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O mar invade agressivamente Cabo Delgado

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Até 2050, a água do mar vai avançar em 22 metros em toda a costa da província de Cabo Delgado, devendo afectar infra-estruturas e não só. As conclusões são de um estudo recente da Universidade Lúrio em parceria com quatro universidades europeias. Saiba nesta reportagem porquê há cada vez mais ciclones a afectarem o Centro do país.

Mudanças climáticas – um conceito que passou a fazer parte do nosso vocabulário, mas poucos entendem na prática como é que se fazem sentir.

Em meados do ano passado, pesquisadores da Universidade Lúrio, em parceria com quatro universidades de Portugal, Alemanha e Inglaterra, estudaram a costa da província de Cabo Delgado e analisaram quatro cenários de aquecimento global e o seu impacto no aumento do nível médio das águas do mar. Os resultados, divulgados em Janeiro findo, foram surpreendentes: a água do mar está a aumentar acima da média global.

“As nossas projecções indicam que para o pior cenário, conhecido por RCP8.5, espera-se que a água do mar suba 1 metro até 2100 e deve atingir 0.66 metros para o cenário ideal, ou RCP2.6 para o mesmo período. No entanto, os números não são marginais, são bastante suficientes para criar implicações situações irreversíveis, bem como difíceis de serem enfrentados se medidas de mitigação e adaptação não forem propostas”, alerta Serafino Mucova, docente da UniLúrio e pesquisador principal, que nos falava a partir de Portugal.

Os seis pesquisadores envolvidos, dentre biólogos e climatologistas, trazem no estudo prováveis impactos que poderão ser causados pela invasão da água no continente.

“Estimamos que cerca de 30 metros, contando a partir do limite máximo da maré alta para o interior, estarão sob fortes efeitos erosivos até 2050. Também estimamos que as águas deverão avançar cerca de 22 metros contando a partir do mesmo limite para o interior ao longo de toda a costa. Em termos práticos isso significa que dos 430 km de linha de costa existentes na província de Cabo Delgado, cerca de 86 km deverão desaparecer até 2050 e 69 estarão sob fortes efeitos erosivos”.

E porque a pesca é a principal actividade económica nas comunidades costeiras, o impacto nessa área também é calculável:35 a 40% das comunidades costeiras vão cair na pobreza.

Estes cenários afectam as comunidades, mas também podem ter implicações nos projectos de gás em curso na província de Cabo Delgado. O Ministério da Terra e Ambiente diz que o país tem aprovado políticas de adaptação às mudanças climáticas, devendo ser implementadas com rigor para minimizar o pacto dos fenómenos extremos.

“Estes investimentos têm grande interesse em apostar naquilo que são medidas que têm a ver com as mudanças climáticas porque se não apostarem nessas medidas poderão sofrer os impactos e efeitos das mudanças climáticas e isso pode afectar aquilo que são os seus rendimentos económicos”, disse Cláudio Afonso, director nacional de Mudanças Climáticas no Ministério da Terra e Ambiente.

Os ventos fortes também estão cada vez mais a fustigar o nosso país, de acordo com dados apresentados pelo pesquisador Luís Artur, doutorado em Sociologia de Desastres e docente da de Gestão de Risco de Desastres na Faculdade de Engenharia Florestal da Universidade Eduardo Mondlane.

“Já temos evidências de que os ciclones vêm aumentando em termos de ocorrência e de frequência e intensidade. Há um estudo que foi divulgado em 2009 pelo INGC e havia uma componente de formação de ciclones que foi feita por um colega nosso da Universidade Eduardo Mondlane, o Mavume, que mostrava que aumentou a intensidade e frequência de ciclones esse estudo fazia levantamento até ao ano 2012 e os dados mais recentes que fiz levantamento mostram que se formos a fazer a se formos a comparar de 1980 a a 1999 e dos últimos 20 anos, de 2000 a 2020, a ocorrência de ciclones aumentou três vezes, portanto, no período anterior sofremos cinco ciclones e depois, de 2000 a 2021 sofremos temos cerca de 20 ciclones e não apenas em termos de número, mas também em termos de intensidade e por causa da frequência e da intensidade e frequência, os estragos também são maiores”, alerta Luís Artur, pesquisador da Universidade Eduardo Mondlane.

E a zona Centro do país tem sido a mais afectada. Para os pesquisadores, há prováveis causas para essa situação.

“Precisamos fazer mais estudos, mas há três hipóteses que podem ser aqui avançadas. A primeira é que as temperaturas na zona centro do país são maiores comparando ao resto do país. Há um trabalho que foi divulgado pelo INGC em 2009 que mostra que as temperaturas ao nível nacional aumentaram 0.6 graus, mas na região centro do país o aumento foi de 1.6 graus celsius, muito acima da média nacional. Temperaturas mais altas significam também criar condições para que os ciclones possam acontecer. Se formos a olhar que essa média da temperatura não foi apenas ao nível terrestre, mas também foi ao nível do mar, então, pode justificar-se porque é que essa região possa estar a sofrer mais. O segundo elemento é que há estudos que foram feitos sobre o desmatamento e esse elemento é muito importante para a intensidade e a força com que os ventos possam alcançar numa determinada região; os estudos referentes foram publicados em 2016 por uma equipa da Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal e mostraram claramente que a região centro é que está a ter mais desmatamento comparativamente ao resto do país. A média nacional é de 0.23% de desmatamento anual; a região centro tem 0.29% – é a mais alta comparando com outras regiões e esse desmatamento pode estar a propiciar temperaturas mais altas, mas também pode dar a possibilidade de termos ventos mais fortes porque não têm elementos que possam reduzir os seus impactos”, concluiu, Artur.

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