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Não se combate COVID-19 sem proteger os médicos

Indignados, os médicos dizem, em comunicado, que a falta ou escassez de equipamento individual de protecção coloca em causa a sua vida e das suas famílias, assim como a saúde dos utentes dos hospitais e do próprio Sistema Nacional de Saúde.

É literalmente um desabafo, após a circulação de várias mensagens supostamente escritas por profissionais de saúde denunciando deficiências na sua protecção contra a pandemia. Os médicos que estão na linha da frente no tratamento dos doentes com COVID-19, começam por fazer saber que “num inquérito recentemente realizado pela Associação Médica de Moçambique, foram inqueridos 139 médicos de todo o país, dos quais mais de metade não tinha recebido equipamento de protecção individual completo e adequado para as suas funções nos dias anteriores”.

Para esta classe profissional, não restam dúvidas de que o problema é grave. Tão grave porque, segundo a Ordem dos Médicos de Moçambique e a Associação Médica de Moçambique, que assinam o comunicado em conjunto, “coloca em risco os profissionais de saúde, seus familiares e os utentes das suas unidades sanitárias. Em última análise, o sistema de saúde fica menos capaz de prover melhor resposta possível quando os profissionais de saúde não se encontram devidamente protegidos”, dizem “os homens da bata branca”, atirando que “não se pode combater a COVID-19 sem a devida protecção dos profissionais de saúde”.

Aos olhos dos médicos, uma das consequências desse problema foi o falecimento do médico-cirurgião, António Guilherme Mujovo, que também desempenhava funções de assessor do ministro da Saúde para área de seguros. Mujovo perdeu a vida no dia 20 de Outubro em curso, na cidade de Maputo, vítima de COVID-19. Os médicos sentem que não foi feito esforço suficiente para salvar o homem.

“Tivemos e continuamos a ter a percepção de que poderia ter sido feito muito mais do que se fez para salvar um quadro tão precioso do nosso país”, dizem as duas agremiações, para as quais ainda há muitas questões por responder: “se o nosso Sistema Nacional de Saúde não foi capaz de se colocar plenamente na protecção da saúde e da vida de um quadro de tamanha envergadura, o que será dos outros jovens profissionais? O que será da população que vive abaixo do limiar da pobreza nas zonas recônditas do país como o Delta do Chinde, em Namapa ou Mapai? O que será dos moçambicanos que vivem com menos de um dólar por dia nos populosos bairros de Paquitequete, Munhava ou Chamaculo? O que será deles? Questionam os médicos, que terminam exigindo a tomada urgente de medidas para melhoria da prevenção, diagnostico e tratamento da população em geral e dos profissionais de saúde em particular em relação a COVID-19.

Além da pandemia, está em causa outros dois problemas: a indisponibilidade de medicamentos essenciais, entre os quais antibióticos e falta de reagentes de laboratório, aparelhos imagiológicos como Raio-X, RMN, que não existem ou estão avariados em várias unidades sanitárias do país;

Uma das últimas actualizações sobre o impacto da pandemia na classe data de Junho deste ano e dava conta de que mais de 90 profissionais de saúde já tinham sido infectados pelo vírus desde o registo do primeiro caso em Moçambique, no passado mês de Março.

O PROBLEMA É GLOBAL, SEGUNDO USSENE ISSE

Em reação à reclamação dos médicos, o director nacional de Assistência Médica, Ussene Isse, disse ontem que a escassez do material de protecção individual para os profissionais de saúde é um problema global e que as autoridades de saúde estão a trabalhar para reforçar o equipamento de proteção individual destinados a equipa médica. “Estamos a receber os equipamentos de protecção individual, os medicamentos estão a chegar, os reagentes estão a chegar mas não naquela forma que gostaríamos que fosse. É uma forma lenta porque a nível global ainda constitui um grande desafio”, garantiu Ussene Isse.

Em termos concretos, Ussene Isse disse: “temos agora um reforço também ao longo desta semana de mais de 1.5 milhão de máscaras da categoria N95, mais de 550 mil batas descartáveis e mais de 600 mil macacões. Este equipamento que está a chegar e será o reforço” para dar “condições aos nossos profissionais de saúde”.

As declarações foram feitas ontem durante a conferência de imprensa de actualização de dados sobre a pandemia do novo Coronavírus no país e no mundo.

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