O País – A verdade como notícia

“O problema deste país não é objectivamente a comercialização, é produção”

Cardoso Muendane, ex-director geral da Companhia Industrial da Matola (CIM), em entrevista ao programa Caminhos da Industrialização da STV, advoga uma retoma ao patriotismo que se vivia na era pós-independência, que evitou o colapso económico na época. Muendane não acredita que haja fraca comercialização de produtos no país, mas sim, fraca produção, insuficiente para alimentar as indústrias. No seu entender, alavancar a indústria nos dias de hoje passar por eliminar a corrupção, criar medidas protecionistas e garantir um bom ambiente de negócios.

Li a sua biografia e vi que o seu percurso industrial foi feito na Companhia Industrial da Matola (CIM), mas, começou a trabalhar como chefe dos serviços da fábrica de doces e chocolate. Como é que foi este percurso?

Quando eu acabei o Instituto Industrial, na altura, fui admitido como chefe dos serviços da fábrica de doces e chocolates. A Companhia Industrial da Matola, eu penso que ainda é a maior empresa do ramo alimentar do país. Eu fiz o meu percurso na área industrial e área académica em paralelo.

Quando chegou à Companhia Industrial da Matola tinha alguma ideia do que era o sector industrial?

Este é que era o grande problema. Eu nem sabia como é que se fazia rebuçados e chocolates e este foi o meu primeiro desafio. Quando eu cheguei à CIM, já não estavam lá os directores e técnicos, tinham saído do país e tive que aprender, digamos, com os próprios operários que estavam lá. Sabia que tinha que ser chefe de serviços, mas, não sabia o que significava ser isso. Foi aprender fazendo. Eu penso que este foi o grande dilema de muitas pessoas que estiveram no meu tempo. Nós não tínhamos uma pessoa para nos orientar e nos integrar. Nós aprendemos sozinhos e cometemos, obviamente, muitos erros. Estive na fábrica de doces e chocolates durante um ano e depois passei para o complexo principal da CIM. Como a CIM já tinha sido criada em 1948, já era uma empresa com uma certa dimensão e história. Ela era formada por três complexos. Nós tínhamos um complexo principal que era formado por duas moagens de trigo, uma com 100 toneladas e outra 108 toneladas por dia. Tínhamos uma moagem de milho de 80 toneladas por dia. Tínhamos uma fábrica de massas, com uma linha de massas compridas e outra de massas curtas. Tínhamos, na altura, fábrica de bolacha e tínhamos uma fábrica que tinha sido montada para descasque de mandioca. Tudo isso era no Complexo 1. Esse complexo de fábricas tinha, também, silos de cereais com 60.000 toneladas de capacidade, que poderíamos receber tanto trigo como milho. Depois tínhamos o segundo complexo que era da fábrica de doces e chocolate, que tinha a fábrica de rebuçados e de chocolates. Tínhamos um outro complexo em Nacala, uma moagem de trigo com cerca de 80 toneladas por dia e que ficava perto do porto de Nacala. Além desta parte dos complexos fabris, tinha também armazéns, oficinas, refeitório, serviços sociais, tínhamos até uma criação de animais para os trabalhadores. Também tínhamos uma outra área que era de navegação e trânsito que não era ligada directamente à CIM, mas, servia para os produtos em trânsito para outros países, no geral, para o hinterland. Portanto, é aqui onde eu comecei a trabalhar como chefe dos serviços e depois de cerca de um ano passei à sub-director de produção do complexo principal.

 

Como é que foi, com pouca experiência, na altura, sem os técnicos que tinham trabalhado na fase da estruturação da Companhia, com todo o contexto que havia na época, guerra e sabotagem das linhas de transmissão. Como é que foi gerir um complexo desta dimensão?

A integração foi difícil, como eu disse, na altura, tínhamos um Conselho de Administração que estava lá desde o tempo colonial.

Portanto a empresa ainda pertencia aos donos.

O Conselho de Administração existia. O que não existia era a parte técnica da fábrica. Não existia ninguém nem como director fabril, nem como chefes nas fábricas. Esse foi um grande choque. Nós tivemos que aprender, estudando e trabalhando, mas, tinha uma coisa naquela altura que era uma grande motivação que não se verifica muito agora. Depois da independência, todos nós tínhamos uma grande motivação de que agora o país era nosso, que tínhamos que trabalhar para o nosso país e com o abandono dos técnicos portugueses, nós tínhamos assumido que tínhamos que manter a empresa. Era um desafio, então, nós trabalhávamos praticamente toda hora. Não sabíamos o que era fim-de-semana. Não sabíamos o que eram férias. Eu devo dizer que durante todo o tempo que trabalhei nunca fiquei de férias, por exemplo, eu trabalhava sempre. Realmente foi um desafio muito grande, mas, o que nos fez vencer, principalmente, foi a motivação, o sentido patriótico que nós tínhamos era muito grande nessa altura. Todo o Governo apoiava a empresa, naquela altura, porque era um objectivo fundamental. Mas, um dos grandes constrangimentos, na altura, de facto, foi a guerra. Penso que a questão “guerra” neste país não tem sido valorizada o suficiente. Foi um problema muito grande, porque tínhamos frequentemente problemas de corte de energia em consequência da sabotagem das torres que era frequente.

 

Então, uma companhia como a vossa teve, certamente, um grande impacto?

Nós tínhamos um gerador de emergência, mas, era obsoleto e tinha o problema de combustível. A guerra, além da interrupção do sector produtivo, criou a paralisação dos sectores de apoio, em particular o sector metalo-mecânico e criou problemas nas importações. Nós próprios tínhamos que produzir as peças das máquinas, porque não podíamos importar. A questão da gestão era muito complicada porque havia muita interferência, muito grande, de diversas estruturas que nós tínhamos lá. E, muitas vezes, essas estruturas tinham, não só conflitos, mas suspeitas; desconfiavam que as pessoas que estavam na direcção podiam ter outros interesses ligados à sabotagem. Mas, eu devo dizer que foi uma grande satisfação porque nós pusemos todas pessoas a trabalhar até a altura da privatização todas as fábricas da CIM estavam a trabalhar.

Antes da privatização há intervenção do Estado na empresa. Quando se dá esta intervenção, o que é que o Cardoso Muendane fazia naquela altura?

Eu era director da fábrica, depois da intervenção fui à Itália fazer um curso de técnica de moagens e fábrica de massas, pois como eu disse, eu entrei e não tinha experiência naquela área. Depois fui fazer formação no Brasil na área de tubérculos.

O que é que lhe permitiram estas formações todas, do ponto de vista da sua visão industrial?

Permitiu-me principalmente o domínio do processo técnico, daquilo que na mecânica chama-se arte branca, que é todo o processo de transformação das farinhas. Quando voltei fizemos a reestruturação da empresa, foi quando foi feita esta pressão da parte transitária. Formou-se a FRENA que ficou com os armazéns transitários, ficou com os escritórios da Baixa que nós tínhamos. Mais tarde formou-se a Unidade de Direcção que era a unidade de direcção do ramo alimentar que coordenava todas empresas da área alimentar. E eu, não só fiquei director da CIM, mas, também ajudava outras empresas como a Mobeira, a segunda maior empresa, e outras empresas da área alimentar. Nessa altura nós fizemos um grande trabalho. Devo dizer que a CIM mudou totalmente de figura.

 

Que tipo de transformações é que foram feitas?

Nós fizemos a reabilitação total da moagem de milho. De 80 toneladas por dia passamos para 240 toneladas, portanto, triplicamos a capacidade. Fizemos a reabilitação da moagem de trigo que tinha equipamento obsoleto. Porque não só a CIM como outras fábricas tinham sido contruídas com equipamento de segunda mão. No tempo colonial nem todas as fábricas eram linhas novas. O equipamento que era desactivado a Europa era depois investido aqui em África. Então, fizemos a reabilitação da moagem de trigo e da fábrica de massas. Foi desactivada a fábrica de bolachas porque era um processo totalmente inviável. Era um equipamento totalmente obsoleto, as máquinas eram de origem alemã e não tinham peças sobressalentes e ainda usavam sistema de carvão como combustível e tinham muita mão-de-obra, tínhamos lá 300 trabalhadores e não se conseguia manter àquela empresa viável. O que foi feito foi fechar a fábrica de bolachas, todos trabalhadores foram transferidos para outras empresas do ramo, portanto, digamos que ninguém saiu desempregado. O equipamento que era para a fábrica de mandioca nunca tinha sido utilizado porque a mandioca em Moçambique tem um problema de heterogeneidade dos tamanhos, depois tinha problema de fios então a fábrica, de facto, nunca tinha funcionado então foi desactivada e montamos uma fábrica de rações e montamos também silos de farinha para as moagens, porque, as moagens, na altura, quando terminava o processo produtivo, fazia-se o ensaque directamente, quer dizer que qualquer paragem no processo de balanças que são sensíveis e electrónicas, parava toda fábrica com todas consequências que isso tinha. Então, criamos silos de farinha com uma grande capacidade para poder servir de pulmão, o processo de embalagem podia ser interrompido. Montámos no lugar da fábrica de bolachas, também, uma padaria industrial que fazia 1.000 pães por hora e constituímos o STEMA (Silos e Terminal Graneleiro da Matola) que agora é uma empresa separada. O projecto inicial daqueles silos foi concebido na CIM, que era para serem silos transitários, para passarem a receber o cereal directamente dos navios através de transportadores de carga. Mas, depois com a transformação do nosso sector, os silos passaram a não servir só para a CIM, mas, para toda a região. O primeiro director que passou pelo STEMA era director comercial da CIM e foi assim que foi contruída a empresa.

Falou aqui da fábrica de mandioca que vocês tinham que foi descontinuada. Ainda há dias vi uma reportagem que fazíamos a propósito do MozGrow, da utilização da mandioca como matéria-prima para as cervejas, ou seja, parece haver uma tendência de se recuperar, um pouco, esta indústria da mandioca. Tendo dirigido uma fábrica dessa dimensão, qual é a análise que faz disso?

Bom, eu não vou, obviamente, falar da utilização da mandioca na cerveja porque eu não sei. Mas, a utilização da mandioca para a panificação, como eu tinha dito antes, quando fui ao Brasil eu aprendi muito porque no Brasil era obrigatória a incorporação de farinhas de mandioca e de milho na farinha de trigo.

 

Portanto, esta era uma forma de baixar os custos?

É baixar os custos do pão. O trigo é o melhor cereal para produzir pão, bolachas, para produzir massas porque é o único que tem glúten e quando fermenta aumenta o volume e estas questões todas. Mas, é um produto que, em geral, ao nível comercial é mais caro. Então, para baixar este preço, incorpora-se uma certa percentagem de outras farinhas como farinha de mandioca ou farinha de milho e outros cereais também. Se for a se incorporar cerca de 15% a 20% pode-se manter as propriedades da farinha de trigo e não se nota em termos de estrutura molecular a incorporação de outras farinhas, mas, de qualquer maneira, estamos a baixar a qualidade por causa do preço.

 

Mas, quanto ao sabor, há alguma mudança significativa?

No sabor, sim, mas, não tem um problema muito grande. O problema é que em Moçambique, quando começamos a estudar a incorporação da farinha da mandioca, o custo de produção da farinha de mandioca era mais caro, ainda por cima, não tinha um sistema automatizado. Nós tínhamos que ir buscar a mandioca nos camponeses em várias partes, e em vários sítios a mandioca aparece com tamanhos diferentes e era preciso ter um processo de secagem local, depois transportar e moer. Havia um problema que, muitas vezes, a mandioca aparecia com um fio dentro e chegava à CIM com um preço superior ao de trigo com esse processo todo e o transporte é muito caro em Moçambique. Então, não valia à pena.

A ideia de racionalização que se pretendia cai por terra.

Cai por terra e é por isso que em Moçambique, neste momento, não há incorporação da farinha de mandioca, mas, pode haver incorporação de qualquer farinha. Devo dizer que a partir de 5% não se nota absolutamente nada, a partir de 10% a 15% começa a ser notório, mas, ainda é aceitável no mercado sem grandes problemas. Acima de 20% e 25% é necessário tomar grandes cuidados a incorporar essas farinhas alternativas ao trigo.

 

Hoje, já na economia de escala, existem quantidades que justifiquem essa incorporação?

A questão da produção de mandioca neste país, em termos estatísticos, é um problema muito sério. Se nós olharmos para as estatísticas do Ministério da Agricultura vamos ver lá milhões e milhões de toneladas de mandioca, mas, depois, quando tu procuras a própria mandioca não encontras. É difícil medir a produção da mandioca porque ela fica em baixo da terra, a mandioca não fica por cima da terra para ser contada, então, os números que existem são estimativas que são feitas por critérios estatísticos. Até devo dizer uma coisa, na altura, quando nós íamos ao Ministério da Agricultura, tinha dois departamentos, um de planificação e outro de aviso prévio, então, se nós comparássemos as estatísticas do aviso prévio e da direcção de planificação, eram totalmente diferentes. Você nunca sabe bem qual é a quantidade de mandioca ou de milho que existe. A verdade é que quando tu procuras a própria mandioca depois, já comercializada, tu não tens quantidade que se justifica. Mesmo o milho, neste país que se considera auto-suficiente nem milho, a verdade é que quando tu procuras milho para a transformação industrial, não aparece em quantidades consideráveis.

Mas, todos dias ouvimos dizer que há muita produção, os camponeses produzem e o que falta é compradores e colocação no mercado.

Essa informação não é confirmada. Desde que eu comecei a trabalhar na CIM havia na altura o Instituto de Cereais de Moçambique (ICM) que era o comprador de último recurso. Quer dizer que toda a produção que o agricultor não conseguisse vender durante a época o ICM comprava a preços pré-estabelecidos e nós da CIM eramos obrigados a receber todo o milho e trigo que fosse parar ao ICM independentemente da qualidade. Devo dizer que a quantidade máxima que nós recebíamos era cerca de 200 a 300 toneladas e isso era a produção de um dia. E, mesmo agora, se nós dissermos que queremos 1.000 toneladas de milho para comercialização é capaz de não se encontrar, além de que há outro problema que se põe que é a questão da qualidade porque dependendo da região e do produtor, o produto varia muito. Pode aparecer misturado milho amarelo com milho branco, milho maior com milho pequeno e quando entra nas máquinas, se aparece um milho com tamanho menor, as máquinas separam aquilo como impureza. Se formos a ver em termos nacionais, o problema deste país não é objectivamente a comercialização, o problema deste país é produção.

 

Portanto, não há produtividade suficiente.

A produtividade agrícola em Moçambique mantém-se estacionária nos últimos 50 anos. Nós continuamos a produzir o mesmo que se produzia há 50 anos. Se nós formos a verificar as estatísticas da produção agrícola, nós continuamos a produzir, em média, uma tonelada por hectare. Há casos muito especiais como em zonas de regadio que são poucas e consegue se produzir duas a três toneladas por hectare e um pouco mais, mas, a média nacional até hoje é uma tonelada por hectare ou até menos. Esta produtividade é muito baixa. Portanto, o nosso problema número um neste momento é o problema de aumentar a produtividade, as áreas de produção agrícola e aumentar a produção. Há-de haver problemas de comercialização, mas, o problema de comercialização é em segundo plano.

 

A CIM também tinha uma fábrica de rações para animais, pode contar esse episódio?

Nós montamos a fábrica de rações, nós tínhamos lá o farelo do milho, tínhamos a sêmea de trigo que vendíamos directamente para os produtores de animais. A fábrica de rações foi montada, praticamente, com técnicos nacionais.

 

A CIM foi privatizada e sei que avançou para projectos a nível pessoal. Em que áreas é que depois foi trabalhar?

Antes queria dizer que além da guerra, um dos grandes problemas nesta altura era a fixação de preços e salários pelo Estado e isto criava problemas para motivar as pessoas. Nós podíamos mexer nos subsídios, mas, não podíamos mexer no salário e era muito difícil manter as pessoas nas fábricas.

 

Como é que faziam para motivar os melhores técnicos que tinham?

Nós dávamos formação, transporte, casa e vários subsídios que iam complementar o salário que não se podia mexer. Portanto, isto eram questões que prejudicaram. Quando começou o processo de privatização, eu não continuei na CIM porque não tinha motivação para continuar. Nós tínhamos a mentalidade de que a companhia era nossa, nossa como moçambicanos e depois veio o processo de privatização que foi muito violento para a nossa cabeça. Depois, montei uma empresa SINAC, que era uma padaria industrial. Depois, comecei a fazer consultoria. Trabalhei como consultor na FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) e estava no Ministério da Indústria e Comércio, então fiz vários trabalhos lá, desde os custos de transporte, foi daí que eu cheguei àquela conclusão de que era mais barato importar cereais de Canadá ou Estados Unidos do que transportar do norte de Moçambique.

 

Essa questão do estudo sobre os custos de transporte. Pode partilhar algumas das ideias que colheu à partir desta pesquisa?

O estudo era para verificarmos os custos de transação e medimos o custo de transporte desde o produtor.

 

Portanto, na cadeia de produção e comercialização.

A produção do milho, por exemplo, é feita em pequena escala e o produtor pode estar no interior e lá onde ele está, muitas vezes, não há meios de transporte e é um processo realmente muito complexo. O que nós recomendamos naquela altura é que deveria se privilegiar o transporte para o mar, a cabotagem em primeiro lugar, porque não se fazia porque havia, na altura, problemas de segurança e de controlo. Recomendamos também que devíamos privilegiar o transporte ferroviário e só no fim é que devia-se privilegiar o transporte rodoviário. O problema é que o transporte rodoviário é o mais fiável de todos os outros. Também participei em outros estudos para as reformas do Ministério da Indústria e Comércio, na altura. Foi quando concluímos que para fazer licenciamento, em Moçambique, levava 150 dias, em média e fizemos um programa de reforma. Participamos no estudo dos silos de farinha e no estudo dessa bolsa de mercadorias.

Os silos estão aí e não são usados como se esperava, o que é que aconteceu?

Eu participei, de facto, na concepção dos silos. Depois é que o Ministério fez a gestão directa, desde o processo de importação até ao processo de montagem e eu penso que deve ter sido aqui onde começaram vários problemas. Também penso que houve falhas na questão da definição dos tipos de silos. Eu lembro-me que tinha feito algumas recomendações.

 

Agora equipara com a experiência que tinha na CIM com a STEMA, ou não?

Bom, a experiência que eu tenho sobre os silos é um pouco maior que isso. Na STEMA nós dirigimos directamente o nosso caso, mas, ao mesmo tempo, houve uma experiência negativa na construção dos silos neste país que foi o caso da MOBEIRA. A MOBEIRA quando fez silos, nós também tínhamos recomendado, silos de betão, mas, foram feitos silos metálicos, que a primeira fez que se introduziu o cereal, o cereal ficou assado completamente e não foi utilizado.

Não se teve em conta o clima?

Não se teve em conta o clima que é a temperatura e a humidade naquela zona. Eu penso que o caso dos silos, aqui, há problema de localização até problemas de adjudicação porque penso que alguns silos não chegaram a ser completados e começaram a ser vendidos antes de completar a sua montagem. Eu penso que houve problemas de gestão de todo o processo. O silo, ao fim ao cabo, é um armazém. Só que, ao invés de ser um armazém vertical, é um armazém horizontal. Este país tinha armazéns em todos distritos e províncias. Estes armazéns forma privatizados e a sua substituição foi, logo, conceber silos e silos grandes, naquele pressuposto de que há muito cereal que está a apodrecer quando na realidade não há muito excesso de produção em Moçambique. Efectivamente, muitos desses silos, eu tenho sérias dúvidas, que possam em alguma vez, nos próximos anos, ser utilizados porque não terão produto para armazenar. A produção nacional e excesso de produção não vai ser suficiente para alimentar estes silos. Houve sobreavaliação na base destas estatísticas que eu penso que não são muito verídicas. Não são muito fiáveis as estatísticas que existem sobe o excesso de produção de cereais em Moçambique. O que eu penso é que houve muitos problemas na gestão do processo de aquisição e montagem dos silos, a nível deste país.

Em função desta experiência toda, quais são os principais desafios que acha que, na actualidade, se colocam para a industrialização do país?

Infelizmente, para mim, o primeiro problema que continuou é a guerra. Moçambique não consegue, ainda, viver num ambiente total de paz. Quando um país está em guerra, não há outra maneira, tem que ter uma economia de guerra. Nós estamos a ter, agora, um problema de guerra em Cabo Delgado, temos o problema de guerra na Zona Centro e de certeza que o Governo vai priorizar a Soberania Nacional. Então, todos programas de desenvolvimento industrial ficam em segundo plano porque há um problema maior. Para mim, o segundo problema que Moçambique tem hoje e que não era muito saliente naquela altura é o problema de corrupção. Este problema afecta, hoje, a economia moçambicana a todos níveis. Moçambique tem uma corrupção generalizada e eu vi ainda o Presidente da República a dizer, há pouco tempo, que onde há um corrupto há um corruptor e eu devo dizer que isto é uma análise parcial. Nós em Moçambique já temos outro nível de corrupção. A primeira fase de corrupção eu costumo dizer que há um corruptor, um indivíduo que vai a um funcionário do Estado e o corrompe, por ter uma necessidade específica. Depois, há uma segunda fase de corrupção em que o próprio agente do Estado toma iniciativa; aí quem define as regras é o próprio agente do Estado. Mas, há uma terceira fase em que o agente do Estado, já nem precisa do privado. Ele próprio quando está lá no gabinete, ele gere o projecto, chega em casa e monta uma empresa que concorre para aquele projecto. Já é um corrupto autónomo. Então, quando isto acontece, o sector privado tradicional já não tem lugar porque os empresários estão nos gabinetes. Se nós formos a ver as empresas grandes, por exemplo, como a EDM (Electricidade de Moçambique), tem lá muitos funcionários que têm empresas paralelas que prestam serviços à própria EDM. Quando fazem concursos, são eles próprios que concorrem. Mas, isto acontece em vários sectores públicos. De facto, hoje, a corrupção está muito avançada. Eu até digo que agora há uma outra fase, que costumo chamar “quarta geração”, quando a própria empresa já não tem dinheiro para se roubar, a entidade começa a pedir crédito e rouba-o. Aqui já não há corruptor. Então isto é a fase e que nós estamos. Então, quando os grandes têm esse sistema, os pequenos também se corrompem. E, é por isso que temos essa questão que assisti até bem pouco tempo a Dra. Amélia [directora da Autoridade Tributária] que falava dobre contrabando que rouba 12.6% do PIB (Produto Interno Bruto) e afecta o Orçamento Geral do Estado. Nós estamos, agora, em um nível que já é um problema macroeconómico do país. Portanto, eu penso que devemos ter coragem de enfrentar a corrupção de frente e combate-la de todas maneiras. E nós verificamos que nem que se beneficia, hoje, da corrupção, amanhã, é prejudicado. Outro grande problema que eu queria apontar é o mau ambiente de negócios, talvez, porque no próprio sector público temos lá vários dirigentes que têm empresas e nós quando estamos a falar com dirigentes, não sabemos se estamos a falar com o sector público ou se é um concorrente porque eles fazem as duas coisas, ao mesmo tempo. Então, há uma grande promiscuidade, o ambiente de negócios é mau, temos custos elevados, a burocracia é muito elevada e eu costumo incluir no ambiente de negócios esta questão dos raptos. Eu penso que, hoje, a questão dos raptos em Moçambique deve ser um dos maiores problemas para o sector privado. O problema é que nós temos moçambicanos, hoje, que vivem em Dubai, Inglaterra, Portugal, África do Sul, abandonaram os seus investimentos aqui, alguns mantém algumas coisas, mas, não podem investir aqui porque têm medo de ser raptados. É uma situação realmente grave que nós temos. Até digo mais, esta situação, hoje, afecta mais o ambiente de negócio que a burocracia porque a com a burocracia podemos encontrar maneiras de ultrapassar, mas, não temos como dizer que estou livre de ser raptado a qualquer altura. Esta questão da corrupção e rapto em Moçambique é tão grave, que quando convidamos pessoas de fora para investir em Moçambique, elas dizem que não podem porque podem ser tidas como empresas corruptas porque estão em Moçambique. Eu penso que os programas do Governo não estão focados na industrialização. Isto pode ser pela capacidade de administração. Nós embarcamos muito na teoria da abertura total das fronteiras numa fase em que nós na tínhamos nem infra-estrututras nem industrias para competir. A teoria diz que quando abrimos as fronteiras, beneficiamo-nos dos preços baixos, mas, isso só o consumidor e não o produtor. Mas, se tu tens um grande nível de desemprego, mesmo com preços baixos, tu não tens ninguém para comprar, que é a situação que nós temos. A alternativa é nós criarmos protecção à indústria, mesmo que isto signifique, numa primeira fase, uma elevação de preços, mas, com a industrialização do país, teremos emprego e mais tarde isto vai se reflectir numa redução de preços através do poder de compra das pessoas a aumentar. E nós já vimos, por exemplo, com a COVID que esta questão do mercado ser livre e que as pessoas vão importar as coisas mais baratas não é verdade. A COVID veio nos mostrar que quando há uma situação grave os países fecham. Mesmo a Europa que tem um processo de integração muito mais avançado, nós vimos que os países fecharam-se, e quanto mais nós que ainda estamos no processo de integração.

Políticas protecionistas, é um pouco do que está a dizer.

Eu tenho verificado que muitas vezes, as pessoas contrapõem indústria versus comércio como se o comércio fosse inimigo da indústria. O comércio é complementar à indústria, é necessário. A indústria não pode vender sem o comércio, só que a indústria tem investimentos e riscos mais elevados, então, para investir na indústria é preciso ter protecção. A protecção tem que ser de várias formas; existem protecção directa tipo subsídios ao produtor, por exemplo, energia eléctrica ao preço mais baixo. Aqui em Moçambique a energia para o consumidor individual é mais barata que para a indústria, portanto, a indústria é que está a subsidiar ao consumidor individual e é importante rever esta questão. Também há apoio indirecto, podemos ter infra-estruturas, [redução dos] direitos aduaneiros para matérias-primas e podemos ver que tipo de apoio para que a pessoa decida não investir em comércio e serviços cujo payback (retorno) é mais rápido e investir na indústria, mesmo sabendo que vai render mais tare, mas, com segurança; e garantia de que durante este período de investimento não há mudanças de regra de jogo, porque, aqui em Moçambique há isso. Muitas vezes quando muda um governante para outro, mudam as políticas e uma indústria que era viável passa a não ser viável. Então, nós temos que ter uma certa estabilidade. A estabilidade da indústria tem que ser de longo prazo, estamos a falar de 20 a 30 anos. O Estado é um dos maiores clientes da indústria, então tem que estabelecer regras de privilegiar a indústria nacional. Se, por exemplo, no caso de concurso entre empresa nacional e empresa estrangeira, a empresa nacional pode ter benefício até 10% a 15% de preço, porque é necessário investir e apostar nessa indústria, se nós não fizermos isso, não teremos indústria e Moçambique vai se transformar num grande mercado onde vendemos os produtos que importamos de fora e a única coisa que vai pagar isso é, talvez, a expectativa do gás, mas, não teremos a nossa indústria. É como plantar eucaliptos, você vai levar sete anos. E o que vai acontecer nestes sete anos? De repente alguém chega e diz que é proibido plantar eucaliptos, uma vez que você já produziu. É necessário que o Governo retome esta questão, porque, na primeira fase da independência, o Governo olhava para a indústria com certa prioridade. Eu penso que o Governo tem que voltar a dar prioridade à industrialização. Por isso temos muitos casos de pessoas que compraram indústrias e depois transformaram em armazéns, porque, é mais fácil fazer comércio.

 

Quando há concursos de motorizadas, de enxadas e enfim, quem está na linha da frente são intermediários do processo, que vão comprar fora e vêm colocar.

Chegamos mais longe, em que as próprias indústrias, muitas vezes, ao invés de fazer localmente, concorrem e importam. Se for a verificar na área de reprografia, os investidores concorrem com preços de importação porque não há prioridade para a indústria nacional, então, tu tens tudo importado e estás a perpetuar a dependência ao exterior. E se tu queres ter uma indústria com autonomia, só se consegue com produção nacional e se tu não protegeres essa produção nacional nascente, ela nunca vai nascer nem vai crescer.

Vamos avançar para o último ponto que tem a ver com a formação, sei que tem um centro de formação tecnológica-industrial. Qual é a sua visão sobre esta área?

Uma formação técnico-profissional não há dúvida que é necessária e importante e é mais necessária neste país, só que é muito caro. Para uma pessoa ser formada, mesmo no Instituto Industrial é necessário ser comprado material [ferro, motores e etc.], constantemente, para poder aprender. Depois, tem que ter laboratórios, e laboratórios usam reagentes e equipamentos. O que aconteceu em Moçambique é que as Escolas Industriais do Estado deixaram de ter este material todo. As privadas que nasceram porque este é um sector caro, enveredaram que são de papel, cursos de Gestão, de Economia, de Direito e então a maior parte da formação em Moçambique não é nesta área porque é muito caro formar um técnico-profissional. Nós vamos fazer formação em várias áreas, tanto em áreas tecnológicas, de hidrocarbonetos, turismo, administração e etc.

 

Uma última palavra sobre esta visão da industrialização, como é que olha para o país?

Como eu disse, o país tem de acabar com a guerra. Moçambicano tem de experimentar viver sem a guerra. E a partir daí, vamos olhar para o desenvolvimento nacional, mas, para isso, nós precisamos de ter políticas de industrialização e mecanismos práticos que induzam a industrialização. Sem isso nós não temos industrialização neste país e vamos nos transformar num grande mercado, nós vamos consumir o que os outros quiserem e quando houver crise, não teremos onde ir comprar, vamos ter que descarrascar sozinhos.

 

PERFIL
Cardoso Muendane
Foi director-geral da Companhia Industrial da Matola onde fez toda a sua carreira industrial. A Companhia era, naquela época, a maior indústria alimentar no país. É doutorado em gestão estratégica e é docente universitário.

 

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