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O realismo literário  de Virgília Ferrão em  «O Inspector de Xindzimila »

 «  Raras são as pessoas que têm carácter suficiente para se alegrar com os sucessos de um amigo sem ter uma sombra de inveja » Ésquilo, Dramaturgo Grego (525-465 a.C )

 

Quando comemoram-se, em 2020, cinco anos após o seu lançamento, « O inspector de Xindzimila » deu-me a honra de descobrir a escrita de Virgília Ferrão, uma das poucas mulheres que ousa desafiar a prosa, um campo literário, em Moçambique, dominado por uma maioria do sexo masculino. Prova disso, é o facto de Virgília Ferrão ter-se tornado a primeira mulher a vencer o prémio 10 de Novembro[1] em 2019, ao assinar o romance «Corais de Rosa».

Nesta trama, cujo título sugere-nos de imediato tratar-se de um policial, Virgília dá vida a uma vila fictícia, Xindzimila, que passa a viver dias conturbados com o regresso de Dionísio, que outrora, após ser cobrador de « chapa », ausentara-se para estudar em Lyon, em França.

O protagonista do romance retorna à sua vila natal para ocupar o cargo de inspector e é confrontado com ressentimentos do seu passado, quando, embora de forma ligeiramente tardia em relação ao que o título da obra nos sugere, uma série de assassinatos misteriosos sucedem-se na vila. Dionísio é desafiado a desvendar o mistério das mortes o mais rápido possível, não apenas por ser um insepector supostamente com uma formação de alto nível, porém, porque todos os indícios levam-nos a crer que o próprio inspector é o assassino.

Para desvendar este mistério, Virgília dá voz aos personagens que, na primeira pessoa do singular, reviram eventos do passado, expressam os seus sentimentos, medos, anseios e receios, conduzindo o leitor à uma reflexão sobre a intrínseca relação entre o sucesso e a inveja, como o fez, de certa forma, o clássico dramaturgo grego, Ésquilo na sua célebre frase supracitada.

O amor ganha um espaço central nesta ficção narrativa, não apenas porque Dionísio descobre  na pele tropical e no incandescente sorriso da Quina um lugar onde deseja passar a sua eternidade, porém, igualmente porque ele é obrigado a questionar as suas certezas sobre o certo e o errado, o moderno e o tradicional, e a descobrir a importância do perdão na construção da dimensão humana dos seres.

O fluxo entre a inveja, a lealdade, a intriga e o amor, alimenta os conflitos entre os personagens desta narrativa, remetendo-nos a um realismo literário que é secundado pela viagem a algumas belezas culturais do vasto Moçambique, como ocorre quando a trama nos faz imergir no meio de cerimónias tradicionais, como é o caso da passagem de poderes entre régulos ou do Chinkwosswe (equivalente ao noivado), ou ainda quando faz-nos degustar um pouco da gastronomia local do centro-norte do país. A descrição da beleza e do encanto da natureza aproximam-nos mais a um romantismo literário porque, como referi anteriormente, Xindzimila não existe no mapa geográfico de Moçambique.

É uma obra que vale a pena ler, de uma escritora que Celso Muianga, renomado editor Moçambicano, terá classificado como sendo um dos « grandes futuros para a literatura moçambicana [2]»

 

Nota de leitura por Agnaldo Bata

Referência da Obra :

FERRÃO, Virgilia (2015) “O inspector de Xindzimila”, 1a Edição. Editora Selo Jovem, São Paulo, Brasil, 196 páginas;

Actualmente o livro pode ser adquirido na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo.

 

Sobre a autora da Obra :       

Virgília Ferrão nasceu na Cidade de Maputo, é Licenciada em Direito (2008) em Moçambique, e Mestre em Direito do Meio Ambiente (2013) na Austrália, actualmente trabalha como consultora jurídica em Maputo.

Publicou “O Romeu é Xingondo e a Julieta Machangane”, em 2005, “O Inspector de Xindzimila”, em 2016, e tem participação em ontologias. É administradora do blog “diário de uma qawwi”.

 

 

 

 

 

 

[1] O prémio 10 de Novembro é concurso lieterário anual, instituído em 2005 em homenagem à Cidade de Maputo, organizado pela Associaçao dos Escritores Moçambicanos em parceria com a Conselho Municipal da Cidade de Maputo.

[2] Entrevista publicada no Jornal « O Pais » no dia 14 de Junho de 2020

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