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O banco e o crédito da calamidade

Por: Francisco Raposo

 

Mandiega estava sentado em sua residência, quando o secretário passou por todas artérias do bairro da Malata a convocar de forma ligeiramente obrigatória a presença de todos para a cerimónia de inauguração do primeiro e novo banco de dinheiro do distrito.

O senhor camarada, representante governamental do senhor camarada presidente da república, mas ao nível do distrito, que é o senhor administrador, está a convocar a todos deste bairro e de outros também para, amanhã, testemunhar a inauguração do primeiro banco de dinheiro aqui na vila, pelas sete horas e seu ponto. Na praça dos heróis, para marchar até ao banco.

O homem que convocava, gostava de ver o povo a testemunhar os seus bem-feitos, numa altura em que a luta pela riqueza absoluta crescia.

A informação sobre o banco de dinheiro não chegou bem aos ouvidos das pessoas, principalmente aos do senhor Mandiega. Ele não conseguia imaginar um banco de dinheiro como seria. Seria de madeira? Teria as quatro patas? Será que se a esposa levasse para o rio lavar, o dinheiro-banco não ia se dissolver? Então sugou um pouco mais do seu cérebro invocando imaginação. Chegou à conclusão de que o banco seria sim de dinheiro. Metálico para acrescentar. Seria brilhante na cara e na coroa. Que podia molhar e sustentar o peso de pessoas sentadas. Sentiu-se feliz por dentro, só de imaginar que o banco seria uma estrutura muito pesada, então os gatunos não lhe surripiariam de qualquer maneira. Foi transmitindo a sua ideia de banco aos vizinhos, fazendo-lhe sentir inteligente. Pessoa importante. O que sabe das coisas. Actualizado.

Muito cedo, antes das sete horas, já estava bem vestido de balalaica castanha monocromática. Banhou-se novamente de uma espessa camada de ácidos gordos e se tornou brilhante como metais quando repelem a luz do sol. Já não se conseguia olhar de perto, mas via-se melhor de longe afinando a visão para acudir a intensidade luminosa.

Se sentia em muitos quilômetros o cheiro de gordura. Penteou somente as partes laterais da cabeça, porque no centro já não tinha cabelo nenhum. Saiu sem sequer despedir-se de ninguém de casa. E foi com o intuito de ser o primeiro a chegar a praça. Ficou de conversa afiada com os outros recém chegados em volta do assunto. E ele arrogante, foi disseminando a sua ideia sobre o banco, sua estrutura, até sua forma possivelmente retangular. Próximo do início da marcha já havia se levantado uma grande discussão. Alguém dizia-se saber melhor sobre a bancarisação, desafiando os conhecimentos imaginários do senhor Mandiega.

Em plena marcha, as canções de combate da luta de libertação nacional abriam as almas, descarregando os fardos para as memórias refrescarem de todas lutas. Pela vida, pela riqueza, contra a fome, contra doenças e o contra feitiço. As memórias acrescentam um pouco mais de vitória à história, um pouco mais de tempero para embriagar a vida. Chegado ao banco, os discursos tiveram que demorar. Tudo por conta da poeira das danças tradicionais e outras expressões culturais de festas. Perpetradas por pessoas que nem sequer sabiam de banco. O discurso do camarada senhor representante governamental do camarada presidente da república, mas ao nível do distrito, que é o senhor administrador, foi lindo, triunfalista e progressor.

O gerente do novo primeiro banco de dinheiro do distrito foi explicando os diversos produtos e serviços do banco. Para surpresa de todos, era tudo diferente do imaginário do senhor Mandiega.

Ele meio envergonhou-se com medo de zombarias, mas não deixou-se levar, queria ainda manter a postura. Começou a fazer questões ligeiras, apalpando as coisas sobre o banco. E enfim, foi esclarecido de forma certa, certeira. E acabou realmente sabendo um pouco mais do tema em detrimento da população presente.

O que mais chamou a atenção do Mandiega durante a palestra sobre o banco foi o crédito. Explicaram-lhe, explicaram de forma convincente que o convenceram da sua importância para o desenvolvimento do distrito. Disseram-lhe, – O crédito somente é concedido a pessoas visionárias e com um plano de progresso. Expressões como essas suscitaram a exaltação da sua postura de importante e foi para casa pensando no que fora dito. Para ter crédito era preciso ter um plano de progresso, um projecto, uma ideia inovadora, nova.

Nos dias subsequentes ele foi criando e recriando as ideias, novas e renovadas, algo grande como seu corpo e que desse jus a carta de pedido. O que lhe deixava tão apreensivo era que, não queria perder de ninguém. Mesmo competindo sozinho, vinha-lhe sempre o medo de perder em segundo lugar. Obrigava-se a ser o primeiro a beneficiar do crédito do banco que não se senta e nem se leva ao rio para lavar. A ideia de ultrapassar os vizinhos que só tinham conhecimento do crédito nos telemóveis lhe deixava fantástico, fantasiador das próprias fantasias.

Mandiega passou dias e noites dando voltas no seu quintal vedado por flores. Esta vedação era-lhe um escudo contra a curiosidade alheia. Contra inimizades. Contra a inveja que surgiria. Contra feitiçarias. Barreira contra um mundo cada dia mais caótico e infeliz. É por isso que sempre que a esposa fritava no óleo vegetal quente era obrigada a fazer dois lumes, um de carvão com o óleo que ficava dentro da palhota e outro de lenha pouco flamejante, com peixe seco que ficava ao relento, no quintal, para enganar as fossas nasais dos vizinhos com a fumaça.

Ele, antigo soldado revolucionário não podia viver assim, envoltado de pessoas que nem sequer conheceram a caneta para poder partir. Nem sequer ficaram perfiladas em fileiras içando a bandeira e entoando o hino nacional. Pessoas que só tinham o conhecimento do ciclo da chuva, tempo de plantar, de colher e de insultar os gafanhotos com a nudez das mulheres em tempos de pragas.

Ao reparar em todos cantos. Pouca coisa vinha da massa cinzenta do senhor Mandiega até que curiosamente, dois pássaros passaram por cima dele, brigando ou brincando, não se sabe direito, ele também não soube dizer ao certo. Os pássaros soltaram os seus dejetos fecais no tecto de palha do vizinho. Isso fez com que ele imaginasse logo um projecto.

Porque no quarteirão ninguém tinha casa de chapas de zinco no tecto, seria uma óptima ideia ser o primeiro a pedir crédito para o seu projecto de melhoramento de infra-estruturas do distrito, que nesse caso era a sua palhota. Eram duas cajadadas com um só tiro, certo. Certeiro.

Não demorou muito, assim que teve a ideia do projecto de pedido de crédito sob o tema “projeto de melhoramento de infra-estruturas do distrito”, correu directamente para ter com o seu amigo dactilógrafo, da geração oito de março de Moçambique. Antes desta coisa de gerações começar a virar. Redigiram com letras uniformes. Visíveis ao olho nu. Meteu o seu expediente ao banco. Em uma semana alguém trouxe a carta assinada pelo próprio gerente. Já estava consumado, já se conhecia a primeira pessoa a se beneficiar de crédito do novo primeiro banco de dinheiro da vila.

Depois de algum tempo as crianças adoptaram uma nova brincadeira, tiravam folha das bananeiras e simulavam dinheiro. Andavam em todo bairro, vestindo a roupa da escola, descalças, gritando – Viva! Viva! Eu tenho credito. Viva! Viva! Ndano maleyapepa. Assim como viram sendo feito pelo primeiro creditado. Enquanto isso a dieta do senhor Mandiega mudou drasticamente. De plantas e peixe sem escamas para carnes, ossos, leite e sangue, gorduras e mais gorduras. Acredita-se que as lombrigas dos intestinos daquela família ficaram muito felizes com esta coisa de crédito.

As águas estavam no mesmo plano, rentes aos bordos da canoa que trazia as chapas de zinco. Antes do início da execução do projecto de melhoria de infra-estruturas do distrito, o secretário passou novamente pelas veias do bairro com um longo megafone. – O senhor camarada, representante governamental do senhor camarada presidente da república, mas ao nível do distrito, que é o senhor administrador. Informa a todos que virá um ciclone muito grande e vai destruir muitas casas. Guardem comida, velas e água. Amarrem bem as coisas e fiquem em segurança. Informações como essas eram frequentes por conta do caudal do rio em tempos chuvosos, mas não era coisa de tirar o sossego das pessoas. Todos entenderam o mesmo sobre o vento. Seria igual ao que dizem sobre as chuvas, que sempre deviam se tornar cheias. Mas no final de tudo, nada acontece.

Nada podia parar um homem visionário que junto de grandes mestres de obra colocaram a mão no prego e martelo, na chapa e na madeira de tronco forte, de qualidade incomum para uso local. Conseguiu porque o senhor camarada, representante governamental do senhor camarada presidente da república, mas ao nível do distrito, que é o senhor administrador ao receber a carta de pedido de madeira de qualidade para exportação, apenas leu o cabeçalho, projecto de desenvolvimento de infra-estrutura do distrito e assinou sem ler os ombros, as mãos e os pés. Ao pregarem a madeira parte do “matope” seco se desfazia e a infra-estrutura teve de ser maticada novamente e pintada a tinta óleo.

No dia do ciclone todos estavam em casa, conforme as ordens superiores de quem responde pelo presidente da república ao nível do distrito. Perto de meio dia o vento era leve, respirável. Passou para um chuvisco e as crianças banharam nos precipícios das chapas. Na hora vespertina todos estavam dentro, os trovões acendiam todos escombros. Jantaram comida com muito óleo. As árvores estavam a comunicar, cada vez mais rápidas que as coisas mudaram.

O coração começou a bater de medo. As crianças começaram a chorar. A mulher cobriu-as com seu abraço de cuidadora. A coragem elevou-se, o sangue começou a correr muito rápido fugindo do coração. Senhor Mandiega subiu a mesa de madeira e amarrou o barrote que ameaçava voar com as chapas. As paredes recém maticadas se dissolviam a cada gota de chuva. O clima ficou frio de verdade e quente de tensão corporal. Mandiega começou a insultar aos vizinhos acusando de feitiçaria por inveja das suas chapas. Para ele aquilo não era fenómeno natural. Ele viu muita gentes nascer, muita gente crescer e muita gente morrer. Ele viu pessoas deste tempo e do tempo do Caetano. Mas nunca vira nada assim. O feiticeiro devia ter movido muitos “xipokos” para lhe arrancarem as chapas. O vento negava-lhe de abrir a porta, e quando abriu o vento passou a negar-lhe de fechar. Saiu com sal e um terso da Virgem Maria para espantar os maus espíritos, mas nada surtiu efeito. Foi quando decidiu subir ao telhado para amarrar as chapas e associar o seu peso à resiliência do edifício.

Mandiega esquivou tudo em nome da família, em nome do crédito e do projecto de melhoramento de infra-estruturas do distrito. Abraçou muito fortemente as chapas. O vento ia zumbando nos ouvidos em assobios. Fechou os olhos. Sua cara ficou desfigurada pelo atrito. Elevou-se 20 centímetros. Planou junto às chapas para uma breve aterrissagem no cume de uma árvore. Ficou pendurado pela calça até o vento acabar.

Dizem que ele respirou todo vento sozinho. Gritou com todas cordas vocais as canções do desespero até amanhecer. Foi lá, no topo da árvore que viu que todas casas já possuíam as chapas do seu projecto de melhoramento de infra-estrutura. Pensou no crédito e no banco antes de pedir socorro contra a gravidade e a árvore que já não aguentava o seu peso.

——

Matope: Lama ou Lodo

Xipokos: almas penadas, fantasmas

Ndano maleyapepa: tenho dinheiro de papel

 

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