje não morremos na praia», disse o Chico a gritar para se fazer ouvir no meio das gargalhadas, dos brindes e das inconfidências desconhecidas. Quando finalmente alcançámos o balcão, lá estava o mesmo homem sem graça das torneiras.

‒ Algo me diz que tu és capaz de não só ser primo de Platão, como também um dos melhores amigos de Sócrates… ‒ disse eu no ouvido do Traquina, mas ele nem respondeu, fez imediatamente soar uma buzina que na terça não a descobrimos junto a uma das torneiras e gritou como quem exige um ajuste de contas:

‒ Dois malucos…

‒ Apenas aos Domingos…

‒ Mas hoje é Domingo, porra. Dá lá cerveja…

Quando o Traquina parou de gritar, os bêbados pendurados no balcão desataram a rir. Dois que estavam bem ao nosso lado abriram as carteiras e mostraram-nos os bilhetes de identidade: Domingos Bartolomeu Xavier, um, e Domingos Nasceu Ontem, o outro. Apercebendo-se da exibição, um terceiro sujeito, já a soluçar pedidos de mais um fino, também tirou o seu bilhete e apresentou-se: Sonto de Jesus Gomate. Nisto ainda caiu uma senhorita nas minhas costas, virou-se atrapalhada, pediu-me desculpas a sorrir de bêbada e disse enquanto tentava disciplinar uma saia curta:

‒ Eu sou Domingas, qualquer coisa estou aqui…

Foi então que percebemos as identidades daqueles estrangeiros e doeu-nos saber que éramos mais estrangeiros que todos eles. Uma casa pode ser um lugar estranho, por isso saímos. Lá fora, esperava-nos o mano Germantino:

‒ Então, aí nesse bar que tal são as cevadas, alguma novidade? Cá por mim tomávamos um sumo de…

‒ Fecha essa boca, Germantino ‒ disse o Chico nervoso e encaminhou-se rapidamente em direcção ao Tio Tchonado, mas ainda o pudemos ouvir a murmurar pelo menos três vezes: «só precisávamos de uns bilhetes alternativos, porra!», «precisamos de uns bilhetes alternativos!», «só preciso de um bilhete bem alternativo!»…

 

 

Horácio Gonçalves é, hoje por hoje, uma espécie de “menina dos olhos de todos”. Pudera, no “ad eternum” marco de uma nova era na bola indígena, foi indicado como novo timoneiro dos depreciados Mambas. Um campeonato nacional ganho em 2019, duas Supertaças Mário Coluna (ndr: o nível de desorganização evidenciada numa das edições não valoriza a lenda do futebol mundial) e um troféu no então sugestivo e apetecível Torneio Mavila Boy seduziram Feizal Sidat e seus semelhantes a apostar no técnico de 58 anos.

Com uma folha de serviço na qual se destaca a passagem por clubes de segundo plano do futebol português, Horácio Gonçalves sucede a Luís, despedido num processo com pernas para terminar em tribunal e com contornos de indemnização, caso este e a Federação Moçambicana de Futebol não cheguem a acordo de “cavalheiros”. Luís Gonçalves falhou o objectivo principal de levar os Mambas ao CAN 2022, nos Camarões, após derrota com Cabo Verde, por 1-0, no Estádio Nacional do Zimpeto, mas fala de outras “componentes” que regem o contrato rubricado com a FMF na era de Alberto Simango Jr.

Lapsos de comunicação á parte, Horácio Gonçalves foi o escolhido dentre um leque de treinadores nacionais e estrangeiros que piscavam o olho ao comando da selecção nacional. A sua escolha provocou, a mim, particularmente, quase um acesso de cólera porque esperava mais ousadia e rigor da Federação Moçambicana de Futebol na definição daquele que vai comandar a marcha da viragem na forma como abordamos os processos na modalidade rei, hoje a navegar na mediocridade e constante coro de lamentações. Esperava, sinceramente, que a Federação Moçambicana de Futebol definisse e tornasse público, antes de mais, o perfil do novo seleccionador nacional para que ficassem claros os critérios da sua escolha ou indicação. Como moçambicano, e cansado de tanta pancada a cada vez que os Mambas jogam, esperava por uma figura com qualidades reconhecida e curriculum inquestionável.

Não foi o que aconteceu.

Porca Madona.

Aristides: Como diria o outro.

Parece-me, neste capítulo, que a estratégia para o pesadelo de relações públicas há algum tempo foi definida: largar a bomba e esperar que a poeira assente. Voltando aos critérios, penso ser importante destacar o facto de ser fundamental para se operar qualquer mudança e avançar com um processo de renovação ter algum conhecimento profundo do futebol moçambicano. Ai, sem desprimor para os estrangeiros que até tem muita qualidade, penso existirem nomes nacionais com idoneidade, competência e obra feita para orientar os Mambas.

Sou claramente defensor de barro da aposta em treinadores com perfil e que conheçam as fundações do futebol moçambicano. E exemplos não faltam. Chiquinho Conde, por exemplo, já deu provas disso quando desenvolveu um bom trabalho no projecto “Locomotiva Esperança”.

Temos, e não hajam dúvidas disso, treinadores talhados como João Chissano e Artur Semedo cujo trabalho nos clubes que passaram evidenciam a qualidade de jogo das mesmas colectividades e potenciação de valores.

É preciso abandonar o oráculo de que os treinadores nacionais não servem e que a prioridade deve ser para os estrangeiros, supostamente melhor preparados. A experiência do passado já nos trouxe dissabores que bastam.

Já tivemos um ilustre desconhecido chamado Gert Engels que nada acrescentou de valor aos Mambas.

Esta política desorientada da Federação Moçambicana de Futebol e falta de visão clara das premissas para se dar o salto qualitativo, assusta. Afunda cada vez mais o futebol, decepciona os requisitantes (adeptos) de momentos para a posterioridade: sucesso dos Mambas. Feizal Sidat, meu caro, é preciso pensar alto. É preciso ser mais rigoroso e acertivo na escolha de treinadores. Precisamos de gente formada, sim, mas com capacidade reconhecida para significar os Mambas. Os processos de escolha devem ser claros, sob o risco de termos pessoas cujo valor que irão acrescentar ao futebol são zeros atrás de zeros nos seus números nas suas contas bancárias.

Já agora, e dentro dos resultados imediatos que anseamos para afogar as mágoas, foi definido que Horácio Gonçalves deve levar os Mambas ao CAN_2023, CHAN e fazer uma boa campanha no COSAFA. Para tal, claramente, é preciso que haja estrutura, cometimento, qualidade, competência e um alinhamento. A questão que não quer calar: temos estrutura e qualidade para atacar estas provas? A FMF criou condições para uma campanha tranquila, sem ruídos de comunicação e alheamento tal como aconteceu em alguns momentos da fase de qualificação para o CAN Camarões 2022? Estamos recordados do desalinhamento com Luís Gonçalves, pelo menos no aspecto da antecipação do jogo com Ruanda. Há garantias que não teremos interferência no trabalho de Horácio Gonçalves, particularmente, nas suas escolhas?

Num mundo desportivo cada vez mais aliado a ciência, os processos são estudados e ensaiados. Qual o modelo de jogo? Que trabalho sério de formação de novos valores (orientados por gente qualificada) é que a FMF tem na forja?

Ao nível de infraestruturas de qualidade e de apoio às selecções de formação, que investimento está a ser levado a cabo? E aqui, senhores, é preciso que haja clareza nos critérios de escolha dos recintos que passam a ostentar o nome de “casa das selecções de formação”? O que pesou, por exemplo, para a escolha do campo do Afrin em detrimento dos outros campos?

Há foco? Não nos vamos distrair com futilidades (com obj ectivos comerciais) quais a mudança de nome de guerra da selecção? Não nos vamos distrair com pretensões de mudar o patrocinador do equipamento, um compromisso assumido pelo elenco anterior? Não teremos atletas com reacções viscerais a queixarem-se de terem sido hospedados em pensões? É que, caros, as respostas a estas questões podem, a meu ver, ditar o sucesso ou não dos Mambas. Caso contrário, não se pode sonhar alto.

“Você está com cara de ontem, amigo. Que bicho o mordeu?”, perguntou um dos cavaleiros ao companheiro. Ambos formavam uma equipa de trabalho fazia seis meses e conheciam-se o melhor que seria possível. Partilharavam das aventuras nocturnas dos patrulhamentos e entre eles começara a nascer uma confiança mútua reforçada pela convivência quase diária. O interpelado sempre fora um indivíduo muito prolixo, sempre pronto a contar uma história, das muitas que testemunhava e recriava, para tornar a missão da noite mais leve e suportável. Nessa noite, porém, cavalgava sem a energia dos outros dias, fechado em si, um macambúzio a balançar sobre os lombos do muar. Melhor fizera se se tivesse deixado estar em casa, em vez de estar a maçar o colega com os seus silêncios.

“A vida muitas vezes prega-nos tamanhas surpresas que é quase impossível acreditar que estejamos acordados”, disse aquele num suspiro.

“ Desabafa, homem, tira isso cá para fora da caixa”, encorajou o primeiro.

Eram ambos homens na idade dos quarenta, escaldados da vida e muitos sonhos nas cabeças. Cada qual tinha a sua própria história singular e conturbada como o são as histórias de muitos cidadãos metropolitanos, emigrantes nesta s terras misteriosas de Africa. Haviam chegado ao encontro de sonhos que se recusavam a materializar-se. Perseguiam miragens de vidas estáveis e prometedoras doutros esplendores, porque foi isso o que lhes haviam dito lá nas terras de origem.

Contornavam a esquina da cantina do Mário quando o triste cavaleiro começou a narração da história assombrosa que o deprimia. E esta foi a seguinte:

“…Como já lhe contei, estou cá em Lourenço Marques há meia dúzia de anos. Suor sangue e lágrimas é que foram estes anos, digo-lhe aqui com o coração sentido.”

“ A quem o diz, meu amigo! A quem o diz! Também passei pelas brasas”, recordou o outro.

“ Pois o destino quis que conhecesse uma senhora que me pareceu muito recatada, pelo seu aspecto e pela postura. Aquilo sucedeu numa cerimónia de um baptizado do filho dum conterrâneo lá de Braga, o Brás das Foices, que é capataz da Construtora Integral, não sei se você o conhece”.

O outro limitou-se a um silêncio de sondagem pela memória. Rendeu-se e acabou por reconheceu que não conhecia nenhum Brás das Foices.

“ Fui lá para a casa onde ele vivia com a mulher, e vive até agora. Foi uma patuscada à moda da terra. Bebemos e comemos que nem em dia de boda. No meio da festa apercebi-me que uma cachopa mista-achinesada não tirava os olhos da minha pessoa. Não é para me gabar pela minha figura, mas a atenção dela despertou a minha. E claro, correspondi à mesma. Conversámos sobre as corriqueirices do costume e fiquei a saber que era professora na Escola Primária da Missão de São José. Ali deram-lhe uma alcunha que era a sua identificação pela raça e pelo estado civil: menina Maria-Muchina”.

“ Bonito nome, sim senhor. Esta gente nada têm a dever a nós os metropolitanos. Por dá cá aquela palha estão a dar nomes e alcunhas a toda a gente. A colonização chegou a esse ponto”.

“Tivemos vários encontros, tudo dava a entender que o noivado e o nosso casamento seriam os passos mais acertados. Casar não chegámos a casar por vários motivos, mas passámos a viver maritalmente. E digo-lhe com toda a sinceridade, eu amava aquela mulher”.

“ Esse foi o seu mal, amigo”, interveio o outro. Pelos vistos tinha razões de sobra para este seu particular posicionamento em relação a assuntos que envolvessem amor.

“ Mal ou não, a decisão ficou pendente. Inevitavelmente, tivemos um filho. A vida corria com as rotinas habituais, um dia mais alegre do que outro, eu no trabalho da construção e mais tarde neste, sempre sobre lombos de cavalos, em missões de patrulhamentos, durante noites, ao frio, à chuva. Um tipo a matar-se para dar algum conforto à família para depois sofrer os revezes que sofri”.

“Isso acontece a todos, ou pelo menos a muitos. Um tipo a malhar na parede que nem mouro, a desenrascar pela vida, mas eis que às tantas tudo dá um pinote de revés e vais parar à banda, sem perceberes como te atiraram ao chão”, resmungou o outro.

“ Foi assim mesmo. Às tantas, a mulher diz-me de caras que pretende sair de casa. Porquê, perguntei. A resposta dela foi que nem devia perguntar isso, mas sim tratar de arranjar um emprego que nos desse mais “folgadura”, que devia deixar de beber e bater-lhe sem motivos. É claro que uma vez e outra eu chegava-lhe o pêlo à pele e ela ia trabalhar com alguns inchaços na cara, coisa de pouca monta, sabe como é; bater mas não para magoar, apenas para deixar a lição de respeito e de obediência sempre viva. Lá na minha terra é assim”.

“ Qual é a mulher que não gosta de apanhar do marido? Ah, aquilo que me conta é o mesmo que pedir por outra sova, que o diga a minha Miquelina. Aquilo é assim mesmo: faz o que mando e bico calado, vou para onde me apetecer, com quem me apetecer e quando me apetecer. Essas modernices são boas nos filmes; em casa do Lopes não funcionam, nem nunca vão funcionar!”, disse outro, que afinal de contas respondia pelo nome que acabara de mencionar.

“ Pensei que a cisma de me abandonar lhe saísse apenas da língua. Qual quê? Cada dia que passava as nossas relações iam de mal a pior. E, por fim, numa noite em que estava numa festa com uns amigos ela abandonou o lar. Quando regressei a casa encontrei-a vazia. Levou a s mobílias e tudo quanto era utilidade”.

“ Se calhar foi melhor assim. Ela encontrou o remédio para os males que andava a praticar sem você saber”.

“Foi isso mesmo. Ao longo daquele tempo eu não desconfiava que nada daquilo pudesse suceder. Até que, por fim, caiu o embuço. Sabe o que aconteceu depois que ela saiu da minha casa? Pois então fique a saber: foi viver com um sujeito que se diz ser sacristão do padre ali da capela. E quando ela resolveu abandonar o lar estava grávida. Não passaram cinco meses depois disso e ela pariu. E pariu um preto!”.

O agente Lopes freou o cavalo, num gesto instintivo de surpresa. Este relinchou longamente a fazer coro ao espanto do cavaleiro.

“ Você acha que sou preto ou que sou branco?”, era uma pergunta dirigida a ninguém, porque ninguém era capaz de responder à mesma com precisão. Era mais do que óbvio que a Muchina traíra o companheiro e acabara por ter uma criança com o ajudante do pároco da missão de São José, o sacristão Bartolomeu, um negro retinto, nado e crescido nas matas cerradas de Ka-Ngovene, no posto administrativo de Boane.

“ Agora a pergunta que lhe faço é esta: porque razão você está ainda assim tão abalado, se isso sucedeu há mais de quatro anos, como disse?”

“ Porque lembrei-me da história que este tipo acaba de contar”, disse a referir-se ao Valgi.

“ Qual parte da história? Este pássaro contou muitas, a ver se se livra aqui das mordeduras da corda”.

“ A de que vem da casa duma amiga”, esclareceu o cavaleiro de Braga.

“ E se for verdade?”, perguntou o Lopes, sem achar nenhum nexo entre a história do prisioneiro e os problemas conjugais do colega.

“ A razão é que penso que enquanto eu estava nos patrulhamentos, como estamos aqui agora fazê-lo, o filho-da-puta do sacristão estava em minha casa, na minha cama a esfregar-se com a minha mulher. Foi na minha cama que fizeram aquele filho, foi na minha casa onde se divertiam à custa da minha cegueira e da minha ingenuidade. Nem sei como nunca desconfiei de nada, nem nunca ninguém me disse o que se passava”.

“ Marido enganado é sempre o último a saber e essas coisas não se contam nem ao melhor amigo”, aforismo que sempre deu razão a quem a tem; a sentença final do agente Lopes, cavaleiro galopando sobre os lombos escorregadios da vida. Tinha também as suas histórias para revelar; porém, as necessidades do patrulhamento exigiam outras urgências e mais atenção.

A galopada empreendida pelo pequeno veículo 970cc para vencer a elevação era enorme, sentia-se que todos os cavalos estavam laborando para serpentear os contornos de asfalto em direcção ao monte-mor. Preguei fundo no acelerador senti o carro bufar pelo tubo de escape, gasosa em combustão olhei para o painel, observei o quanto de combustível estava sendo consumida pela ingreme elevação. Queria chegar logo ao destino para rever a pequena vila.

Viajava na companhia de um amigo que tagarelava ofuscando a minha liberdade de descobrir a paisagem constituída por moitas acastanhadas, vegetação fulminada pelos raios solares, prova irrefutável que a estiagem habitava implacavelmente a região sul do país.

Aquiesço de vez quando para fazer perceber ao meu companheiro que não está em solilóquio.

Um declive ingreme confere a viatura mais velocidade, alivio o pé do acelerador, depois coloco o manípulo das mudanças em neutro e relaxo ambos o pés e poupo a gasosa.

Atingimos 100 km/h, um baque de ar fresco sacode-me o rosto e refresca viagem. Ainda estamos longe de alcançar o destino que fica a 70km da cidade de Maputo.

Ganhamos mais altitude em relação ao nível do mar, noutra galopada para vencer mais uma elevação acentuada, a velocidade caiu para 40km/h, o som da voz do meu colega impunha-se ao som libertado pelo motor do carro.

Galgamos a última subida com apoio do pequeno veículo, depois de um estrondoso potenciar do motor atingimos finalmente o cume do monte-mor.

Dois postos de tubo galvanizado de 1.50m de altura agarravam uma placa rectangular que hospedava em letras garrafais “ vila da Namaacha”.

Logo depois, descubro pequenos edifícios lambidos com poeira de areia saibrosa conferindo o tom avermelhado aos edifícios.

Vejo garotos suados empurrando carrinhos de mão com bidões de cor amarela e branco e mamanas segurando baldes e bidões.

Desembarcamos, alisei o capô do carro como se passasse a mão pela crina de um alazão que dirigia

a montada que puxava a charrote que nos levou até ao topo do monte. Senti pela sola do sapato que o amago do solo estava ao rubro.

Revi a igreja e lembrei-me dos crentes catolicos que durante do mês de Maio escalam a vila na sua peregrinação em busca benesses divinas no santuário da nossa senhora de Fátima, mas depois, durante o resto do ano esquecem a vila para usufruem dos auxílios angariados.

O alvoroço que outrora habitava a vila devido a movimentação transfronteiriça deixou de existir, passando aquele corredor a ser percorrido de forma esporádica.

Depois de uma breve visita à vila conferenciei com um residente que em jeito de desbafo vomitou o mal estar que a vila enfrentava.

“ Não temos água por conseguinte as machambas não produzem, a cascata esta seca, já não temos turistas, enfim vivemos entregues a nossa própria sorte”

Magiquei mil e uma soluções para os problemas que enfrentavam. Poderiam começar por proferir preces junto ao santuário, não precisavam peregrinar, já lá estavam. Poderiam pedir por um furo, aliás muitos furos para desaguar em todos bairros.

Visitamos um gigante da industria hoteleira ali implantado, quando transpusemos a soleira de acesso descobrimos que estavam numa penumbra não achámos nenhuma vivalma, fizemos soar as nossas vozes, só depois um funcionário meio ensonado atendeu-nos. Enteiramo-nos da funcionalidade do hotel, dos 64 quartos de todos os tipos não tinham nenhum hospede e possuíam cerca de 40 e tal funcionários.

Depois da breve visita efectuada aquela que outrora fora uma instancia turistica, partimos calcorreando pelas ruas da vila.

As palpitações aceleradas demostravam o cansaço adquirida pelo corpo, freei a caminhada e o meu amigo imitou, estavamos sedentos.

Olhei em meu redor e descobri uma barraca. Perguntei se vendiam água.

– Só temos água da Namaacha! – replicou a vendedeira.

– Peço duas.

Um sorriso irónico moldou o meu rosto, olhei para o meu companheiro este bebia inocentemente a sua água.

Olhei entristecido para a estatua da nossa senhora de Fátima e tacitamente pedi absolvição para a alma do povo da Namaacha e solicitei numa silenciosa oração.

“ Haja água nossa senhora” amém.

O dia nasceu com o céu limpo e uma temperatura amena na capital do país. Alzira despertou com o cantar dos galos lá fora, anunciando o amanhecer do dia. Levantou-se da cama e esticou-se para ganhar uma boa disposição. Caminhou lentamente até à janela do seu quarto, abriu a cortina e apreciou o ambiente de fora, como era de costume sempre que acordasse. Estava tudo normal como nos outros dias.

Alzira tinha 30 anos de idade e ainda não tinha filhos. Era uma mulher bonita, elegante e solteira, mas que arrasava os corações de toda a rapaziada da sua região e não só. Muitos desconheciam os motivos de ela estar solteira, mesmo tendo três décadas de vida. O relógio marcava pontualmente 5 horas, e, antes mesmo que o sol despontasse e a perturbasse nos seus afazeres domésticos, Alzira mergulhou-se na sua rotina de limpeza da casa. Pegou na sua vassoura, varreu o quintal em poucos minutos, tirou o lixo e colocou-o nos sacos. Carregou os seus sacos, feita uma louca, e dirigiu-se até ao único contentor de lixo existente no bairro, para depositar o lixo.

Passado alguns minutos, Alzira estava a escassos metros do contentor de lixo. Ela foi recebida por uns choros de um bebé vindos do interior do contentor. Aquilo chamou-lhe atenção. Parou por uns segundos e depois uma chuva de reflexões invadiu-lhe a mente. O que está a acontecer? Será mesmo um bebé ou estou a delirar? Não será uma brincadeira de mau gosto desses meninos malcriados da zona? Tudo aquilo estava totalmente estranho e confuso para a Alzira.

Imbuída pelo espírito de curiosidade, Alzira aproximou-se do contentor para desvendar tudo aquilo que aparentava ser apenas um mistério. Era um bebé recém-nascido que, pela sua aparência, devia ter entre uma ou duas semanas de vida. O bebé foi jogado naquele lugar, sem roupa e muito menos um cobertor, como se de uma galinha morta se tratasse. Todo o frio matinal brincou com corpo do menino recém-nascido. A criança inalou todo o cheiro nauseabundo libertado pelo contentor de lixo que estava numa imundice total.

Alzira entrou em choque e a preocupação tomou conta de si. Um conjunto de reflexões invadiu-lhe, novamente, a mente. Como é que uma mulher carrega um filho durante nove meses no seu ventre para depois de dar parto jogar fora? Será que essa mulher sabe que existem mulheres que choram dia e noite querendo ter um filho, mas não conseguem? Aliás, eu sou uma dessas pessoas infelizes da vida. Há anos tento engravidar, mas não consigo. Já dormi com vários homens na tentativa de engravidar, porém, todas as minhas tentativas redundaram em fracasso. Não me restam mais dúvidas, é o que o maldito destino me reservou. Desabafa Alzira, com a sua cara inundada de lágrimas.

Mergulhou nas suas memórias do passado e recordou-se de vários episódios tristonhos que vivera. Um rio de lágrimas assaltou-lhe as vistas. Movida pelo desejo e vontade de ter um filho e uma família saudável, Alzira já procurou a solução para seu problema em diversos lugares. Tentou pela medicina convencional, tendo gasto avultadas somas de dinheiro em tratamentos que não resultaram. Tentou pela medicina tradicional que também não sortiu nenhum efeito. Ela tomou raízes e raízes, mas não conseguiu conceber. Alzira via o seu sonho de ser mãe, frustrado. A mulher não via mais motivos para continuar viva nesta terra, sabendo que não era capaz de dar um filho a um homem.

Lembrou-se dos muitos lares que passara durante anos e não deram certo por não conseguir engravidar. Quase em todos os lares que passou, apenas viveu momentos de terrores conjugados com a violência. Recebeu nomes pejorativos por parte dos seus sogros porque não gerava filhos. A pressão por parte dos sogros chegou a atingir níveis insuportáveis. Alzira foi rejeitada, em muitos lares, pelos seus sogros alegando estar a acabar o arroz da família, não conseguindo lhes dar o tão esperado neto. O mundo de solidão tomou conta de si. A depressão passou a ser a sua melhor amiga.

Alzira regressou do passado triste que visitou através das suas memórias. Fixou o seu olhar nos olhos lindo do bebé que não parava de chorar. A mulher decidiu não tocar no bebé antes da intervenção da polícia, temendo que as suas impressões digitais pudessem prejudicar as investigações. Alzira regressou à casa com passos apressados e descoordenados, sustentados pelos choros de tristeza.

Quando a Alzira chegou no seu bairro, espalhou a notícia para toda vizinhança. A informação sobrevoou pelo bairro de boca em boca. O bairro todo acordou com a triste notícia do bebé jogado no lixo. Não tardaram as especulações da possível mão que o jogara no contentor de lixo. Todas mulheres que andavam grávidas nos últimos dias foram apontadas como vítimas, mas eram apenas especulações. Ninguém conhecia a mãe do bebé.

De seguida, Alzira dirigiu-se à esquadra que estava a escassos metros da sua casa para informar a polícia acerca do que vira no contentor de lixo. A polícia de protecção analisou o caso e achou melhor contactar a polícia de investigação criminal para que fizesse a devida remoção bebé que tremia devido ao frio que apanhou na madrugada daquele dia. Enquanto isso, muitas pessoas dirigiam-se àquele local, logo que recebiam a notícia, para averiguar a veracidade da informação que estava a ser propalada pelo bairro.

Minutos depois, Alzira retornou ao local onde o bebé foi jogado no lixo, mas desta vez com os polícias de investigação criminal. Quando lá chegaram, deram-se de cara com a multidão que repudiava aquele acto desumano. A polícia removeu o bebé daquele lugar imundo e, de seguida delegou-se uma parte da polícia para que levasse a criança ao hospital para recebesse cuidados médicos. A outra parte ficou e continuou com a investigação do caso. Afinal de contas, a responsável pelo acto merecia cadeia. Pelo caminho, a criança não resistiu ao frio que apanhara na madrugada do dia e perdeu a vida ainda a caminho do hospital.

Um grupo de cinco mulheres, que repudiavam aquele acto desumano, acompanhadas de uns dois polícias de investigação criminal, circulou pelo bairro, invadindo todas residências onde habitavam mulheres que estavam grávidas nos últimos dias, com vista a neutralizar a mãe do bebé que esteve jogado naquele contentor de lixo imundo.

Rosalina, uma jovem de apenas 18 anos, ouviu a notícia que circulava pelo bairro e ficou preocupada. Teve medo de ser presa, pois o filho de que tanto se falava em todo bairro era dela. Saiu do seu ventre. O medo de ser descoberta tomou conta de si. Veio-lhe o arrependimento pelo acto que cometera, porém, não havia como regressar ao passado para consertar tudo. Rosalina arrumou todas as suas malas para sumir daquele local antes que caísse nas malhas da polícia.

Minutos depois, a Rosalina já estava pronta para deixar tudo para trás e recomeçar uma nova vida num outro lugar que ainda não conhecia. Olhou para a vizinhança, mas ninguém a via. A mulher deu os primeiros passos, para um novo começo da vida, num lugar bem distante daquele bairro. De repente, com pouca nitidez, Rosalina vê umas pessoas caminhando em sua direcção. Continuo a sua caminhada a vontade, pois desconhecia aquelas pessoas. Quanto mais caminhava, mais nítidas ficavam aquelas pessoas. Apercebeu-se de que era a polícia acompanhada por algumas mulheres do seu bairro.

Rosalina ensaiou uma forma de esquivar os homens que vinham em sua direcção. Quando ainda tentava colocar em prática o seu plano, os homens já estavam a sua frente. Passou-lhe pela cabeça que aqueles homens estavam a sua procura por causa do bebé encontrado no lixo. Alzira viu-a e, de facto era a Rosalina. Olhou atentamente para ela e descobriu que já não ostentava mais a gravidez. Não restara-lhe mais dúvidas de que o bebé encontrado é da Rosalina. Alzira não se conteve e lançou uns gritos “É verdade! Ela é a mãe do bebé. Ela estava grávida até semana passada e nós ainda não a vimos com alguma criança até agora aqui no bairro. Para onde ela poderá estar a ir? Talvez esteja a fugir pelo crime que cometeu (…)”.

Rosalina entrou em pânico e viu todos os seus planos frustrados. Tentou empreender uma fuga sem sucesso. Ela não estava em condições de pular as espinhosas que serviam de muro. Os polícias aperceberam-se das manobras que a Rosalina tentava criar para escapar deles. Um dos agentes da polícia disparou para cima. O outro apontou para a Rosalina com a arma que trazia na mão. “Parada ai”, dizia o polícia com a sua arma na mão. A Rosalina viu-se num beco sem saída. Transpirou até ao ponto de molhar a roupa que vestira.

Rosalina perdeu todas as forças. A mulher caiu e ficou estatelada no chão. O local foi assaltado pelos gritos da Rosalina “Saiam da minha casa. O que vocês querem na minha casa? Não sou nenhum ladrão e muito menos cometi nenhum crime. Por favor, saiam da minha casa.”. A Rosalina estava totalmente descontrolada. Estava fora de si. Um rio de lágrimas inundou a sua cara.

Os polícias a colocaram as algemas nas mãos e depois seguiu-se um pequeno interrogatório improvisado. Naquele pequeno interrogatório, ficaram a saber que a Rosalina é, de facto, a mãe do bebé jogado no lixo. A polícia procurou saber dos reais motivos que a levaram a jogar o seu bebé, recém-nascido, num contentor de lixo imundo. Rosalina confessou ter perpetrado aquele acto desumano porque o seu namorado não assumiu a gravidez e ela não estava em condições de criar o bebé. Indignados com a atitude daquela mãe, a polícia levou-a para a esquadra. A jovem não parava de chorar pelo caminho.

O caso chegou na barra do tribunal. A Rosalina foi julgada e condenada a 6 anos de prisão pelo crime que cometera. Os dias seguintes, após a sua condenação, foram tenebrosos. A jovem tornou-se numa reclusa solitária. Não recebia nenhuma visita na cadeia. Ela apenas via as outras reclusas no memento das refeições.

Rosalina passou a ver o sol aos quadradinhos. Os dias pareciam caminhar feitos camaleões. Estava a pagar o preço do crime cometido. A consciência pesou-lhe a cabeça, mas ela estava num beco sem saída, a não ser cumprir a pena por detrás das grades.

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Por: Martins JC-Mapera

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O simbolismo da arca, e o da navegação em geral, comporta vários aspectos que estão, no seu conjunto, interligados. O mais conhecido é o da Arca de Noé a navegar sobre as águas do dilúvio e transportando todos os elementos necessários à restauração cíclica (Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, 2010).

A última vez que vi o Bento Baloi, presencialmente, foi na casa do artista, na cidade da Beira, quando apresentou o livro Recados da alma, no dia 2 de Agosto de 2017. A sua escrita e o seu estilo; as imagens dos seus recados parecem sinais de um tempo discernível na hermenêutica vétero-testamentária dos contos diluvianos de Genesis (6 a 9).

Este livro surge com características místicas inescrutavelmente lírico-escatológicas. É à luz da liricização dos acontecimentos que o narrador declara o seu afecto para com as vítimas do ciclone e das enxurradas: “homenagem às centenas de homens, mulheres e crianças que sucumbiram” (P. 11), em reivindicação da esperança e de um futuro colorido por sorrisos e abraços: “enquanto o sol raiar, o sorriso ainda é possível” (P. 11). Ainda que esse futuro seja platónico, parece evidente a força e a coragem das personagens perante essa luta contra as forças da natureza.

A crónica que abre o livro (“Jail house”) é antecedida por uma ilustração terrivelmente interessante do ponto de vista do significado efabulatório. Enquanto, por um lado, avulta a ruína inundada pela enxurrada, representando claramente a imagem de desolação, por outro, aparece a imagem do cão com “sinais de cinza” líquida, claramente discernível ao contemplar o espelho que a água faz com as sobras das árvores e dos edifícios submersos, parece estar a dialogar com o reflexo da ruína do seu próprio habitat. Esta leitura faz-nos concordar com Krir, citado por Jean Chevalier & Alain Greebrant, quando procura construir a imagem do cachorro. O simbolismo do cão reside na sua vocação de emitir mensagens que “[levam] para o céu as preces dos homens” (Krir apud Chevalier & Greerbrant, 2010, p. 153).

Parece haver um certo saudosismo materialista que nos lembra os tempos da civilização colonial, principalmente, ao descrever-se a força do vento e das águas, que entraram e saíram pelas várias fissuras do edifício: as grades rangeram, o tecto abanou, mas a estrutura permaneceu firme. Na óptica do narrador, esse facto aconteceu, porque “o colono fez (…) um bom trabalho” (cf. p. 19). Embora pareça anedótica, esta visão chama à atenção para a necessidade de erguer edifícios arquitectonicamente invulneráveis, num tempo ciclicamente marcado pelas hecatombes naturais.

A efabulação episódica do drama levou as personagens a recorrerem a alternativas mágico-tradicionais, sobretudo quando se narra a história do ladrão pilha-galinhas e mulherengo, que somente a polícia o salvou da morte. Há, neste croni-conto, uma contradição pragmática. Mas o paradoxo representa uma consciência no contexto de uma realidade em que as personagens sobrevivem à base de solidariedade recíproca.

A crónica intitulada “Nuvem de espuma” anuncia a aproximação do dilúvio: “A água chega com os mochos. Os pássaros da morte movem-se pelos ares sussurrando segredinhos apocalípticos aos ventos frios da madrugada” (P. 27). Este cenário foi visível, quando as águas se espraiaram pelo Rio Búzi, transbordando as suas argilosas margens, invadindo as povoações, pondo em risco vidas e engolindo casas, campos agrícolas, empreendimentos sociais, económicos e culturais: “O Búzi nega deixar-se comprimir por um par de margens já flácidas. Borbulha por aqui e por ali, galgando o interior de impotentes paredes da argila” (P. 27). Na verdade, a manifestação escatológica do ciclone e das enxurradas teve a sua incidência na povoação de Búzi, avaliando pelo número de mortes humanas. Mais de seiscentas pessoas perecidas.

Em 2001, foi publicada, em São Paulo, História do medo no Ocidente (1300-1800), em livro historiográfico, de todo o nível, magnífico. O autor do livro chama-se Jean Delumeau. Ao narrar a história do caos da civilização ocidental do século XIV ao século XVIII, o autor mostra que “nada é mais difícil de analisar do que o medo” (Delumeau, 2001, p. 22). Ao ler a obra de Bento Baloi, ficamos todos impotentes e a dificuldade aumenta mais ainda quando se trata de passar do indivíduo ao colectivo. Uma leitura colectiva da história do IDAI lembra-nos, de facto, o drama que horrorizou o mundo, mobilizando solidariedade das nações políticas, das nações religiosas e também das nações sócio-culturais de todo o planeta, por causa do caos meteorítico jamais antes conhecido.

Na Antiguidade greco-latina, o caos era a personificação do vazio primordial, anterior à criação, no tempo em que a ordem ainda não tinha sido imposta ao mundo (Grid apud Chevalier & Gheerbrant, 2010, p. 156). Convoco este conhecimento para relacionar Arca de não é com deambulismo grotesco das personagens da obra de Baloi, que, no geral, metaforizam o vazio desolador que as pessoas viveram duranta a ocorrência das cheias de 2019. Veja-se a passagem seguinte da crónica “Nuvem de espuma”: “O meio de subsistência é aqui que não se obtém. Em baixo é o caos. É o mar” (P. 29). Tanto há um vazio simbólico de esperança, como dos meios de sobrevivência, até do chão onde as pessoas possam pisar, andar, trabalhar e conviver. Há, cada vez mais, fome de coisas aparentemente simples. O prefaciador da obra, José dos Remédios, lembrou-se da música dos Queen para caracterizar o vazio greco-platónico causado pela falta de alguém para amar. A água separou famílias e sociedades; separou etnias e povos.

O estrago provocado pela chuva e pelo ciclone é, na minha opinião, sintetizado na terceira crónica do livro: “Zé das abelhas”. Vejamos o extracto seguinte que mostra o recurso de sobrevivência e as circunstâncias da morte das pessoas:

Ao quarto dia, o estado do tempo não dá sinais de tréguas. A chuva continua a cair e o homem continua sitiado no murmuché. São dias passados a baloiçar de um lado para o outro, em busca de equilíbrio e lutando pela vida. A fome fá-lo fraquejar. O risco de tombar e seguir o destino da água é uma realidade. O murmuché é a fortaleza das formigas. É aqui que elas buscam segurança, calor, conforto e espaço para procriar. A muralha está a ser corroída por baixo. A segurança e o conforto destes insectos são substituídos pela água que invade, paulatinamente, os espaços do seu mundo.

As formigas fazem o óbvio. Fogem do submundo do murmuché e sobem à superfície. Encontram um outro corpo estranho no topo do seu castelo: Zé das Abelhas. Frágil, cansado e esfomeado.

As formigas não são suas amigas. Zé é amigo de abelhas. As formigas não cantam, não dançam e nem voam. Também querem sobreviver e disputam o diminuto espaço com Zé das Abelhas. Elas partem para o ataque. Invadem o seu corpo. Quer repeli-las, mas falta-lhe força e energia. Os seus gestos são tão inofensivos que não impedem que os insectos percorram, em várias filas indianas, todas as avenidas do seu corpo. Primeiro são as pernas, depois a barriga, as costas, os braços e o pescoço. A primeira formiga ia atingir a cabeça, quando o castelo de areia, que é o murmuché, se desmoronou e, paulatinamente, se dissolveu na água.

Há quem diga que o corpo de Zé das Abelhas foi visto a navegar de bruços, totalmente coberto de enormes formigas negras, em direcção à foz do Púnguè (pp. 35-36).

É curioso que, em situações calamitosas, ocorram sempre episódios de nascimento de crianças em circunstâncias incomuns. Em 2000, nasceu a Rosita, em Gaza, concebida como mito de renascimento biológico e a continuidade da vida na terra. O livro de Baloi lembra-nos esse episódio, de uma criança nascida encima de uma árvore. A personagem Hanidjo é transportada por uma carroça de tração animal para ir ao hospital para o serviço do parto. É uma realidade que denuncia a precaridade da vida, a pobreza generalizada. Agravada por falta de “apoio médico” (p. 47), essa realidade chama à atenção a todos.

Apesar de tudo, no sofrimento há também espaço para alimentar sonhos e devaneios psicológicos. O texto “A menina que queria ser psicóloga” (pp. 101-105) tem uma intenção semântico-pragmática que contempla vários domínios de educação, como, por exemplo, a relação problemática entre a vida e as condições subjectivas da realidade, a necessidade de formação/educação científica, e, de forma lateral, os contornos sócio-económicos e ético-culturais a que as personagens cronistas se encontram envolvidas. Nisso tudo, o papel da família e da escola torna-se importante para a construção de uma geração que ajude a compreender os contornos do futuro. Vejamos o pensamento futurista de uma menina de 9 anos, ao tentar responder a uma pergunta que é comummente feita a crianças é desenvolvimento intelectual: “Eu, quando crescer, quero ser psicóloga […] Quero ajudar as pessoas a não se suicidarem”. Em poucas palavras, temos a referência à educação moral e, em defluência directa desse facto, a inscrição textual de conteúdos temáticos importantes: a importância ética e moralística que permite as pessoas compreenderem o valor da vida e dos fenómenos que a caracterizam; a educação formal e a necessidade de formação em áreas de natureza social.

É inteiramente pertinente o facto de o terceiro parágrafo da crónica referir os nomes originais e socialmente diminuidores, como “Urombo”, “Tsanguirai”, “Bininho”. Entre escritores moçambicanos que têm trabalhado temas desoladores como este, salienta-se o romancista Mia Couto que, no romance Terra sonâmbula, valoriza, com despreocupada lucidez, o estatuto social da personagem Kindzu que desencadeia uma série de episódios oníricos, ainda em terra idade, como, por exemplo, os conselhos que, em circunstâncias difíceis, foi dando ao velho Tuahir, face ao recrudescimento da guerra dos 16 anos em Moçambique.

As imagens que introduzem o texto que dá título ao livro ilustram com rara petulância a intencionalidade da escrita, assim como a sua eleição para o espaço que ocupa na colectânea.

O simbolismo da arca, e o da navegação em geral, comporta vários aspectos que estão, no seu conjunto, interligados. O mais conhecido é o da Arca de Noé a navegar sobre as águas do dilúvio e transportando todos os elementos necessários à restauração cíclica (Chevalier & Gheebrant, 2010, p. 80).

O simbolismo da Arca da Aliança dos Hebreus está mais próximo do que parece do anterior. Os Hebreus colocavam-na na parte mais retirada do tabernáculo; ela continha as duas tábuas da lei, a vara de Arão e um vaso cheio de iguaria que alimentara o povo no deserto. A arca era a garantia da protecção divina, e os Hebraus levavam-na nas suas expedições militares, Quando foi transferida, com grande pompa, para o palácio de David, os bois que puxavam o carro fizeram inclinar a arca; o homem que tocou nela para assegurar caiu logo morto no chão. Não se toca impunemente no sagrado, no divino, da tradição (Segundo livro de Samuel, 6).

Como vimos, Arca de não é configura uma falsa metáfora da Arca de Noé. Mas a criatividade linguístico-pragmática e a imaginação crítica, com que se intitulou a obra, têm uma relação artística muito forte no plano da literatura com as narrativas bíblicas. Em Arca de não é, temos referência ao dilúvio e, por consequência, à intertextualidade noética da filosofia bíblica, porque o recurso a uma expressão cuja deriva prosódica se assemelha à Arca de Noé, remete-nos directamente para a inscrição vétero-testamentária. Essa ideia torna-se mais forte, quando, no meio de tanto sofrimento, as personagens reconhecem a existência de Deus, como acontece na passagem seguinte: “Não é a minha perícia de navegador de ocasião que evita que a canoa se vire. É, sim, a força de Deus” (p. 111).

Importa, finalmente, referir que este livro é constituído por pequenos fragmentos contísticos, produzindo, no geral, as crónicas do quotidiano que vão hoje a público pela mão da Editora Índico.

Beira, 8 de Abril de 2021

Por: Celso Muianga

 

Em memória do jornalista Albino Moisés que me falou pela 1.ª vez da maior capulana de Moz!

 

Virou-se para mim com um olhar fulminante, até parecia perdidamente apaixonada. Pensei que ela me fosse dar mais uma daquelas suas lições, demoradas e chatas, apesar de apreciar-lhe o discurso. Falava como se estivesse a cantar. Mas quando ajeitou os óculos pela segunda vez, a minha avó, não sei como soltou um palavreado breve, incoerrente e vigoroso:
– Isto é absurdante.
– Vovó??? – atirei atónito!
– Não é possível que eu não esteja a sonhar, com esta minha idade, já a viver a prestações, meu neto!
– Mas vovó não está fora do prazo…
– Liga agora o rádio do teu chará, meu netinho.
Tratei de evacuar o ruído que vinha da televisão. Mas antes fui vi-me obrigado a correr e atravessar o quintal. E instantes depois regressei ao lugar de partida, para de novo juntar-me à minha querida avó. Ali, debaixo da mafurreira, a minha avozinha desfrutava da sombra do ar condicionado natural como ela apelidava aquele lugar. Um copo estava deitado sobre um pedaço de esteira. Ela nem se deu conta das gotas de aguardente que o meu avô deitara naquele chão, ao longos destes anos.

A emissão da Rádio Nacional de Moçambique estava em cadeia nacional com todos emissores provinciais, com a maioria das rádios comunitárias que aderiram massivamente às celebrações. Esta emissão espacial juntava a Televisão Nacional, o canal da TV Surdo e os canais de Professores e Médicos.
-A mulher moçambicana está em festa e, antes de mais, vamos brindar e reiterar o desejo de um feliz 7 para todas mulheres de Moçambique. Tenho sinal para entrar em linha com a nossa colega na cidade da Beira. Diga-nos, Anabela, como é o pulsar das cerimónias centrais que vão ter lugar aí nesse ponto do país?

*
-Alô, alô Anabela. Como vão as modas aí no Chiveve?
Olá, bom dia Glória. Falo-vos a partir do bairro da Munhava, onde daqui a pouco vai decorrer a cerimónia central deste Dia Nacional da Mulher. Tenho indicação de que a delegação oficial teve um embaraço no trânsito, à saída do aeroporto. Devolvo a palavra aos estúdios centrais, hoje em Quelimane, Glória
– Obrigada, Anabela. Tenho indicação de que a Rosa está em linha a partir do Songo. Venha daí, Rosa. O perfume é teu nesta nossa emissão. Estamos em festa hoje!
Viva, Glória. Respondo de Songo. Tenho comigo uma senhora que está a reagir pode aproximar-se do microfone, dona!
-Cuidado. Muito cuidado com o frio daqui do Songo. Tem mania de ficar muito frio. Muito muito de noite. Isso de dizer que ela não sente frio porque corre muito não vai prestar. Melhor vestirem a Menina de Ouro para não ficar entussiada….
Obrigada pelos conselhos, mamã!. Glória são estes os primeiros sinais assim que foi descerrada a capulana que cobria a nova estátua de 2.5 metros de altura da nossa campeã Maria de Lurdes Mutola
Obrigada, Rosa. Voltamos à cidade da Beira, creio que estão criadas todas as condições, Anabela.
Sim, Glória. Já estou junto da Doutora Joaquina. Doutora Joaquina, em directo para a nossa emissão de rádio e televisão que nos pode dizer neste 7 de Abril muito especial?
Aprecio e gosto que a senhora locutora Anabela me trate pelo nome completo. Afinal é preciso estimar as mulheres moçambicanas, não é verdade…»
« Não seja por isso, senhora Secretária Nacional da Mulher de Moçambique, Dra. Maria Joaquina Desdentada Moçambique tem a palavra neste dia muito especial para todas nós»
«Primeiro agradecer muito ao meu padrinho particular e a Deus. De facto, hoje vamos inaugurar os resultados do nosso xitique nacional, com a inauguração de 11 estátuas da nossa única campeã olímpica e mundial, Maria de Lurdes Mutola. As mulheres deste país merecem um reconhecimento bem maior, mas como diz o nosso hino nacional «pedra a pedra construimos novo dia. Milhões de braços, uma só força!» E também neste primeiro acto vamos, neste 7 de Abril, inaugurar três estátuas da heroína Josina Machel, em Nacala, na Matola e na Ponta Gêa. Para fechar este ciclo de homenangens a três das maiores figuras, bem as mais representativas, vamos inaugurar três estátuas da maior figura literária de Moçambique no feminino, que é a Mãe dos Poetas moçambicanos, a nossa querida Noémia de Sousa, por sinal a mais velha. Noémia de Sousa, há mais de 75 anos, junto com José Craveirinha, João Mendes e outros redigiram a primeira carta para a Independência de Moçambique onde hoje é chamado Jardim dos Namorados. São estes os nossos planos como Secretariado, a Mulher de Moçambique, mas devo referir que acabamos de aprovar quinhentas bolsas para raparigas por cada província. Para este primeiro lote, escolhemos como patronas desta 1.ª edição Janet Mondlane, Graça Machel e Marcelina Chissano. Nos próximos anos vamos escolher outras patronas para mais quinhentas raparigas por província. Como podem ver na nossa página do Facebook e do Instagram já divulgamos a lista das outras mulheres que correm o risco de ter estátuas neste país. Para terminar, desejo a todas mulheres de Moçambique, dentro e fora do país, que continuem a acreditar e a valorizar o seus sonhos. Muito obrigada!
-Muito obrigada, senhora Secretária-Geral. Devolvo a emissão aos estúdios. Não posso esconder a tamanha emoção…»
-Obrigado, Anabela. Responde a Hermínia dos estúdios da televisão nacional. Ficamos a saber, há pouco, que o nome da nossa colega Glória Muianga faz parte da lista referida pela Secretária Nacional.
De Maputo temos uma intervenção da Farida, já com o edil da capital:
– Sim, senhora. A decisão foi da Assembleia Municipal. A antiga avenida Marien Ngouabi passa a partir de hoje a chamar-se Noémia de Sousa. E por coincidência, a antiga rua Noémia de Sousa chama-se Marien Ngouabi. Estamos aqui a inaugurar a estátua de uma heroina de reconhecido mérito, junto ao entrocamento entre a Acordos de Lusala e a nova Noémia de Sousa. Uma alegria para todos nós do século XX e XXI que aprendemos a conhecer Moçabique na palavra desta grande senhora.
– Obrigadinha, Farida! Continuação de um dia muito feliz. Passo desde já a ler a lista das mulheres mais representativas, de acordo com a M.M:
Sabina Santos
Reinata Sadimba
Júlia Malizane
Rosária Tembe
Glória Muianga
Zena Bacar
Domingas Jamisse
Esperança Sambo
Ana Magaia
Afra Ndeve
Laura Nhavene
Josefa Macadona
Lucrécia Paco
Marta Bocoda Guebuza
Mariana Muianga Chissano
Paulina Chiziane
Lina Magaia
Angelina Daima
Clarisse Machanguana
Zaida Lhongo
Paulina Mateus
Deolinda Guezimane
Manuela Soeiro
Marina Pachinuapa

*
Quando repararei para a minha avó, apercebi-me que ela dormia, há mais de duas horas. Fiquei o resto da tarde a compor a minha lista para enviar por e-mail à MM!

Celso Muianga
(Editor e activista cultural)

Era uma cidade de gente triste, tristes até quando celebravam seja lá o que for, e esforçavam tanto a ser tristes, apesar da tristeza aguda que todos sentiam ninguém sabia ao certo do que tanto os entristecia, aliás, aquela tristeza era inconsciente, todos lamentavam-se e lamentação passou a ser uma forma de saudação, uns aos outros lamentavelmente se cumprimentavam.

Todos falavam de uma forma que a vida passou a ser sem conteúdo, ninguém sabia como e nem porquê vencer a tristeza. Os felizes foram declarados inimigos do povo, assim que alguém fosse identificado como um homem feliz era imediatamente aniquilado, mas antes era humilhado em hasta pública e só depois abatido, para servir de exemplo aos resistentes, havia um esquadrão da morte, uma força tarefa para tal, de tal forma que não haviam pessoas felizes na cidade, havia um decreto presidencial contra tudo e todos que se mostrassem felizes.

Era uma cidade de gente triste, os resistentes fingiam-se tristes para sobreviver. Era preciso ser infeliz para se integrar socialmente, ter acesso aos serviços, aos lugares, às pessoas, quanto mais infeliz mais popular era a pessoa, para isso, inventaram uma plataforma onde as pessoas exibiam a sua infelicidade, uma espécie de vitrine onde se expunha os estados de espírito das pessoas, aquilo era um festival de ostentação de tristeza.

Para se garantir a infelicidade colectiva, todos as livrarias foram fechadas e os livros destruídos, os cinemas transformados em lugares de culto à infelicidade, os espectáculos proibidos, havia um tipo ideal de música que se podia ouvir, uma música que exaltasse a tristeza, era uma cidade de homens tristes. Os mais tristes faziam cocktail de tristeza com álcool e alcoolizados seguiam o curso triste dos dias.

Para garantir um ambiente hostil e triste, todas as árvores da cidade foram cortadas e no lugar destas foram colocadas árvores plásticas, postiças, que nem se mexiam com o vento, o que fez com que os pássaros fossem extintos. As praias foram transformadas em lugares para jogar dejetos e outros resíduos sólidos, soldados haviam para garantir essa falta de limpeza à orla.

Era uma cidade de gente triste, uma felicidade, por mais curta que fosse, era considerado heresia, todos vestiam-se da mesma forma, aliás, ninguém deveria ser diferente do outro, aquela tristeza era perentoriamente oficial e oficializada até a falta de carácter das pessoas, quanto mais indisciplinados fossem melhor à práxis do dia, quanto mais maldade fizesse, mais promoção e distinções tinha o ilustre cidadão, não era por acaso que os dirigentes eram todos excelentes ladrões e corruptos incorrigíveis, uma prática necessária e digna de honra.

O sexo, a bruxaria, a roubalheira, malandragem, a morte, encontrava-se em qualquer esquina e a luz do dia, vendia-se de tudo e a todos, paradoxalmente todos sorriem, risos largos e rasgados, dignos da infelicidade que sentiam, as notícias eram todas sobre a tristeza, se houvesse uma notícia feliz era falsa, fake news era a moda e moldava a mente dos tristemente desinformados, as escolas e as universidade nada se ensinavam senão a prática da corrupção, não era por acaso que todos exibiam-se doutores sem nunca ter algo para mostrar.

Era uma cidade de gente triste, até que um dia, nasceu uma criança que, além do habitual choro, sorriu, sorriu escancaradamente que ao sorrir fez sorrir todos os que assistiam o parto, e partir daquele dia toda a cidade sorriu, e a sorrir viu-se o quão sujos e tristes estavam todos, o sorriso daquela criança despiu a nu toda incoerência que se vivia, aquele sorriso era do bem e da sabedoria, que expôs a nudez de todos e todos envergonhavam-se deles mesmos, então decretou-se um limpar obrigatório, era preciso limpar a vergonha, limpar das ruas à promiscuidade e a partir daquele dia todas as crianças sorriam ao nascer. ­­­­­­­

 

 

 

Já me foi perguntado o porquê de os profissionais que ocupam cargos de responsabilidade (c.r)  terem melhores condições de trabalho que os demais. A resposta à questão é relativamente simples: Os profissionais que ocupam cargos de responsabilidade têm melhores condições pois, de outras razões, têm responsabilidades acrescidas e representam a imagem da organização. Por este motivo, são obrigados a deixar de lado certos hábitos e a adquirir outros novos. E esses sacrifícios devem ser compensados.  Infelizmente, poucos profissionais que ocupam cargos de responsabilidade não estão dispostos a fazer esses sacrifícios, ou pior ainda, não sabem que tem de fazer esses sacrifícios em prol da organização.

 O que é necessariamente deixar de lado certos hábitos em prol da organização?

Em marketing diz-se comumente: “people don’t buy your product, people buy you”. Isto quer dizer que  ao vender um produto/serviço, o profissional deve representar o valor (imagem) que tenta transmitir do produto/serviço em causa. Ora vejamos, se eu e o Ziqo formos vender um projeto de criação de um Disco-Bar a um grupo de investidores, os investidores tenderão a optar pelo projeto do Ziqo, claro. A imagem que Ziqo nos transmite, à nós seus fãs, é de um homem das noites, um “beatmaker” e bonvivant . A construção desta imagem integra, desde os seus vídeos em discotecas, as habituais roupas de marca, os charutos, os escândalos, a troca “frequente” de mulheres (sempre lindas e/ou famosas) ou os videoclipes glamourosos. Tudo isto faz parte da marca @ZiqoMaboazuda e é credível para este tipo de negócio. Os investidores, com facilidade, conseguem projectar a imagem de uma discoteca abarrotada de clientes animados, frequentada por mulheres lindas, outros artistas famosos,  bons “beats” e um ambiente de constante e efusiva animação: O retorno ao investimento está garantido. Por outro lado, se Ziqo for vender um projeto de gabinete de recrutamento de talentos, os mesmos investidores provavelmente terão receios da lucidez, ou ausência da mesma, do proponente naquele momento. Assim também procedem as organizações. Elas precisam que os profissionais que ocupam os cargos de responsabilidade representem a imagem dos serviços que elas pretendem vender, caso contrário elas deixam de ser credíveis.

 Os cargos de responsabilidade concedem vários direitos. Cartões de visita com títulos pomposos; carro e combustível; planos de saúde “abrangentes”; horários de trabalho flexível, subsídios de performance, entre outros. Mas estes direitos, via de regra, também trazem acoplados um rol de obrigações. Ao aceitar um c.r, o profissional deve ter consciência, não só das generosas e apetecíveis remunerações oferecidas, como também, das obrigações que ao cargo estão adstritas. Os colaboradores que ocupam c.r são, via de regra, projecções da imagem que a organização tenta transmitir aos seus stakeholders. Assim que ocupa um c.r, o profissional deve cessar de utilizar sua linguagem para utilizar a linguagem (business) da organização; deve adaptar uma postura dentro e fora da organização ligadas a cultura da organização; deve estar disposto a sacrificar férias, aniversários da família em serviço da organização, mudar sua indumentária para se adequar à cultura da organização.

 “A melhor forma de liderar é com exemplo”

É nesta óptica que o profissional que ocupa cargo de responsabilidade deve prestar atenção à sua imagem e linguagem, pois as mesmas serão associadas ao seu comportamento profissional e  pode afetar a atitude dos colaboradores mas também descredibilizar os serviços que a organização oferece ao mercado.  Um dirigente que expõe sua própria vida privada ao mínimo detalhe, por exemplo, cria a percepção de que não terá dificuldades em expor os segredos de um cliente ou da organização. Que organização se relaciona com outra, cujo a direcção é susceptível de faltar com deontologia profissional?

Talvez, a este ponto do texto, alguns leitores já estejam a pensar: “mas então ó, ó, ó Gerson, e a liberdade de expressão aí? Será que ocupar c.r significa perder minha liberdade em favor da organização, ó Gerson?” Não, absolutamente não. Os que ocupam c.r podem livremente continuar gozar da sua liberdade de expressão e de se comportar como bem entenderem, afinal de contas estamos num país livre, não? No entanto, é preciso saber que não existe acção sem reação. Para cada acção existe uma reação, que por vezes pode ser boa e por outras má. Os profissionais devem apenas ter consciência disso e estarem dispostos a assumir as consequências das suas ações.

 Ponto de vista de um especialista em recrutamento

Muitos decisores, talvez por falta de conhecimento, negligenciam certos aspectos essenciais do processo de recrutamento de profissionais para cargos de responsabilidade. A minha experiência me permite dizer que esta é uma fase crucial de uma organização, é neste processo em que “se decidirá” a prosperidade da organização.

Diz Jim Rohn que se alguém lhe der um milhão de dólares, é melhor se precipitar e tornar-se milionário antes mesmo de tocar no dinheiro, caso contrário, pode perder o dinheiro no primeiro segundo que o tocar.  Isto quer dizer que é preciso estar preparado para certos cargos. Sim, todos nós podemos ser líderes, mas nem todos estamos dispostos a fazer os sacrifícios necessários para sermos líderes.

Yassin Amuji, um destacado jovem que trabalha na promoção do turismo em moçambique e que recentemente foi nomeado para o cargo de Vice-presidente para o pelouro de Turismo, Hotelaria e Restauração pela CTA, fez uma analogia nas últimas semanas nas redes sociais, onde a questão focal é onde temos falhado na direção das nossas organizações em Moçambique. Porquê ocorrem tantas falências?

Eu acho que erro de casting é uma das razões pelas quais muitas organizações não prosperam em Moçambique. Este é um processo muito delicado e deve ser confiado aos profissionais da área para o dirigirem.  Alguns decisores continuam a utilizar os mesmos critérios de selecção a cargos de responsabilidade que há muitos anos, tais como: anos de antiguidade na organização; anos de experiência; escolha pelo apelido; escolha baseado no critério partidário; escolha por afinidade.

Num processo de recrutamento ou de escolha para um c.r devemos lembrar que o profissional escolhido vai dirigir a vida de muitas famílias e por vezes de toda uma comunidade onde a organização está implantada e que de perto ou de longe a organização afecta a economia do nosso Moçambique.  Entre vários critérios de escolha de um profissional a c.r, os que presto particular atenção são: Coragem: Coragem permite a um dirigente assumir responsabilidade em todas as circunstâncias, saber enfrentar  o medo e fazer face às dificuldades.  Capacidade de se relacionar com outros:  durante o processo de escolha, gosto de convidar o candidato para um encontro informal, por exemplo, almoçar. Este exercício me permite perceber que tipo de conversa lhe interessa, que linguagem utiliza, como trata os garçons, quantas vezes agradece, analisar sua qualidade de escuta,  analisar qualidade das suas perguntas assim como atenção que presta as respostas,  e saber sobre seu plano de vida (um líder tem de ter lifestyle bem definido).  E por fim a  Cultura da empresa: um cândido até pode ser perfeito mas se a empresa ou sector não lhe convém, seu nível de performance será medíocre. Nós seres humanos somos menos atraídos por dinheiro que pelo prazer de sermos úteis. Quando trabalhamos num sector ou empresa cujos os valores são os mesmo que os nossos, somos fiéis à cultura organizacional e ao trabalho. Portanto, este casamento entre a cultura e os valores do candidato é importante.

 Os empreendedores, os líderes (CEO’s), os decisores políticos devem perceber que recrutamento é um processo de todos os dias. O recrutamento não termina no dia em que o profissional começa a trabalhar. O plano de gestão de carreira dos profissionais é outra parte do recrutamento. Esta fase permite que os profissionais tenham uma direção. Imaginem um navio sem bússola. É exatamente assim como muitos profissionais gerem suas carreiras, portanto, o coaching sobre a gestão de imagem como factor de sucesso na carreira deve ser privilegiado como parte basilar da formação destes profissionais. Este processo permite ainda a melhoria contínua dos profissionais, retenção dos melhores e redirecionar os outros. EU ACREDITO EM NÓS.

Recomendação de livro para o mês de Abril 2021: “Grab your seat: insight into becoming a human capital business leader– “Samuel Ernesto Maputso

Samuel Gerson Andrisse é especialista em recrutamento e autor do livro “Be ready for your next job interview”

Por: Celso Muianga

 

Meu confrade Nelson Lineu, saúde!

 

Acabei de ler o teu último livro. Fiquei com a sensação imediata que não me devia calar. Sou, mesmo que não demostre a todos, um defensor da nossa geração, talvez o que digo a ti nem merecerá algum interesse de jovens e novos autores. E muito gostaria que fôssemos uma geração competitiva. Temos ferramentas herdadas do passado que nos podem servir para deixarmos marcas sólidas e talento também abunda entre nós, apesar desse mesmo talento, tal como afivela o filósofo barbudo que matou Deus ser «um adorno».

Lineu, escrevo-te com o apelo deste teu «mano crescido», e roubo uma fala de uma das figuras inimitáveis do mercado Madruga, que no auge da sua pujança era capaz de carregar nove caixas de cerveja sobrepostas e caminhar mais 500 metros na cidade da Matola. Boca-Linda era de facto inimitável. Assim também é a tua lavra que está bem cotada, por isso alerto para alguma contenção no galope, que me parece acelerado. Não vamos cair na tentação dos outros, na pressa cega de publicar por publicar como uma forma de cumprirmos para justificar a agenda para comprar terreno e construir a casa, etc. Há muito que sabemos que a literatura não dá para muito. Mas lutar pela honra dos que nos antecederam, dos que ainda cá estão e daqueles que virão, isso não devemos descurar em momento algum. Estimo o teu empenho na poesia e, se quiseres, com dedicação que te reconheço, como já te disse doutra vez, depois daquela homenagem a eterna luz que é Calane da Silva na Feira do Livro de Maputo, ali no Mercado do Povo, com o Pedro, Léo, Lucimara e o Mélio. Todavia as tuas crónicas recentes despertaram em mim os demónios que aqui partilho. E até a voz da nossa mui querida Fernanda Angius, que os Anjos não baixem a guarda, gravitou sobre a minha memória, «há aqui alguém que anda a escrever crónicas, mas afinal é poeta». Sei que sabes que ela estava a referir-se a ti, Nelson Lineu. É mais do que sabido por nós que a Fernanda tinha razão. E agora, o que fazer deste namoro com as crónicas, descortar, pedir distras, com aquele pedido de desculpa e jura de mil facas na barriga? Penso que não. Mas «pouco a pouco», com o sentido crítico, com a vigilância que nos legaram os madalas Craveirinha e Knopfli naquele livro verde de crónicas CONTACTO E OUTRAS CRÓNICAS & A SECA E OUTROS TEXTOS e outras crónicas. Como vês, de mestres não temos falta: Areosa Pena, Albino Magaia, Mia Couto, Fernando Manuel, Luís Patraquim, Marcelo Panguana, Nelson Saúte, Suleiman Cassamo, Daniel da Costa, Hélder Faife, só para citar alguns. Não é preciso correr porque a medalha de campeã olímpica ainda só pertence à menina de Ouro, Maria de Lurdes Mutola.

Voltemos à oficina para lapidar a palavra, cortar o que for preciso. E, se for necessário, como disse Knopfli, «Esperar. Esperar em vão. Esperar. Esperar mais ainda. Esperar sempre». Os outros, até malta Saramago e Lobo Antunes, nem foi deles a iniciativa de publicar as colectâneas de crónicas dispersas em jornais e revistas. Falo destes para não tocar nos latinos, nem tão pouco nos norte-americanos.

Caso tenha acontecido o contrário no bureau do Literatas, estás perdoado. Mas alto aí, o perdão é lá diante do Senhor. Aqui somos nós, a malta das letras que não é dada aos ofícios celestiais de batina e de todos os Santos.

Fiquei com a impressão de que os apresentadores do livro optaram pelo distanciamento social, não foram muito à conversa com O PASSO CERTO NO CAMINHO ERRADO. Meteram-se na mata. Atravessaram-na em passo de corrida, a fugir de algum Nyongo, talvez. Vi-os dobrarem as calças até aos joelhos ao atravessarem o rio. E depois, chegados à outra margem, começaram a acenar-te com Czares, Voltaires, etc, ignorando os nossos trovadores, filósofos, como se não os tivéssemos. Há, por exemplo, o Doutor Mussa Rodrigues, Lázaro Vinho ou até mesmo Xidiminguana. Todos eles grandes cronistas que não saltaram para a publicação em livro. Assim, de seguida falaram-te de nomes de outros grandes cronistas. O recado estava ali. Fizeram aquelas questões sobre as 52 semanas e etc e tal. Não me lembro de os ver tocar na ferida. Fizeram a missa. Isto talvez seja sintomático de que qualquer coisa não andasse bem naquele quintal de crónicas, meu amigo. E eles sabem que és bom entendedor.

Voltemos aos textos e com urgência para reflectirmos: qual é a novidade? Passados 12 anos estes textos sobrevivem à erosão do tempo? E como é que o nosso cronista Nelson Lineu olha para eles? Será que o teu olhar é o mesmo hoje? Como te sentes? Como esperas voltar a ler estas crónicas no futuro? Será que fazem o leitor se sobressaltar como se fossem balas perdidas ou outras munições do paiol de Malhazine? Perdoa-me a referência às balas, mas acho-as inevitáveis. São nossas vizinhas de saia curta e atiradiças.

Vou só recordar um episódio caricato que aconteceu a um amigo jornalista que, na altura, trabalhava no matutino da Joe Slovo que depois de muitos apelos à sensibilidade de um ministro sobre a degradação do estado de saúde do grande músico Carlos Chongo e, quando já nada fazia esperar a ilustre excelência, este mandou anunciar a sua visita. Porque o tempo é mestre, a equipa de assessores teve de enviar SMS às pressas para alguns jornalistas para a cobertura oficial. E o meu amigo, quando recebeu a mensagem que mais-ou-menos dizia isto: «O excelentíssimo ministro vai visitar o músico Carlos Chongo no hospital central», ele não teve meias medidas e respondeu com um vibrante «E daí?».

Palpita-me que confiaste nas pedras e no capim alto à volta, que as chuvas das últimas semanas trataram de pôr entre os trilhos. E se não fosses tu, o Nelson Lineu que conheço, terias tropeçado. Aquele beco não te pertence. Volte, meu amigo à tua oficina. E ali, antes de meteres debaixo do camião, pondere, medite na palavra. Se um dia, assim entenderes, salte o arame com o exame PCR feito no bolso, até porque é de carácter obrigatório nestes tempos pandémicos e incertos. E força, mano! Arrisque um pouco mais e mais. E se for para reformular, não hesite. Se precisares de mim, já sabes disto há 50 anos, podes contar. Mas seja vigilante, camarada! Aí nessa fronteira da crónica há sabotadores, ainda te arrancam o telemóvel e a carteira que imagino-a cheia de anotações, cartões e dinheiro de chapa. Cuidado!

 

Um abraço amigo,

 

 

Reflictamos

A reedição do Jornal O Negro, 110 anos depois da publicação do primeiro número deste que é um dos principais percursores do pensamento pan-africanista, simboliza o ressurgimento da luta do povo africano pela reconquista da sua dignidade e soberania no quadro das nações.

Mais de um século depois, este manifesto pela liberdade da África e dos africanos não poderia ser tão atual e revelador do embuste social e político em que o mundo se encontra. O imperialismo não morreu com as independências das colónias, pelo contrário, refinou os seus métodos e hoje se nos apresenta em forma de progresso, democracia e globalização, só para citar alguns dos seus disfarces.

Nós, os negros, continuamos escravos desta secular subalternização que as instituições imperialistas se esforçam em perpetuar. A celebração dos 110 anos do mais significativo movimento de luta anti-imperialista coincidiu com a polémica do Caso Mamadou Ba, presidente do SOS Racismo em Portugal e representante de uma causa que uma parte da elite política portuguesa (para ser optimista) insiste em varrer para debaixo do tapete.

É de todo irrisório que o discurso de Mamadou em relação a existência de um racismo estrutural em Portugal choque a opinião pública num país, que se orgulha de ser pioneiro da expansão marítima (os ditos Descobrimentos) que levou a colonização e escravização da maior parte dos países do mundo. Como se explica que um país em que os grandes carrascos da história da humanidade ainda são reverenciados como heróis pode se considerar não racista?

Já em 1911 o grupo de estudantes africanos (João de Castro, José de Magalhães, Ayres de Menezes, Artur Monteiro de Castro e tantos outros), que fundou o jornal O Negro debatia-se com essa questão. A resposta só poderá ser obtida por via de uma reflexão profunda e consciente. Reflictamos, recomendavam-nos eles. E este é para mim o principal legado desta geração iluminada pelo Éter da esperança e comprometida com a revolução.

Este movimento, a semelhança da campanha política em curso para a expulsão de Mamadou Ba de Portugal, foi perseguido e silenciado pelo Estado Novo. Urge que continuemos a resistir e a intensificar a luta. O oprimido só se liberta do seu opressor por via da violência, já nos tinha avisado o cineasta brasileiro Glauber Rocha no seu manifesto sobre a Estética da Fome.

Queiram eles ou não, será por via de discursos e posicionamentos violentos que no passado encontramos nos números de O Negro e hoje em activistas sociais como Mamadou Ba que conseguiremos pôr fim a esta opressão secular e finalmente tomar as rédeas do nosso destino.

E concluo esta saudação à reedição do Jornal O Negro levada a cabo pela editora FALAS AFRIKANAS e pelos autores Cristina Roldão, José Augusto Pereira e Pedro Varela, com revisão e paginação de Carolina Freitas e Inês Ramos, respectivamente, com uma citação (traduzida para o português corrente) retirada do número I, datado de 09 de Março de 1911:

Expressamos com lealdade, mas também com audácia, nas suas linhas gerais as nossas convicções.

Não nos moveram nem ódios, nem ressentimentos, absolutamente incompatíveis com a nossa mocidade e sobretudo com a nossa compreensão da solidariedade.
Embora pertencentes à raça, por excelência escravizada, ao iniciarmos a nossa publicação, sentimo-nos no dever de salutar todas as raças do mundo, porque todas descendem da animalidade e ascendem à vasta fraternidade universal.

Ops: Pode ter acesso a reedição do Jornal O Negro através do download gratuito em https://archive.org/details/jornal-o-negro-110anos.

A versão impressa está a venda em livrarias dentro e fora de Portugal. De Norte a Sul:
Santiago de Compostela/Galiza: Espaço Espadela
Vila Real: Livraria Traga Mundos
Vila Nova de Cerveira: Porta Treze
Porto: Gato Vadio, Utopia, I2ads/Faculdade de Belas Artes
Amadora /Cova da Moura: Bazofu&Dentu Zona
Cascais: Galileu
Lisboa: Letra Livre, Tigre de Papel, Leituria, SNOB, Baobá, Papelaria Fonsecas, Papelaria Cevada
Setúbal: Uni Verso
Sines: A das Artes
Lisboa, 19/03/2021

Cofiou copiosamente toda a extensão do seu bigode que nas extremidades seguia em forma de espiral enquanto olhava taciturno para o céu luzidio de quinta-feira.
Meditabundo, matava o tempo que lhe parecia inanimado principalmente agora longe da azáfama do quotidiano de outrora, tudo por conta do inimigo invisível.
Sim, tinha saudades do tempo que laborava e no seu emprego dirigia uma turma de colegas que reconheciam a sua competência e autoridade.
Agora vivia a reclusão domiciliária por conta das autoridades governativas e carimbada pelo seu superior hierárquico que decidira que ele deveria ficar remetido no seu recanto para não ser atingido pela COVID-19.

– Januário, Januário! – chamava-o a mulher a partir da sala contígua.
Ele, absorto na sua viagem, não a escutava, procurava se comunicar além galáxia, para não sucumbir ao convívio familiar forçado. Agora estava sob a direcção de sua esposa, que impunha o seu feminismo outorgado pela liga de defesa da mulheres do país.
Leonor, quando percebeu que o marido não a escutava, decidiu incumbir o filho mais novo de o chamar.
– Sim, sim! – atendeu Januário ao insistente chamamento do filho.
Apresentou-se perante a sua esposa que se deleitava confortavelmente na poltrona segurando o remoto controlo de televisão.
– Chamaste? – inquiriu olhando para Leonor que meio distraída trocava de canal optando agora por um de ginástica aeróbica.
– Tens de ir deitar o lixo – conferiu com autoridade passiva.

A empregada doméstica havia sido dispensada unilateralmente pela patroa, pois representava um potencial risco de contrair o vírus por recorrer ao “chapa” nas suas deslocações.
Quando o conteúdo televisivo que assistia perdeu o interesse, ela percebeu que o seu marido ainda não tinha saído para cumprir com a missão.
Voltou a gritar pelo seu nome, mas este continuou silencioso. Depois de uma demora prolongada, Januário reapareceu.
– Já vou! – disse
Ela, ainda com os olhos fitos no televisor, não deu pela presença do marido, mas depois espreitou pelo canto do olho e encontrou-o prestes a partir.
– Chii, vais aonde assim mesmo! – Disse ela, estupefacta com o visual do marido.
– Deitar lixo como mandaste! – Conferiu convicto.
Januário trajava um terno azul, devidamente engomado e uma gravata vermelha, era a indumentária que mais confiava e a usava quando tinha reuniões de alto gabarito. Recuperou o seu traje favorito depois de mais de quarenta e cinco dias “aguardafatado” a propósito da nova ordem social, agora que o usava, sentia-se, outra vez, dono de si.

Quando alcançou a principal rua que dava acesso ao destino, uma brisa fina sacudiu seu rosto e ele despertou para lembranças de outrora, dos bons tempos. Atirou o saco e toda a sua depressão vôou com os resíduos domésticos e aterrou no interior da lixeira.

Alisou as lapelas do seu paletó e reiniciou a marcha para parar logo de seguida, recuperou um charuto inacabado, tesourou a parte superior, acendeu-o, deu uma longa chupada e, quando a outra extremidade atingiu o rubro, largou e expeliu uma pequena fumaça aromática.

Continuou sua caminhada sem muita pressa de voltar para casa, dava um e outro sorvo no seu charuto e a sensação de liberdade trazia-lhe felicidade. Adentrou para uma pastelaria e pediu um café, enquanto aguardava, recuperou a sua liberdade de expressão e decidiu ligar.- Querido como é bom ver-te e ouvir a tua voz depois destes dias todos! – gritou Elisa emocionada. – Estás lindo meu bem.
Evoluíram num paleio erótico protagonizado por Januário e, à medida que a sua eloquência se adensava, ela descobria as suas partes íntimas seduzindo-o.
Quando a vídeo reunião terminou, sentiu-se um homem novo e cogitou:
“ A humanidade, com destaque para os cientistas e curandeiros, devia encontrar uma cura a curto prazo para o desconvidado vindo do ano 2019”

 

Por Graça Machel

PCA da FDC e da Graça Machel Trus

Hoje, Dia de Acção Global da Vacina do Povo, comemoramos um ano desde que nós, como família global, enfrentamos a pandemia da COVID-19.

  • Juntos, a humanidade compartilhou o trauma colectivo de administrar uma magnitude insondável de doença e morte em nosso meio.
  • Juntos, em todos os cantos do globo, corajosos profissionais de saúde da linha da frente doaram sangue, suor e lágrimas para controlar a força maligna deste vírus.
  • Juntos, navegámos nas mudanças para um mundo virtual e na ruptura dos meios de subsistência e modos de vida que isso gerou, bem como as novas demandas da vida doméstica que exigiam que cuidássemos uns dos outros, educássemos nossos filhos e nos conectássemos com os nossos entes queridos de maneiras antes inimagináveis.
  • Juntos, aplicamos o melhor das nossas mentes médicas e científicas, bem como todas as facetas da nossa infraestrutura de saúde pública, para produzir vacinas que salvam vidas, numa velocidade e escala sem precedentes. Especialistas de alto nível e cidadãos comuns corajosos estão lado a lado nessa luta, enquanto os testes clínicos vão atravessando aldeias na África do Sul e comunidades no Brasil para laboratórios na Bélgica e na Índia. Olha, estamos todos juntos no campo de batalha.

Ainda assim!

Começamos a ver rachas perigosas e malignas emergindo no seio da nossa unidade e as divisões de desigualdades socio-económicas se tornando ainda mais nítidas. A ruptura económica e social causada pela pandemia continua a ser devastadora: centenas de milhões de pessoas correm o risco de cair na pobreza extrema, enquanto o número de pessoas subnutridas, atualmente estimado em quase 690 milhões, pode subir mais 132 milhões até ao fim ano. A UNESCO revelou a terrível estatística de que cerca de 1,52 bilião de alunos estão fora da escola em todo o mundo e que quase 10 milhões de crianças podem nunca mais voltar à escola após o bloqueio do COVID-19.

Ninguém ficou ileso. E, portanto, ninguém deve ficar sem imunidade ao vírus e à graça da resiliência que a vacina traz consigo. É por isso mesmo que a vacina é um direito humano de todos. A equidade na vacina não é apenas uma questão de saúde pública, é uma questão de justiça social e de sobrevivência colectiva.

Ninguém estará protegido contra COVID-19 até que todos estejam. Não haverá recuperação económica ou social para ninguém, em nenhum País, a menos que priorizemos uma recuperação global igualitária da saúde.

As vidas humanas são iguais em valor, não importa a lotaria geográfica do local de nascimento. Todos, repito – todos! Cada ser humano, não importa onde viva no mundo – precisa e merece acesso a vacinas que salvam vidas.

O nacionalismo em volta da vacina é uma catástrofe moral. A história nos julgará com severidade se não empregarmos todos os recursos à nossa disposição e alargarmos os limites da nossa imaginação para garantir que as vacinas estejam nos braços de quem precisa, de Maputo à Cidade do México e à Mumbai.

Juntos, precisamos continuar a reimaginar a nossa maneira de ser:

  • Uma renúncia da Organização Mundial do Comércio (OMC) à proteção de propriedade intelectual para produtos médicos relacionados ao COVID é imprescindível.
  • As empresas farmacêuticas devem entender que as vacinas são um bem comum e não uma mercadoria apenas para o seu lucro. Exorto-os a ouvir o clamor mundial por preços sem fins lucrativos das doses de vacina e de outras ferramentas da COVID-19 durante a pandemia.
  • Não podemos operar como habitualmente o fazemos. Temos que normalizar as práticas comerciais incomuns – aumentar a capacidade de fabrico, compartilhar a propriedade intelectual e licenciar vacinas para outras empresas maximizarem o abastecimento.
  • Governos, sector privado, multilaterais e filantropos precisam se unir para aumentar a solidariedade e aumentar o financiamento da COVAX.
  • E a COVAX deve fornecer informações oportunas e transparentes aos Países destinatários sobre os preços, bem como o fornecimento esperado e cronogramas de entrega.

Uma catástrofe moral não deveria acontecer. Devemos actuar com responsabilidade colectiva e solidariedade como uma família humana para garantir que cada um de nós possa receber a vacina contra COVID-19. Não ousemos negar a nós próprios e às gerações vindouras a dignidade de uma vida saudável e de uma vitória sobre a COVID-19.

Álvaro Taruma inicia a sua escrita em 2014, com a publicação de textos em jornais e em revistas moçambicanas. É autor de duas obras literárias, nomeadamente Para uma Cartografia da Noite (2016), com 91 páginas, divididas nas seguintes partes: Breves “Anoitações” de um Sonâmbulo; Vigílias; Amor: Dia, Depois Noite; Impressões e Assombros. A outra obra literária é Matéria para um Grito (2018), tem 109 páginas e é composta por três partes: Panfletos contra o Silêncio; A cidade de todos os Náufragos e Um Homem despede-se de si. Em ambos trabalhos o autor sugere a indicação das obras e dos autores moçambicanos e da literatura universal que o inspiraram na escrita, através de epígrafes e de dedicatórias.

Nasceu na província de Maputo, Ilha de Inhaca. Formou-se em Sociologia e Antropologia e ainda em Ensino de Português. Em 2016 ganhou uma menção honrosa no Concurso literário “10 de Novembro”, que celebra o aniversário da Cidade de Maputo. Foi vencedor do prémio BCI de literatura em Moçambique, edição de 2018. Muito cedo granjeou a simpatia da crítica no seu país, que o considera um dos melhores poetas da nova geração[1] de escritores, pela qualidade da sua obra.

São sobretudo o sonho, a noite e a vida dos moçambicanos que norteiam a sua primeira obra literária, considerada como autoficção e que é composta por alguns textos que, de algum modo, dialogam com os do escritor moçambicano Eduardo White (1963-2014), um dos mais qualificados da língua portuguesa. Esse diálogo se estabelece não apenas através da eleição da escrita autobiográfica, como também da escrita sobre o sonho e a morte, da crítica a determinados modelos democráticos que têm lugar no seu país, do governo do dia e ainda da escolha da metapoesia e da prosa poética como pano de fundo da sua escrita literária.

As diferentes preocupações com Moçambique podem ser sistematizadas através da representação que o poeta faz, ao colocar um sujeito poético que afirma:

 

Entristeço-me sempre que me revejo neste trapezista solitário no circo cada vez mais vazio e assustador, de onde só se aplaude os astutos malabaristas do jogo da democracia. Assusto-me, e é com esse susto que me fulmino cada vez mais que se avariam os motores da razão dos nossos governantes. E quase me é suicida esta vontade súbita de caminhar sobre a estreita corda que é o chão do meu país, regado pelo sangue que se derrama sempre que se calam frente à ecuménica mesa do diálogo.// Moro de vagar, em cada vez que piso este traço sideral que é o húmus da minha nação […] (TARUMA, 2016, p. 85)

 

Há um exercício de cidadania que faz o poeta, sugerindo a ideia de que, no seu país, há dificuldade em denunciarem-se irregularidades cometidas por governantes. Quanto ao que alude e que pode ser conferido entre as pp. 85 e 87, poucos moçambicanos se abrem a denunciar diferentes atrocidades, tais como a fome, a miséria, por receio de represálias por parte de quem detém o poder.

A poesia de Taruma é de carácter político. O poeta chega a criticar a existência da kalasnikov, símbolo que faz parte da bandeira nacional.

Ao mostrar a sua desilusão pelo país, o sujeito poético, na obra acabada de referir, chega a utilizar expressões fortes como: “cemitério de loucos”, para designar o país; […] “desejo erótico de acrescentar, em frente à primeiríssima lera desta terra (Maputo), o ú para depois apartar a sílaba inicial, e seguidamente repetir-lhe o nome no feminino, a ver se lhe enfio no cu” […]; …“frenético mijo”, etc cf. p.86; linguagem similar a que Eduardo White utilizou nas obras nas quais teceu duras críticas ao seu país, a saber O País de Mim (1999); As Falas do Escorpião (2002) e O Homem, a Sombra & a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004).

Álvaro Taruma ensaia nessa sua primeira obra, de diferentes maneiras, a criação metapoética, da qual destacarei aquela que dialoga com a obra de Eduardo White. Diz o poeta,:  […] “terrorista pode ser quem tem um lápis apontado a uma folha. Bastam três versículos de um qualquer livro para que a morte chegue (ridícula como uma carta de amor) […]// Neste país, onde escrever é crime, eu escondo o meu diário como quem esconde sua munição” (TARUMA, 2016, p. 23).  Este trecho faz lembrar dois outros de Eduardo White, na sua obra A Mecânica Lunar e a Escrita Desassossegada (2011), quando critica os seus colegas escritores e a si próprio, pelo oficio da escrita em Moçambique:

 

Vocês cospem na poesia como vos é costume cuspir num serviçal. Pagam pouco com medo de que vos limpem muito lixo que sois. […] // Vocês fazem livros como fazem calças e vestidos com rigor e o glamour da hâute coture e, muito embora assim, não sabem a merda que os veste. […] (WHITE, 2011, p.47).

 

Não há dia em que a escrita não me venha bater à porta. Não há dia em que não se vire para mim e me diga em tom jocoso: Bom dia, idiota. […] // Vai pentear bonecos, respondo-lhe eu […]. E a desenvergonhada ri-se, enquanto me acobardo […]. (Ibidem, p. 55)

 

A metapoesia é o cerne do livro Matéria para um Grito (2018), obra na qual, em grande parte, o autor reflete sobre o processo da escrita, questões sociais em Moçambique e sobre as mortes sem causas claras. Sobre esse processo de escrita, apresento como exemplo o que afirma o poeta, no poema da p. 22: “Trabalha a palavra/ mesmo que não a digas, flua./ Este é, de todos, o mais árduo/ofício: o lírico gume do silêncio”. Ou ainda: […] “(escrevo, pois, com a pátria de joelhos como quem reza, à cata de moedas imaginárias)”, cf. 27.

Nesse último poema referido, há mais uma marca biográfica. O poema é intitulado “Cemitério dos afogados”, pp. 27-28, e leva a seguinte epígrafe: “Aos meus irmãos náufragos na ilha de Inhaca”. O poeta dedica esse poema aos seus conterrâneos. Recorre ainda a marcas que simbolizam Moçambique, pelo recurso à utilização da expressão “ventos de Setembro”, que lembram os ventos sul típicos dessa altura do ano. São os ventos que têm lugar entre Agosto e Setembro em Moçambique, os referidos nhinguitimo(s), no conto de nome idêntico, da autoria de Luís Bernardo Honwana.

Ao fazer referência a esses ventos, o poeta reclama a pouca atenção social na gestão da província de Maputo. O sujeito poético criado fala a partir da ilha, para alguém que está no continente, lugar com mais vantagens, embora seja um espaço com muitos problemas como a morte sem causa, enquanto que a ilha depende, no seu todo, de mantimentos vindos da parte continental: “fala-me desses ventos de que não sei senão breves rumores, dessa cidade onde a morte é um espelho, um espetáculo que cruza a remos e tu voando como uma bala, uma vela rasgada, um dissenso naufrágio”[…] TARUMA, 2018, pp. 27-28). Com o poema também presta homenagem a alguns naufragados na ilha. Na sua obra é recorrente o ceticismo do poeta quanto aos destinos do país, tal como se pode ver nas palavras do sujeito poético: […] “conta-me daí uma pequena mentira porque cá a verdade é de aquietados motins: um fardo de medo sobre as costas do mundo, sobre os livros, sobre as mesas gastas à fome, sobre a vida que escolheste nessa margem submersa da nuvem: o reduto das coisas líquidas” (TARUMA, 2018, p. 28).

Esse trecho remete-nos à ideia de precariedade da vida em Moçambique, algo que é recorrente em quase toda a obra Matéria para um Grito. Aliás, o poeta utiliza a poesia para denunciar a perda de valores morais e as matanças no país. Há muitos crimes não explicados. O poema intitulado “Vento imóvel (a um país)” é disso exemplo. Nele, o poeta faz referência a comentadores políticos que levaram tiros em Maputo, por defenderem a democracia e por apontarem os males na política do governo-dia. Além desses, o poeta faz menção a pessoas que foram mortas pela mesma causa.  O poema, epigrafado por uma frase de Leonard Cohen, remete à espera da chegada de um milagre:

 

[…] Eu quero que as pessoas se fodam! Ou melhor, eu quero que as pessoas se expludam. […] O que ouves nas canções de Leonard Cohen (waiting for the miracle to come)? Não ouves nada: zarolho de ouvidos e outras coisas! Não ouves a trombeta soar sob o signo da morte? Não ouves o grito dos prisioneiros sobre a muralha sitiada? Cardoso, Macuácua, Mcuane, Sistac, Salema…são apenas um nome sob a trágica emboscada do silêncio […]. (TARUMA, 2018, pp. 54-55)

 

O poeta denuncia ainda, nesta sua segunda obra, os males e desigualdades sociais, com recurso a um sujeito poético que se coloca em diferentes transportes públicos, anda pela cidade e diz o que vê. Os títulos dos poemas descrevem a marca e o tipo de transporte pelo qual o sujeito se desloca, bem como a rota que faz pela cidade de Maputo e arredores: “ADB-100 MP[faixa azul]/Rota: Anjo-Voador –Xipamanine (vamos ganhar tempo passageiros), p. 91; “APP-500 MC [Faixa Amarela]/ Rota: Praça dos Combatentes – Baixa ( Via  Compone)”, pp.93-94; “AEK-627 [Faixa Verde]/Rota: Zimpeto-Museu (se recalmar desce)”, pp.95-96; “O DITO DO COBRADOR DESDENTADO [Chapa desconhecido]/(Voz em off: amuyiveee, amuyivee, khomani amuyiveee!)”, p. 97, entre outros.

No primeiro poema são descritas as diferenças sociais e comparadas as vivências entre as senhoras com elevado estatuto social, as que usam vestidos de seda, afirma o poeta, versus as que vendem roupas no mercado informal. No segundo, é descrita a insensibilidade das pessoas abastadas, perante a pobreza urbana. O poeta chega a dizer que o seu modo de vida explica o amor que tem por estátuas. No terceiro, há uma crítica a valores morais. E no quarto há uma crítica à governação do país e à bajulação dos que nele acreditam.

São duas obras bem conseguidas as do autor apresentado e que mereceram uma boa classificação da crítica.

 

REFERÊNCIAS

TARUMA, Álvaro. Para uma cartografia da noite. Maputo: Literatas, 2016.

________________ . Matéria para um grito. Maputo: Cavalo do Mar, 2018.

WHITE, Eduardo (2011). A mecânica lunar e A escrita desassossegada. Maputo: Texto Editores, 2011.

 

 

* Sara A. Jona Laisse. Docente na Universidade Politécnica. Contacto [email protected]

[1] Há marcos socio-históricos na História da Literatura Moçambicana, que dão como adquirida a ideia da existência das seguintes gerações de escritores moçambicanos: a primeira, a dos combatentes da Luta de Libertação Nacional, os cultores da Poesia de Combate; a segunda, a dos “jovens da Charrua”, que começaram com as suas publicações nos anos 80, rompendo com a estética literária anterior, a da poesia panfletária; e uma nova vaga de escritores, a maioria dos quais começa a publicar nos anos 90, a chamada nova geração de escritores.

O Valgi andava esquecido dos compromissos que deixara em Porto Amélia.  Pudera! O emprego temporário na loja do Bhai dava-lhe algum entretenimento e um salário que lhe permitia sobreviver nesta cidade selvagem. Claro que, uma vez e outra, recordava-se da esposa Mariana e dos filhos, com aquela saudade que o remetia a silêncios de meditação e de tristeza. Esses eram momentos raros e fugazes, porque aqui, como diria o Poeta “outros valores mais altos se alevantam”. E alguns destes centravam-se na pessoa da Eva, de quem cobrava benefícios, físicos e emocionais, mais daqueles do que destes. Ela era a companheira com quem partilhava dos tempos livres, mormente os fins-de-semana, ora em passeios pelos bairros do Alto-Maé, da Malhangalene e da Polana, ora a assistir a filmes de amor no cinema Tivoli.

A Eva vivia numa cabana de quarto e sala, parte dum vasto componde, situado a alguma distância da cantina do Guro. Ela gozava duma privacidade para a qual lutara com algum afinco. Umas amigas preguiçosas e oportunistas haviam tentado juntar-se a ela, para se evadirem dos pagamentos de rendas e da compra de rancho. Ela foi sempre firme nisso: “prefiro viver sozinha do que ter problemas com amigas”. Chegara a Lourenço Marques fazia três anos, vinda da Maxixe. Tal como outras emigrantes aventurara-se para a cidade para procurar um emprego que a lançasse para um outro futuro. Os dias passavam e nenhum dos sonhos mostrava sinais de poder materializar-se em tempos mais próximos. Conseguira uma colocação na Fábrica de Confecções Sabrina, na Avenida do Trabalho, a curta distância do terminal das carreiras dos Transportes do Sul do Save. Nesse recanto fazia primazia da sua liberdade, aí construía e descontruía projectos. Até aquele dia em que viu o Hussene Valgi. Durante aquela conversa bem animada sobre capulanas na loja do Bhai achara-o um rapaz bem humorado e respeitoso; enfim, o tipo de amigo que gostaria de ter tido desde que chegou à cidade. Daí que não conteve o convite instintivo para aquela cerimónia de pedido em casamento da prima Rossana. Hoje são mais do que amigos. São, isso são, unha-com-carne, o que a chaleira está para a sua tampa. Seria, talvez, alguma paixão exacerbada pela necessidade duma companhia? Ou esta que, por ser premente, os colocara lado a lado como cúmplices na trincheira dos que lutam por um sucesso em terra desconhecida e hostil? Fosse qual fosse o motivo, disfrutavam do prazer duma companhia mútua, tranquilamente partilhada.

Com o advento da Páscoa as multidões aprestavam-se para as festividades do Carnaval. Este era dos eventos cíclicos que marcavam a vida dos habitantes dos subúrbios, os quais traziam outro alento espiritual, renovavam as ilusões por uma vida cheia doutras grandezas.

Era Domingo e a noite fora duma frescura invulgar para aquele mês de Fevereiro. Valgi demorou-se a descolar do corpo da Eva. Adormeceram no embalo do relaxamento, num sono sem pesadelos, depois de festivos empolgamentos e efusões na cama.

Ia a caminho das vinte e duas horas quando o Valgi despertou. O “Heróis do Mar” fora emitido pela Hora Nativa, para assinalar o fim da transmissão, fazia algum tempo e nenhum deles o escutou.

“ Que horas são?”, perguntou, perturbado pela vertigem do despertar.

“ Vai para as dez horas”, disse a Eva, a consultar o despertador. “É melhor dormires aqui, porque já se fez tarde e é perigoso andares por estes caminhos que estão cheios de bandidos”.

“ Não posso, tenho que ir. Tenho muita coisa ainda para preparar para amanhã”, disse o Valgi já em pé, a vestir-se.

E meteu-se na penumbra dos becos do Guro. Internou-se pelas traseiras deste estabelecimento. A sua intenção era a de alcançar o largo caminho que liga o Vulcano ao bazar do Xipamanine. Mas eis senão quando, da dobra da esquina duma residência escutou uma voz autoritária.

“Pára onde estás senão disparamos”. Ergueu os olhos e viu, com assombro, muito acima dos seus olhos, as figuras de dois cavaleiros uniformizados de agentes da Polícia Montada. E não se moveu. O coração, tum-tum!…tum-tum!…, parecia que lhe saltava da boca.

O que se seguiu foi uma revista às roupas e um esmiuçado interrogatório sobre: ”…a tua identificação…donde vens a estas horas da noite?…para onde vais?…”; enfim, uma investigação que era o preâmbulo duma sessão de tortura, a mesma a que se submetem os prisioneiros. Porque de prisioneiro ele já se tratava. E assim foi tratado. Ataram-lhe as mãos com uma corda, com nós firmes e apertados. A outra ponta foi ajustada à sela de um dos cavalos. Puseram-no entre os dois animais, deram às esporas e reiniciaram aquela marcha de patrulhamento pelos bairros do Chamanculo, com passo vagaroso, interrompido aqui e acolá por uma breve paragem de auscultação de movimentos e ruídos estranhos que se escutassem na atmosfera da noite.

Assim, o Valgi foi companheiro dos agentes da Polícia Montada naquela longa expedição que cobriu toda a zona do Guro, do Mateus Serra ao Muvumbi, da cantina do Mário ao Zundap, do Grémio até à Maria Caldeira, do Mbongolwene ao Fajardo. Cruzaram-se com outras brigadas que patrulhavam o Tlhavane, o bairro Indígena, o Mendes; enfim, todo o Xitala Mati.

 

“ O que Deus faz, o homem desfaz”, disse a Mariazinha numa tentativa de esfriar a hilariedade que provocara o esquecimento da “história da moça” a que se propusera a narrar.

“ Lembram-se do Xigubo xa Filipe? Dessa vez também trabalhámos aqui que nem umas escravas a bainhar capulanas, como foi da vez da história da santa Aurora”, recordou-se a mãe Dorothy. Viera-lhe à memória um outro evento, sucedido muitos meses antes do assassinato da Munhuana, que é como ficou conhecido o caso da irmã Aurora.

“ Quem pode esquecer aquilo? Aqui nesta terra acontece cada uma!…”, disse a Mariazinha entre dois suspiros.

Do auditório o Valgi era o único que desconhecia o episódio que, do mesmo modo que o da Munhuana, abalara as consciências e a tranquilidade dos habitantes dos subúrbios.

E eis aqui, pela boca da Mariazinha, para redimir-se da amnésia temporária, a narração das razões para a atribuição do nome Xigubo xa Filipe àquela capulana.

“ Como é uso e costume aqui nesta terra, o começo da época de canhu é marcado por festividades. O lugar central para essas celebrações é em marakwe , em Gwazamutine. Um dia vou contar a história de Gwazamutine. Só que nem toda a gente pode deslocar-se a Marracuene. Muitos preferem  cumprir os rituais em locais não muito distantes das suas comunidades. É o caso de Ka-Massaca, na Moamba; de Gwaxine, na Katembe, de Nkalanga, Salamanca e Porto Henrique. E muitos outros povoados espalhados por aí .

As celebrações de Gwaxine eram já tradicionais. Todos os anos tinham aí lugar rituais em que se prestavam homenagnes e tributos aos antepassados e se agradeciam as dádivas com eles agraciaram os vivos. Compareciam altas individualiades provenientes de regiões vizinhas, e até de alguns subúrbios de Lourenço Marques. Dentre os convidados destacava-se o grupo de xigubo de Filipe, assim chamado porque o seu capitão era um cidadão de nome Filipe que vivia no bairro Indígena. Ele era um ás naquela dança. Não havia ninguém que a executasse como o faziam os elementos daquele grupo. Era até convidado pelos chefes brancos da Administração do Concelho para se exibirem nas grandes festas da cidade ou quando chegasse à cidade algum membro importante do governo da Metrópole.

Depois das homenagens, encabeçadas pelo famoso curandeiro “Nengue Wa-Nsuna”, todos os agrupamentos exibiram as suas habilidades. Nem de longe, nem de perto aqueles poderiam chegar aos calcanhares do grupo do Filipe. Desta vez ele trouxera  na comitiva uma meia dúzia de crianças que dançaram que foi um regalo. Nesta modalidade ele era um campeão indiscutível. Uma vez mais, ganhou aquela competição de danças tradicionais com todo o merecimento e justiça.

Mas, há sempre um mas, alguém não digeriu bem a vitória do Filipe. Havia uns surdos murmúrios do caudilho do grupo de Gwaxene que, embora se excedesse em novos números, estava muito aquém dos níveis dos dançarinos do Filipe. Porque nestas coisas é como em tudo: quanto mais te destacares, mais convites vais receber das autoridades. E isso equivale a viagens e a dinheiro. O sucesso duns é dor dos outros. Sempre assim foi, e assim sempre será.

No fim daquela tarde as multidões começaram a dispersar. Só os que tinham bebido demasiado permaneceram espalhados no chão a dormir. Outros desapareceram nas matas à volta para, sabe Deus para quê!… Aqui, só para fazer uma pausa: vocês sabem a quantidade de escândalos que acontecem durante estes encontros para consumo de canhu? Pois fiquem a saber para terem mais cuidado. O canhu, está provado, estimula o corpo para o sexo. Dizem os assimilados que conhecem bem a Língua Portuguesa que é afro…afro… afro quê mesmo? Afridisíaco! Ah, é isso mesmo.

“ Hê-hê, tia Mariazinha! É bom saber isso e é pena que se produza canhu só uma vez por ano…e por pouco tempo!”, galhofou o Valgi. “Dessa eu não sabia”.

“Pois então ficas a saber. Nessas sessões escândalos nunca faltam. Conforme se diz e já se provou, o sumo de canhu tem o efeito de estimular a vontade para ter sexo. Alguns homens e mulheres quando já estão embriagados não querem outra coisa; metem-se aí pelos matos para continuar “a festa”. Diz-se até que estes actos são já parte das celebrações, são tolerados e esquecidos por todos.”

“Eu não vou nessa tradição, não posso aceitar isso da minha mulher, ela a deitar-se com outros homens e depois dizer: desculpa-me lá Hussene, foi por causa do canhu. Isso esquece, tia Mariazinha!”, o Valgi agita-se desconfortado, a pensar no que andará a esposa a fazer em Kariacó na sua ausência já prolongada.

“ Olha lá Mariazinha, contas a história do Filipe ou não?”, a mãe Dorothy a avivar a memória da colega, muito conhecida pela frequência nos lapsos da mesma.

“ Ah, sim. Então depois das celebrações os participantes começaram a dispersar. Cada família tomou o seu caminho. Os que viviam longe embarcaram nas camionetas e seguiram para os seus destinos. Todos iam a cantar, a comentar  sobre o sucesso do evento. O Filipe e a sua comitiva foram levados ao ancoradouro que era o terminal dos barcos que fazem as viagens Lourenço Marques-Katembe e vice-versa. Mas eis que, às tantas, o céu começa encher-se de nuvens. Nada fazia prever que fosse chover. O dia fora tão claro e quente que ninguém poderia imaginar que fosse terminar daquela maneira. Já se ouvia o som de trovoada que vinha lá dos lados de Changalane e aproximava-se da baía, talvez a caminho da cidade. E começou a chover a sério. Os céus encheram-se de relâmpagos, o mar embraveceu. A comitiva do Filipe embarcou nos catembeiros, ansiosa por chegar  à cidade o mais rápidamente possível. As ondas do mar cresceram de altura e chocavam com muito ruído umas contra as outras. Parecia que no fundo tinha xitukulu-mukumba. Os barquinhos em que aqueles viajavam pareciam de papel. Eram jogados para esquerda e para a direita, sem tomar direcção certa. As pessoas que estavam em terra no ancoradouro nada podiam fazer; limitavam-se a erguer as mãos sobre as cabeças, para manifestar receio por aquilo que poderia acontecer. E aconteceu o imprevisto daquela catástrofe. Uma onda gigante caiu sobre o barco que transportava o Filipe, a esposa e os seis acompanhantes, e submergiu-os nas águas da baía sem nenhuma possibilidade de salvação”.

“ E os outros barcos?”, perguntou o Valgi.

“ Embora com muita dificuldade os outros barquinhos chegaram a salvo à outra margem . Os que neles viajavam salvaram-se todos”.

“ Isso cheira-me a feitiço! Como é que o mau tempo foi logo escolher o Filipe e os principais dançarinos? Ná, alguma coisa houve!”, céptico, o Valgi via doutro ângulo a causa ou as causas da tragédia.

“ Claro, especulações sobres os motivos do acidente, ou quem o causou, correram em todo o subúrbio e mesmo aí fora nas localidades. Apontava-se o dedo ao chefe do grupo do Gwaxene, que rivalizava com o do Filipe.

“A inveja faz destas”, pronunciou-se uma jovem cliente que se juntara aos costureiros, a aguardar pela conclusão do embainhamento dumas capulanas de farda para o pedido de casamento duma prima chamada Rossana, a ter lugar no sábado  seguinte. E falava com conhecimento de causa. Durante os preparativos para aquela cerimónia tivera sérias confrontações com uma amiga, ou dita amiga, uma presunçosa, mentirosa e traiçoeira que, abespinhada por não ter sido escolhida para capitanear as cerimónias, andava a beliscar-lhe a reputação. Problemas de rivalidades que envolviam pretendentes e namorados. Viu naquela uma excelente oportunidade para demonstrar à rival que também tinha os seus recursos, e rapazes era o que menos lhe faltava, ora que essa!. Foi quase que por instinto que disse:

“ Senhor Valgi, se quiser participar no pedido da minha prima pode sentir-se convidado. É da maneira que fica a saber como se fazem as cerimónias de pedido de casamento cá entre nós”.

Valgi ergueu os olhos de surpresa e relanceou-os pelos das colegas. A Mariazinha encorajou  com um assentimento de cabeça. É como se dissesse: “aceita”.

Valgi suspirou. Deitou a vista à Mariazinha, de quem julgara adivinhar um aparente interesse em criar e aprofundar alguma amizade. Na sua apreciação masculina, ela era detentora duma figura que no geral poder-se-ia considerar atractiva, provida de sólidos “argumentos” físicos; “…embora muito distraída e já quarentona, não é pêra para se deitar fora!”, segredara aos seus botões naquela primeira avaliação, feita durante os primeiros contactos ali na loja.

“ Podes contar comigo. Estou cheio de curiosidade em saber como essas coisas se passam por cá”, deste modo Valgi anuiu ao convite da cliente.

O nome dela era Eva, ninfa de poisos inseguros, porém cheia de encantos e seduções.

 

O filho do falecido vovô Madala chamava-se Hussene Valgi. Andava desesperado porque estava num beco sem saída com a quantidade e a gravidade dos problemas que viera encontrar em Lourenço Marques, e dos que deixara atrás. Primeiro foi a grande surpresa pelas circunstâncias da morte do pai. Este acabara como um animal de rua, enterrado numa cova, misturado o seu cadáver com o duma rapariga que, estava visto, o seduzira e levara-o a praticar aquela imoralidade. E como poderia dar-lhe um enterro decente, conforme recomendavam as normas da religião muçulmana que era a dele, se as ossadas de ambos estavam misturadas naquele caixão? Se regressasse a Porto Amélia quem iria cuidar da campa no Cemitério de Lhanguene? Seria uma cruelidade deixá-lo ao abandono, a apodrecer esquecido e desprezado por todos nesta terra estranha. Contudo, se se deixa estar por aqui como iria resolver as pendências que deixara lá na terra, onde os tios estavam prontos a abocanhar as propriedades cheias coqueiros e os barcos que a família possuía?  Tinha, e este era de todos o problema mais grave, o seu lar no bairro de Paquitequete onde a esposa, a dona Mariana, e os dois filhos menores viviam. Abandoná-los era a última coisa que iria fazer.

Consultou o senhor Bhai e deste recolheu conselhos dum homem adulto, ponderado e que também vivera os seus dramas.

“ Olha, Hussene, aguenta aqui por algum tempo para a tua cabeça refrescar. Depois vais tomar a decisão que achares acertada. Correr não é chegar. Se quiseres podes ficar lá atrás na despensa da loja e ajudar as costureiras ali na varanda a bainhar roupas. Assim vais aprender a fazer alguma coisa até arranjares um melhor emprego”, disse o Bhai ao jovem Valgi. Aquela era uma oferta a que não poderia voltar as costas. O espírito do pai estava a protegê-lo. Para quê recusar esta prenda generosa, feita com tanta espontaneidade?

Assim, sentou-se ao lado das modistas a embainhar saias, a colocar “estampas” nas calças rotas de operários, a coser rendas nas capulanas mukume ni vemba. Com elas tagarelava e contava coisas lá do norte distante. Delas aprendeu as primeiras palavras do dialecto ronga. Claro que primeiro ensinaram-lhe obscenidades e pediam para ele as repetir em voz alta. E riam-se a bandeiras despregadas, todas contorcidas de gargalhadas com a inocência dele. Em cortesia e alto sentido de humor saíra ao pai; tal e qual!

Ao fim de três meses depois da sua chegada achou que poderia assentar na cidade, alugar uma casa e mandar vir a família para se lhe juntar. Seria o começo duma nova vida. Aceitou o desafio e deitou as mãos à obra.

A aproximação da quadra festiva trouxera outra animação em todos os bairros da cidade. Nos terminais, desde os “Transportes Oliveira” aos “Transportes do Sul do Save do Sá, do “Teresa Lino & Filhos” ao “Manuel Antunes”, passageiros era o que menos faltava. Os autocarros circulavam para os seus destinos com as lotações esgotadas. Era gente que se dirigia ao campo, aos seus  lugares de origem, ou eram os que daí provinham para visitar os parentes residentes na cidade.

Multidões acotovelavam-se nos formigueiros das lojas do Xipamanine. Fregueses entravam e saíam das mesmas desde o amanhecer ao anoitecer. Regressavam às ruas ajoujados de sacos e cestos de compras.  Era necessáro levar alguma recordação para os que não puderam deslocar-se à cidade, para exibir prendas e roupas domingueiras  para os dias das festas. Sem falar nas extravagâncias consentidas pelo décimo-terceiro vencimento.

Foi desta época em que nas lojas do Bhai e da Dona Cacilda, baluartes de vendas de capulanas na Rua do Zixaxa, as mulheres se empurravam para adquirir os últimos lançamentos no mercado daquela especialidade. E uma daquelas era uma denominada Aurora.

“ Estou aqui convosco já faz um tempo, mas nunca vi uma capulana a ser procurada desta maneira”, disse o Valgi às colegas, que mal conseguiam um minuto de folga no embainhamento de roupas.

“ O quê?, Nem parece que vives nesta terra!”, disse a mãe Dorothy, uma das mais antigas costureiras da loja. “Então não sabes da história da irmã Aurora?”.

Valgi confessou a sua ignorância sobre a tal história que culminava com o aumento do negócio de capulanas ali na zona, ou qual seria a relação entre os dois eventos.

“ Então escuta, porque só assim é que ficas a saber”, disse a Dorothy.

“ Conheces o posto de Saúde da Munhuana? Fica ali na avenida Caldas Xavier, perto da Igreja com o mesmo nome. A Aurora era uma moça que veio não se sabe donde e foi internada no Convento da Missão da Santa Ana da Munhuana para fazer o curso de freira. Como se faz com todas as reparigas que ali ingressam, ensinam-lhes profissões comoa a da enfermagem ou do magistério. A Aaurora foi destacada para trabalhar no posto de saúde, ao lado doutras enfermeiras já formadas e experientes.

Era ela que dava vacinas aos bebés, purgantes às crianças mais velhas e tratava as nossas feridas. Era admirável ver a atenção e o carinho com que essa rapariga lidava  cos pacientes. Tinha sempre na boca uma palavra de encorajamento, um sorriso que nos aliviava dos nossos sofrimentos: uma santa! Havia até quem dizia que ela era uma  enviada de Deus  para nos mostrar o caminho da humildade, paciência e de generosidade para com os nossos semelhantes. Posso dizer que não há em nenhum bairro aqui da cidade que não conheça ou tenha sido paciente da irmã Aurora.

“ Hoje em dia há pouca gente assim. Só malandragem! Pergunta a mim que te vou contar muitas histórias dos meus tios lá em Porto Amélia”, interrompeu o Valgi, a recordar-se  das atribulações causas pelos parentes lá na terra natal.

“Pois então, e como todas as pessoas cheias de bondade não duram muito tempo, aconteceu o que foi aquele escândalo que foi a morte dela”.

“Alguma doença ou quê?”

“ Se fosse doença era ainda o menos. Ela foi assassinada”.

“ Como e porquê?”, admirou-se o Valgi, com a testa enrugada. Como podia isso suceder a alguém que dedicara a sua juventude a cuidar do próximo, e merecer o fim que a colega referia?

“ Numa noite dessas, a irmã Aurora vinha do Instituto Víctor Ribeiro onde frequentava um curso de dactilografia. Até nem era muito longe do Lar onde vivia com outras noviças. Nessa noite resolveu fazer um corta-mato pela “Padaria Saipal”, ao lado do cemitério de São Francisco Xavier. Nem se sabe a que horas aquilo aconteceu, mas o que se diz é que foi surpreendida por um grupo de malaítha  que a carregou e puxou para aquelas matas que se encontram atrás do cemitério. Aí os bandidos fizeram e desfizeram dela. Violaram e mataram-na, coitada!”

“ Por Allah, que brutalidade!”, Valgi não se conteve  de exclamar.

“ Isso não foi nada. A irmã Aurora andou desaparecida durante três dias. No convento não tinham a mínima ideia donde ela teria ido depois das aulas. Algumas pessoas afirmaram tê-la visto nas proximidades da Saipal, mas depois disso perderam-lhe o rasto. Outros juravam categoricamente que “ah!, essas raparigas são sempre  assim: com o sofrimento lá no Lar resolveu fugir e neste momento já anda muito longe daqui. E dá para jurar que fugiu com um homem…”, enfim, maledicências  de gente má porque a Aurora era incapaz disso. Via-se e toda a gente sabia que a moça era bem comportada, senão não teria ficado tanto tempo com as irmãzinhas”.

“ Aí já estás meter água, ó Dorothy”, cortou a tia Mariazinha, outra das costureiras, uma linguaruda que só Deus é que sabe onde é que maledicência dela irá chegar. “Repara que a Aurora era uma rapariga como as outras. Já foste menina e sabes o que passámos quando tínhamos a idade dela. Dezanove anos de idade não é brincadeira nenhuma para uma moça. Também tens filhas, tens que compreeder isso. Acho que às tantas ela sentiu as mesmas necessidades que qualquer uma de nós aqui. Isso dos sacrifícios de que falam os padres e as freiras é masé papaia podre. Quando o corpo pede a mente cede e, vai daí, é só veres as miúdas grávidas. Não é qualquer mulher que aguenta aquilo”.

“ Não questiono isso, estou a falar duma pessoa que todas conhecemos e respeitamos pelo exemplo que sempre deu, a nós e às nossas filhas”, redarguiu a Dorothy.

“ Vou-vos contar o caso duma moça que…”, ia contrapor a Mariazinha para dar mais ênfase ao seu argumento. Assim, à margem, devo declarar que as costureiras do Bhai costumavam, como é uso e costume nas conversas entre senhoras, falar ao mesmo tempo e entenderem-se; ao contrário dos homens em que numa conversa cada um fala por sua vez mas não se entendem.

Hei, espera aí comadre, deixa lá aqui a mãe Dorothy acabar a história da Aurora”, cortou  o Valgi, a tentar arbitrar a discussão, por desconhecimento daquela regra.

“ Como vinha dizendo, o desaparecimento da Aurora pôs metade da cidade em alvoroço. Já ninguém sabia o que fazer ou onde procurar. A notícia foi anunciada na Hora Nativa, até veio no jornal e pedia-se a quem soubesse do paradeiro dela para informar a Polícia ou lá na Missão. Tudo em vão!”.

“ Se calhar mataram e enterraram”, aventou o Valgi.

“ Isso seria o menos. Aqueles bandidos, não satisfeitos com o que fizeram, rasgaram-lhe a barriga e o peito e tiraram de lá o fígado e o coração. Dá para imaginar?”.

“ Ná, não dá, nem para imaginar, nem para acreditar!”.

“ Pois acredita porque é verdade. Foi assim mesmo. Extrairam-lhe esses órgãos como usualmente fazem esses malaithas, esses magaizas vindos da África do Sul. Levaram essas partes com eles a fim de fazerem remédios. Mas uma morte não se esconde. Às tantas começou-se a sentir um cheiro esquisito e nauseabundo  vindo dali das moitas, das traseiras do cemitério de São Francico Xavier, que era onde a tinham violado e assassinado. Também havia um grande movimento de cães que iam lá devorar os restos do cadáver dela”.

“ Morrer e acabar comida por cães, é mesmo demais! Ela não merecia isso, depois do tanto que fez pelas comunidades. Não há direito!”, Valgi de novo, a condenar e a lamentar um fim tão trágico quanto injusto. “É o que eu sempre disse: os bons morrem cedo, os maus duram quase uma eternidade, Deus me perdoe!”.

“Quando os padres e as populações souberam do escândalo o choro foi geral, todo o subúrbio ficou de luto. Ninguém falava doutra coisa, nem ninguém acreditava quanta malvadez poderia haver no espírito dalgumas pessoas. A Aurora tivera a bênção de Deus, fora escolhida para vir viver no nosso meio e dar-nos as lições que o Evangelho ensina. E morreu cricuficada por praticar o Bem. Ela é a única santa que aqui existiu e viverá para sempre nos nossos corações”, disse a mãe Dorothy. ”Se os padres a propuseram para ser santificada, para nós os pobres ela é já uma santa. Demos o nome de Aurora a esta capulana bonita que estamos aqui a bainhar. É a nossa homenagem àquela que acima de todos se manifestou como profeta que veio para nos iluminar com exemplos de simplicidade, de generosidade e de amor ao próximo.

“ Que história!”, exclamou Valgi com um suspiro. “Mãe Mariazinha, conta lá então a estória da tal moça”.

“ Qual moça?”, admirou-se a Mariazinha a erguer a cabeça.

A resposta foi um coro de gargalhadas.

“ Só a Mariazinha!…”, disse o Valgi a menear a cabeça, divertido com a falta de memória da colega.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

Quando os tamancos se comunicaram com o chão da terminal rodoviária da “junta” na periferia da cidade de Maputo, produziram um estrépito chamativo. O jovem que os calçava não se importou com os olhares folgazes de que era alvo.

Foi um dos últimos a desembarcar do autocarro interprovincial proveniente de Chókwè na província de Gaza.

Os seus admiradores miravam-no curiosos e deixavam escapar uma risada, o recém-chegado percebeu que criava impacto no seio das pessoas próximas.

– Onde apanho um chapa para a baixa? – questionou para um dos utentes da terminal rodoviária

Caminhou sereno segurando uma mala velha e pesada, usava um chapéu de palha com abas pequenas, a jaqueta de couro castanho desgastada e ligeiramente pesada descaía no ombro direito, exactamente do lado da mão que segurava a mala. A camisa de capulana com as cores amarelo e vermelho era suplantado pelo casaco, as calças eram de caqui verde-escuro.

Não demorou para embarcar no chapa, os passageiros abriram alas para deixa-lo passar admirando suas vestes, uma moça vagou o lugar e o ofereceu.

– Obrigado! – proferiu com um sorriso alegre no rosto.

O chapa marchava velozmente ultrapassando os outros carros, este malabarismo perigoso agradava a Carlos Wena que vinha pela primeira vez a cidade de Maputo com a mente repleta de sonhos que pretendia realizar. Vinha animado depois de receber o convite do seu primo que triunfara na grande metrópole.

O desembarque na baixa da cidade deixou-o atónito, olhava para cada canto da cidade intimidado pelos monstros de cimento que se erguiam por todo lado, os carros que circulavam velozmente dum lado para outro deixavam-no desorientado. Ficou parado por um tempo, estudando o ambiente que morava ao seu redor, temia dar um passo em falso que podia comprometer a sua chegada a grande cidade.

Posicionou a sua mala no chão, sentou sobre ela e procurou organizar as ideias, já passavam das 15h00.

Uma turba de petizes em gozo de férias escolares deu com o alegórico personagem de Carlos, pararam e olharam-no maravilhados, riam e trocavam conversa.

Já descansado pegou na sua maleta e iniciou a caminhada seguida de perto pelos meninos que multiplicaram as suas risadas agora que o viam em movimento.

A sua derradeira jornada seria até a casa do primo no bairro suburbano da polana caniço nos arredores da cidade.

Os meninos depois de consumirem momentos de alegria gratuita partiram para outras brincadeiras.

A vitrina com letras garrafais do nome do estabelecimento avivaram sua mente e recuperou uma imagem que guardava num canto especial da sua mente.

O jovem forasteiro entrou para o estabelecimento comercial, abeirou-se do balcão, descansou a sua mala no chão.

– Sim, se faz favor? Investiu o balconista.

Ainda distraído, o recém-chegado apreciou o ambiente que por ali morava durante um tempo e cabisbaixo falou para o balconista.

– Quero falar com o rei – disse convicto.

O balconista vigiou demoradamente o estranho cliente, e ainda perplexo perguntou:

– Como disse?

– Quero falar com o rei – repetiu o forasteiro seguro do que buscava.

Pela indumentária e o gesto meio aparvalhado, o atendedor ajuizou que o homenzinho devia estar desprovido de sanidade mental. Então decidiu embarcar na brincadeira.

– Meu senhor, somos um estado semipresidencialista, isto para dizer que temos um presidente que por coincidência foi reeleito a bem pouco tempo. – gabou-se o balconista dos seus dotes políticos.

– Mas eu quero falar com o rei! – insistiu sereno, o estranho cliente.

– Meu jovem, nós, a República de Moçambique não é uma monarquia. – frisou o balconista cada vez mais convicto dos seus saberes.

– Meu senhor, saiu na televisão a dizer que o rei chegou, até falam em inglês “the king is here” – assegurou Carlos sereno de que a sua explicação poderia elucidar o balconista.

Já meio irritado com a insistência parva do cliente, o atendedor procurou ignorar a investida do recém-chegado e deu atenção a um outro cliente.

Um curioso que destrinçava o diálogo entre o balconista e o pomposo cliente, processou a pretensão de Carlos, levantou-se e o abordou.

Depois de uma breve intersecção verbal, o curioso pousou teatralmente uma garrafa no balcão, Carlos abriu os olhos e largou um sorriso rasgado, segurou a garrafa que o ofereciam e agradeceu imensamente aquele anjo que soubera interpretar as suas aspirações.

– Eu sabia que o rei estava aqui! Afirmou felicíssimo – Muito obrigado mano.

E então bebeu, bebeu prazerosamente a cerveja.

 

Basta olhar para o nosso passado literário (escrito) para perceber que a literatura moçambicana teve sempre uma participação nos problemas do seu tempo e meio. Com esse mesmo gesto, é possível denotar que as influências de outros povos, com os quais o português transmite uma ideia (bem ou mal concebida) de irmandade, esteve sempre assente no nosso panorama literário. Sobre isso vários escritores já se expressaram e se houvesse tribunal para esses casos, alguns, pela humildade e sinceridade, admitiriam ter sido “copistas” da caligrafia de escritores brasileiros, por exemplo, na redação dos seus textos. Aliás, há até espaço para suspeitar que muitos deles, sobretudo os da geração Charrua, importaram um batalha que já havia sido iniciada e bem travada no panorama literário brasileiro através da Semana de Arte Moderna, de 1922.

Por estarmos numa altura em que se lê a parte e se subentende o conteúdo do todo a partir dessa parte, permitam-me destacar: vejo esse fenômeno histórico da nossa literatura com bons olhos. Melhor, foi “maningue nice” que assim tenha ocorrido. O que na verdade ocorreu foi inspirarmo-nos na forma como uma batalha que era também nossa foi conduzida. E o fizemos com mestria.

Esta introdução algo interpeladora de um momento específico da literatura moçambicana vem-me a mente por estar a denotar que há uma tendência, ainda em miniatura, de importar uma batalha bastante ferrenha no contexto literário brasileiro (pelo menos ao que me parece) que é atinente a perscrutação dos níveis de melanina de quem escreve para depois partir-se para a adjectivação: poeta/escritor negro ou branco.

Naquele contexto e pelo que me parece, essa batalha de (re)afirmação negritudinista faz todo sentido sobretudo pela antítese que se está a criar. Ora, ainda que os níveis de empatia para com a causa defendida por um bom número de escritores daquelas latitudes estejam altos, creio que nos seja inapropriado, neste tempo e meio, aglutinarmos aquela causa às nossas, se é que existem, ou mais, se delas (as causas) __ enquanto escritores __ precisamos. Mas essa é outra conversa.

Ainda que se diga que ao autor cabe a expressão e que depois do ponto as lides são da estética da recepção, valerá recordar que o autor é também leitor dos mundos e mundividências do seu tempo e meio. Ao que, uma veleidade quase ferrenha de perscrutar ou aguçar os níveis de melanina na escrita soará a qualquer coisa extemporânea sobretudo aos olhos de quem não fizer este paralelismo com outras realidades, considerando apenas o facto de já termos vivido um momento em que tal se mostrou necessário, actual e actuante. Portanto, se temos armas, travemos batalhas que sejam do nosso tempo e meio.

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