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O aperto ainda só está a começar

O Presidente da República reitera que o preço do combustível no país está abaixo do custo noutros países vizinhos, num apelo ameno para a contenção na análise da última subida. Filipe Nyusi avisa que a retoma do financiamento do FMI e do Banco Mundial vai exigir apertos e sacrifícios. Sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, mantém a posição de neutralidade.

O Presidente da República cumpriu, esta quarta-feira, o último dia de visita oficial à República do Gana. Na conferência de imprensa, Filipe Nyusi respondeu à nossa pergunta sobre o que se pode esperar do Executivo face aos impactos do mais recente reajuste do preço dos combustíveis.

“Poupança é a primeira solução, onde der para pouparmos. Que não haja um esforço de pensarmos que é um Governo que senta, se organiza e sobe o preço. Como sempre, não subimos. Nós estivemos até a encontrar saídas para até subsidiarmos. Vou pedir aos colegas das Finanças ou do Ministério dos Recursos Minerais e Energia para mostrar que o gráfico do preço dos combustíveis, na tabela, a barra de Moçambique está em baixo de toda a África Austral”, justifica Filipe Nyusi.

“ALGUMAS DESSAS MEDIDAS VÃO DOER”

A retoma do financiamento do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial à economia de Moçambique foi largamente celebrada, mas a outra face da moeda reserva momentos de muitos apertos.

“A expectativa que há é que vamos trabalhar. Primeiro, temos que evitar os erros cometidos que nos puseram fora. Nisso temos que trabalhar todos nós, os moçambicanos, e temos essa consciência. Quando O FMI regressa, regressa com algumas medidas que exigem uma disciplina financeira. Essa disciplina deve ser feita e algumas dessas medidas vão doer. Teremos um espaço para podermos comunicar a nação. Teremos que apertar algumas medidas, não para poder pôr o moçambicano a sofrer, mas para ver se nos qualificamos. Em vez de comprar dez calças, vamos dizer para compra três e dessas três vai cuidar bem, porque esse valor que compraria mais sete dá para fazer mais uma escola, ou para aumentar a qualidade do serviço de saúde, etc, mas como disse: mais trabalho, disciplina financeira, honestidade e algumas medidas já estamos a fazer. O combate à corrupção é fundamental e os indicadores de produção por si só têm que ser. A macro-economia deve ser gerida. Vai doer um bocadinho, mas é preciso que se faça alguma coisa porque, se ficarmos à espera, comemos tudo hoje e amanhã não temos o que comer. Então, é melhor comermos de uma forma organizada para podermos resistir mais tempo”, alerta. E o tempo que Moçambique atravessa é de paz armada. O terrorismo que teve o seu início na província de Cabo Delgado já fez mais de dois mil mortos em cerca de cinco anos, além de mais de 800 mil deslocados internos.

O Chefe de Estado diz que, apesar do apoio militar externo, a tropa moçambicana está a ser capacitada para conseguir defender a sua pátria. “Estamos numa fase de capacitar as nossas forças para tornar a nossa força definitivamente competente para todo o tempo. Portanto, estamos nessa fase e já não podemos perder mais o horizonte de que o país tenha uma defesa definitiva.”

O parlamento nacional do Gana reuniu-se em secção extraordinária aquando da passagem do Dia de África para receber o Presidente de Moçambique. Sem rodeios, ouviu-se, mais uma vez, um discurso de neutralidade face à guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

“O meu país absteve-se e é justo explicar a este órgão que a nossa abstenção não quer dizer a promoção de violência, de guerras ou de matanças no mundo. Nós estamos a estimular o diálogo. Abstemo-nos porque queremos que as duas partes falem, porque não há nenhuma guerra que termine sem que haja diálogo. Portanto, é assim que deve ser entendida a abstenção de Moçambique, como uma oportunidade que damos às duas partes para dialogarem para encontrarem uma solução porque esta guerra está a sacrificar o mundo, o custo de vida está a subir e só com o diálogo poderemos encontrar sossego para os povos daqueles dois países; para o continente europeu e para o mundo inteiro.”

 

BAD entra no projecto da barragem de Mphanda Nkuwa

O Banco Africano de Desenvolvimento vai dar assistência financeira e técnica ao Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa. A entrada do BAD credibiliza ainda mais o projecto e pode ajudar na atracção de investidores para financiarem a construção da mega infra-estrutura de geração de energia.

O Banco Africano de Desenvolvimento decidiu associar-se ao Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa, devendo garantir cinco milhões de dólares para suportar o serviço de consultoria nesta fase de actualização e requalificação do projecto que iniciou no mandato do Presidente Armando Guebuza.

“Este é o primeiro passo que está a ser em relação a Mphanda Nkuwa e dado pelo Banco Africano. Outros apoios virão, mas dissemos que, enquanto esperamos que mais apoios sejam mobilizados, nós, os africanos, vamos avançar. Quero assegurar à África e ao mundo inteiro que Moçambique vai contribuir com energias limpas até do que aqueles que falam”, referiu Filipe Nyusi, numa mensagem que responde implicitamente às exigências dos países mais industrializados do mundo que querem o banimento do carvão mineral e do gás natural, sob justificação de serem energias não limpas.

O economista moçambicano Mateus Magala, vice-director dos Recursos Humanos e Serviços Institucionais do BAD, explicou que “o Banco Africano vai, neste momento, oferecer assistência técnica à estruturação desse projecto, de tal maneira que seja um projecto sustentável, mas também atraente aos investidores internacionais, porque é um projecto credível que vai trazer resultados positivos”.

A hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa será a segunda no rio Zambeze. Prevê-se que até 2024 inicie a sua construção que deverá ir até 2030.

O procedimento para a selecção do consórcio que ficará com o financiamento da construção é complexo e obedece a várias fases. Recentemente, foram apuradas oito empresas pré-qualificadas para a fase de qualificação.

“O nosso plano é que, até final deste ano, possamos ter o processo da selecção do parceiro estratégico definido, esse é outro momento importante que permite que o projecto, em conjunto com a Electricidade de Moçambique e a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, consigam ter um parceiro estratégico que tenha a capacidade de investir em capital próprio aproximadamente 700 a 800 milhões de dólares, porque nós estamos a procurar as soluções para que possamos fazer o investimento total de 4.5 a 5.0 mil milhões de dólares que é a infra-estrutura necessária para o projecto hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa e a linha de transporte de alta tensão para evacuar a energia para o mercado”, explicou Carlos Yum, director do Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa.

A hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa deverá produzir 1300 megawatts de energia eléctrica. O défice energético que se vive actualmente nos países vizinhos de Moçambique, com destaque para a África do Sul, constitui a principal premissa que viabiliza o projecto.

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