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O dia em que o silêncio magoou como socos na garganta

28 de Dezembro de 2003. Pavilhão do Maxaquene! Qual ovo de Colombo, a “catedral” do basquetebol indígena rebentava pelas costuras. Não havia espaço sequer para uma agulha!

Vivi, e com inusitado entusiamo, 40 minutos do duelo Moçambique vs Nigéria que foram um autêntico regalo para os sentidos. Maldita Mfon Udoka, estrela-mor da Nigéria que nos roubou o sonho de marcarmos presença, pela primeira vez na história do basquetebol moçambicano, nos Jogos Olímpicos de Verão. Precisamente em Atenas, corria o ano civil de 2004, lá onde o árbitro moçambicano Abreu João atingiu o pico da sua carreira.

Não há nada de bom que se possa dizer da sua passagem (Mfon Udoka) pelo pavilhão do Maxaquene, comandando a armada nigeriana com 28 pontos na dramática quanto amarga derrota de Moçambique (69-63) na final. Provocou-nos tamanha agonia.

Os 20 pontos de Clarrisse Eulália Machanguana (“Match”) e entrega total do conjunto então orientado  pelo americano Nelson Guiliam Isley não foram suficientes para tocarmos o céu. O limite, pois claro. Em boa verdade, diga-se, e após o término do quarto quarto, “fomos todos as lágrimas” de Deolinda Carmen Ngulela, Carla Denise Pedro Botão Comissário da Silva, Clarisse Eulália Machanguana, Ana Domingos Soeiro Branquinho, Nádia Navessa Noormamad Rodrigues, Ana Flávia Azinheira, Iracema Paulo Ndauane e Rute Elias Muianga.  Entusiasmo refreado! É como se o mundo tivesse desabado! O silêncio magoava como socos na garganta! Há precisamente 18 anos, com todo protocolo observado para campear, Moçambique sofrera uma derrota difícil de digerir.

Não se pode, nem tão pouco, acusar as meninas de não terem tido “pedigree” para açambarcar o título. Pelo contrário: fizeram história, nas vésperas colocaram em sentido a senhora equipa do Senegal com incrível parcial de 20-0 com 5:00 minutos por se jogar no primeiro quarto.

O homem das inúmeras tácticas de ataque, Nelson Guiliam Isley, coadjuvado por Nasir “Nelito” Ismael Issufo Salé e Francisco “Chico” da Conceição anulou, nas meias-finais, o temível Senegal que caiu com estrondo com a derrota por 63-62!

Consolou-nos ver Deolinda Carmen Ngulela, fabulosa base-armadora, ser coroada MVP (jogadora mais valiosa) do Campeonato Africano de Basquetebol. Elevação de qualidades acima da média, demostração de toda uma classe e espalhar de um perfume cujo aroma até hoje “mora” na Académica.

Ngulela encheu a quadra: dribles em progressão, capacidade de fazer o passe no “timing” certo, excelente nos ataques posicionais e espírito de liderança e motivacional!

Processos consolidados depois de se transferir para os EUA: Seward County Community College, NJCAA, e Augusta State University, NCAA.

A sua carreira foi escrita, sempre e sempre mesmo, com encanto pelas actuações de extrema competência. Tão competente que, em 2015, aquando da sua retirada dos palcos internacionais, a FIBA-Africa destacou-a: “Deolinda Ngulela ganhou vários prémios individuais ao longo de sua carreira no basquetebol, o mais recente deles foi eleita a melhor armadora do “Afrobasket 2015”.

Há, e como, uma indisfarçável frustração de não ter testemunhado a consagração ao nível de selecções de uma geração de atletas com enorme qualidade.

Sim, sem sombra de dúvidas, porquanto o título de campeão africano de clubes conquistado pela Académica dois anos antes, 2001, em Abidjan, Costa do Marfim, indicava os passos certos a dar para se chegar ao olimpo de África.

De resto, foi assim com a Nigéria. No mesmo ano (2003) em que conquistou o seu primeiro “Afrobasket”, colocara o First Bank no topo do Campeonato Africano de Clubes (Taça dos Clubes Campeões Africanos), prova conquistada, curiosamente, em Maputo.

Mas, afinal, quem fazia parte da equipa do First Bank que conquistou a 10ª edição da Taça dos Clubes Campeões Africanos, prova na qual o Maxaquene de Carlos Ibrahimo Aik ocupara a 3ª posição com saldo de três vitórias e duas derrotas? Caros patrícios, nada mais nada menos que seis  atletas que compuseram a astuta selecção da Nigéria campeã africana: Mfon Udoka, Aisha Mohamed, Funmilayo Ojelabi, Mactabene Amachree,  Patricia Chukwuma e Nguveren Iyorhe.

Um momento, certamente, para nunca olvidar! Ter na retina. Enorme apoio do público como se voltou a ver na também magnifica campanha no “Afrobasket” 2013, que culminou com o segundo lugar na prova e inédita qualificação para o Mundial de basquetebol da Turquia (2014).

Engavetamos, por momentos, os egos que fazem escola numa das modalidades colectivas que orgulha o país. Unidos numa causa, fizemos do pavilhão do Maxaquene um “inferno” para os nossos adversários.

Em pararelo, toda uma estrutura montada pelo elenco de Aníbal Aurélio Manave (ndr: na altura presidente da Federação Moçambicana de Basquetebol) foi determinante para o sucesso, feitas as contas, do “Afrobasket” 2003. Aliás, e outra coisa não seria de esperar, Manave respira basquetebol. Vive a modalidade da bola ao cesto!

Uma vitória diante da frágil África do Sul, a 18 de Dezembro, foi o mote para acionar o rolo compressor ainda na fase de grupos, e embalar para novos triunfos diante dos Camarões (70-47) e Tunísia (93-51). Pelo meio, a 20 de Dezembro, uma derrota com a incómoda Angola (73-66) não abanou a nau. Cumprida a primeira missão, com a qualificação para as meias-finais, havia que derrubar o hendecampeão Senegal.

Embaladas no ritmo frenético da competição, as comandas por Nelson Isley disputaram cada lance como se fosse o último, superaram-se e brindaram aos moçambicanos com a qualificação para a finalíssima. A receita para a final com a Nigéria era: concentração total e crer. Falhámos nos momentos cruciais, mas demos claras indicações do enormíssimo potencial e qualidade do basquetebol moçambicano. Estrondosa ovação, por isso, às vice-campeãs africanas de 2003!

Proporcionaram-me, ainda foca na profissão e movido pelas leituras constantes do extinto “Campeão” e recomendadas leituras de Franz Kafka, Fiódor Dostoiévski, Gabriel Garcia Márquez, Ernest Hemingway, Carlos Drummond de Andrade, Luís de Camões, entre outros, momentos de grandes emoções! “Khanimambo”, basquetebol! Obrigado, Milton Machel, pelas lições e ensinamentos!

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