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O grito das madrugadas lá no gueto

Por: Edna Matavel

 

Lá, naquele bairro, no bairro onde nasci, crescemos e vivemos como um grupo de quartéis de droga, sem importar a idade, e sim a proveniência do mesmo. Onde nunca se conseguia distinguir as tardes e as madrugadas, pois, parece que o dia fazia sentido somente nas madrugadas. Sem se importar com o dia de semana, todos naquela comunidade reuniam-se na rua baptizada com o nome Soweto. A vida era realmente um Soweto sem fim… bastava-se ouvir a música Umlilo que toda população fazia-se às ruelas do então “Soweto” para juntos compartilharem da mesma cerveja, a vida era realmente vivida se tivesse a famosa Txilar, Heineken e, por vezes, o famoso Top21. E para que a madrugada tivesse mais sentido, faltava o elo mais forte “soruma”, mas num bairro como aquele isso era o mais fácil de se achar.

Todas 3h de madrugada, diante de toda aquela fumaça onde nem se vislumbrava o devido quem, todas cabeças juntas se mexiam como se fosse uma noite em Califórnia. Gritos e gritos de felicidade porque nunca faltava um trocado para adquirir a soruma, a vida estava baseada em droga em cima de droga.

Somente era gente quem realmente fazia parte daquele mundo cheio de abismo. Mas como ficam as tardes se todo foco e energias estão voltados à madrugada… Para muitos, as tardes não faziam muito sentido e, para outros, seriam uma espécie de concentração para se discutir o plano de mais uma madrugada em benefício do txiling e da droga.

Neste pequeno gueto, os crentes eram vistos como meros quadrados e retrógrados da vida, porque só era jovem e adolescente quem sacrificava sua madrugada para gritar com os outros o quão doce é a vida acompanhada por uma 2M. Todavia, alguns crentes não resistiram a essa pressão da vida e trocaram as noites de louvor e adoração a Deus em noites profícuas para realmente ouvir o som do Something Soweto e Maphorisa e outros até mesmo as escrituras trocaram por uma cerveja que não duraria nem meia hora.

A chuva parecia atrair mais aquela população, pois acreditava-se que ela fosse símbolo de um txiling abençoado. Nos becos fazia-se sentir o cheiro da fumaça, até quem não fumava ganhava gosto por aquilo. Mas nem todas as madrugadas eram tão boas… haviam aquelas em que os próprios chegavam aos socos por conta de uma cerveja e no meio daquela fumaça partiam-se as garrafas e outros saiam feridos, mas aquém darás culpa se tu mesmo estás tão embriagado que não consegues nem ver o sangue escorrer até aos ouvidos. Enquanto outros gritam de susto, outros gritam de alegria porque para eles estavam vivendo o verdadeiro Soweto num pequeno bairro e numa pequena rua designada Soweto.

Mas, para tudo há uma explicação. O que poder-se-ia esperar de pessoas que cresceram vendo os seus progenitores nos becos jogando o famoso “batota” para depois gastar tudo com um gole de tentação e um cigarro calçado na orelha para realçar a visão e acreditar nas ilusões do vício.

Pergunto-me, como será a vida dos antecedentes deste gueto, quiçá tudo mude, só Deus…

 

 

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