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O fim de um sonho, o início do outro e o regresso à pátria amada

O desempenho escolar de Dambuza Matavele, nome escolhido por Chissano para omitir a sua identificação durante a clandestinidade, não melhorou grande coisa em França. Contrariamente, a sua ascensão política tornou-se gradualmente notável no seio dos nacionalistas moçambicanos. Por isso mesmo, colaborou com Eduardo Mondlane, Marcelino dos Santos, e tantos, na fundação da FRELIMO, a 25 de Junho de 1962. Nessa altura ainda era estudante em França. No entanto, desistiria da formação em Medicina um ano depois, quando a direcção do movimento de libertação lhe pediu que se fixasse em Dar es Salaam.

Na Frente de Libertação, Joaquim Chissano desempenhou diversas funções: secretário particular do presidente Eduardo Mondlane e assistente deste nas funções de chefe do Departamento de Educação, daí fazer parte do Comité Central da FRELIMO.

Em 1966, dois anos depois do início da luta armada de libertação nacional, o primeiro chefe do Departamento de Defesa e Segurança da FRELIMO, Filipe Samuel Magaia, é assassinado. O movimento atravessava uma época muito conturbada e, de repente, perde o responsável pela guerra colonial do lado do movimento. Morto Magaia, dois militantes são chamados a substitui-lo: Samora Moisés Machel, como chefe do Departamento de Defesa, e Joaquim Alberto Chissano, como chefe do Departamento de Segurança. Portanto, o Departamento de Defesa e Segurança da FRELIMO fica dividido.

À medida que os anos passam em Dar es Salaam, naturalmente, as responsabilidades de Chissano aumentam. Além de dirigente da FRELIMO, constitui família com Marcelina Chissano, de quem teve o primeiro filho em 1970. Quando a criança nasceu, o político recuou para infância. Aí lembrou-se que uma avó dele, Delfina, quis dar o nome Nyimpini a um dos seus irmãos, que nasceu em 1945. O nome não tinha sido destinado a Armando Chissano, mas ao primeiro filho de Dambuza, numa relação com o contexto de guerra que assolava Moçambique. Então, o seu primogénito é baptizado Nyimpini – a morte de Nyimpini, já adulto, foi uma das maiores tristezas do libertador nacional.

Catorze anos depois de ter deixado Lourenço Marques para se formar em Portugal, Joaquim Chissano participou nas negociações dos Acordos de Lusaka, assinados a 7 de Setembro de 1974, entre a FRELIMO e o governo português, na capital zambiana. O propósito desse encontro foi a independência nacional de Moçambique. Na sequência disso, com 35 anos de idade, o jovem de Malehice toma posse como primeiro-ministro do Governo de Transição, que conduziu Moçambique à proclamação da Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975, no Estádio da Machava.

No recém-formado governo africano, Joaquim Chissano desempenhou a função de ministro dos Negócios Estrangeiros. Entretanto, a 19 de Outubro de 1986, o primeiro Presidente da República de Moçambique, Samora Machel, morre na África do Sul, na sequência da queda do avião Tupolev 134 em que viajava de regresso a Maputo, depois de uma visita de Estado na Zâmbia. Entre dor e luto, Joaquim Chissano teve de assumir a responsabilidade de liderar os destinos de Moçambique, mergulhado na guerra que opunha a RENAMO ao Governo. Então, a paz foi uma das missões. E Chissano conseguiu unir os moçambicanos em luta através do Acordo Geral de Paz, assinado em Roma no dia 4 de Outubro de 1992. Este acordo permitiu que, pela primeira vez, houvesse eleições presidenciais democráticas em Moçambique, observadas pela Organização das Nações Unidas.

Chissano venceu essas eleições em 1994, no mesmo ano em que morreu o pai, um dos seus primeiros professores da vida. Nos agradecimentos do seu livro autobiográfico Vidas, lugares e tempos, Chissano escreve o seguinte sobre os pais: “São os meus pais que, ao orientarem os meus primeiros passos da vida, implantaram os pilares mais fortes para a construção desta personalidade que me tornou uma figura moçambicana de renome nacional e internacional, amado, honrado e prestigiado por uma grande maioria de observadores”.

A propósito de Vidas, lugares e tempos, um dos amigos do antigo Presidente da República, Mário Machungo, que também foi primeiro-ministro de Moçambique (1986 – 1994), escreve no prefácio: “A descrição que Chissano faz da discriminação e humilhação de que foi vítima no liceu onde aparece como o único preto entre milhares de alunos num país maioritariamente constituído por negros evidencia o esforço ingente que o moçambicano teve de fazer para aceder ao conhecimento e ao saber, instrumentos para conquistar as armas do branco para melhor o combater, parafraseando Mondlane”.

Portanto, Chissano governou o país por 18 anos, tendo vencido duas eleições multipartidárias. A função de Presidente da República cedeu em 2005, passando, desde então, a dedicar-se a actividades internacionais de gestão e resolução de conflitos, em missões de paz na SADC, União Africana e nas Nações Unidas. O objectivo é sempre contribuir para o restabelecimento da paz em zonas de conflito. No país, através da Fundação Joaquim Chissano, dedica-se às actividades atinentes ao desenvolvimento social.   

Como reconhecimento da sua excelente governação durante o tempo em que esteve na Ponta Vermelha, foi distinguido com o prémio Mo Ibrahim.

Hoje, Joaquim Alberto Chissano, segundo Presidente da República de Moçambique, completa 80 anos de vida. O País deseja-lhe felicidades.  

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