O País – A verdade como notícia

O nosso maior valor é a morte!

Por: Enoque Daniel

 

O dia nasceu com pé esquerdo para mim. Acordei com umas fortes dores de cabeça, barriga, enfim, todo o meu corpo estava a doer. Num pequeno diálogo com a minha mente, cheguei a prever um total apocalipse da minha vida. Fiquei deitado na cama, por cerca de uma hora, na expectativa de que as dores abrandassem, mas nada. As dores tinham a tendência de aumentar a cada minuto que passava. Depois de uma chuva de pensamentos, finalmente decidi dirigir-me a um centro de saúde, para que os médicos pudessem diagnosticar a enfermidade que me apoquentava.

Ainda na cama, estiquei a mão e peguei no meu telemóvel. Vi a hora. O relógio marcava pontualmente 5 horas. Levantei-me da cama e, de forma despachada preparei-me. Sem mais ou menos, coloquei-me à caminho de um dos poucos centros de saúde existentes naquele meu pobre distrito. Ostentando passos descontrolados no meio de uma lentidão, lá ia eu tomar o transporte para o hospital.

Julgando pela hora, pensei que na terminal dos transportes, local onde tomaria o chapa para o meu destino, não estaria muito cheio, pois ainda era bastante cedo e os galos ainda poluíam o ambiente com os seus cânticos anunciando o amanhecer do dia. Minutos depois chegava eu na terminal dos transportadores. Para a minha surpresa, o local estava super cheio. Viam-se filas enormes que se confundiam com serpentes pelas numerosas curvas.

Tudo estava calmo naquele local. Os autocarros ainda não haviam começado a circular. As pessoas estavam super organizados. Ficamos à espera dos carros que já tinham um ligeiro atraso. Todas as segundas-feiras, os motoristas e os seus respectivos cobradores ainda se ressentem da ressaca depois de terem desfrutado da sua folga no Domingo. Trinta minutos depois, gota a gota os autocarros começam a chegar. Sempre que aparecia um autocarro para carregar, instalava-se uma autêntica confusão no local. Todos lutam para conseguirem entrar ao mesmo tempo. Eu, possuído de uma fraqueza, parava um pouco distante e assistia a guerra dos passageiros na disputa.

Cinco carros carregaram, mas as pessoas não diminuíram. Vi-me num beco sem saída, se não enfrentar a confusão, pois ninguém se dava o luxo de perceber que eu estava com a minha saúde debilitada. No local reina o adágio popular que diz “cada um por si, Deus por todos”. Como ia atrás da saúde, enfrentei toda confusão que lá existia, embora estivesse fraco, até que finalmente consegui entrar no chapa. Em poucos minutos o autocarro já estava cheio.

– Motorista, avança! – Sentenciou o cobrador do autocarro.

– Ok! O carro está bem cheio? Outros devem ficar de pé. Ninguém deve ficar. Me garantes que o carro está bem cheio? – Questionou motorista ao cobrador, enquanto virava a cabeça para trás procurando conferir se, de facto, o autocarro estava cheio ou não.

– Não se preocupe, cota. O carro está bem cheio. – Ripostou o cobrador, enquanto fechava a porta do carro com muita força.

– Está certo. Estamos a sair. – Garantiu o motorista.

O carro estava super cheio, porém muitos ainda permaneciam na terminal à espera de um outro autocarro. O motorista pegou nas chaves, ligou a viatura, e partimos. A estrada, que era de terra batida, estava super degradada, o que dificulta a circulação de viaturas. O motorista segurou firme o volante. Percorremos muitas horas sentados na viatura que andava numa lentidão feito camaleão, devido ao mau estado em que a estrada se encontrava. O motorista fintava os inúmeros buracos existentes naquela estrada de terra batida.

Todos nós, os passageiros, não víamos a hora de chegar ao nosso destino, pois os buracos faziam festas com as nossas colunas. Depois de muitas horas na estrada, cheguei ao posto de saúde. Para a minha surpresa e alegria, eu era o primeiro paciente do dia.

Estava lá eu sozinho contemplando a beleza daquelas infra-estruturas hospitalares, que cobriam os péssimos serviços de saúde ali prestados. Sentei-me num dos bancos ali colocados, enquanto fazia tempo para que abrissem o hospital e se começasse a trabalhar. Os pacientes não paravam de chegar. Fiquei a espera enquanto as dores dilaceravam todo o meu corpo. Os profissionais de saúde atrasavam e o centro de saúde ficava super lotado e todos os pacientes reparavam frequentemente para o portão do hospital.

Uma pergunta pairou na minha mente.

– O que é que essa toda gente está a olhar? – Questionei-me.

Sem que alguém me respondesse, descobri que todos estavam atentos para verem se os profissionais de saúde chegam ou não. São tantas demoras e as pessoas iam chegando cada vez mais no hospital. Todos nós já estávamos impacientes. Reparamos para os nossos relógios, já estávamos acima da hora normal de abertura dos hospitais, mas os “deuses” das nossas vidas não chegavam para depositarem saúde em nós.

Todos nós já não tínhamos esperanças de que viria algum profissional de saúde naquele hospital. No momento, enquanto nós sucumbíamos de tantas dores, eis que de repente chega a senhora que vende as senhas. Fiquei feliz por alguns segundos, porém, a minha felicidade não tardou a desaparecer quando no local instalou-se uma autêntica confusão na fila para a compra da senha. Fiquei desolado e desapontado com aquela atitude dos meus colegas pacientes. Sentado no meu canto, assistia toda confusão entre os doentes. Enfim, fiquei calado e cheguei a conclusão de que em Moçambique tudo é fila, alias, tudo é confusão.

Dois minutos depois, gota a gota os médicos começaram a chegar. Aquele sorriso que já nos tinha fugido dos rostos voltou em fracções de segundo, não obstante já fosse acima da hora normal de abertura. A chegada dos médicos não mudou em nada, pois primeiros desfilavam de um canto para outro. Os outros ficavam bem entretidos nos seus telefones, enquanto nós sucumbíamos de dores.

De repente, chegou um velho muito doente. Foi, de imediato, ao banco de emergência onde pediu o atendimento urgente, mas, para a sua infelicidade foi cobrado o famoso refresco para beneficiar-se de um atendimento urgente. O velho não trazia consigo algum valor. Pobre do velho que nem se quer trabalhava e dificilmente pegava dinheiro. Uma outra questão voltou a pairar na minha mente.

– Afinal, onde é que o pobre do velho ia conseguir o famoso refresco? – Questionei-me, num monólogo no qual mergulhei.

– Nenhum sítio, claro! A verdade é que a saúde é apenas para os ricos. – Respondi-me num monólogo feito louco no meio das suas viagens lunáticas.

O pobre do velho aproximou-se de um médico que ali passava, pediu para que agilizasse o processo do seu atendimento. Sabe o que lhe disseram? O mesmo que fora dito no banco de emergência. Devia providenciar o famoso refresco. O velhote sucumbiu no hospital ainda a espera que a sua vez chegasse para que fosse atendido, pois os pacientes que estavam a sua frente fingiam não o ver. O velhote perdeu a vida mendigando a saúde naquele hospital do meu pobre distrito.

Com a minha paciência esgotada, continuei na fila, ainda a espera do atendimento, enquanto temia que eu também entrasse nas estatísticas dos óbitos. Minutos depois, finalmente a minha vez chegou. Não resisti em soltar uns risos de alegria. Dirigi-me, ostentando passos descoordenados, ao gabinete do médico. Quando lá cheguei, saudei-o e, de seguida, comecei a detalhar os meus sintomas. O médico analisou-os.

– Jovem, pelos sintomas que acaba de relatar, sugiro que faça um teste de malária. Leva este papel e vá ao laboratório fazer essas análises. Depois de ter os resultados, volte para esta sala. – Sugeriu o médico.

– Está certo Doctor. – Respondi-lhe, num tom muito baixo, enquanto esticava a mão para receber o papel que o médico me entregava.

Levei o papel e dirigi-me, de imediato, ao laboratório.

– Jovem, em que posso ajudar? – Questionou-me o doctor que estava em serviço no laboratório de análises.

– O Doctor lá mandou-me para vir fazer estas análises. – Respondi-lhe, enquanto entregava o documento que trazia na mão.

– Está certo. Vamos a isso. – Disse o médico do laboratório.

Sem perder mais tempo, o médico tirou-me o sangue e fez as análises. Colocou os resultados no papel que eu trazia e agrafou para que eu não os visse. Levei o papel. Enquanto eu regressava ao gabinete do médico, tentava a todo custo todo custo ver os resultados, mas todas as minhas tentativas redundaram em fracasso. Fui ao gabinete do médico e entreguei-lhe os resultados. Ele desfez o agrafo e leu.

– Jovem, tu tens malária de duas cruzes. Vou te receitar alguns comprimidos e deves tomar até terminar a dose. Por favor, não é para deixar de tomar os comprimidos assim que verificar alguma melhoria. É importante terminar a dose. Tiveste sorte, pois esta doença ainda está numa fase inicial. Se tivesses descoberto tarde, se calhar já terias evoluído para óbito. E deves te alimentar muito bem. Percebeu? – Questionou-me o médico.

– Está certo, Doctor. Vou cumprir tudo. – Respondi.

O médico fez a receita e entregou-ma. Havia me receitado alguns comprimidos de malária, Multivitaminas e Paracetamol. Dirigi-me à farmácia para adquirir os comprimidos. Quando lá cheguei, entreguei a receita e fiz o pagamento dos 5 meticais. A pessoa que estava em serviço na farmácia preparou o medicamento e entregou-mo.

– Senhor, aqui só tem Paracetamol. Os outros não temos. Os comprimidos em falta vai comprar na farmácia de fora, isto é, numa farmácia privada.

– OK! – Respondi-a, com a cara inundada de tristeza, pois não sabia onde ia encontrar o dinheiro para comprar os comprimidos nas farmácias privadas.

Saí daquela farmácia entristecido. As minhas dores tomaram proporções alarmantes. O único valor que eu tinha era os 5 meticais para a compra dos medicamentos na farmácia do centro de saúde. As farmácias privadas não poupam esforços para sugar os bolsos dos doentes que mendigam a saúde nelas. Todo tipo de medicamento que não se encontra numa farmácia hospitalar, nas farmácias privadas à espera dos compradores.

Enquanto eu deixava aquela farmácia hospitalar, deparei-me com uma viatura da saúde. O carro, que por sinal é ambulância, carregava consigo um letreiro pintado a preto. Concentrei-me bem para puder ler o letreiro. Lá vinha o seguinte:O nosso maior valor é a vida!”.

O nosso maior valor é a vida? – Questionei-me. – Não, não pode ser. – Respondi-me. Este não pode ser o lema da saúde. Não pode ser. A minha mente ficou totalmente confusa e foi invadida por uma chuva de pensamentos “Como é que eles têm a coragem de escrever isso enquanto nós passamos mal todos os dias nos hospitais públicos? Muitos morrem aqui ainda a mendigarem pela saúde…”. Depois daquela chuva de pensamento, finalmente cheguei a uma conclusão: “O nosso maior valor é a morte!”. Este sim é o lema digno para a saúde.

 

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