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“Nossa indústria nacional nunca foi baseada na matéria-prima nacional”

No seguimento da série de entrevistas que temos vindo a realizar com diversas figuras que marcaram o processo de industrialização do país nas primeiras décadas da Independência nacional, António Almeida Matos, tudo funcionava bem, mas “a indústria doméstica nunca foi baseada na matéria-prima nacional”.

 

Qual foi o seu envolvimento no Ministério da Indústria e Comércio como director do comércio externo?

Na sequência dos Acordos de Lusaka (1974), no período do Governo de Transição, regressei a Moçambique em Outubro 1974. Fui destacado para o Ministério da Indústria e Comércio. No tempo colonial, Moçambique era território português…não foi exactamente uma direcção de comércio externo porque as transacções principais de Moçambique com exterior era Portugal e África do Sul. Portugal era comércio interno…não havia uma direcção específica para lidar com o comércio externo. Portanto, dentro daquilo que era o serviço de comércio foi criada a Direcção de Comércio e Interno e Externo, com uma tarefa de organizar, recrutar pessoal e montar todo o sistema…dois ou três anos depois passou a Direcção de Comércio Externo. O grande desafio foi no período em que os quadros da administração pública portuguesa retiraram-se e não haviam pessoal qualificado para seguir com o trabalho.

 

Cabia a responsabilidade de conceber, executar e coordenar projectos industriais em Moçambique?

Não. A Direcção de Comércio Externo só lidava com transacções comerciais. Importações e exportações…a grande preocupação na altura era contratar jovens que começassem a funcionar dentro da direcção e houve uma mobilização da geração de 8 de Março. Eu lembro que tínhamos um gabinete de estudos na Direcção de Comércio com muitos jovens que estavam a acabar os cursos de economia. Portanto, a nossa tarefa era controlar as importações e exportações, verificar se os preços que estavam a ser praticados correspondiam ao preço do mercado internacional e nas importações verificar se os compradores compravam ao preço justo do mercado porque havia toda problemática de fuga de capitais…

 

O seu envolvimento com a indústria em que momento é que começa?

O meu envolvimento com a indústria começa nos anos 80. Em Junho de 1980 fui para Companhia Industrial da Matola onde fiquei dez anos como director-geral. Tivemos aquele período da saída dos cidadãos portugueses e as empresas ficaram numa situação de não terem quadros de gestão e houve o famoso Decreto 16/75 que permitia a intervenção do Estado. Eu não fui no âmbito de uma comissão administrativa, foi uma nomeação directa para director-geral porque a Companhia Industrial da Matola, nessa altura, estava sem Direcção e com grandes dificuldades de funcionamento.

 

Qual foi o desafio? Lembro-me que a Companhia Industrial da Matola era uma enorme companhia.

Nós estávamos em plena guerra da desestabilização em Moçambique. Portanto, era a maior empresa, tínhamos mil trabalhadores, enorme responsabilidade de dar comida todos dias…era preciso ter milho, trigo e massa para o mercado. O grande problema era a aquisição das matérias-primas. Portanto, foi uma fase em que estivemos muito dependentes dos donativos. Toda gente percebeu que a guerra que estava acontecer em Moçambique era de desestabilização, não era uma guerra nacional e que era preciso apoiar Moçambique porque era um Governo legítimo…houve um apoio substancial da comunidade internacional. Para além do trigo que nós recebíamos, mas a ajuda internacional não era suficiente. Então a gestão de tudo isso e conseguir ter as moageiras a funcionar era o desafio de todos dias. Outro aspecto era pessoal, quando sai a gestão portuguesa da empresa deve dizer que os primeiros dias fiquei admirado com a capacidade do pessoal que estava na fábrica.

 

De seguida nomeado director-geral da Unidade de Direcção da Indústria e Tabacos (UDRAT) até 1990. Como é que foi essa experiência?

Isso foi uma criação nova. Com essa questão das Comissões Administrativas e abandono das empresas, havia empresas de vários sectores de actividades afins que utilizavam o mesmo tipo de matéria-prima ou tinham o mesmo tipo de fornecer internacional. Então as unidades de direcção se agrupavam a essas empresas por afinidade. Estavam todas empresas do ramo alimentar, principalmente as grandes empresas, a SOCIMOL, PROTAL, LOMAR e mais tarde foram agregadas empresas do sector tabaqueiro. Objectivo, havia uma grande escassez de divisas. Em vez de comprar trigo para a Companhia Industrial da Matola…comprava também para a SOCIMOL (gerando economia de escala) e para fazer a distribuição dos donativos que vinham em função da capacidade industrial de cada empresa. Não dar em excesso a matéria-prima a uma dada empresa para depois não ter capacidade de processar. O objectivo foi racionalizar os meios que tínhamos e ao mesmo tempo formular um plano anual de produção para conseguirmos ter a alocação de divisas para funcionar em função daquele plano que fora estabelecido.

 

Como era a capacidade produtiva dessas empresas todas?

Era uma boa capacidade produtiva. A indústria nacional na altura funcionava relativamente bem. Aqui há um problema, a nossa indústria nacional nunca foi baseada na matéria-prima nacional. Não houve uma grande industrialização no sector agro-industrial. Por exemplo, não era feito sumo com a fruta nacional, era importada. Não havia uma grande interligação entre o sector industrial e agricultura.

 

Quando olha para a fotografia da indústria nos primeiros anos em que vocês foram os protagonistas, que ilações tira e como é que descreve?

O nosso sector industrial era grandemente dependente da matéria-prima importada e isse é sempre um obstáculo, mas tinha a grande vantagem da flexibilidade para responder as situações do mercado. Havia três ou quatro empresas na área das tintas…empresas de óleo. O grande sector que havia com grande preponderância, e que não era dependente da matéria-prima internacional era o metalo-mecânico. Capacidade de recuperação de maquinas, de navios…essa capacidade desapareceu em grande parte. Era importantíssima porque permitia uma grande economia de divisas.

 

Então, no lugar de se importar encontrava-se aqui no mercado?

Exacto, e respondia a ansiedade no momento.

 

No caso da companhia industrial da Matola, para manter toda aquela estrutura técnica também tiveram o suporte das empresas locais?

Trabalha-mos muito com a indústria local, como técnicos locais, embora o nosso tipo de equipamento fosse muito sofisticado não exigia um grande consumo de peças sobressalentes. Não havia muito esse problema, mas havia uma grande exigência na área da manutenção.

 

Consta também que foi promotor e gestor do projecto STEMA, silos de cereais no porto da Matola. Pode partilhar essa experiência?

Foi um projecto muito interesse, felizmente correu bem e já duplicou a capacidade em relação ao projecto inicial. Foi um donativo da Alemanha, a KfW, para uma solicitação que tinha sido feita pelo Ministério do Comercio Interno. Eu dirigi esse processo, o grande problema que tínhamos na altura era a capacidade de armazenagem dos silos industriais das empresas. O silo de uma fábrica não é um silo de stocks, é um silo de consumo. Como nós não tínhamos silos de stock, então tínhamos que recorrer aos silos das empresas e isso criava algum conflito com produção. Este projecto foi muito importante e tinham uma componente, que na altura não teve utilização imediata, que era ser um silo de trânsito para os países vizinhos. Nós na altura negociamos com o Botswana. O transporte fazia-se por vagões e perdia-se muito cereal.

 

Pode partilhar a experiência como negociador do primeiro crédito para economia moçambicana concedido pelo Banco Mundial? 

Estávamos num período de mudança de política económica de Moçambique. A Uniao Europeia tinha o que chamavam de “Convenção de Lomé” que agrupava as antigas colonias dos países europeus na África, Ásia e América Latina. Moçambique não era membro dessa instituição. Fui mandado numa missão de investigação com dois colegas. Fomos a Bruxelas e ficamos uma semana a estudar a “Convenção de Lomé” para analisar as vantagens. Portanto, nós fizemos o relatório e houve uma decisão política do Governo de aderir e logo começamos as negociações as condições. Foi uma boa decisão para Moçambique e permitiu o acesso a muitos financiamentos, créditos e condições especiais de acessibilidade aos mercados. Com o Banco Mundial também foi semelhante. As grandes negociações foram feitas em Maputo e em Washington foi para limar arrestas finais.

 

Fora das dinâmicas dos megaprojectos, pouco há que indique sinais de mudança e transformação no sector industrial: mantém-se a excessiva concentração e deficiente diversificação do tecido industrial. O único produto novo que surgiu entre esses 10 produtos em 45 anos da independência é o alumínio. O que justifica a letargia do nosso sector industrial?

A indústria é um sector muito complicado. Por um lado exige técnicos especializados e mão-de-obra qualificada e é uma enorme carência em Moçambique. Infelizmente nós encerramos as escolas industriais e técnicas. Reabrimos há uns anos, mas continua não haver técnicos qualificados. Te que haver políticas muito delineadas e não pode haver sobressaltos nas decisões. Quem investe em indústria está e investir em infra-estruturas. Dizem que as pessoas inteligentes investem em diamantes porque se houver uma crise o diamante é pequenino e mete-se no bolso e vai embora, mas a fábrica ninguém leva (risos)…portanto, tem que haver uma grande confiança e estabilidade..

 

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